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Alfa&Ômega mídia cristã apresenta:

Curso "Os 20 séculos de caminhada da Igreja"

Segunda Parte: DO ANO 300 A 800

Constantino e a liberdade para os cristãos, heresias e conversão dos Francos, o Estado Pontifício, Carlos Magno e o Sacro Império

 

 

Lição 17

 

312: A CONVERSÃO DE CONSTANTINO


 

    No início do século quarto, o Cristianismo já estava espalhado por quase todo o mundo. E havia penetrado até na classe nobre. Basta dizer que Helena, mãe de Constantino, era cristã. Os imperadores romanos haviam percebido que o poder das armas não conseguia extinguir o poder da fé.

 

    Um dos sinais da força da fé está na virada de comportamento do imperador Galério. Ele começou seu governo perseguindo os cristãos, tal qual tinha aprendido com o terrível Diocleciano. No entanto, no fim da vida, adquiriu uma enfermidade incurável. Então pediu aos cristãos para que rezassem por ele. Deixou a Igreja em paz e publicou este estranho edital, jamais feito por um imperador pagãos:

"Em reconhecimento de nossa benignidade, os cristãos devem pedir a Deus pela nossa saúde e para que a República usufrua de plena prosperidade e eles possam viver em segurança completa".

    Na morte de Galério, o grande Império estava dividido. Desde o ano 306, eram dois imperadores: Maxêncio e Constantino. O primeiro havia se intitulado imperador; o segundo tinha sido aclamado tal pelos soldados. Tanto um como outro ambicionavam tornar-se senhor absoluto.

 

    E a luta pelo poder ficou encerrada com a vitória de Constantino sobre Maxêncio, junto à ponte Mílcia, no dia 28 de outubro do ano 312. Dizem que constantino viu no céu uma cruz com a inscrição: "In hoc signo vinces", isto é: "Com este sinal vencerás". Esta data é tida como um marco da conversão do imperador para o Cristianismo. Contudo, sua conversão não foi de um momento para o outro, como aconteceu com Saulo.

   

    Constantino tinha sido educado na corte de Diocleciano, que foi o maior perseguidor da Igreja. Sua cabeça e seu coração eram de pagão. Ele trazia dentro de si uma longa história de hostilidade à fé em Cristo, uma estrutura de vida pagã baseada no maior império do mundo. Portanto, sua conversão foi "acontecendo" aos poucos. Tanto é que recebeu o Batismo n fim da vida, no ano 337.

 

 

 

 

Lição 18

 

313: LIBERDADE PARA OS CRISTÃOS


 

    O imperador Constantino era também chamado Constantino Magno (O Grande) ou Constantino I. Nasceu em 274 e faleceu em 337. Foi imperador durante 31 anos: de 306 a 337. Era filho de Constâncio Cloro e Helena (cristã), que veio a ser Santa Helena. Casou-se com Fausta, filha de Maximiliano Hércules.

 

    Constantino ficou famoso a partir de 312, quando derrotou Maxêncio, junto à Ponte Mílvia, no dia 28 de outubro, e se tornou senhor absoluto de todo o grande Império. Era culto e inteligente. Obteve grandes vitórias e fez bom governo. Mas ficou na história, sobretudo pela conversão e pela liberdade definitiva que deu aos cristãos. Essa liberdade veio com o edito de Milão, no ano 313, no qual Constantino dizia:

"Havemos por bem anular por completo todas as restrições contidas em decretos anteriores, acerca dos cristãos - restrições odiosas e indignas de nossa clemência - e de dar todal liberdade aos que quiserem praticar a religião cristã".

    O culto pagão acabava de ficar órfão. Perdia a sua força de religião oficial do Império e todo o apoio do Estado. Embora os pagãos pudessem continuar praticando o culto aos seus deuses, agora não tinham mais o imperador em suas festas. Constantino não oferecerá sacrifícios às divindades de Roma. O Império não promoverá jogos de gladiadores e espetáculos pagãos. Antes, os cristãos não compareciam às festas pagãs do Império; agora, o imperador comparece às festas cristãs e as apóia.

 

    Estavam encerrados os dois séculos e meio de perseguição e de martírio para os cristãos. E, certamente, foi o testemunho dos mártires e a coerência da fé em Jesus Cristo que levaram Constantino a fazer essa virada na vida. E não foi só o imperador que mudou: foi todo o Império e toda a Igreja que passaram por grandes transformações.

 

    O edito de Milão ficou como um marca na história. A liberdade para os cristãos foi um bem, mas trouxe também problemas e situações novas que preocuparam a Igreja.

   

 

AS MUDANÇAS NA IGREJA

 

    Com a conversão de Constantino e a liberdade religiosa, a Igreja teve grandes mudanças. O imperador passou de inimigo para amigo, de perseguidor para protetor dos cristãos. O Império, que antes confiscava os bens da Igreja, começou a lhe dar terras e a construir belos templos em diversas cidades; em Jerusalém, a Basílica do Santo Sepulcro; em Belém, a Basílica da Natividade; em Roma, a Basílica do Latrão. Bispos e padres, que antes não eram respeitados nos seus direitos de cidadãos, passaram a gozar de privilégios; os cristãos, que antes eram proibidos de ocupar cargos públicos, foram elevados a postos de liderança no governo do Império.

 

    Talvez para fugir da longa tradição pagã e dos cochichos, Constantino transferiu provisoriamente a capital do Império para Bizâncio, que passou a chamar-se Constantinopla. Foi inaugurada com novos palácios e uma fisionomia cristã, no ano 320.

 

    Esse apoio do Império aos cristãos foi uma coisa boa, mas trouxe alguns problemas. O primeiro deles foi a intromissão do imperador nos assuntos da Igreja. Constantino se achava no dever de convocar os bispos para resolver os problemas de unidade, surgidos com cismas e heresias.

 

    Nesse tempo era Papa Silvestre I, homem piedoso e santo, mas sem grande inteligência. Ficou meio "apagado" ao lado da liderança de Constantino. Alguns, porém, acham que isto talvez tenha sido providencial, pois Constantino ainda não havia entendido bem o sentido espiritual da Igreja e não estava preparado para conviver com as exigências radicais do Evangelho.

 

    Outra grande mudança aconteceu na pastoral. Os cristãos, antes, eram rigorosamente preparados para o Batismo. Passavam por três anos de Catecumenato, pois tinham que enfrentar a perseguição por causa da fé. Agora, bastava uma breve preparação. Os Batismos eram dados em massa. Ser cristão tinha virado moda. A Igreja ganhava na quantidade e perdia na qualidade. de pequenas comunidades, a Igreja passou a ser multidão.

   

 

 

 

Lição 19

 

315: O CISMA DE DONATO


 

    Donato foi um bispo do norte da África, no início do século IV. Ele pregava aquela moral rigorista, à semelhança do que tinham ensinado Montano (cf. lição 11) e Novaciano (lição 14). Ora, a Igreja acabava de sair da dura perseguição do imperador Diocleciano. E muitos "lapsos" queriam retornar à Igreja. Donato, porém, era contra esse retorno. Para ele e seus seguidores, todos os que haviam fraquejado na fé deviam ficar fora da Igreja definitivamente. Mais: os donatistas não aceitavam os sacramentos administrados por um padre ou bispo em pecado. Tais sacramentos seriam inválidos. O padre devia estar em estado de graça.

 

    Por isso, não aceitaram Ciciliano como bispo de Cartago, porque diziam que tinha sido ordenado por um apóstata (Para os donatistas, o simples fato de entregar aos pagãos uma Bíblia ou outros objetos sagrados já era uma apostasia). Aí começou o grande cisma que tomou o nome de donatismo. Os cristãos do norte da África levantaram-se contra o Papa e a Igreja. A rebelião foi além de uma questão religiosa. Tornou-se um problema social. Estava dividindo a Igreja e o Império.

 

    Diante disso, o próprio imperador Constantino achou bom que os bispos se reunissem com o Papa Melcíades e buscassem uma solução. A reunião foi em Roma, na casa de Fausta, mulher de Constantino, no ano 313. O miniconcílio aprovou a ordenação de Ciciliano. Portanto, seria ele o bispo de Cartago. A revolta aumentou. Em 314, outra reunião, em Arles, com bispos de toda a Europa, reafirmou as decisões anteriores em favor de Ciciliano e contra Donato. Como o donatismo gerasse tumulto e discórdia, o imperador tentou pôr um fim à questão, mas com pouco sucesso.

 

    Entre os donatistas havia muitos bispos e padres. Durante um século a Igreja sofreu com aquela divisão. No ano 411, houve uma conferência em Cartago promovida pelos donatistas. O grande Santo Agostinho participou e conseguiu bom resultado. A partir daí, a seita foi se dividindo e perdendo a força. Mas só dois séculos depois é que veio a desaparecer por completo.

 

 

 

 

Lição 20

 

318: OS MONGES


 

    No começo do século IV, surgiu na Igreja um novo modo de vida: a solidão. Alguns cristãos deixaram a cidade para morar em pleno deserto. O lugar preferido foi a tão falada Tebaida, um região do Egito cuja capital era Tebas.

 

    Eles habitavam em cavernas, renunciando assim ao conforto e à vaidade. Alí podiam fazer profunda experiência de Deus, orando e meditando, à semelhança de João Batista.

 

    Esses cristãos receberam o nome de anacoretas ou eremitas. Os primeiros foram São Paulo de Tebas (229-342) e Santo Antão (250-356), chamado o "Pai dos Monges".

 

    A essa total solidão, logo foi acrescentada a vida comunitária. É o que se chamou vida monacal ou cenobítica. Os monges tinham oras de solidão e horas de vida comunitária, para celebrarem juntos a Missa e fazerem orações litúrgicas. A vida nos mosteiros incluía também o trabalho.Tanto é que São Bento, o grande mestre da vida monástica, deu esta norma a seus monges: "Ora et labora", isto é: Reza e trabalha!

 

    São Pacômio (290-346) foi o primeiro a reunir os eremitas num mosteiro, no ano 318, na Tebaida, às margens do rio Nilo. Logo depois construiu um mosteiro também para as mulheres, cuja direção foi entregue à sua irmã. O exemplo de São Pacômio foi seguido por São Macário que, em 335, se retirou para o deserto de Nítria. Depois vieram outros, como São Basílio, que em 358 redigiu as regras do monacato para o Oriente, e São Bento, que trouxe a vida monacal para o Ocidente.

 

    Os anacoretas e os monges eram, muitas vezes, procurados por bispos e príncipes, como conselheiros. Pois, na solidão e na oração, adquiriam aquela sabedoria que vem de Deus. Eles faziam uma grande aventura de amor. Muitos monges eram de família rica. E, renunciando aos bens e às honras deste mundo, arriscavam tudo em Jesus Cristo. Seguiam o conselho do Mestre: "Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres, depois vem e segue-me" (Mt 19,21).

 

 

SANTO ANTÃO, O "PAI DOS MONGES"

 

    Santo Antão era de família rica e piedosa. Nasceu em Coma, à margem do rio Nilo, no ano 250. Atraído pela vida de oração, vendeu seus bens, deu-o aos pobres e foi morar num túmulo abandonado, perto de Afroditópolis, no Egito. Ali ficou durante vinte anos.

