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Alfa&Ômega mídia cristã apresenta:

Curso "Os 20 séculos de caminhada da Igreja"

I Parte: DE CRISTO AO ANO 300

Origem e difusão da Igreja - Judeus e pagãos perseguem os cristãos

 

 

Lição 1

 

 

28: JESUS FUNDA A SUA IGREJA


 

    Jesus anunciou um novo Reino, dizendo: "Convertei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus!" (Mt 4,17). Ele pedia uma mudança de vida. Mudança radical, da mente e do coração. O sentido original da palavra "converter-se" quer dizer: mudar o modo de pensar e de agir.

 

    Não bastava mais o cumprimento do externo da Lei. Jesus queria o fim do farisaísmo, que se preocupava muito com as aparências. Queria gente de coração novo, segundo o Espírito de Deus. Não bastava amar os amigos: era preciso amar também os inimigos. Para Jesus, o pecado não estava somente na prática externa do mal: estava também no mau desejo. Ele disse: "Quem olhar para uma mulher com malícia, já cometeu adultério com ela no seu coração" (Mt 5,28).

 

    Jesus queria que, na sua Igreja, houvesse mais amor do que no passado. No Antigo Testamento, estava escrito: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Lv 19,18). Como se vê, a medido do amor era o próprio homem: amarás como a ti mesmo. No novo Reino, porém, a medida do amor é Jesus Cristo. ele disse: "Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado" (Jo 13,34).

 

    Com este espírito Jesus fundou pessoalmente a sua Igreja, para que ela viesse a ser imagem viva do Reino do Céu., embora com as rugas de nossos pecados. Jesus escolheu e preparou cuidadosamente seus Apóstolos. Depois de ter pregado ao povo, o Senhor explicava-lhes as parábolas e os ensinava, dois a dois, pelos povoados, como aprendizado apostólico (cf. Mt 10).

 

    Deste modo Jesus fundou a sua igreja e preparou os primeiros evangelizadores. Depois, antes de subir ao céu, o Senhor passou para eles o seu poder e sua missão divina.

 

    A pregação de Jesus deve ter começado aí pelo ano 28, pois João Batista anunciou o início da missão do Senhor "no ano décimo quinto do império de Tibério César" (Lc 3,1). Ora, Tibério sucedeu a Augusto aos 19 de agosto do ano 14 de nossa era. Portanto, o ano décimo quinto vem a ser de 19 de agosto de 28 a 18 de agosto de 29.

 

 

OS DOZE APÓSTOLOS

·         SIMÃO: Jesus o chamou "Céfas", isto é, Rocha, Pedra, ou "Pedro". Era de Betsaida, pescador do Mar da Galileia com seu irmão André. Foi o primeiro Papa.

·         ANDRÉ: Irmão de Pedro. Ele e João Evangelista eram discípulos de João Batista. Foram os primeiros a conhecer Jesus. "André" quer dizer "valente".

·         TIAGO: Tiago "Maior", filho de Zebedeu e Salomé. Ele e seu irmão João foram chamados, por Jesus, "Boanerges", isto é, "Filhos do Trovão".

·         JOÃO: O Evangelista. Escreveu o 4º. Evangelho, três Cartas e provavelmente, o Apocalipse. Ele e seu irmão Tiago eram pescadores no Mar da Galiléia.

·         FILIPE: Era de Betsaida. Pertencia ao primeiro grupo de discípulos, juntamente com João, André, Pedro e Natanael. (cf. Jo 1,35-51).

·         BARTOLOMEU: Também chamado Natanael. Fariseu convertido. Disse uma frase infeliz ao referir-se a Jesus. Quando lhe disseram que Cristo era de Nazaré, ele falou: "Pode vir de Nazaré alguma coisa boa?" (Jo 1,46).

·         TOMÉ: Humilde galileu, chamado Dídimo (Gêmeo). Ficou conhecido por não ter acreditado na palavra dos Apóstolos, quando Jesus lhe apareceu.

·         MATEUS: Mateus ou Levi. Era cobrador de impostos (publicano), em Cafarnaum. Quando Jesus o chamou, estava em seu posto de arrecadação. Escreveu o 1º. Evangelho.

·         TIAGO: Tiago "Menor", filho de Alfeu. Era chamado "irmão do Senhor", pois, provavelmente, sua mãe era prima da Virgem Maria. Foi Bispo de Jerusalém.

·         TADEU: É o popular São Judas Tadeu, também chamado "irmão do Senhor".

·         SIMÃO: Simão Cananeu ou Simão Zelota (Zeloso). Sua festa é celebrada junto com a festa de São Judas(28/10).

·         JUDAS: Judas Iscariotes, O Traidor. Separou-se do grupo dos Apóstolos na Ceia. Dalí saiu para entregar Jesus.

 

OS INIMIGOS DE JESUS

 

    Os maiores inimigos de Jesus não foram os pagãos, mas os grupos religiosos radicais, que não o aceitaram como Messias, especialmente os saduceus, escribas e fariseus. Vejamos:

·         ESCRIBAS: Estudavam profundamente a Escritura Sagrada. Tinham escolas e formavam discípulos. Eram intérpretes e doutores da Lei. Gostavam de aparecer publicamente como guardiães da Escritura e de serem chamados "rabi", isto é, "mestre". Por causa disso, Jesus disse aos discípulos: "Há um só Mestre: o Cristo". O Senhor os repreendeu também pelo fato de não praticarem o que ensinavam. Chamou-os de "guias cegos".

