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Pandemia, Pandemônio e Pós-Verdade

Desde o início da pandemia, tentei organizar um arquivo1 que buscasse dar conta das principais notícias, acompanhando de um lado as efemérides e de outro algo da produção intelectual relacionada. Mas muito rapidamente notei o trivial: mesmo sob algum recorte, dar conta do que ocorre é impossível, dada a rapidez e diversidade dos assuntos.

Por outro lado, não vivemos à deriva dos bits - e muito menos do vírus - e é possível capturar os acontecimentos ao menos sob alguns de seus pontos de aplicação. Mesmo que seja impossível traçar todos os pontos das "curvas", tampouco é impossível dizer que os acontecimentos não permitam traçar certas curvas, especialmente considerando o Brasil e a profusão de arrivismos e mentiras nas quais vivemos.

O que se verá a seguir é um esforço para compor algumas dessas curvas, sob recortes um pouco mais demorados do que as tentativas iniciais, que buscavam flashes quase diários. Que o diga, por exemplo, a última semana, na qual o Brasil se viu sem ministro da educação ao mesmo tempo em que perdia a secretária de cultura, e Queiroz, o famoso foragido, foi encontrado.

O Brasil no abismo da Pós-verdade

Os regimes de inspiração autoritária se fortalecem sempre com o encorajamento daqueles que, se fossem responsabilizados pelo que dizem, não o diriam, pois são originalmente fracos ou acovardados. A História vastamente ensina que, ao ver que pode agir e falar como quiser e sem ser adequadamente responsabilizado por isso, o totalitário ganha voz e se fortalece com os que o ouviram e estão dispostos a seguir sua doutrina (ou são coniventes para com ela)2.

O Brasil está tão atolado em tais coisas que o recorte de apenas uma semana já permite ver a situação na qual nos metemos e o quanto isso já seria demais em outras épocas.

Pós-verdade na Política

É sob o signo do autoritarismo que, mesmo sem representar unanimidade, policiais que apoiam o presidente tem feito mais e mais barulho, intimidando inclusive governadores. Ou ainda, robôs lançaram campanhas de difamação contra ministros do STF. Ataque puro e simples foi também a declaração feita pelo presidente no dia 17/6:

"Está chegando a hora de acertamos o Brasil no rumo da prosperidade e de todos, sem exceção, entenderem o que é democracia. Democracia não é o que eu quero, o que um Poder quer, o que outro quer. Está chegando a hora, fique tranquila"

O tom é perfeitamente ameaçador, não há ambiguidades. Quase ao mesmo tempo, Toffoli comenta que fontes de agressões provêm de dentro do próprio governo. Só não se entende então por que Toffoli, ou outros setores da justiça, não aciona legalmente esses responsáveis.

E a imprensa, como age? A Folha usa o velho princípio de falsa simetria, ao invés de usar a razão. Diz que "o STF tem maioria" dos votos a favor do "controverso" inquérito das Fake News, inquérito que de "controverso" não tem nada e no qual o termo "maioria" representou de fato unanimidade. É mais do que límpido o fato de que as fake news foram criadas ou multiplicadas pelo secto do presidente, o que se comprova até nas considerações acima.

Se a evidência está aí, onde está a "controvérsia"? A imprensa age como já dizia Robert Fisk: cobre uma matéria na qual se deve apelar à Razão como se fosse uma briga de vizinhos de bairro, como se as duas causas fossem simétricas, iguais e merecessem o mesmo peso. Ela recai, assim, no mesmo princípio que rege e torna possível as Fake News. Transforma questões de fato em matérias de simples adesão ou crença, relativizando a verdade que não poderia ser relativizada.

Pós-verdade na Saúde

Mentira e política do "nós contra eles" é o que mostrou um áudio de 2019 da secretária de Gestão do Trabalho e Educação na Saúde, do Ministério da Saúde. O conteúdo, o nível dos responsáveis no governo, é de cair o queixo:

A secretária é hoje uma das principais dirigentes do ministério e das mais alinhadas ao bolsonarismo. Na gravação, ela diz que a gestão da Fiocruz é pautada por questões relativas às minorias e que a fundação tem um “pênis” na porta de sua sede. “Tudo deles envolve LGBTI. Eles têm um pênis na porta da Fiocruz, todos os tapetes das portas são a figura do Che Guevara, as salas são figurinhas do Lula Livre, Marielle vive.”