 

    Em 311, partiu para Alexandia, a fim de socorrer os cristãos perseguidos pelo imperador Maximino Daia. Em seguida, foi morar sozinho, às margens do Mar Vermelho. Em 335 voltou para Alexandria, a pedido de Santo Atanásio, para ajudar a combater a heresia ariana. Finalmente retornou à solidão, onde se fez o "mestre" dos monges.

 

    Antão comia uma só vez por dia. Às vezes passava vários dias sem tomar refeição. Seu alimento era pão e água. Dormia sobre uma esteira ou sobre o chão duro. Ele fez suas as palavras de São Paulo: "Quando sou fraco, aí é que sou forte". (2Cor 12,10). Faleceu a 17/1/356, com 106 anos de idade.

 

    Os monges submetiam-se a rigorosa disciplina, como meio para viver o Evangelho. Eis algumas máximas de Santo Antão:

  • Aquele que se permite tudo o que é permitido, brevemente passará a fazer também o que não é permitido.
  • Nada mais útil ao cristão do que pensar todos os dias: "Estou começando a servir a Deus, e hoje pode ser o último dia".
  • Quem quer vencer as tentações, não confie em si, mas na graça de Deus.
  • O melhor remédio contra a mediocridade é a lembrança de que curta é a vida e incerto o seu fim.
  • O inimigo infernal é muito fraco para quem sabe desarmá-lo. Ele treme diante do jejum, da oração, da humildade e das boas obras.
  • Não convém esquadrinhar o futuro, mas confiar muito em Deus.
  • A luz do espírito é muito superior à luz material.
  • Um olhar impuro basta para abrir as portas do inferno.
  • O vigor da alma aumenta quando os prazeres do corpo diminuem.
  • O monge é como o peixe: este morre, saindo da água; aquele morre, deixando a solidão.

 

 

 

Lição 21

 

319: ARIO NEGA A DIVINDADE DE CRISTO


 

    No ano 318 começou a espalhar-se uma heresia: o arianismo, fundado por um sacerdote de Alexandria chamado Ario. O arianismo era pior do que um cisma, pois negava uma verdade da fé: a divindade de Cristo. Ario baseava-se em algumas frases do Evangelho que falavam que Jesus era "inferior" ao Pai. Por exemplo, Cristo disse: "O Pai é maior do que eu" (Jo 14,28). Daí Ario tirou esta conclusão: se Jesus é inferior ao Pai, Ele não é Deus, como o Pai, mas uma "criatura".

 

    Segundo Ario, Cristo seria o mais perfeito de todos os seres humanos, adornado de todas as virtudes, mas não seria Deus.

 

    Essa heresia espalhou-se rapidamente entre os teólogos e entre o povo. Dizem que, quando duas pessoas se encontravam na rua, diziam uma para a outra: "O Pai é maior que o Filho". Negar a divindade de Jesus tinha virado moda. Era o ministério da Santíssima Trindade e a obra da divina da Redenção que estavam em jogo. Pois, se Cristo não fosse Deus, não podia salvar ninguém.

 

    O primeiro a levantar a voz contra essa heresia foi um leigo: o teólogo Atanásio, de Alexandria. Depois foi feito bispo e veio a ser um grande santo. Ele mostrou que, quando Jesus dizia que era "inferior" ao Pai, a frase não podia ser entendida de maneira absoluta. Pois, aí, Jesus estava falando de sua condição humana. E, como Homem, realmente ele se fez o "servidor" do Pai na obra da Redenção. Mas, fazendo-se Homem, Jesus não havia deixado de ser Deus.

 

    Atanásio lembrava que as frases da Bíblia não podem ser tomadas isoladamente. Devem ser vistas dentro de seu contexto. Pois, em outros lugares, a Bíblia fala da divindade de Cristo. Basta ler o primeiro capítulo de São João, o segundo capítulo da Carta aos Filipenses e outros textos.

 

    A referida heresia estava criando polêmica e divisão. Então Constantino, preocupado com a unidade do Império, convocou uma reunião geral dos Bispos para que, juntamentente com o Papa, resolvessem a questão. Foi este o primeiro Concílio Ecumênico (universal), realizado em Nicéia, no ano 325.

 

 

 

 

Lição 22

 

325: 1º. CONCÍLIO DE NICÉIA

(1º. ECUMÊNICO)


 

    Para definir a verdadeira fé frente à heresia de Ario, fez-se o Concílio de Nicéia. Reuniram-se 300 bispos. Como seu representante pessoal, o Papa Silvestre I enviou Ósio, Bispo de Córdova. Constantino ocupou lugar de honra na assembléia, embora não desse parecer em questões de fé.

 

    O arianismo foi condenado pela grande maioria dos bispos. O grande defensor da divindade de Cristo foi Santo Atanásio, que na ocasião era diácono. Depois recebeu a ordenação episcopal e, em 328, ocupou o cargo de bispo de Alexandria. Por causa de sua posição radical, foi exilado cinco vezes.

 

    O Concílio acrescentou ao Símbolo Apostólico algumas frases referentes à divindade de Cristo. Daí surgiu o "Símbolo Niceno". Diz que Jesus é:

Deus de Deus, Luz da Luz,

Deus verdadeiro de Deus verdadeiro,

gerado, não criado,

consubstancial ao Pai,

Por ele todas as coisas foram feitas,

e por nós, homens, e por nossa salvação

desceu dos céus.

    Mesmo sendo condenado como heresia, o arianismo continuou ganhando novos seguidores. A crise da fé atingiu o ponto máximo durante o governo de Constâncio (337-361), filho de Constantino. O que Constantino havia feito a favor da Igreja, Constâncio fez a favor do arianismo. O Papa Libério (352-366) sofreu muito. Viu a maioria dos bispos passar para o arianismo. Os bispos arianos chegaram a eleger Ario para o importante cargo de Patriarca de Constantinopla!

 

    Deus, porém, pôs a mão sobre a sua Igreja: Ario morreu durante os preparativos da posse, e Constâncio pereceu num combate. Ficando sem apoio, os arianos começaram a perder a força. Mesmo assim, a heresia teve adeptos por mais uns dois séculos. Hoje ela não existe mais com o nome de arianismo, mas há seitas modernas que não acreditam na divindade de Cristo, como, por exemplo, as Testemunhas de Jeová.

 

 

 

 

Lição 23

 

361: JULIANO VOLTA AO PAGANISMO


 

    São Libério foi Papa de 352 a 366. Sofreu muito com os arianos. Viu três quartos da Igreja passarem para a heresia. Ele mesmo foi exilado e ameaçado de morte. Não sabia, porém, que outra grande amargura o esperava: a perseguição do imerador Juliano, sobrinho de Constantino.

 

    Juliano foi educado na fé cristã, mas terminou seus estudos em Atenas, onde recebeu forte influência da cultura pagã. Por isso, logo que assumiu o governo de Roma, fez tudo para que o Império retornasse ao antigo paganismo. Começou pela restauração da adoração ao deus-sol, que era um culto bem aceito por muitos. Por essa razão ficou chamado Juliano "Apóstata".

 

    Ele quis acabar com o cristianismo sem adotar o método violento do martírio, que poderia trazer efeito negativo. Então afastou os cristãos dos cargos importantes do governo, retirou da Igreja os privilegios dados por Constantino, proibiu a catequese, obrigou os cristãos a frequentarem as escolas pagãs, fechou os templos cristãos e deu apoio ao donatismo, que prejudicava a Igreja.

 

    Para sorte dos cristãos, o governo de Juliano durou apenas dois anos. Ele morreu num combate em teritório persa no ano 363. Asim, todas as suas tentativas de retorno ao paganismo acabaram em nada.

 

    E o cristianismo prosseguiu anunciando o Evangelho e defundindo-se pelo mundo. Foi nessa época que surgiram as famosas sedes patriarcais da cristandade: os Patriarcados de Antioquia, de Jerusalém, de Alexandria e de Constantinopla. O culto ganhou solenidade e pompa.

 

    No ano 391 o imperador Teodósio proibiu o culto pagão, e o cristianismo passou a ser a religião oficial do Império. Dizem que foi nesse tempo que surgiu a palavra "pagão". Vem de pagus, uma palavra latina que significa "vila". Porque, estando proibidas a sua religião, os pagãos se refugiavam nas vilas ou bairros para cultuar os deuses às escondidas.

 

 

 

 

Lição 24

 

374: AMBRÓSIO, UM PAGÃO ACLAMADO BISPO


 

    Ambrósio era de inteligência brilhante e político de rara habilidade, filho de um prefeito romano da Gália. Nasceu em 340, em Trèves. Estudou Leis em Roma, sob a direção de Anício Probo e Símaco. Exerceu a advocacia em Milão. Em 369, o imperador Valentiniano nomeou-o Cônsul das Provincias da Lingúria e da Emília, cuja capital era Milão.

 

    Devido à sua eloquência e habilidade, o imperador enviou-o a Milão para apaziguar os cristãos, divididos entre arianos e católicos fiéis ao Papa. Estes aceitavam e seguiam as definições do Concílio de Nicéia sobre a divindade de Cristo, enquanto os arianos as rejeitavam. O conflito havia surgido por ocasião da morte do bispo de Milão. A questão era esta: quem devia ser eleito: um bispo favorável aos arianos ou ao Papa?

 

    Ambrósio ainda não era cristão, mas catecúmeno. Estava se preparando para receber o batismo. Mas falou com tanta eloquência e sabedoria que, no final do seu discurso, todos aclamaram: "Ambrósio, Bispo de Milão!" Então foi batizado, ordenado padre e bispo. Era o ano 374. Os seus valores humanos e sua capacidade administrativa foram colocados a serviço da Igreja. Veio a ser o grande Santo Ambrósio, um dos maiores Doutores da Igreja e famoso teólogo defensor da fé.

 

    Foi verdadeiro pai espiritual dos jovens imperadores Graciano, Valentiniano II e do importante Teodósio I. mas soube impor limite à ação dos imperadores, que muitas vezes queriam interferir nas verdades de fé. É dele esta famosa frase: "Os imperadores estão na Igreja e não acima da Igreja".

 

    Também ficou conhecido na história a penitência que Santo Ambrósio impôs a Teodósio. Em 390, numa revolta popular em Tessalonica, o imperador massacrou sete mil pessoas. Então, Santo Ambrósio proibiu a entrada do imperador na Igreja de Milão. Só lhe abriu as portas após oito meses de penitência pública.

 

    A seguir, veremos como Santo Ambrósio exerceu papel importante na conversão de Santo Agostinho.

 

 

 

 

Lição 25

 

381: 1º. CONCÍLIO DE CONSTANTINOPLA

(2º. ECUMÊNICO)


 

    Quando a Igreja Primitiva começou a espalhar-se pelo mundo, os cristãos fizeram um resumo das principais verdades da fé. Chamou-se "Símbolo dos Apóstolos", pois vinha do tempo dos Apóstolos. Esse "Símbolo" era como a "marca" da fé, ou sinal de reconhecimento e de comunhão entre os cristãos. Assim, recitando essa fórmula do Símbolo, os cristãos estariam perseverando na mesma doutrina e professando a mesma fé, em qualquer parte da terra.