·         FARISEUS: No Evangelho aparecem ao lado dos escribas. A palavra "fariseu" quer dizer "separado". Eram separados do povo a fim de zelar pela Lei. Constituíam uma elite espiritual. Tinham influência até mesmo sobre o Sinédrio, que era uma espécie de Senado forte, com poder nacional. Observavam a Lei com todos os pormenores e seguiam rigorosamente a tradição. Jesus repreendeu duramente os escribas e fariseus, não por zelarem pela Escritura, mas por desprezarem o mais importante da Lei: a justiça e a misericórdia. Repreendeu-os também pela falsidade de vida, chamando-os de "hipócritas" (cf. Mt 23). Alguns fariseus se converteram. Por exemplo: Saulo (Paulo), Natanael, Nicodemos, José de Arimatéia, Simão (que deu um banquete a Jesus)...

·         SADUCEUS: Eram uma classe de grande poder religioso e político. Não acreditavam na ressurreição dos mortos nem na existência de anjos. Formavam uma elite. Em geral, era dessa classe que saíam os sumos sacerdotes, como Anás e Caifás. Jesus alertou os discípulos para terem cuidado com o "fermento" dos saduceus e fariseus. Juntamente com os fariseus, eles condenaram o Senhor.

 

 

 

 

Lição 2

 

30: JESUS MORRE E RESSUSCITA


 

    Os escribas e fariseus fizeram a cabeça de muitos judeus para que não vissem em Jesus o Salvador prometido. A origem humana de Cristo e sua vida humilde eram incompatíveis com o tipo de Messias que eles esperavam. Os fariseus imaginavam um Messias nacionalista e glorioso, que viesse com poder e majestade. Não conseguiam acreditar que um Menino nascido numa gruta e crescido numa carpintaria pudesse ser o Salvador.

 

    Por isso, quando Jesus disse que Ele era o Filho de Deus, os fariseus falaram que Cristo estava basfemando. Então mandaram matá-lo. Disseram-lhe os fariseus: "Não é por causa de nenhuma obra que te condenamos, e, sim, porque blasfemas. Pois tu, sendo homem, te fazes Deus" (Jo 10,33).

 

    E mataram o Senhor. Mas a morte e a ressurreição de Cristo vieram provar que Ele era o Messias, porque tudo aconteceu conforme estava predito. O próprio Jesu havia profetizado a sua morte e ressurreição. Ele tinha dito aos discípulos: "Eis que estamos subindo a Jerusalém, e o Filho do Homem vai ser entregue aos chefes dos sacerdotes e aos escribas. Eles o condenarão à morte e o entregarão aos pagãos para ser escarnecido, açoitado e crucificado. Mas ao terceiro dia ressuscitará" (Mt 20,18-19).

 

    Os fariseus sabiam desta profecia de Jesus. Tanto é que, na morte de Cristo, foram dizer a Pilatos: "Senhor, lembramo-nos de que aquele impostor, quando ainda vivia, disse: Depois de três dias, ressuscitarei. Ordena, pois, que o sepulcro seja guardado com segurança até o terceiro dia, para que os discípulos não venham roubá-lo e depois digam ao povo: "Ele ressuscitou" (Mt 27,62-66).

 

    Pilatos deu quatro soldados. Mas, enquanto estes guardavam o túmulo, Jesus ressuscitou. Portanto, os próprios guardas acabaram sendo testemunhas de que não houve fraude na ressurreição do Senhor. Em seguida, Cristo Ressuscitado apareceu a seus discípulos e às piedosas mulheres (Jo 20). Isto aconteceu por volta do ano 30, sendo Tibério imperador de Roma, e Pôncio Pilatos, procurador da Judéia.

 

 

JESUS DÁ PODER AOS APÓSTOLOS

 

    Jesus veio ao mundo para salvar a humanidade toda. Ele queria que a graça da Salvação chegasse a todos os povos, de todos os tempos. Por isso Ele fez a Igreja e passou para ela a sua missão recebida do Pai. E prometeu estar com ele até o fim do mundo. Jesus deu este mandato após a sua Ressurreição, de maneira solene e pública, sobre um monte que Ele havia indicado aos onze apóstolos. E o Senhor lhes falou que fazia aquilo como Messias, isto é, disse que tinha todo o poder de Deus, na terra e no céu, e por isso lhes dava a sua missão. Diz o Evangelho:

 

    "Os onze discípulos foram para a Galiléia, para o monte que Jesus lhes tinha indicado. E, vendo-o, o adoraram. Alguns, porém, duvidaram. Aproximou-se deles Jesus e lhes falou nestes termos: Todo o poder me foi dado, no céu e na terra. Ide, portanto, e fazei que todos os povos se tornem meus discípulos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-os a observar tudo quanto vos ordenei. E eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos séculos" (Mt 28,16-20).

 

    A missão dos Apóstolos era a mesma de Jesus: anunciar o Evangelho, perdoar os pecados, batizar, abençoar, curar os enfermos, presidir a Ceia Eucarística, consolar os tristes, dar o Espírito Santo às pessoas e conduzir a Igreja.