Segue o discurso (de puro e simples ódio, sem qualquer pé na realidade fora da constatação de que existem discordantes transformados em inimigos):

“Ano que vem a Fiocruz vai ter eleição, e o que a gente tem de começar a fazer é acabar com essa influência do Conselho Nacional da Saúde, que vaia o presidente, vaia deputado, vaia todo mundo que é contra as medidas de esquerda, e tirar da Fiocruz o poder de direcionar a Saúde no Brasil”

Chega a ser meio maluco ter que notar o trabalho do jornalista da Piauí de desmentir cada uma das declarações da secretária. Mas choca notar como o trabalho de mentir, ou de constranger, seja mais rápido do que o trabalho da verdade. Eis, por exemplo, os militares do Ministério da Saúde proibindo servidores de se manifestar contra o governo. Como se isso não ferisse todos os princípios de publicidade e do próprio funcionalismo público (inclusive o dos próprios militares). Afinal, servidor público não é função nem de indicação de cabresto, nem de partido político. Esqueceram de avisar a esses militares que Estado não é governo ou governante, e quando o Estado se reduz ao governante, militares se tornam milicianos.

Pós-verdade na educação

Nosso último ministro caiu do MEC atirando, ao revogar uma portaria que autorizava cotas na pós-graduação. Não tardou, felizmente, para surgir os primeiros processos de revogação. Pouco antes o então ministro caluniou os antropólogos, filósofos e sociólogos, dizendo que não mereceriam os investimentos da universidade pública. No MEC, colecionou mentiras e cultivou ódio, desde o tema do "há um único Brasil e apenas brasileiros" (isto é, não existiriam minorias, etnias indígenas e grupos ainda hoje fragilizados que merecessem atenção da República) até a propagação do preconceito sobre as universidades só disporem de "gente pelada, balbúrdia e maconheiros".

Ocorreu desinformação já no anúncio de saída: o ex-ministro sairia agora para ocupar o cargo de "diretor de um banco" (sic.) - não de qualquer banco, mas do Banco Mundial. Não tardou para o próprio banco desmentir a versão. A própria viagem do ex-ministro aos EUA foi repleta de falsidades: a exoneração saiu em edição especial do Diário Oficial, apenas após a chegada, garantindo ao mesmo tempo que ele evitasse a justiça brasileira e tivesse acesso privilegiado e sem quarentena aos EUA.

O ex-ministro foi criticado por dibersos veículos, mas não tardou que setores importantes da imprensa retomassem uma pauta falsa, embora bastante difundida. No dia 19 de junho, o grupo Band insistiu mais uma vez (Jornal da Band) numa reportagem falsa: colocou um problema falso (o de que supostamente haveria mais ricos nas públicas, o que não é mais verdade, ou não é exatamente verdade, pois os índices tem mudado drasticamente), com dados falsos (falsa equiparação entre gastos de ensino básico e superior). O Jornal da Band deu voz de "especialista" a um executivo da Anima Educação - grupo historicamente ligado a Paulo Guedes e interessado no fim das universidades públicas - e repetiu como pauta acriticamente verdadeira os temas já vistos por certo presidente populista.

Parece claro que , para certos veículos importantes da imprensa, o governo atual do Brasil não esteja exatamente incorrendo em erro, mas numa espécie de exagero a ser minimizado, corrigido, como se a linha anarcocapitalista do governo não encontrasse apoio - mútuo - no viés autoritário.

Queiroz e a Pós-verdade

O padrão de guerra de informação e ruído é o mesmo em torno da prisão de Queiroz. Estava em Atibaia, na casa do advogado de Flavio. O mesmo defensor de Flávio no caso Queiroz escondeu o próprio Queiroz!

O advogado faz parte do círculo próximo da família do presidente. Dizia:

Conheço a família desde 2014 e tive uma atuação de consultoria jurídica e advocacia. Sempre no sentido do restabelecimento da verdade. Bolsonaro é, há tempos, vítima de crimes como denunciação caluniosa, calúnia e difamação. Ele foi vítima de uma insana perseguição contra um homem que é um verdadeiro herói.