 

    Vimos que, em 325, no Concílio de Nicéia, a Igreja acrescentou ao Símbolo Apostólico algumas palavras que afirmavam a divindade de Cristo, porque Ario ensinava que Jesus não era Deus (Lição 22, de 13/06).

 

    Logo depois, um herege chamado Macedônio  começou a pregar que o Espírito Santo não era Deus, mas "criatura" de Deus. Então o Papa São Dâmaso (366-384) fez o Concílio de Constantinopla para definir a divindade do Espírito Santo. Isto aconteceu em 381. Foi o segundo Concílio Ecumênico.

 

    Dâmaso era um Papa muito inteligente. Além disso, tinha a seu lado homens extraordinários como Gregório Nazianzeno, Gregório de Nissa, Santo Ambrósio, São Jerônimo e Hilário de Poitiers. Nesse tempo a Igreja gozava de grande prestígio. É dessa época a frase: "Onde está Pedro, aí está a Igreja".

 

    Esse Concílio reafirmou as definições do Concílio de Nicéia sobre a divindade de Jesus; e, sobre a divindade do Espírito Santo, declarou que o Espírtio Santo é:

"Senhor que dá a vida, e procede do Pai e do Filho;

e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado:

Ele que falou pelos profetas".

    Este novo Símbolo ficou chamado "niceno-constantinopolitano". Nas Missas dominicais, em geral, recitamos o Símbolo dos Apóstolos. Mas algumas vezes o folheto traz o Símbolo niceno-constantinopolitano. O primeiro é mais curto, o segundo é mais longo, pois tem mais afirmações. A seguir, você verá o que foi acrescentado ao Símbolo dos Apóstolos.

 

 

OS DOIS SÍMBOLOS

 

 Símbolo dos Apóstolos

 Símbolo niceno-constaninopolitano

Creio em Deus

Pai todo-poderoso,

criador do céu e da terra.

 

E em Jesus Cristo, seu único Filho,

Nosso Senhor

 

 

 

 

 

 

 

que foi concebido pelo poder do Espírito Santo;

 

 

nasceu da Virgem Maria;

 

padeceu sob Poncio Pilatos,

foi cruscificado, morto

e sepultado.

Desceu à mansão dos mortos;

ressuscitou ao terceiro dia;

 

subiu aos céus,

está sentado à direita

de Deus Pai todo-poderoso,

donde há de vir a julgar os vivos e os mortos.

 

 

Creio no Espírito Santo;

 

 

 

 

na Santa Igreja católica.

na comunhão dos santos;

na remissão dos pecados;

 

na ressurreição da carne;

na vida eterna.

Amém.

Creio em um só Deus.

Pai todo-poderoso,

criador do céu e da terra,

de todas as coisas visíveis e invisíveis.

Creio em um só Senhor, Jesus Cristo,

Filho Unigênito de Deus,

nascido do Pai antes de todos os séculos:

Deus de Deus,

Luz da Luz,

Deus verdadeiro de Deus verdadeiro;

gerado, não criado,

consubstancial ao Pai.

Por ele todas as coisas foram feitas.

E por nós, homens, e para nossa salvação, desceu dos céus

e se encarnou pelo Espírito Santo,

no seio da Virgem Maria,

e se fez homem.

Também por nós foi crucificado sob

Pôncio Pilatos;

padeceu e foi sepultado.

 

Ressuscitou ao terceiro dia,

conforme as escrituras

e subiu aos céus,

onde está sentado à direita do Pai.

 

E de novo há de vir, em sua glória,

para julgar os vivos e os mortos;

e o seu reino não terá fim.

Creio no Espírito Santo,

Senhor que dá a vida,

e procede do Pai e do Filho;

e com o Pai e do Filho é adorado e glorificado;

Ele que falou pelos profetas.

Creio na Igreja,

una, santa, católica e apostólica.

Professo um só batismo

para a remissão dos pecados.

E espero a ressurreição dos mortos

e a vida do mundo que há de vir.

Amém.

 

 

 

 

Lição 26

 

385: É TRADUZIDA A BÍBLIA "VULGATA"


 

    São Jerônimo nasceu em 340, na atual Iuguslávia, e faleceu em Belém, na Palestina, no ano 420. Foi um dos quatro maiores "Doutores" da igreja. Sabia falar e escrever corretamente as três línguas mais importantes do seu tempo: o hebraico, o grego e o latim. Depois de ter vivido na solidão como eremita, foi chamado a ser conselheiro do Papa São Dâmaso.

 

    Mas São Jerônimo ficou na História da Igreja por uma razão muito especial: ele traduziu a Bíblia, do hebraico e do grego, para o latim. Essa tradução foi adotada oficialmente pela Igreja e se chamou "Vulgata".

 

    Lembramos que a Bíblia foi escrita por partes, num período que demorou uns mil e duzentos anos. Alguns dizem até que os primeiros escritos vêm da época de Moisés. E Moisés viveu no tempo do Faraó Ramsés II, que governou o Egito por volta do ano 1250 antes de Cristo.

 

    Nos primeiros tempos, a Bíblia foi escrita em cerâmica, papiro e pergaminho. Quase todo o Antigo Testamento foi escrito em hebraico. Apenas sete livros foram escritos em grego, Livros estes que não foram aceitos como "inspirados" pelos judeus e por Lutero, por ocasião da Reforma Protestante. Todo o Antigo Testamento foi traduzido do hebraico para o grego por setenta sábios de Alexandria, duzentos anos antes de Cristo.

 

    O Novo Testamento foi quase todo escrito em grego e seus livros não aceitos pelos judeus como inspirados. Com a descoberta da imprensa em caracteres tipográficos, por João Gutemberg (1396-1468), este imprimiu uma Bíblia em latim que chamaram Bíblia Mazarina, porque o primeiro volume foi encontrado na biblioteca do Cardeal Mazarino.

 

    Dizem que hoje a Bíblia está traduzida em 1685 idiomas. É mais que um livro: ela contém a Palavra de Deus. Para a Igreja, a Bíblia tem sido a Luz de Deus que ilumina a caminhada de seu Povo na longa trajetória da História da Salvação. Sem ela, a Igreja não caminha.

 

 

OS "PADRES DA IGREJA"

   

    Quando dizemos "O Santo Padre" (no singular), estamos falando do Papa; mas quando dizemos "Os Santos Padres" ou "Os Padres da Igreja", estamos nos referindo àqueles famosos "mestres" da doutrina da fé que viveram nos primeiros séculos da Igreja. Eles foram os primeiros "construtores" da Teologia, os guias ou "pais" na elaboração da doutrina da igreja. "Padres" quer dizer "pais", geradores ou fontes. O período em que viveram chama-se Patrística, e o estudo de sua vida e de suas obras leva o nome de Patrologia.

 

    A seguir damos outras características dos Padres da igreja.

 

1. Antiguidade: situam-se entre os séculos segundo e oitavo.

2. Ortodoxia: sua doutrina é correta, aprovada pela Igreja.

3. Santidade de vida: são mestres e testemunhas da fé.

4. Aprovação: são reconhecidos pela Igreja como tais.

 

    Por isso, Orígenes e Tertuliano não são propriamente "Padres" da Igreja. São, antes, apologistas ou Escritores Eclesiásticos. Sua doutrina teve alguns senões.

 

    Outra expressão consagrada na Teologia e na História da Igreja é "Padres Apostólicos". São aqueles mestres famosos que receberam a doutrina dos Apóstolos. Por exemplo: Inácio de Antioquia, Clemente Romano, Policarpo. Estes são também tidos como Santos Padres.

 

    Os mais famosos "Padres da Igreja":

  • São Clemente de Alexandria (150-215)
  • Santo Atanásio (295-373)
  • São Basílio Magno (329-379)
  • São Gregório Nazianzeno (329-389)
  • São Gregório de Nissa (331-396)
  • São Jerônimo (340-420)
  • Santo Ambrósio (340-397)
  • São João Crisóstomo (349-407)
  • Santo Agostinho (354-430; este é o maior de todos).
  • São Bento (480-543)
  • São Gregório de Tours (538-593)

 

OS DOUTORES DA IGREJA

 

    Doutores da Igreja são santos e santas que, nos diferentes períodos históricos da Igreja, distinguiram-sepela doutrina reta, grande sabedoria, santidade de vida e obras de notável valor (escritos ou pregação). O que eles ensinaram tem validade perene e universal. Suas obras servem de referência e de fonte aprovada pela Igreja para elaboração da Teologia e da vivência da fé. Os últimos Padres da Igreja são também Doutores. Eis os principais Doutores, pela ordem do nascimento:

 

Santo Atanásio,

298: Bispo de Alexandria. Exilado cinco vezes por defender a Igreja

Santo Hilário

303: Bispo de Poitiers. Exilado na Frígia pelo imperador Constâncio.

Santo Ambrósio,

340: Foi cônsul romano. Batizado adulto e feito Bispo de Milão.

São Jerônimo,

340: Traduziu a Bíblia Vulgata, do grego para o latim.

São João Crisóstomo,

349: Bispo de Constantinopla. Foi notável pregador.

Santo Agostinho,

354: Foi Batizado aos 33 anos e se tornou Bispo de Hipona.

São Gregório Magno,

540: Foi prefeito de Roma e, depois, um grande Papa.

Santo Antônio de Pádua,

1195: Santo popular e grande pregador, chamado "Arca do Testamento".

Santo Tomás de Aquino,

1225: O maior teólogo da Igreja. É chamado "Doutor Angélico".

Santa Catarina de Sena,

1347: Era analfabeta, mas de grande sabedoria.

Santa Teresa D’Avila,

1515: Reformou os conventos femininos de sua Ordem.

São João da Cruz,

1542: Reformou os conventos masculinos de sua Ordem.

Santo Afonso M. de Ligório,

1696: Bispo e fundador dos missionários Redentoristas.

 

 

 

 

Lição 27

 

387: CONVERSÃO DE SANTO AGOSTINHO


 

    Agostinho nasceu em Tagaste, norte da África, aos 13 de novembro de 354. Seu pai era pagão. Chamava-se Patrício. Sua mãe, a grande Santa Mônica, orou pela conversão do filho durante 20 anos. Agostinho era muito inteligente. Frequentou as mais famosas escolas da época.

 

    Na escola de Cartago, começou sua vida dissoluta. Antes dos vinte anos, tinha um filho com uma concubina. A seguir foi para Milão e Roma, onde se tornou notável professor de oratória. Além de sua vida desregrada moralmente, Agostinho tornou-se adepto do maniqueísmo. Sua mãe não cessava de orar por ele.

 

    Certo dia, Agostinho estava à soimbra de uma figueira e ouviu uma voz que lhe dizia: "Toma e lê". Então ele pegou o primeiro livro que encontrou e começou a ler. Era uma carta de São Paulo. Estava escrito: "Caminhemos como de dia, honestamente. Nada de orgia e bebedeira. Nada de desonestidade e dissoluções. Nada de contendas e ciúmes. Ao contrário: revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não vos entregueis aos prazeres da carne e aos seus desejos" (Rm 13,13-14).