 

    Jesus quis continuar no meio de seu Povo por meio dos apóstolos. Quando os enviou a pregar a mensagem do Reino dos céus, o Senhor lhes disse: "Quem vos ouve, a mim ouve; quem vos rejeita, a mim rejeita; e quem me rejeita, rejeita o Pai que me enviou" (Lc 10,16).

 

    Aos apóstolos, Jesus deu o poder de resolverem os problemas dos fiéis e da Igreja como se Ele mesmo estivesse resolvendo. Disse-lhes o Senhor: "Em verdade vos digo: tudo o que ligares na terra, será ligado no céu; e tudo o que desligares na terra, será desligado no céu" (Mt 18,8).

 

 

A PEDRO É DADA A PRIMAZIA

 

    Lendo o Novo Testamento, vemos que São Pedro teve sempre uma liderança sobre os companheiros. Começa por isto: quando os evangelistas citam os nomes dos Apóstolos, ele vem em primeiro lugar (cf. Mt 10,2; Mc 3,16; Lc 6,14; At 1,13). São Mateus diz de propósito: "Eis os nomes dos doze Apóstolos: primeiro Simão, chamado Pedro..."

 

    No Evangelho escrito por São João, vemos que Jesus tinha em sua mente o nome de Pedro, como alguém que estava em seus projetos divinos para uma função especial, já antes de Pedro conhecer Jesus. Isto aparece no primeiro encontro que os dois tiveram. "Fitando nele o olhar, Jesus lhe disse: Tu és Simão, o filho de João, mas irás chamar-te Cefas, que significa Pedra" (Jo 1,42b).

 

    Mais tarde, Jesus disse abertamente a Pedro, diante dos outros Apóstolos: "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e o poder do Maligno não dominará sobre ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus. Tudo o que ligares na terra, será desligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus" (Mt 16,18-19).

 

    Aqui Jesus promete fazer de Pedro a pedra "base" de sua Igreja e também fala que lhe vai dar as "chaves" do Reino dos Céus, isto é, o poder de governar a Igreja. E depois, estando para subir aos céu, Jesus entregou a Pedro a chefia da sua Igreja, ordenando que ele fosse o pastor de seus "cordeiros" e de suas "ovelhas". Esta expressão (cordeiros e ovelhas) significa a totalidade do rebanho (cf. Jo 21,15-17).

 

    Em outro lugar, Jesus deu a Pedro, expressamente, uma responsabilidade sobre os outros Apóstolos. O Senhor lhe disse: "confirma os teus irmãos!" (cf. Lc 22,31-32). Trata-se de confirmar a fé, sendo para todos um sinal de unidade, em nome de Jesus Cristo.

 

    E, lendo o Livro dos Atos, vemos que São Pedro exerceu sempre este "serviço" de governar a Igreja e foi bem aceito por todos. Veja, por exemplo, a escolha de Matias (At 1,15s), o Concílio de Jerusalém (At 15) e outras passagens.

 

 

O PENTECOSTES

 

    O Livro dos Atos diz que Jesus permaneceu na terra pelo período de "40 dias" após a sua ressurreição. Em seguida, subiu ao céude onde enviou o Espírito Santo aos Apóstolos, no dia de Pentecostes. O Pentecostes já existia. Era uma festa dos judeus, celebrada 50 dias depois da Páscoa. Inicialmente, era a Festa das Colheitas. Mais tarde, passou a ser a comemoração da Aliança.

 

    Para os cristãos, o Pentecostes ficou sendo a festa da vinda do Espírito Santo. Nesse dia, os Apóstolos estavam reunidos no Cenáculo, quando receberam o Espírito Santo, conforme a promessa feita por Jesus (cf. João 16,5-13).

 

    "De repente, veio do céu um ruído, como se um impetuoso vendaval, e encheu a casa onde eles estavam. E apareceu uma especie de línguas de fogo, que se distribuíram e foram pousar sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito os impelia a que falassem" (At 2,2-4).

 

    Nesse dia, Jerusalém estava repleta de peregrinos. Eram judeus dispersos que vinham de todas as partes do mundo para a festa de Pentecostes. Por isso, havia ali: partos, medos, elamitas, romanos, cretenses, gente da Capadócia, da Mesopotâmia, do Ponto, da Ásia, do Egito, da Frígia...

 

    Então os Apóstolos, cheios do Espírito Santo, saíram à praça, e Pedro se pôs a falar de Cristo Ressuscitado e a convidar aqueles judeus para se converterem. Muitos se converteram. Umas três mil pessoas receberam o Batismo e se agregaram ao grupo dos cristãos.

 

    Aquele acontecimento não foi um fato isolado. Foi, sim, ponto de partida para a difusão da Igreja pelo mundo todo e para todas as gerações. Pedro disse que o Espírito Santo não era só para os judeus que estavam ali, mas também "para seus filhos, para os que estavam longe e para todos quanto fossem chamados por Deus nosso Senhor" (Leia At 2,1-41).