"A família" já havia sido interrogada sobre onde está Queiroz. As respostas, de praxe, foram sempre "lacradoras": "tá no teu cú", disse Carlos. O presidente foi um pouco mais comedido: "tá com a tua mãe". Flávio respondeu:

"Não o vejo há muito tempo, não falo com ele há muitos anos. Qualquer contato meu com ele pode ser entendido pela Justiça como uma tentativa de obstruir alguma coisa. Então tenho de tomar cuidado triplicado para evitar que algum mal-entendido aconteça"

Quanto ao advogado, ele também defende diretamente o presidente em outras causas, como em torno da reunião ministerial de 22 de abril. Recentemente já havia dito:

"Eu moro em Brasilia, vivo o dia a dia com o presidente e a família. Conheço tudo o que tramita na família".

Mais ainda: ele é íntimo da famiglia. Chegou a dizer:

Eu não só fui o primeiro a acreditar no Bolsonaro, como fui o primeiro a colocar na cabeça dele a ideia de concorrer à Presidência...

A proximidade é tanta que, além dele e da companheira serem amigos íntimos da família e seu apelido ser "anjo", há denúncia de benefícios milionários à empresa da companheira por parte do governo. E quanto ao Queiroz? À Veja, o advogado declarou:

"Não o conheço, nunca o vi. Eu nem vou ao Rio de Janeiro. Eu gostaria, na verdade, que ele aparecesse".

O Planalto já começou a operação para sacrificar o "anjo".

Verdade e Efetividade

Entramos nas velhas relações entre verdade e efetividade, já exploradas por autores como Hannah Arendt. A correspondência ou não de uma tese para com o mundo real não impede que a enunciação dessa tese tenha resultados bastante efetivos, mesmo que mentirosos. Mais acima, a Folha de São Paulo cai no Fake quando identifica verdade à posição da "maioria" e minimiza a aparência de unanimidade mostrada pelo próprio jornal.

E quanto aos demais casos, mentir deixa de ser grave quando a propria voz pública não é mais cobrada a ter consequências. Enganar(-se) não é mais problema quando não se tem mais cidadãos, mas um secto disposto a acreditar no Líder e minimizar seus erros. Afinal, o discurso deixa de ser importante pela referência ao real e passa a ser valorizado pelo simples emissor ou pela simples materialidade. Deixa de valer o que se diz para importar apenas quem diz (acima de qualquer suspeita) e a propria massa material do que é dito (pois é uma nova "lacração), mesmo que seja mentira.

A simples propagação da massa discursiva sequestra toda a discussão pública. Sequestra também a pauta dos próprios discordantes. Isso porque a tarefa da esfera pública passa a ser a de ter que desmentir um conteúdo que já se sabe ser mentiroso, mas que perdura não por ser questão de razão, mas de simples adesão (como nos discursos religiosos e visionários: aceita-se, simplesmente, de uma forma costumeiramente infraracional). A pauta política deixa de ser a discussão publica e se assemelha à postura dos visionários, fanáticos e tiranos.

O resultado é o perecimento da democracia. A não ser que um único procedimento se estabeleça: as palavras voltem a ter validade e o emissor delas precise responder por seus ditos e feitos. Isso se ele já não tiver cooptado toda a esfera pública. Mas a História novamente nos ensina que postergar a responsabilização do totalitário pode ocasionar um cenário no qual o totalitarismo se instalou e não há alternativas institucionais.

Outro "fato" grave, como se vê acima, é certo tipo de cobertura da imprensa. Às vezes, é aquele que trata como simétrica uma pauta na qual quem tem razão passa a ser relativizado como simples detentor de "um dos lados". A verdade é diluída numa falsa noção de oposição simétrica, como se a simetria ocorresse entre dois polos igualmente verdadeiros. Outras vezes a imprensa faz passar uma posição parcial - por vezes um lobby - como se apresentasse a verdade (o exemplo do Jornal da Band é flagrante).

Eis alguns pontos e tanto para compor uma curva.


“A visão de mundo mais perigosa é a visão de mundo daqueles que nunca viram o mundo”.
Alexander von Humboldt


  1. No blog Askesis: https://askesis.hypotheses.org/o-coronavirus-e-a-atualidade 

  2. Arendt, Hannah. Origens do Totalitarismo. São Paulo, Companhia das Letras, 2007