 

    Essas palavras da Bíblia questionaram Agostinho. Logo depois ele entrou na catedral de Milão, na hora em que o famoso bispo Santo Ambrósio estava fazendo a homilia. Ao ouvir as palavras do Evangelho, ele pensou: "Diante de tudo isto, nada vale a minha sabedoria".

 

    A partir daí começou a preparação para receber o batismo, sob a orientação do sábio e santo Bispo de Milão, que era também convertido. Agostinho foi batizado por Santo Ambrósio, na Páscoa de 387. Em 391 recebeu a ordenação sacerdotal e em 395 foi ordenado bispo, vindo a ser o grande Bispo de Hipona e imortal Doutor da Igreja.

 

    Mais tarde, ele assim falou a Deus: "Tarde te amei, Beleza sempre antiga e sempre nova! Tarde te amei! Tu estavas em mim, e eu te procurava fora de mim. Naquelas mesmas coisas que criaste para que eu te achasse, meu coração maluco encontrava motivo para desviar-me de ti. Estavas comigo, sem eu estar contigo".

 

 

OS MOSTEIROS E AS OBRAS DE CARIDADE

   

    Dissemos que os mosteiros tornaram-se o lugar aonde muita gente ia buscar orientação de vida. Mas não só. Eles foram também escolas de formação religiosa, centros de difusão da liturgia e o lugar da caridade, pois abriram em torno de si um espaço para atendimento a peregrinos, enfermos e necessitados.

 

    São Basílio era monge e foi feito bispo de Cesaréia da Capadócia. E o que fez ele? Levou para sua diocese o espírito da caridade. Ao redor das igrejas e dos mosteiros, construiu albergues, escolas artesanais, hospícios e hospitais, com pessoal capacitado para cuidar dos enfermos e dos necessitados.

 

    Ele dizia: "A roupa que tens de sobra não te pertence; pertence a quem necessita". É também dele esta outra frase: "Se cada um desse o seu supérfluo, não haveria necessitado".

 

    As obras de São Basílio tiveram início no ano 372. E, logo depois, outras dioceses seguiram o mesmo exemplo. Em Alexandria, a igreja organizou um corpo de enfermeiros com mais de 500 pessoas para atendimento da caridade sob as ordens do bispo.

 

 

    Tais obras, assim como os mosteiros, começaram no Oriente e passaram para o Ocidente. Elas não existiam no tempo da Roma pagã, pois os pagãos não pensavam em fraternidade. As obras de caridade são frutos do Evangelho. Nasceram à sombra dos mosteiros e das catedrais.

 

    O exemplo dos mosteiros passou para toda a Igreja e permaneceu ao longo da história. Em todas as épocas existiram os santos carismáticos que ficaram conhecidos pela sua entrega total a serviço dos carentes. Por exemplo: São Vicente de Paulo, São Camilo de Lélis, Frederico Ozanan, Dom Bosco, Padre Damião, Irmã Dulce, Madre Teresa de Calcutá e tantos outros.

 

 

 

 

Lição 28

 

400: PELÁGIO E A GRAÇA DE DEUS


 

    Por volta do ano 400, surgiu uma heresia referente à Graça de Deus. Chamou-se "pelagianismo", porque foi ensinada por um monge de nome Pelágio, nascido em 360 e morto em 420. Essa heresia atribuía um valor demasiado às obras e minimizava o poder de Deus em nossa Salvação.

 

    Para Pelágio, o homem era capaz de salvar-se pelas suas próprias forças. Chegar à perfeição evangélica era coisa que estava ao alcance da capacidade humana. Bastava querer. Segundo sua doutrina, o homem (ou a mulher) nascia sem o pecado original, num estado de perfeição, como Adão e Eva antes da queda. No fundo, era um orgulho por parte da criatura.

 

    A favor de Pelágio estava um ex-monge chamado Celéstio. E contra a heresia de Pelágio estava o grande Santo Agostinho, que defendia a necessidade da graça de Deus para nossa Salvação. Para Agostinho, nós nascemos numa natureza fraca, propensa ao pecado. Somente por nossa força, jamais chegamos à Salvação. Não basta querer. É Jesus quem nos salva. A Salvação é obra de Deus, não dos homens.

 

    E, para afirmar isso, Santo Agostinho baseava-se na própria Palavra de Deus. Jesus disse aos discípulos: "Sem mim, nada podeis fazer" (Jo 15,5). Falou ainda o Senhor: "É pela graça que fostes salvos, mediante a fé. Não é de vós mesmos que vem a fé: é dom de Deus. Não provém das boas obras, para que ninguém se glorie" (Ef 2,8-9)

 

    Até um grande santo como São Paulo disse que sentia sua natureza presa ao pecado. Ele falou: "Não faço o bem que quero e sim o mal que não quero". E afirma que é a graça de Deus que o libertará dessa escravidão, por meio de Jesus (cf. Rm 7,15-25).

 

    A heresia de Pelágio foi condenada no Sínodo de Cartago (411) e no Concílio de Éfeso (431). Ficou definido que a salvação é fruto da graça de Deus. É claro que o homem entra também com sua participação, acolhendo a graça no seu coração, para que esta não fique em vão. Santo Agostinho disse: "Deus te criou sem ti, mas não quer salvar-te sem ti". 

 

 

 

 

Lição 29

 

431: CONCÍLIO DE ÉFESO

(3º ECUMÊNICO)


 

    Nestório foi Patriarca de Constantinopla de 422 a 432. Ele ficou na História da Igreja porque ensinou uma heresia: dizia que a Virgem Maria não era mãe de Deus.

 

    Sabemos que Jesus tem duas naturezas: a divina e a humana. Diante disso, Nestório achou que Jesus tivesse também duas Pessoas: a Pessoa divina e a Pessoa humana. Então, umas coisas eram feitas pelo Jesus-Deus, outras, pelo Jesus-Homem. Por exemplo: quando bebia água, era só Jesus-Homem que estava bebendo.

 

    Baseado nessa teoria, Nestório acabou negando que Maria fosse Mãe de Deus. Para ele, seria apenas Mãe do "Homem" chamado Jesus. Ora, essa doutrina está errada. Em Jesus há uma só Pessoa: a Pessoa divina. A natureza humana é "assumida" pela natureza divina. Por isso, tudo o que Jesus faz é Deus quem faz. E tudo o que fazemos a Ele, fazemos a Deus. Portanto, Maria é Mãe de Deus, porque gerou Jesus, que é Deus. É também certo dizer que Maria é Mãe de Deus "feito Homem", ou Mãe de Deus "enquanto" Homem. Como é certodizer que Deus morreu enquanto Homem.

 

    O Papa São Celestino I, em sínodo realizado em 430, condenou a heresia e convidou Nestório a fazer comunhão com a Igreja. Este, porém, não quis. E pediu que a questão fosse resolvida em concílio. Foi então feito o terceiro Concílio Ecumênico, em Éfeso, aberto no domingo de Pentecostes de 431. Mais uma vez saiu condenado o nestorianismo. A Igreja definiu: Maria é Mãe de Deus! O grande defensor deste dogma foi São Cirilo, bispo de Alexandria, representante do Papa no Concílio.

 

    Na praça, o povo aguardava a definição em favor da maternidade divina de Maria. Quando a Igreja fez tal declaração, milhares de pessoas saíram pelas ruas com tochas acesas, dando vivas a Nossa Senhora. Foi uma proclamação oficial com a participação popular de maneira nunca vista na Igreja.

 

    Ao Papa São Celestino atribui-se também a introdução da segunda parte da Ave-Maria, isto é: "Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte!"

 

 

 

 

Lição 30

 

432: PATRÍCIO EVANGELIZA A IRLANDA


 

    Dizem que Patrício nasceu na Inglaterra por volta do ano 389. Seus pais o educaram na fé cristã desde pequeno. Aos 16 anos foi raptado por bandoleiros que o venderam como escravo na Irlanda, onde trabalhou como pastor de ovelhas. Naquele tempo, a Irlanda era habitada pelos celtas e escoceses, ainda pagãos.

 

    Duas vezes Patrício tentou fugir, mas não conseguiu. Até que um dia, depois de seis anos, libertou-se daquela escravidão. Foi para a França, onde ficou 14 anos. Primeiro esteve no mosteiro de Lérins, por pouco tempo. Depois se fixou no mosteiro de São Martin, em Auxerre. Ele diz que sentia um "chamado" de Deus para anunciar o Evangelho na Irlanda. E, nesse mosteiro, preparou-se para sua futura missão, por meio de orações e de estudos teológicos. Seu mestre foi São Germano.

 

    Dizem que o próprio Papa convidou Patrício para voltar à Irlanda como missionário. Então foi feito bispo e enviado. Era o ano 432. Uma viagem bem diferente da primeira. Agora, não mais como escravo, mas como anunciador da Boa-Nova. Por isso, levava no coração muita esperança e alegria.

 

    Mas, chegando à Irlanda, encontrou duas barreiras: os pelagianos e os druidas. Pelagianos eram os seguidores de Pelágio, a qual minimizava a graça de Deus, como vimos na lição 28. Druidas eram os sacerdotes do druidismo, uma religião pagã. Tratava-se de um culto violento, que sacrificava vidas humanas, inclusive crianças. O druidismo matava os prisioneiros. A vida de um homem só era resgatada com a morte de outro homem.

 

    Patrício conseguiu vencer as barreiras por meio da graça de Deus e de sua habilidade. Ele soube respeitar os costumes daquele povo e assim conquistou muita gente, começando pelos seus chefes. O primeiro líder que se fez amigo chamava-se Dichu. Ele abriu caminho para o trabalho de Patrício.

 

    Pouco antes de seu falecimento, Patrício passou o bispado para seu discípulo Benignus. Assim sua obra teve continuidade. Ele morreu em 461. Tornou-se o grande santo venerado pelos irlandeses no dia 17 de março. É o Padroeiro da Irlanda.

 

 

 

 

Lição 31

 

451: CONCÍLIO DE CALCEDÔNIA

(4º ECUMÊNICO)


 

    De 440 a 461 foi Papa o inteligente e corajoso Leão I, chamado Leão Magno. Nesse tempo surgiu uma heresia ensinada por Êutiques, monge de Constantinopla. Ele dizia que, em Jesus, a natureza divina "absorvia" a natureza humana. Era como se Cristo tivesse apenas a natureza divina. Por isso, tal heresia chamou-se "monofisismo", que quer dizer "uma só natureza". Negava-se, assim, o valor e a autenticidade dos atos humanos de Jesus.

 

    Diante disso, em 448, o Patriarca Flaviano fez um sínodo em Constantinopla e mostrou a Êutiques o seu erro. Este, porém, reagiu e intensificou a difusão do monofisismo. Então Flaviano expôs o problema ao Papa, pedindo uma palavra oficial. Leão Magno escreveu a famosa "Carta Dogmática", na qual afirmou que Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.