 

 

A COMUNIDADE DE JERUSALÉM

 

    Depois que Jesus subiu ao céu, os Apóstolos permaneceram em Jerusalém cerca de três anos, conforme recomendação do Senhor. Aí se formou a primeira comunidade cristã. Muitos daqueles fiéis conheceram Jesus pessoalmente. Os Apóstolos faziam parte da comunidade. Eles davam testemunho da ressurreição do Senhor. O centro da vida comunitária era Cristo ressuscitado. O Espírito Santo unia e animava a todos. Eles aguardavam para breve o retorno de Jesus. Os pontos em destaque na comunidade eram estes:

    a) todos perseveravam no ensino dos Apóstolos,

    b) celebravam a Eucaristia (fração do pão),

    c) eram assíduos na oração,

    d) repartiam seus bens com os necessitados,

    e) tinham "um só coração e uma só alma",

    f) Deus fazia milagres por meio dos Apóstolos,

    g) a comunidade aumentava cada dia.

 

    Quanto ao ingresso na comunidade, deu-se até um fato inpressionante. É o caso da Ananias e Safira, um casal que tentou enganar São Pedro na partilha dos bens. Resultado: caíram mortos aos pés do Apóstolo (cf. At 5,1-10).

 

    O aumento da comunidade fez com que os Apóstolos escolhessem "sete homens de boa reputação, repletos do Espírito Santo e de sabedoria", para serem diáconos. O diácono exerce um "serviço" ou ministério na comunidade. Para isso é consagrado ou ordenado. Os Apóstolos oraram e impuseram as mãos sobre os sete, e eles foram ordenados. Seus nomes: Estêvão, Filipe, Nicanor, Prócoro, Timon, Parmenas e Nicolau (cf. At 6,3-6).

 

    Nesse tempo desencadeou-se forte pereseguição contra a comunidade cristã, e Estêvão foi o primeiro mártir da Igreja, depois de Jesus. Disto falaremos a seguir.

 

 

 

Lição 3

 

34: A PRIMEIRA PERSEGUIÇÃO


    Após o Pentecostes, os Apóstolos saíram à praça e anunciaram que Jesus havia ressuscitado. Tais pregações foram confirmadas com milagres. Houve também muitas conversões, e o número de fiéis foi aumentando. Isto desagradou aos chefes dos judeus. Eles se revoltaram e partiram para a violência.

    Pedro e João foram presos, açoitados e proibidos de falar sobre Jesus. Mas Pedro, cheio do Espírito Santo, deu aos fariseus esta dura resposta: "é preciso antes obedecer a Deus que aos homens" (At 5,29).

    Os chefes dos judeus queriam matar os Apóstolos. Mas um fariseu muito culto, chamado Gamaliel, disse ao Sinédrio: "Deixem esses homens em paz. Se o ensinamento deles vem dos homens, vai acabar-se em nada. E se vem de Deus, vocês não conseguirão acabá-lo nunca" (cf. At 5,34-41). Aí Pedro e João foram açoitados e postos em liberdade. Os dois se consideravam felizes por estarem sofrendo pelo nome de Jesus (cf. At 5,41).

    O ódio dos fariseus não era só contra os Apóstolos, mas contra todos os seguidores de Cristo. Por isso, a Comunidade de Jerusalém começou a ser perseguida. O primeiro a testemunhar a fé com o martírio foi Estêvão (um daqueles sete diáconos).

    Falsas testemunhas o acusaram perante o Sinédrio, dizendo que ele andava blasfemando contra Moisés e contra Deus. Cheio do Espírito Santo, Estêvão fez um belo discurso, recordando aos fariseus a História da Salvação. Quando falou de Jesus e do crime dos fariseus, estes não aguentaram: levaram Estêvão para fora da cidade e o mataram.

    Estêvão foi morto a pedradas. Faleceu dizendo duas frases semelhantes às que Jesus havia proferido quando morria na cruz: "Senhor Jesus, recebe o meu espírito!" e "Senhor, não leves em conta o pecado deles" (cf. At 7).

    Entre os mandantes do crime estava um fariseu famoso, chamado Saulo, que depois veio a ser o grande Apóstolo São Paulo.

 

 

 

Lição 4

 

36: SAULO CONVERTE-SE


 

    Saulo era um fariseu culto e radical. Considerava-se correto e cumpridor da lei, segundo os fariseus. Quando perseguia os cristãos, achava que estava prestando um serviço a Deus. Seu ódio contra os discípulos de Jesus não terminou com a morte de Estêvão. Depois disso, "Saulo devastava a Igreja. Entrava nas casas, arrancava homens e mulheres e os metia na cadeia" (At 8,3).

    Como se não bastasse perseguir os cristãos em Jerusalém, Saulo dirigiu-se a Damasco, para trazer algemados os que lá encontrasse. Mas a graça de Deus o esperava no caminho: foi o dia de sua conversão.

    Perto de Damasco, uma luz fortíssima cegou-lhe a vista e o fez cair ao chão. Aí ele ouviu uma voz que lhe dizia: "Saulo, Saulo, por que me persegues?" Era Jesus que lhe falava. Então Saulo converteu-se (cf. At 9,1-19). Falando em Saulo: "Por que me persegues?", Jesus queria dizer que tomava para si as agressões feitas aos seus discípulos. Ele e sua Igreja formam um só corpo, sendo Ele a cabeça e nós os seus membros (cf. Cl 1,18).

