CAPÍTULO XVIII
Resumo:
Medidas de segurança. Vigilância dos conspiradores.
Uma guarda aparente é a ruína do poder. A
guarda do rei dos judeus.
O prestígio místico do poder. Prisão
à primeira suspeita.
QUANDO
nos for necessário reforçar as medidas de proteção
policial, que arruínam tão rapidamente o prestígio
do poder, simularemos desordens, manifestações
de descontentamento expressas por bons oradores. Juntar-se-ão
a eles pessoas que alimentem os mesmos sentimentos.Isto nos
servirá de pretexto para autorizar buscas e vigilâncias,
cujos agentes serão os servidores que tivermos no seio
da polícia dos cristãos.
Como a maioria dos conspiradores trabalha por amor à
arte, por amor do palavrório, não os incomodaremos
antes que obrem de qualquer maneira; contentar-nos-emos em introduzir
no seu meio elementos de vigilância...É preciso
não esquecer que o prestígio do poder decresce,
se somente descobre conspirações contra ele próprio:
isto implica a confissão de sua impotência ou,
o que é pior, da injustiça de sua própria
causa.
Sabeis que destruímos o prestígio das pessoas
reinantes dos cristãos pelos frequentes atentados organizados
por nossos agentes, carneiros cegos de nosso rebanho; é
fácil, por meio de algumas frases liberais, impelir ao
crime, desde que tenha uma cor política. Forçaremos
os governantes a reconhecer sua impotência por medidas
de segurança claras que tomarão e, assim, arruinaremos
o prestígio do poder.
Ao contrário, nosso governo será guardado por
uma guarda quase imperceptível, porque não admitiremos,
nem por pensamento, que possa existir contra ele uma facção
contra a qual não esteja em estado de lutar e seja obrigado
a se esconder(3).
Se admitíssemos esse pensamento, como o faziam e ainda
fazem os cristãos, assinaríamos uma sentença
de morte; senão a do soberano mesmo, pelo menos o de
sua dinastia em futuro próximo,
Segundo as aparências severamente observadas, nosso
governo só usará de seu poder para o bem, nunca
para suas vantagens pessoais ou dinásticas. Por isso,
observando esse decoro, seu poder será respeitado e
salvaguardado por seus próprios súditos. Adorá-lo-ão
com a idéia de que cada cidadão dele depende,
porque dele dependerá a ordem social...
Guardar o rei abertamente é reconhecer a fraqueza da
organização governamental.
Nosso rei, quando estiver no meio de seu povo, estará
sempre rodeado por uma multidão de homens e mulheres
que serão tomados como curiosos e ocuparão os
lugares mais próximos a ele, como por acaso, os quais
conterão as fileiras dos outros, fazendo respeitar a
ordem.Isso será um exemplo de moderação.
Se houver no povo um solicitador que procure apresentar uma
súplica, abrindo passagem através dos grupos,
as primeiras fileiras devem aceitar essa súplica e entregá-la
ao rei aos olhos do suplicante, a fim de que todos saibam que
o que se apresenta chega ao seu destino e que há, por
conseguinte, um controle do próprio rei. A auréola
do poder exige que o povo possa dizer:" Se o rei soubesse"
ou " Se o rei souber".
Com a instituição da guarda oficial desaparece
o prestígio místico do poder; todo homem dotado
de certa audácia julga-se dono desse poder, o faccioso
conhece sua força e espreita a ocasião de cometer
um atentado contra esse poder. Pregamos outra coisa aos cristãos
e vimos aonde tem conduzido as medidas abertas de segurança!
Prenderemos os criminosos à primeira suspeita mais ou
menos fundada: o receio de cometer um erro não pode ser
uma razão para permitir a escápula aos indivíduos
suspeitos de delito ou crime político, para os quais
seremos verdadeiramente sem piedade. Se se pode ainda, forçando
um pouco ao sentido das coisas, admitir o exame dos motivos
nos crimes comuns, não há desculpa para as pessoas
que se ocupem com questões que ninguém, salvo
o governo, pode compreender.
Mesmo todos os governos não são capazes de compreender
a verdadeira política.
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