 

    Êutiques rejeitou a Carta do Papa e fez um sínodo em Éfeso no ano de 449, com apoio do imperador Teodósio II e do terrível Patriarca de Alexandria, Dióscoro, que presidiu o sínodo. Os representantes do Papa foram impedidos de falar, e a Carta Dogmática não pôde ser lida. Dióscoro até "excomungou" o Papa. E o imperador mandou para o exílio os bispos fiéis à Roma. Flaviano faleceu no caminho do exílio, devido aos maus tratos. Esse sínodo ficou chamado "Latrocínio de Éfeso".

 

    No ano 450, porém, o imperador caiu do cavalo e morreu. Sua irmã, a imperatriz Pulquéria, mandou regressar do exílio todos os bispos que defendiam a doutrina da Igreja. Então, com o apoio de 600 bispos, o Papa realizou o Concílio de Calcedônia (4º Concílio Ecumênico). Este definiu que, em Cristo, há uma só Pessoa, na qual existem duas naturezas "sem confusão nem mudança, sem divisão nem separação". Estava, pois, condenado o monofisismo como heresia.

 

    Dióscoro compareceu, levando dezessete bispos monofisistas, com planos de "depor" Leão Magno. Mas ele é que foi deposto logo de início. Terminado o sábio discurso do Papa, todos os bispos aclamaram: "Esta é a fé dos Apóstolos! Assim o cremos todos. Pedro falou pela boca de Leão!"

 

 

 

 

Lição 32

 

452: O PAPA LEÃO SALVA ROMA


 

    O Papa São Leão I governou a Igreja do ano 440 a 461. Recebeu o título de Leão Magno, isto é: "Leão, o Grande". Seus valores morais, cívicos e espirituais o colocaram acima de todos os Papas anteriores. Ele foi zeloso pastor, diplomata inteligente e corajoso chefe da Igreja, de tal modo que se fez respeitar por todos, como Papa e como cidadão, tendo-se destacado na defesa da cidade de Roma frente aos invasores. Dentro do império decadente, Leão Magno foi o último baluarte que ofereceu resistência aos bárbaros, indo ao encontro dos invasores com a arma da coragem e da fé.

 

    Era o ano 452. O Império Romano estava sob o governo de Valentiniano III. Os bárbaros asiáticos invadiram a Itália a caminho de Roma, comandados pelo terrível Átila, rei dos Hunos. Atemorizado, Valentiniano enviou uma embaixada para deter o invasor na metade do caminho. Pois bem, o chefe dessa delegação foi o Papa Leão, o homem que na época reunia em si mais virtudes e coragem para se impor ao inimigo. O encontro se deu junto à confluência dos rios Pó e Míncio. Átila desistiu da invasão. O exército dos barbaros regressou. Roma ficou em paz.

 

    O grande Rafael imortalizou num quadro célebre esse encontro histórico de Leão com Átila. Dizem que, voltando a Roma, Leão Magno mandou derreter a famosa estátua de Júpiter, a maior divindade do paganismo, e com seu bronze fez a bela imagem de São Pedro que se encontra até hoje na Basílica do Vaticano.

 

    Infelizmente, três anos depois, os bárbaros voltaram ao ataque e invadiram a invencível Roma com certa facilidade. Mesmo assim, o Papa São Leão conseguiu dos bárbaros uma coisa: que eles respeitassem a vida dos cidadãos e não depredassem os templos cristãos. Por isso, ele ficou chamado "Defensor Urbis", isto é, "Defensor da Cidade de Roma".

 

    O que favoreceu esta invasão foi a corrupção, que enfraqueceu o poderoso Império Romano. A imortalidade reinava dentro da casa imperial, como veremos a seguir.

 

 

 

Lição 33

 

455: OS BÁRBAROS INVADEM ROMA


 

    A partir do governo de Teodósio I, o império e a igreja tiveram um período de paz. Mas logo vieram as invasões dos bárbaros (Bárbaros eram tribos fortes e guerreiras do mundo germânico. Moravam além do Reno e do Danúbio).

 

    As invasões começaram pela África, Espanha, Grécia e França, sob o comando de Alarico. Em 405, Radagásio (general de Alarico) marchou contra Roma, com 200 mil soldados. Houve resistência. Estilicão (general do imperador Honório) derrotou o invasor. Em 452, o temível Átila estava para invadir Roma; contudo desistiu, a pedido do Papa Leão, como já vimos (nota: na lição anterior).

 

    Átila, rei dos hunos, era o terror universal. Foi até chamado "Flagelo de Deus". Os hunos eram guerreiros, de cor amarelada. Moravam entre o mar Negro e o Báltico. Eram cruéis. Por onde passavam com suas tropas devastavam e saqueavam tudo. Após invadir muitas cidades da França e da Itália, Átila morreu num banquete, em 453.

 

    Dois anos depois, Genserico invadiu Roma e saqueou a cidade. A podridão que reinava na família imperial romana abriu as portas para a invasão dos bárbaros. Basta lembrar que, no ano 455, o senador Petrônio Máximo assassinou o imperador Valentiniano III e, no mesmo dia, se fez imperador de Roma. Depois, para garantir sua posição, obrigou Eudóxia a aceitá-lo em casamento (Eudóxia era a viúva de Valentiniano). Em seguida, forçou o casamento do seu filho Paládio com Eudóxia, filha do imperador Valentiniano assassinado.

 

    Isso tudo fez com que a imperatriz Eudóxia viesse a odiar o seu "marido", o imperador Petrônio Máximo. Então, como vingança, ela pediu apoio a Genserico, rei dos vândalos. Tendo aberto ao invasor as portas da Itália, este veio com seu exército e avançou como um conquistador, até Roma.Quando Genserico chegou junto ao rio Tibre, o povo e os soldados romanos revoltaram-se contra o próprio imperador Petrônio Máximo, que foi trucidado pela multidão ao tentar a fuga. Governou menos de três meses: de 16/3/455 a 31/5/455

 

 

 

 

Lição 34

 

496: OS BÁRBAROS SE CONVERTEM


 

    Dissemos que os romanos davam o nome de "bárbaros" aos povos que estavam fora dos domínios de seu vasto império. Em geral, os bárbaros habitavam a região chamada Germânia (Alemanha de hoje e mais outras regiões visinhas). Entre os diversos povos chamados "bárbaros" estavam os francos. Eram nômades, fortes, guerreiros, agressivos, cruéis, temíveis. Cultuavam o deus Odin e esperavam ganhar o paraíso graças à virtude da coragem e da valentia. Os francos saíram da Germânia e foram para a Gália (região onde está a França de hoje).

 

    O mais famoso rei dos francos foi Clóvis. Nasceu em 465 e faleceu em 511, em París. Começou a reinar com 16 anos. Conseguiu consolidar o reino. Era pagão, mas casou-se com uma católica: a rainha Clotilde de Borgonha. Esta procurou convertê-lo.

 

    Depois de ganhar muitas guerras, Clóvis precisava ainda derrotar os alanos, que estavam para invadir o reino. Então invocou o nome do Deus dos cristãos, diante da batalha de Tolbiac, em 496. E venceu os alanos. Aí se converteu e pediu o batismo. Foi batizado no Natal do mesmo ano, pelo bispo São Remígio, na catedral de Reims, juntamente com outros homens e mulheres que o seguiam de perto.

 

    Conta-se que, no dia do batismo, São Remígio disse a Clóvis: "Adora o que até agora queimaste e queima o que até agora adoraste!" Contudo, apesar de ter abraçado a fé, sabe-se que o valente rei não deixou na pia batismal o seu espírito de guerreiro. A adesão a Deus e à Igreja acontecem num momento, mas  a conversão da mente e do coração é coisa mais demorada.

 

    Até o fim da vida, Clóvis era ainda um homem de lutas sangrentas. Isso estava no sangue de sua raça. É preciso compreendê-lo dentro de seu povo valente e guerreiro e dentro de sua época de conquistas. Contudo, a conversão de Clóvis ao cristianismo marcou sua vida. Foi uma grande vitória da Igreja. Com Clóvis, todo o seu reino se converteu. Deu-se o início de nova era na cristandade, como veremos a seguir.

 

 

A IGREJA APÓS A CONVERSÃO DOS FRANCOS

 

    Vimos que os bárbaros  invadiram Roma no ano 455. A partir daí começou a derocada do poderoso Império Romano, que havia dominado o mundo durante vários séculos. O último imperador romano do Ocidente foi Rômulo Augústulo, derrotado em 23/8/476.

 

    A queda de Roma (em 455) e a conversão dos francos (em 496) trouxeram grandes mudanças políticas e religiosas. O ano 455 é apontado pelos historiadores como marco indicativo do início da Idade Média - esse longo período que durou dez séculos.

 

    A conversão dos francos trouxe diversas mudanças.

1.       Antes, a cristandade estava concentrada no Oriente; depois tornou-se numerosa no Ocidente.

2.       Diminuiu o interesse pelas dicussões teológicas (muito a gosto dos orientais) e aumentou o interesse pela evangelização dos povos no Ocidente.

3.       Com o crescimento da cristandade na Europa, Roma se fez a "Capital da Fé". Isso despertou no Patriarca de Constantinopla a vontade de ser uma espécie de "Papa" do Oriente, em parceria com o Império Bizantino (Constantinopla).

4.       A fé nova dos convertidos (francos e germanos) era fiel a Roma e tinha grande consideração pelo Papa. Diante disso, a Igreja viu que dava mais resultados evangelizar os bárbaros do que ficar tentando mudar a cabeça dos arianos.

5.       O Papa, além de crescer como chefe religioso, começou também a ganhar prestígio político entre os reis e a sociedade.

6.       A partir daí, Constantinopla começou a distanciar-se de Roma. O Patriarca foi acertando o passo com o imperador bizantino e perdendo o interesse pela comunhão com o Papa, até chegar ao grande cisma (16/6/1054) que dura até hoje.

Lembramos que o primeiro nome de Contantinopla foi Bizâncio, cidade fundada em 660 antes de Cristo pelo lendário Bizas. Em 330 de nossa era passou a chamar-se Constantinopla, em homenagem ao imperador Constantino Magno, que a escolheu para capital do Império do Oriente (Império Bizantino). Hoje, Constantinopla é Istambul, na Turquia.

 

 

 

Lição 35

 

553: 2º CONCÍLIO DE CONSTANTINOPLA

(5º ECUMÊNICO)


 

    Vigílio tinha ambição de ser Papa. Sabendo disso, a poderosa imperatriz Teodora, de Constantinopla, pôs seu prestígio político em favor da eleição papal de Vigílio. Acontece, porém, que Teodora era monofisista e muit interesseira. Ela queria que Vigílio, feito Papa, viesse a favorecer a doutrina do monofisismo, já condenada no Concílio de Calcedônia.

 

    E tudo indica que, de fato, ele havia dado alguma esperança à imperatriz. Mas, feito Papa, a sua cabeça mudou. E, numa carta, ele escreveu a Teodora: "Se errada e imprudentemente, antes, eu te disse o que não devia ter dito, não posso agora, de modo algum, atender ao teu pedido, reabilitando esse herege" (que era Antimo, monofisista).