    Uma vez convertido, São Paulo tornou-se o evangelizador dos "gentios", isto é, dos pagãos. Colocou todo o seu talento e sua coragem a serviço do Evangelho. Percorreu grande parte do mundo e fundou comunidades. Além de pregar de viva voz, escreveu muitas Cartas às comunidades cristãs. Tais Cartas fazem parte da Bíblia. Têm importante conteúdo de doutrina e pastoral.

    Saulo nasceu na cidade de Tarso, na Cicília (Ásia Menor). Seu pai ocupava cargo elevado. Por isso Paulo tinha o importante título de "Cidadão Romano". E, sendo cidadão, não podia ser açoitado, como foram os outros Apóstolos (cf. At 22,25-29). São Paulo desprezou todas as honrarias humanas. Diante da Graça de Jesus Cristo, tudo isso não passava de "lixo" (cf. Fl 3,4-10).

 

 

Lição 5

 

37: A IGREJA EM ANTIOQUIA


 

    A perseguição desencadeada sobre a Comunidade de Jerusalém acabou trazendo um bem: a rápida difusão da Igreja por outras regiões. O primeiro a sair de Jerusalém foi o diácono Filipe. Ele anunciou o Cristo Ressuscitado na Samaria. Houve muitas conversões. Logo depois dirigiram-se para lá os Apóstolos Pedro e João, para administrar a Crisma àqueles novos cristãos.

 

    São Pedro foi também a Lida, para visitar alguns cristãos. Ali curou o paralítico Enéias. Lida era uma pequena cidade, a poucos quilômetros de Jerusalém. De Lida, Pedro foi chamado para Jope (atualmente Jafa), onde ressuscitou uma menina de nome Tabita. De Jope, São Pedro partiu para Cesaréia, a pedido do Centurião Cornélio. Cornélio era pagão, mas temente a Deus. Ouvindo o Evangelho, converteu-se a Cristo com toda a sua família.

 

    Cesaréia tinha certa importância, pois era porto do mar Mediterrâneo, na Palestina. Ali morava gente graduada. Por exemplo: os procuradores romanos. Depois que Filipe partiu da Samaria, foi para Cesaréia, onde se encontrou com Pedro.

 

    Por esse tempo, outros cristãos saíram de Jerusalém, passaram pela Fenícia, por Chipre e chegaram a Antioquia aí pelo ano 37. De suma importância foi o anúncio do Evangelho em Antioquia. Esta era uma cidade célebre, que se tornou a capital da província romana da Síria no ano 63.

 

    Primeiro anunciaram o Evangelho aos judeus aí residentes, e depois aos gregos. Formou-se, então, uma comunidade cristã de notável grandeza espiritual. Dela participavam "doutores e profetas". Foi aí que os discípulos de Jesus receberam o nome de "cristãos" (cf. At 11,19-26).

 

    Antioquia tornou-se um centro de difusão do Evangelho para o mundo pagão. Ali se encontravam Pedro, Paulo, Barnabé e outros Apóstolos. De metrópole de altos funcionários romanos, passou a ser também a metrópole da Igreja primitiva. Dizem que São Pedro foi responsável pela Igreja de Antioquia durante algum tempo, antes de assumir a sede da Igreja de Roma.

 

 

A IGREJA ENTRE OS PAGÃOS

 

    De perseguidor da Igreja, Paulo tornou-se o maior apóstolo. Anunciou o Evangelho na Judéia, na Galiléia, na Macedônia, na Ásia Menor, na Grécia, na Itália e, provavelmente, na Espanha. Levou a fé a Éfeso, que era famoso centro de idolatria. Aí todos adoravam a deusa Diana. Nessa cidadehavia um industrial chamado Demétrio, fabricante de uns santuários de Diana. Paulo começou a pregar, dizendo que aquelas imagens não eram deuses. Então, vendo que sua indústria iria entrar em crise, Demétrio jogou os ourives e o povo contra Paulo (cf. At 19,21-40).

 

    São Paulo fundou também uma comunidade cristã muito expressiva em Corinto. Corinto era uma cidade rica, graças a seu forte comércio. Era, sobretudo, famosa como centro de corrupção. Ali estava o templo de Vênus com suas mil prostitutas sacerdotisas.

 

    Paulo teve a coragem de anunciar Jesus Cristo em Atenas, a capital da Grécia. Era o berço dos filósofos e dos pagãos orgulhosos. Certo dia, ele foi ao Areópago para proclamar Jesus perante o importante supremo tribunal dos atenienses. Quando falou da ressurreição, os ouvintes não gostaram e mandaram Paulo encerrar seu discurso. Mesmo assim, alguns se converteram, entre eles Dionísio e Dâmaris (cf. At 17,22-34).

 

    Paulo foi terminar sua caminhada em Roma, a capital do paganismo. Mas, quando lá chegou, já existia, em Roma, uma comunidade cristã. Tanto é que, no ano 57, ele havia escrito a essa comunidade a importante Carta aos Romanos. Em Roma, Paulo trestemunhou sua fé com o martírio, aí pelo ano 67, durante o governo de Nero.