 

    Vigílio foi Papa de 29/3/537 a 7/6/555. Pagou caro sua ambição. Foram 18 anos de amarguras. O primeiro problema foi a questão dos Três Capítulos, imposta pelo prepotente imperador Justiniano (marido de Teodora). Ele queria que o Papa condenasse três trechos (= três capítulos) dos teólogos Teodoro de Mopsuéstia, Teodoreto de Ciro e Ibas de Edessa (já falecidos). Ora, se o Papa os condenasse, estaria indo contra o Concílio de Calcedônia - o que não podia fazer.

 

    Nessa perseguição estava a vingança de Teodora, porque Vigílio não favorecera o monofisismo. Por isso, quando Vigílio rezava na igreja Santa Cecília, em Roma, veio o general Antimo com sua tropa; agarraram-no e o levaram prisioneiro para Justiniano. Em Constantinopla, ele se agarrou de tal modo a uma coluna da basílica que os soldados não conseguiram arrancá-lo.

 

    Para resolver a questão, fizeram um Concílio. Vigílio queria que fosse na Itália, mas Justiniano exigiu que fosse em Constantinopla. Tudo contra a vontade do Papa. Parecia que tal Concílio iria ser um desastre. Mas nele estava o Espírito Santo. Por fim, as declarações ali feitas foram de acordo com os Concílios anteriores e a doutrina da Igreja. E o Papa o reconheceu como 5º Concílio Ecumênico. Vigílio, doente e abatido, partiu para a Itália, mas morreu no caminho (7/6/555)

 

 

 

Lição 36

 

590: GREGÓRIO I, UM GRANDE PAPA


 

    Ele nasceu em Roma no ano 540, filho do senador Gordiano e de sua esposa Sílvia. Aos 32 anos era prefeito de Roma. Ocupou o cargo de pretor, função equivalente à de Primeiro Ministro do governo. Depois deixou a política para fazer-se beneditino. Transformou sua residência num mosteiro. E destinou sua fabulosa riqueza à construção de mosteiros.

 

    Durante 6 anos foi representante do Papa Pelágio II, em Constantinopla. Voltando para Roma, o Papa o nomeou seu conselheiro. Contra sua vontade o elegeram Papa (3/9/590). Como Papa, Gregório fez uma caixa ou patrimônio destinado a socorrer os romanos empobrecidos com as invasões e saques.

 

    Gregório I elevou o conceito de papa, o qual se fez mais respeitado. E conseguiu isso através da humildade. Sob sua assinatura, ele escrevia: Servus servorum Dei, isto é, "servo dos servos de Deus". Essa frase passou a ser escrita por todos os outros papas.

 

    No seu pontificado, deu-se a conversão dos povos germânicos. Começou com o histórico batismo de Clóvis, rei dos Francos, no Natal de 496, na Catedral de Reims. Com Gregório I deu-se também a cristianização da Inglaterra. Para essa obra de evangelização ele enviou Agostinho (prior do mosteiro) com mais 40 monges. Nessa ocasião, São Gregório organizou a Igreja na Inglaterra, fundando o arcebispado de Cantuária.

 

    Foi também São Gregório Magno quem estruturou o governo da Igreja na sua parte social e jurídica. Ele levantou a voz contra os impostos injustos e se opôs à prepotência dos poderosos. Organizou a função dos bispos na Igreja, bem como dinamizou a pastoral e deu vida à liturgia. Foi ele quem criou o Canto Gregoriano (Por isso é que se chama gregoriano). É cantado até hoje.

 

    Juntamente com São Leão Magno e outros grandes papas antigos, São Gregório Magno é um baluarte da Igreja. Ele escreveu  muitos livros. Sua sabedoria iluminou as gerações durante séculos. Dele disseram: "Jamais a cátedra de São Pedro foi ocupada por uma alma tão sublime e generosa como a sua".

 

 

MONGES EVANGELIZAM A EUROPA

 

    Gregório Magno, como vimos, tinha sido monge antes de ser papa. Por isso ele teve facilidade para fazer um trabalho missionário com os monges. Nesse tempo a Igreja estava empenhada na obra da evangelização da Europa. Queira converter os pagãos: Irlandeses, italianos do Norte, franceses, alemães, saxões, escoceses, ingleses, suíços...

 

    Não era uma catequese estruturada, com dioceses e paróquias, com pastoral organizada e visão de conjunto. Sendo um trabalho realizado por monges, havia muita fé e amor, mas era tudo feito com muita simplicidade, na base da entrega pessoale da boa vontade, sem a preocupação de fazer um trabalho orgânico e esquematizado.

 

    Lembremos alguns desses monges missionários.

 

563:      São Columba fundou vários mosteiros na Irlanda. Depois, com 12 discípulos, construiu um mosteiro e diversas igrejas na Inglaterra. Levou a fé também à Escócia, onde ungiu o rei Aidan. São Columba era membro da família real irlandesa.

 

592:      São Columbano fundou o mosteiro de Luxeuil, na França, o qual foi também um centro de irradiação da fé. Seu discípulo, São Galo, partiu para a Suíça e lá fundou o famoso mosteiro de São Galo, além de muitas igrejas. A Irlanda produziu tantos santos que ficou sendo chamada Ilha dos Santos.

 

599:      O monge Agostinho (abade de Santo André em Roma) foi enviado à Inglaterra como missionário, com mais 40 monges, e lá fundou a importante diocese de Cantuária. Agostinho teve o apoio pessoal do Papa São Gregório Magno.

 

627:      Nesse ano foi batizado o rei Edwino, com toda a sua corte. Ele era soberano da Nortúmbria e de Yorkshire (condado pertencente à Inglaterra). Foi então criada a diocese de York. A partir daí começa uma catequese sistemática e estruturada, e a evangelização se difunde por toda a Europa.

 

690:      O inglês Villibrordo anunciou o Evangelho aos frisões. Em 695 ele foi nomeado bispo de Utrecht. Bonifácio, chamado o Apóstolo da Alemanha, continuou sua obra de evangelização.

 

 

Lição 37

 

610: SURGE O ISLAMISMO


 

    Quando a Igreja estava vivendo tempo de paz e de propagação da fé, surgiu um inimigo terrível: o islamismo, também chamado maometismo, porque seu fundador era Maomé ou Mohamed (570-632). Maomé nasceu em Meca, a cidade santa onde estava (e está) guardada a pedra sagrada chamada Caaba. Dizem que esta pedra é negra por causa dos muitos pecados da humanidade. Segundo a lenda, ela foi trazida do céu pelo anjo Gabriel, e nela Ismael (o pai dos árabes) descansou a cabeça. Por isso, Meca é a "cidade santa" para os árabes, como Jerusalém é para os judeus (e também para os cristãos).

 

    Maomé era descendente da tribo dos Coraixitas, encarregada de guardar a Caaba. Órfão de pai e mãe, viveu pobre os primeiros anos, trabalhando como condutor de caravanas. Mas logo adquiriu enorme fortuna, casando-se com uma viúva rica chamada Kadidja. Aí pôde realizar seus sonhos. Era ambicioso e tinha um grande projeto: reunir todos os árabes sob seu domínio. Daí nasceu o islamismo. Contudo, o Islã não é uma religião original. Ele reúne ensinamentos de antigas religiões árabes, do judaísmo e do cristianismo. O nome de seu Deus é Alá, seu livro sagrado é o Alcorão, e o profeta é Maomé. A revelação que Alá fez a Maomé está acima de tudo o que Deus havia dito antes por meio de Abraão, Moisés ou Jesus Cristo.

 

    O Deus do islamismo é o mesmo dos cristãos: o Deus de Abraão, de Isaque, de Jacó, de Moisés... com uma diferença: os maometanos (assim como os judeus) não aceitam Jesus como Messias ou Salvador. Mas, entre o islamismo e o judaísmo há também uma grande diferença: os judeus se dizem filhos de Abraão por meio de Isaque, enquanto os árabes são filhos de Abraão por meio de Ismael. Isaque naceu da "promessa" de Deus. É filho de Abraão e de Sara, a esposa legítima. Ao passo que Ismael é filho de Abraão e de Agar, a escrava de Abraão. Por isso o islamismo é também chamado ismaelismo. aí está a causa das lutas intermináveis entre judeus e árabes.

 

 

 

 

Lição 38

 

622: A EXPANSÃO DO ISLAMISMO


 

    Como dissemos, o projeto de Maomé era reunir sob seu domínio todas as tribos árabes. No começo teve algumas dificuldades, pois, à medida que mexeu com interesses de grupos, encontrou oposição. Mas esses obstáculos foram eliminados por meio da força. Sua religião era radical, pois dizia que representava a vontade absoluta de Alá. A própria palavra "Islã" quer dizer: "submissão total à vontade divina". Daí veio a chamada "guerra santa". Segundo os maometanos, quem morresse combatendo por Alá, teria garantido seu lugar no paraíso.

 

    Essa paixão religiosa lançou os muçulmanos à conquista do mundo (Muçulmano é todo aquele que segue o islamismo, em qualquer parte da terra). Foi assim que o islamismo expandiu-se rapidamente. O império muçulmano invadiu a Ásia, o Egito, a Síria, a Pérsia, a Palestina. Lutou contra os gregos e entrou na Espanha, em Portugal e na Itália. Em seguida quis apoderar-se da França. Mas aí foi detido pelos francos, sob o comando de Carlos Martelo, ma batalha de Poitiers, em 732.

 

    No islamismo, política e religião eram inseparáveis. A espada e a fé caminhavam juntas. Assim foi um século de lutas. Por onde os seguidores de Maomé passavam, ficava plantada a semente do islamismo. Eles não obrigavam seus dominados a se converter, mas os obrigavam a pagar um tributo. A lei era esta: ou se converte ou paga tributo ao império muçulmano. O objetivo de Maomé era levar o islamismo às tribos árabes dispersas. Mas, na prática, acabou invadindo e conquistando novas terras para o império islâmico.

 

    Hoje o islamismo está dividido em muitas seitas: vaabitas, sufitas, sunitas, xiitas... Todas elas têm espírito guerreiro. Os mais radicais são os xiitas. Quem não se lembra da recente "guerra santa" do Aiatolá Khomeini (do Irã) contra o Iraque de Saddan Hussein? Aliás, por aí se vê que a "guerra santa" nem sempre é contra os "infiéis", mas às vezes acontece entre os próprios muçulmanos.

 

 

 

 

Lição 39

 

629: O RESGATE DA CRUZ DE CRISTO


 

    De 610 a 641 o imenso Império Bizantino foi governado por Heráclio I. A capital do império era Constantinopla (Bizâncio). Ao imperador bizantino pertencia a grande parte do Oriente. Heráclio não estava preparado para defender seu imenso território no caso de uma invasão, coisa comum naquele tempo.

 

    E, por motivo de vingança, em 611, os persas invadiram o Império Bizantino. Heráclio tentou um acordo, mas Cosroes Parviz, rei dos persas, não quis nenhum tratado de paz. Os persas tomaram o Egito, a Palestina, a Cicília, a Armênia, a Síria e parte da Capadócia. Devastaram a Cidade Santa. Profanaram lugares sagrados.

 

    O rei Cosroes levou para a Pérsia as relíquias da Cruz de Jesus. Isto revoltou os bizantinos, que eram cirstãos fervorosos. Então, motivado pelo sentimento patriótico e religioso, Heráclio preparou-se para uma contra-ofensiva.

 

    Em 629 derrotou os persas e resgatou os territórios tomados. As relíquias da Cruz foram reconduzidas à Terra Santa de maneira triunfal, de Ctesifonte a Jerusalém, no dia 14 de setembro (Por isso, nesse dia, a Igreja celebra, até hoje, a festa da Exaltação da Santa Cruz). E, a respeito da entrada das relíquias da Santa Cruz em Jerusalém, conta-se a seguinte lenda:

 

    O cortejo era solene. O imperador Heráclio levava as relíquias da Cruz. Na Cidade Santa elas eram esperadas com devoção e grande festa. Iam ser colocadas no altar do Calvário. Mas, quando chegou à porta da Cidade, o imperador não conseguiu mais mover os pés. Eles ficaram presos ao chão. Aí o patriarca Zacarias disse-lhe: "Majestade, lembra-te de que Jesus era pobre, e tu estás ricamente vestido; Jesus tinha na cabeça uma coroa de espinhos, e tu tens uma coroa de ouro; Jesus não usava anéis e calçados com brilhantes como fazes agora". Então o imperador tirou o anel, a coroa de ouro, os sapatos bordados e o manto brilhante. E vestiu-se como pobre. Seus pés ficaram leves, e ele se pôs a andar livremente até o altar do Calvário.

 

 

 

Lição 40

 

633: O MONOTELISMO, OU MONOTELITISMO


 

    As principais heresias vistas até agora são:

 

Arianismo – 318

Ario negava a divindade de Cristo; para ele Jesus não era Deus;

Macedonianismo – 381

Macedônio dizia que o Espírito Santo não era Deus, mas “criatura” de Deus;

Pelagianismo – 400

Pelágio desvalorizava a Graça de Deus; para ele o homem se salvava pelas obras;

Nestorianismo – 431

Nestório afirmava que Maria não era Mãe de Deus, mas Mãe somente de Jesus-Homem;

Monofisismo – 450

Êutiques ensinava que Jesus tinha uma só natureza: a natureza divina.

 

    Depois, no ano 633, surgiu nova heresia: o monotelismo. Foi fundado por Sérgio, Patriarca de Constantinopla. Ele ensinava que em Cristo havia somente a vontade divina. A vontade humana seria absorvida pela divina.

 

    Isso fez grande mal à Igreja. A cristandade já estava sofrendo bastante com os inimigos externos, que eram os invasores (persas e maometanos). A partir daí passou a sofrer também com o inimigo interno - a heresia - que causava discórdia e divisão no cristianismo.

 

    Lembramos que todas essas heresias nasceram dentro da Igreja. Foram criadas por padres, monges e bispos. Ario era sacerdote; Pelágio e Êutiques eram monges; Macedônio, Nestório e Sérgio ocupavam o elevado cargo de Patriarcas (bispos) de Constantinopla.

 

    Diante dessa confusão, os Papas Honório I (625-638) e João IV (640-642) fizeram afirmações teológicas não muito precisas, que foram usadas pelos monotelistas na defesa de sua heresia. E a coisa se complicou ainda mais, porque Heráclio, imperador de Constantinopla (610-668) fez outro decreto imperial impondo o monotelismo como verdade a ser observada. Em seguida, o imperador Constante II (641-668) fez outro decreto proibindo que se discutisse o assunto. Aí começou a perseguição contra a Igreja, como veremos a seguir.

 

 

 

 

Lição 41

 

655: O PAPA MARTINHO I É PRESO E MORTO


 

    O Papa Martinho I, consciente de sua responsabilidade de Pastor do Povo de Deus não pôde calar-se diante da heresia. ele reuniu um Sínodo em São João de Latrão, em 649, do qual participaram 150 bispos. Aí o Papa condenou o monotelismo e definiu que em Cristo há duas vontades, assim como duas capacidades de agir, porque Ele tem duas naturezas: a divina e a humana. Isto é: Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.

 

    Diante disso, o imperador Constante II enviou a Roma um exarca (delegado), chamado Olimpo, com a incumbência de fazer o Papa e os bispos desdizerem o que haviam dito. Se não se retratassem, o Papa seria preso. É claro que Martinho permaneceu irredutível no que havia dito.

 

    Por isso, Olimpo resolveu assasssinar o Papa através de uma traição. Tomou uma atitude piedosa, e quis participar da Missa solene na igreja de Santa Maria. No momento em que o Papa se dirigisse a ele para saudá-lo com o abraço da paz, um escudeiro seu deveria apunhalar o Papa. Mas aconteceu o imprevisto. O Liber Pontificalis (Livro Pontifical) diz que, nesse exato momento, o escudeiro ficou com a vista escurecida por uns minutos e não pôde fazer nada. Então Olimpo partiu dali e foi combater os sarracenos na Sicília, onde veio a falecer vítima de uma peste.

 

    O imperador, para vingar-se, enviou outro exarca, a fim de levar o Papa algemado para Constantinopla. São martinho foi iludido e, a 19/6/649, embarcava, prisioneiro, num barco ancorado no Rio Tibre. Depois de penosa viagem de 14 meses, chegou a Constantinopla. Para aumentar seu sofrimento, aí lhe disseram que o imperador havia colocado um papa em seu lugar. Trancado num cárcere, São martinho foi caluniado, julgado, condenado e humilhado de maneira infame. Algemado, com veste reduzida, conduziram-no pelas ruas da cidade sob as vaias do público mal informado. Em março de 655 embarcaram-no para a ilha de Quersoneso, aonde chegou após dois meses de sofrimento. Aí morreu a 16/9 do mesmo ano (655), encarcerado e abandonado, passando fome e frio, mas com alma de herói e santo.

 

 

 

Lição 42

 

680: 3º CONCÍLIO DE CONSTANTINOPLA

(6º ECUMÊNICO)


 

    Vimos que o Papa Martinho I foi um mártir na defesa da verdadeira fé, naquela questão do monotelismo. Mas não foi só ele. A vingança do imperador Constante II fez mais vítimas. O grande teólogo Máximo, o Confessor, também morreu no exílio. E foi torturado. Ele havia  sido secretário do imperador Heráclio no ano 610. E quis ser coerente com sua fé. Como um dos teólogos mais fiéis à Igreja, Máximo havia condenado o monotelismo em sínodos realizados na África e em Roma. Sendo preso e deportado por essa causa, ele aceitou o brutal martírio. No exílio, cortaram-lhe a língua e a mão direita.

 

    Felizmente, com o Imperador Constantino IV (668-685), que sucedeu Constante II, veio um alívio para a Igreja. Percebendo o desastre cocorrido com a perseguição, ele quis fazer amizade com o Papa Agaton e dar-lhe todo o apoio. Então, entrou logo em entendimento para que fosse feito um Concílio e esclarecida a verdade. Foi o 3º Concílio de Constantinopla (6º Ecumênico), aberto a 7/11/680 e encerrado no ano seguinte. Ficou conhecido como Concílio Trullanum, porque foi realizado no salão da cúpula do palácio imperial, local chamado "Trullus".

 

    Esse Concílio condenou o monotelismo como heresia e definiu que em Cristo há duas vontades, assim como há duas naturezas, tal qual tinha sido ensinado pelo Papa Martinho I no Sínodo de Latrão em 649. E, no final, os bispos declararam que Deus falava ao Papa. O próprio imperador Constantino IV afirmou publicamente: "A luz da fé brilhou para nós, vinda do Ocidente. Pedro falou pela boca de Agaton".

 

    Agaton era de família rica, de Palermo. Quando se fez monge beneditino, distribuiu todos os seus bens aos pobres. Ao ser eleito Papa (680), estava com 103 anos. Foi o Papa eleito com mais idade. Era, porém, perfeitamente lúcido. Faleceu no terceiro ano de pontificado (681), atingido por uma epidemia que devastou a população de Roma. Foram três anos abençoados, de progresso para a Igreja.

 

 

 

Lição 43

 

719: BONIFÁCIO, O APÓSTOLO DA ALEMANHA


 

    Nasceu na Inglaterra e, 673. Chamava-se Vinfredo. Em 719 recebeu o nome de Bonifácio (nome de um mártir romano). Messe mesmo ano o Papa Gregório II enviou-o como missionário para a Alemanha. Foi evangelizar os frisões, junto com Willibrordo. Frisões era um povo do norte da Germânia (Alemanha), difícil de ser evangelizado, porque Carlos Magno, o protetor da Igreja, era o seu maior inimigo político.

 

    Em 721, Bonifácio evangelizou a Frísia e Hesse (Hesse era uma região formada por três Estados da antiga Germânia). Nessa região havia o "sagrado carvalho" de Tonar, uma divindade pagã. Bonifácio cortou o carvalho sagrado para mostrar que os deuses dos pagãos não tinham poder nenhum.

 

    De 725 a 735 Bonifácio exereu sua atividade missionária na Turíngia. Aí fundou os mosteiros de Ohrdrf, Fulda e outros. Em Hesse e na Turíngia batizou muitos convertidos.

 

    Em 732 é nomeado bispo; depois, legado da Santa Sé na Alemanha. Sagrou muitos bispos e organizou a Igreja germânica. Fundou as dioceses de : Burraburgo, Erfurt, Vurtzburgo, Eichstatt, Salzburgo, Regensburgo (Ratisbona), Frisinga, Passau.

 

    Em 753, com 81 anos de idade, Bonifácio voltou a anunciar o Evangelho entre os frisões pagãos. Aí terminou sua caminhada apostólica de maneira heróica, juntamente com mais de 52 companheiros missionários. Eles estavam celebrando a Missa em Dokkun, no dia cinco de junho de 754, dia de Pentecostes. De repente, veio um bando de pagãos armados de espadas.  Bonifácio disse aos companheiros: "Não tenhais medo! Todas as armas deste mundo não podem matar a nossa fé!" E foram mortos. Por isso, ele recebeu o nome de "Apóstolo da Alemanha".

 

    Para se ter uma idéia da dureza daqueles bárbaros, basta dizer que as leis da Igreja eram também muito severas. Numa carta de Bonifácio, ele diz:

"O cristão que tiver caído no crime da imoralidade será posto na prisão, a pão e água, a fim de fazer penitência. Se for padre, fará dois anos de penitência, depois de ter sido flagelado até derramar sangue."

 

 

 

Lição 44

 

754: ORIGEM DO ESTADO PONTIFÍCIO


 

    Desde o tempo dos Apóstolos, os cristãos punham grandes doações numa Caixa Comum, para as despesas da Igreja e socorro aos irmãos necessitados (cf. At 4,36-37). Depois da conversão do imperador Constantino, o Edito de Milão (ano 313) deu liberdade aos cristãos. Aí, famílias ricas se converteram e fizeram gordas doações à comunidade. O próprio imperador ajudou muito a Igreja. Formou-se, então, o Patrimônio de São Pedro.