 

    Quem havia levado o Evangelho a Roma? Certamente foram alguns daqueles peregrinos "romanos" que estavam em Jerusalém no dia de Pentecostes e que se converteram com a pregação de Pedro. É provável que, também em Antioquia, tenham ido alguns cristãos para Roma, antes de Paulo.

 

 

O SÁBADO E O DOMINGO

 

    No Antigo Testamento, o dia consagrado ao Senhor era o sábado (cf. Ex 20,8-11). Mas Jesus disse que Ele é "Senhor do sábado" (cf. Mt 12,8). Ora, a sua Ressurreição é o maior acontecimento da História da Salvação. Por isso, o dia da Ressurreição de Jesus (que foi um domingo) passou a ser o Dia do Senhor para os cristãos.

 

    São Paulo disse que os cristãos não deveriam ser julgados por questões de festas ou de sábado, porque Jesus Cristo é maior que tudo isso (cf. Cl 2,16). Por essas razões, os cristãos celebravam a Eucaristia no "primeiro dia da semana", isto é, no domingo, em honra de Cristo Ressuscitado.

 

    O Livro dos Atos fala da Eucaristia no domingo. Cita o caso de Paulo. Quando este passou pela cidade de Trôade, presidiu à celebração eucarística num domingo. Houve até um moço que dormiu e caiu da janela do tereiro andar. Assim está escrito: "No primeiro dia da semana, estando nós reunidos para partir o pão..." (cf. At 20,7-12).

 

    Um documento importante da época diz: "Reuni-vos no domingo para partir o pão e dar graças" (Didaqué 14,1). Um escritor pagão chamado Plínio, nascido no ano 62, escreveu ao imperador Trajano: "Os cristãos reúnem-se num lugar determinado, num dia determinado, o que lembra a ressurreição de Cristo".

 

    Outro historiador antigo, chamado Eusébio, escreveu que, no começo, o sábado continuava sendo observado como dia de repouso, mas ao mesmo tempo celebrava-se no domingo o Dia do Senhor, "em memória da Ressurreição do Salvador".

 

    Aos poucos o domingo foi se tornando o dia também do repouso e, assim, passou a substituir o sábado. Inácio de Antioquia, nascido no ano 50, escreveu: "Os judeus que chegaram à nova esperança não celebram mais o sábado, mas observam o domingo, no qual, através de Cristo, surgiu a vida".

 

    Quando o imperador Constantino deu liberdade aos cristãos, o domingo foi oficializado, no Império Romano, como Dia do Senhor. Isto aconteceu no ano 321.

 

 

 

 

 

Lição 6

 

49: O CONCÍLIO DE JERUSALÉM


 

    Os judeus sempre foram apegados à tradição. E uma de suas tradições era a prática da circuncisão. Consistia nisto: uma pequena cirurgia feita nos meninos, ao oitavo dia do nascimento, como sinal de pertença ao povo de Israel.

 

    Quando a Igreja começou a espalhar-se pelo mundo, surgiu o problema da circuncisão: os cristãos judeus queriam que os cristãos vindos do paganismo fossem também circuncidados. A questão teve origem em Antioquia. Os judeus diziam aos cristãos vindos do paganismo: "Se vocês não forem circuncidados segiundo a norma de Moisés, não poderão ser salvos" (At 15,1).

 

    Paulo e Barnabé discordavam. Diziam que para alguém ser salvo, bastaria crer em Jesus e ser batizado. Então os Apóstolos convocaram uma assembléia, em Jerusalém, para resolver a questão. Paulo e Barnabé, com mais alguns irmãos da comunidade, foram designados para levar a Jerusalém o parecer da Igreja de Antioquia.

 

    Na assembléia, São Pedro falou com a autoridade de chefe de toda a Igreja. Sua palavra foi ouvida com atenção e aceita por todos. Ele falou que Deus não queria distinção entre cristãos judeus e não judeus. Disse que a Salvação não vinha da circuncisão, mas da graça de Deus (cf. At 15,7-11).

 

    O Apóstolo Tiago, que era Bispo de Jerusalém, usou da palavra para reconhecer que realmente a palavra de Pedro representava a vontade de Deus. Por isso, nesse dia se pôs um fim à questão. Os Apóstolos fizeram uma carta dirigida à Igreja de Antioquia, dizendo que os cristãos vindos do paganismo não estavam obrigados à circuncisão. Explicaram que o ensinamento errado não partiu deles, mas de pessoas não autorizadas.

 

    Em seguida, Paulo e Barnabé falaram das conversões e das maravilhas que Deus vinha operando junto aos pagãos. Foi este o primeiro "concílio" da Igreja. E a palavra decisiva de Pedro revelou que, de fato, ele exerceu a sua missão de governar a Igreja desde a ascensão de Jesus ao céu.

 

 

 

 

Lição 7

 

64: O INCÊNDIO DE ROMA


 

    Um dos imperadores romanos mais comentados foi Nero. Começou a governar com 17 anos. Dirigiu o poderoso império romano durante 14 anos: de 15/10/54 a 09/06/68. Temendo que seu irmão, Britânico, lhe tomasse o poder, mandou matá-lo. Em seguida, influenciado pela amante, Popéia Sabina, mandou matar seu mestre, Sêneca, e a própria mãe, Agripina. Aí, para justificar seu crime, fez circular a notícia de que sua mãe queria matá-lo. No ano 62 divorciou-se de sua mulher, Otávia, a qual foi morrer exilada na ilha de Pandatária. Em seguida, casou-se com Popéia Sabina, a mulher maldosa que havia tramado tais crimes.

 

    Apesar de todas essas matanças, Nero ainda gozava de prestígio, porque estava fazendo boa administração e tendo ótimo entrosamento com o senado. Tinha diminuído os impostos e alcançado sucesso junto aos povos vizinhos. Os poetas diziam que era um "período de ouro".

 

    Aí ocorreu o célebre incêndio de Roma. Começou na noite de 64 e durou seis dias. Segundo os historiadores, o incêndio foi provocado pelo próprio imperador. Com sua mania de grandeza, Nero queria dar fim aos velhos casarões e construir uma nova Roma, majestosa e artística, à altura de sua vaidade e prepotência.

 

    Quando soube que havia rumores de que ele seria o autor do crime, Nero procurou arrumar logo um "bode espiatório": jogou a culpa sobre os cristãos. E conseguiu provas através de torturas e falsas testemunhas. Tachou os cristãos de "inimigos da humanidade". E assim jogou sobre os inofensivos discípulos de Jesus Cristo, o ódio de muita gente, especialmente da esfera política. Nero tinha poder absoluto. Os imperadores romanos eram chamados "divinos". Estar contra eles era ofensa à divindade e perigo de vida. Por isso, perante aquela maioria pagã, muitos cristãos morreram como "inimigos da humanidade", enquanto Nero passou por defensor de Roma (Isto foi escrito por um historiador daquele tempo, chamado Tácito, em Annales, Livro 15,44).

 

 

NERO PERSEGUE A IGREJA

 

    Depois que Nero conseguiu fazer o povo crer que a culpa do incêndio de Roma recaía sobre os cristãos, nada mais lógico do que mandar executá-los. Então começou a matança dos membros da Igreja, tachados de "inimigos da humanidade". Os tipos de morte eram diversos: dos mais cruéis aos mais gozadores. Uns eram lambuzados com piche  e colocados em ostes, onde ficavam ardendo como tochas para iluminarem as praças durante a noite; outros eram revestidos com peles de animais e soltos no meio de cães ferozes, para serem estraçalhados em espetáculo e servirem de diversão ao público. Outors ainda eram jogados no rio Tibre ou arrastados pelos cavalos velozes do circo romano.

 

    O historiador Tácito conta que Nero ofereceu seu jardim para tais espetáculos. E, a fim de ganhar popularidade, passava pelo meio do povão vestido de auringa (condutor de carruagem do circo romano). Então, o divino imperador era muito aplaudido. Ao narrar os fatos, tácito diz que os cristãos eram sacrificados, "não pelo interesse da nação, mas para satisfazer à crueldade de um homem" (Tudo o que dissemos está contado em Annales, Livro 15,44).

 

    Não se sabe ao certo quantos cristãos morreram nessa perseguição promovida por Nero, que foi a primeira perseguição organizada contra a Igreja. Clemente Romano e Tácito dizem que morreu uma "ingens multitudo", isto é, uma grande multidão. Conta-se também que, além dos que moravam em Roma, foram mortos cristãos de outras partes da Itália.

 

    O império de Nero, porém, não durou muito. Embora continuasse recebendo bajulação e glórias, o poderoso soberano teve contra si muitos conspiradores. Entre esses conspiradores estava Oto, primeiro marido de Popéia Sabina. Deposto por Galba, Nero se refugiou numa vila a seis quilômetros de Roma. E, ao ver que se aproximavam os soldados para executá-lo, suicidou-se.

 

 

 

 

 

Lição 8

 

67: PEDRO E PAULO SÃO MORTOS


 

    Lendo o Livros dos Atos, vemos que São Pedro sempre exerceu a primazia da Igreja. nos Evangelhos, seu nome é o primeiro entre os Apóstolos; é ele quem toma a palavra em nome dos companheiros, ao saírem do Cenáculo; quando o Sinédrio prendeu os Apóstolos, é Pedro quem fala por eles; no Concílio em Jerusalém, é ele quem decide a questão da circuncisão. São Pedro foi sempre ouvido e acatado por toda a Igreja, como sinal da unidade.

 

    Seu último apostololado foi em Roma, onde sofreu o martírio, depois de passar pelo Cárcere Mamertina. Dizem que aí ele converteu os dois carceireiros: Processo e Martiniano. Segundo alguns historiadores (Orígenes, Tertuliano e Eusébio), São Pedro foi crucificado na Colina Vaticana, perto do Circo de Nero. Dizem que ele quis ser crucificado de cabeça para baixo a fim de significar que era inferior ao Mestre. No lugar onde sepultaram o seu corpo, mais tarde o imperador Constantino mandou construir a famosa Basílica de São Pedro.

 

    O outro mártir notável desse tempo é o Apóstolo São Paulo. Foi preso na Judéia por causa do Evangelho. Mas não quis ser julgado pelos judeus. Apelou ao rei Agripa para ser julgado por César. Era um direito que ele tinha por ser cidadão romano. Então foi enviado a Roma. Depois de passar pelo Cárcere Mamertina, como Pedro, foi degolado na Via Ostiense, fora dos muros da cidade, onde está hoje a magnífica Basílica de São Paulo.