 

    No ano 751, Astolfo, rei dos lombardos, apossou-se do grão-ducado de Ravena, pertencente aos gregos. Em seguida, queria tomar também Roma. O Papa Estêvão II foi ao encontro de Astolfo, em Pávia, 14/10/753, em busca de acordo. Mas o rei não quis saber de nada. Seu plano era apossar-se de Roma. Então o Papa fez uma procissão de penitência na qual tomou tomou parte com pés descalços, cabeça coberta de cinzas, carregando uma cruz.

 

    Quando Pepino, o Breve, rei dos francos, ficou sabendo disso, tomou a defesa do Papa. Seu poderoso exército derrotou os lombardos em Suza. Astolfo, sitiado em Pávia, rendeu-se e teve que entregar Ravena aos francos. Aí Pepino deu de presente ao Papa todo o ducado de Ravena mais a Pentápolis, que era um conjunto de cinco cidades: Rímini, Pesaro, Fano, Sinigália e Ancona. Pelo Tratado de Quiercy (754), esses territórios foram anexados ao Patrimônio de São Pedro. Deu-se assim origem ao Estado Pontifício, tendo como soberano o Papa.

 

    Em 1115, o Estado Pontifício recebeu outras grandes doações da riquíssima e famosa duquesa Matilde de Toscana ou de Canossa. O território da duquesa abrangia a Toscana, Espoleto, Bréscia, Parma, Régio, Modena, Mântua, Ferrara, e Cremona. Ela possuía poderoso exército. Derrotava imperadores. Mais uma vez defendeu o Papa, quando inimigos queriam se apossar de Roma. Pois bem, num testamento assinado em 1080, a Duquesa Matilde doou todos os seus bens à Santa Sé (após a morte, em 1115).

 

    Com essas e outras doações de nobres medievais, o território do Estado Pontifício chegou a medir 41.000 km². De tudo isso, hoje resta apenas um minúsculo pedacinho, que é o Estado do Vaticano, criado oficialmente em 1929 (como veremos na lição 150).

 

 

[OS ICONOCLASTAS]

 

    "Eikon" é uma palavra grega que significa "imagem" ou estátua. "Iconoclasta" é a pessoa que destrói imagens. A guerra contra a veneração de imagens deu-se em Constantinopla. Começou em 726, quando o imperador bizantino Leão III assinou um decreto proibindo o culto às imagens.

 

    Ele mesmo destruiu uma famosa imagem de Jesus. Aquilo provocou tumulto na cidade e revolta em toda a Igreja. Logo a seguir, Leão decretou a destruição de todas as imagens e símbolos sagrados, incluindo as pinturas das paredes e as figuras desenhadas nas vestes litúrgicas. Além da destruição das imagens, o referido imperador perseguiu muita gente.

 

    Em 741, morreu Leão III. Subiu ao trono seu filho, Constantino V, que reinou até 775. Mas, para a Igreja, nada melhorou. Ficou até pior. No ano 754, Constantino convocou um Sínodo em Hieréia, perto de Constantinopla, o qual reuniu 338 bispos (Não houve, porém, a participação de Alexandria, Antioquia, Jerusalém e Roma).

 

    Esse Sínodo particular condenou como idolatria o culto às imagens. E suas decisões foram postas em prática com rigor e violência. Mosteiros foram fechados, monges e freiras foram perseguidos por ordem do governo. Constantino V chegou até a proibir a oração aos santos, inclusive à Virgem Maria.

 

    Em 775, faleceu Constantino V. Assumiu o governo seu filho, Leão IV, que reinou até 780. Apesar de ser também iconoclasta, como o pai e o avô, Leão IV começou dando liberdade ao culto às imagens. Mas não durou muito. Logo voltou a proibi-lo, mesmo contrariando sua esposa Irene. A Liberdade total veio em 780, com a morte de Leão IV, quando sua esposa assumiu o governo em lugar do filho menor, Constantino VI.

 

    Os imperadores bizantinos combatiam o uso das imagens por influência dos muçulmanos e judeus. Estes seguiam apenas o Antigo Testamento, no qual Deus proibia ter imagens, para evitar que seu povo caísse em idolatria, como os povos vizinhos, que eram pagãos e adoravam as estátuas de seus deuses.

 

 

 

 

Lição 45

 

787: 2º CONCÍLIO DE NICÉIA

(7º ECUMÊNICO)


 

    O Papa Gregório II (715-731) escreveu duas cartas ao imperador Leão III, recusando sua intromissão na Igreja em assunto de fé. O grande teólogo João Damasceno escreveu três famosos discursos, defendendo a veneração de imagens. No ano 731, o Papa Gregório III excomungou o imperador oconoclasta. Tudo isso, porém, não adiantou nada.

 

    A virada total veio em 780, com a morte de Leão IV, filho de Constantino e neto de Leão III. Seu filho, Constantino VI, tinha apenas nove anos. Então a mãe, imperatriz Irene, assumiu o governo. Ela era favorável à veneração das imagens. Aí a Igreja realizou o Concílio Ecumênico em Nicéia, no ano 787 (o segundo de Nicéia e o sétimo Ecumênico). Foi presidido pelo patriarca Tarásio, de Constantinopla, com a participação de 350 bispos.

 

    Esse Concílio declarou nulo aquele Sínodo convocado por Constantino V, em Hieréia, no ano 754, e aprovou a veneração das imagens (Não "adoração", que é devida somente a Deus). Eis algumas palavras desse Concílio de Nicéia:

"Quanto mais alguém contemplar as imagens, mais lembrará daqueles que são representados; sentir-se-á animado a imitá-los e a venerá-los, sem prestar-lhes adoração, que é devida somente a Deus".

 

    Nesse Concílio ficou claro que o sentido da veneração das imagens é a glória de Deus. A piedade cristã não pára nos santos, mas tem como meta o próprio Deus, que opera maravilhas através dos seus fiéis amigos.

 

    Depois, em Francoforte, um Sínodo declarou: "As imagens não devem ser destruídas nem veneradas, mas conservadas para a memória e o ensino". Contudo, o culto às imagens permaneceu na Igreja, conforme as decisões do Concílio de Nicéia (787).

 

    Mais tarde, os imperadores Leão V, Miguel II e Teófilo voltaram a proibir a veneração das imagens. E a questão ficou resolvida no governo da imperatriz Teodora. Ela deu apoio ao patriarca Metódio para fazer um Sínodo e deixar claro que era permitido vencerar as imagens. No século XVI, porém, as imagens foram, novamente, rejeitadas pelos "Protestantes".

 

 

 

Lição 46

 

800: CARLOS MAGNO


 

    Em 742 nascia Carlos Magno, primeiro filho de Pepino, o Breve, rei dos francos. Morto o pai, em 768, o reino foi dividido entre Carlos e seu irmão Carlomano. Morrendo Carlomano, em 771, Carlos tornou-se rei do grande império, que abrangia a França e a Alemanha. Em 774, foi também coroado rei dos lombardos.

 

    Carlos aprendeu a ler depois de avançada idade. Mas, por incrível que pareça, foi grande protetor da Cultura, das Ciências e das Artes. Auxiliado pelo sábio Alcuíno, ele fundou muitas escolas, inclusive de Teologia. Lia muito. Durante as refeições, alguém ficava a seu lado, lendo em voz alta. Carlos falava várias línguas. Até recebeu o título de "professor de seu povo". Ele era simples e fugia dos banquetes.

 

    Sua grande aspiração era cristianizar todos os povos. Para isso usava até a espada. Em 779 dominou os Ávaros (um povo bárbaro dado à guerra) e os forçou a receber o Batismo. Durante trinta anos lutou contra os saxões, a fim de convertê-los. Com a paz de Seltz, em 803, eles aderiram ao cristianismo. Tudo isso, porém, custou muito sangue.

 

    Essa violência deve ser vista dentro de seu contexto histórico, tendo em conta o espírito guerreiro da época. Na verdade, Carlos queria a expansão e o triunfo do cristianismo. Queria também ser o protetor do Papa e da Igreja. Em 774, quando o rei Desidério ia invadir o Estado Pontifício, ele o derrotou. em 759 defendeu o Papa Leão III que, perseguido, refugiou-se em Paderborn. Carlos se fez respeitado e temido também quando dominou os muçulmanos ao Norte da Espanha. a partir daí, foi constituído "protetor" dos santos lugares de Jerusalém.

 

    No Natal de 800, Carlos Magno foi coroado "imperador de Roma" pelo Papa Leão III, ocasião em que recebeu os títulos de César e Augusto. Seu império abrangia: Alemanha, Itália, França, Países-Baixos, Catalunha, Aragão e Navarra. Por isso ficou chamado "Imperador do Ocidente". Começou aí o famoso "Sacro Império Romano", que durou dez séculos. Dele falaremos a seguir.

 

 

 

Lição 47

 

800: O SACRO IMPÉRIO ROMANO


 

    A partir do ano 800, os papas e os imperadores francos preencheram o vazio deixado pela ausência dos imperadores romanos. E assim, numa espontânea parceria, lançaram as bases para a formação do "Sacro Império Romano". Começou com trocas de gentilezas: o Papa Estêvão II coroou Pepino, o Breve, em 754, e, no mesmo ano, Pepino derrotou Astolfo, rei dos lombardos, que ia invadir Roma; em 774, Carlos Magno defendeu o Papa Adriano I dos ataques do rei Desidério e, em 781, o mesmo papa coroou reis os dois filhos de Carlos Magno; em 795, Carlos defendeu o Papa Leão III, que estava sendo perseguido, e, no ano 800, o mesmo Papa coroou Carlos Magno "Imperador Romano".

 

    Essa data marcou o início do Sacro Império Romano. A partir daí, o imperador e o papa se ajudam e se completam. Carlos sempre havia sido protetor da Igreja. Mas ele aspirava muito mais: queira que todo o Ocidente se tornasse um "reino cristão", tendo o papa como chefe espiritual e o imperador como chefe civil, numa parceria iluminada pela fé. O Evangelho seria a "cartilha" de todos os povos. As leis terrenas seriam fundamentadas na lei divina. Os imperadores tinham um sentido sagrado.Eram ungidos pela Igreja, à semelhança dos reis do Antigo Testamento. Eram imperadores "pela graça de Deus".

 

    O Sacro Império passou a chamar-se "Sacro Império Romano Germânico" no governo de Otão I (962-973), imperador da Alemanha. O seu apogeu se deu no século XI. Foi dissolvido quando Napoleão Bonaparte obrigou Francisco II a renunciar à coroa imperial da Alemanha (06/08/1806). O Sacro Império abrangia a Itália e os povos de língua germânica.

 

    O Sacro Império foi uma utopia que, em parte, deu certo. Mas gerou muitas tensões entre a Igreja e o Estado, devido à ingerência de uma parte naquilo que era de competência de outra parte (veja a questão das "Investiduras", lição 55). O Sacro Império gerou também uma tensão entre Roma e Constantinopla. Isto influenciou o Cisma de 1054 que, na verdade, foi uma questão religiosa de fundo político (lição 53).

 

 


"Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo" (Mt 28,20b)"

 

 

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