 

    Ainda exite, em Roma, o Cárcere Mamertina, para ser visitado pelos turistas. Logo na entrada, há duas colunas de granito com os nomes das pessoas mais notáveis que ali estiveram encarceradas à espera da morte. Na primeira coluna estão os nomes dos inimigos políticos de César; nas segunda, os nomes dos inimigos religiosos. Aí a lista começa com Pedro e Paulo.

 

    Dessa primeira perseguição organizada pelo Império Romano, são estes os dois mártires mais conhecidos. Porque são os baluartes da Igreja: Pedro, o primeiro Papa, e Paulo, o maior evangelizador. Isto aconteceu durante o governo de Nero, por volta do ano 67.

 

 

CAUSAS DA PERSEGUIÇÃO

 

    Por que os romanos perseguiram cruelmente os cristãos? Esta pergunta tem sua razão, pois só a Igreja Católica foi perseguida pelos poderosos imperadores romanos. Deixando de lado as loucuras de Nero e o abuso de poder de outros soberanos da velha Roma, os romanos sabiam conviver com a religião de todos os povos vencidos, inclusive com os judeus que adoravam o único e verdadeiro Deus: Javé. No ano 70, o general Tito cercou Jerusalém e invadiu a cidade. Morreram milhares de judeus. Ficou tudo arrasado, como Jesus tinha predito (cf. Lc 19,41-44). Mas a causa desta guerra não foi a religião, e sim a rebelião dos judeus contra a dominação dos romanos sobre Israel.

 

    Por que só a Igreja foi perseguida? É muito simples. Porque a Igreja não era fechada em si mesma. Ela havia recebido de Jesus a missão de anunciar o Evangelho a todos os povos. Devia converter o mundo, fazer discípulos. E isto criava um problema. Mexia com a vida dos pagãos. Representava um perigo para o Estado, que tinha suas divindades e seu culto oficial. Em nome de Cristo ressuscitado, a Igreja condenava aquela idolatria, inclusive o culto à pessoa do imperador.

 

    Isto era do conhecimento do povo e das autoridades romanas. Então o cristianismo foi visto como uma "seita" perigosa, atrevida, subversiva, inimiga do império e da própria humanidade. Os cristãos passaram a ser tidos pelos pagãos como "ateus", porque não adoravam os seus ídolos nem queriam ver na pessoa do imperador uma divindade. Isso bastava para que os cristãos fossem odiados e tratados como inimigos que deviam ser eliminados de qualquer maneira.

 

    A situação da Igreja era difícil porque, além dos pagãos, tinha contra si também os judeus, que adoravam o único e verdadeiro Deus, mas não aceitavam Jesus Cristo como Messias e Salvador. Eles tinham crucificado o Senhor e perseguido os cristãos, porque os cristãos anunciavam que Jesus havia ressuscitado e estava vivo.

 

 

CAUSAS DO AVANÇO DO CRISTIANISMO

 

    Os cristãos não tinham exército nem poder político. Sua arma não era a espada nem a violência. Eles não agrediam: eram agredidos. Não matavam: eram mortos. Não se vingavam: perdoavam.

 

    Pela lógica deste mundo, a Igreja era para ter-se acabado logo no início. Pois, seu maior adversário era o Império Romano, que possuía exército poderosíssimo e dominava quase todos os povos. No entanto, o Evangelho foi avançando. A pequena comunidade cristã foi crescendo. O imperador Constantino converteu-se. A Igreja venceu.

 

    Como se explica isso? Esse fenômeno tão surpreendente explica-se pelo seguinte: a vida dos pagãos assentava-se sobre a mentira das fábulas, enquanto a vida dos cristãos apoiava-se na verdade do Evangelho; os pagãos viviam o egoísmo, ao passo que os cristãos se amavam uns aos outros; os deuses dos pagãos não mereciam crédito, porque eram deuses mortos, nascidos na mitologia; enquanto os cristãos punham sua fé em Cristo Ressuscitado, Deus vivo e verdadeiro. Por isso, eram capazes de testemunhar sua fé com a vida. Eles diziam que "o sangue dos mártires era semente de novos cristãos".

 

    Os pagãos perceberam também que a moral decorrente do Evangelho era mais elevada que a moral ensinada pela sua filosofia. O cristianismo valorizava a pessoa humana: o pobre, o escravo, a mulher. Os cristãos tinham respeito uns para com os outros. Entre eles havia compreensão e perdão, caridade e misericórdia, partilha de bens e ajuda fraterna.

 

    Por isso o Cristianismo foi avançando. Penetrou entre pobres e ricos, como o filósofo Dionísio (do areópago de Atenas), o procônsul Sérgio Paulo, Pompília Grecina, os Flávios e os Acílios, o senador Apolônio, Tito Flávio Clemente e sua esposa Domitila, que pertenciam à corte romana. Mais tarde, muitos oficiais do exército passaram também para o cristianismo, entre eles São Sebastião.   

 

 

 

 

Lição 9

 

107: INÁCIO DE ANTIOQUIA


 

    Santo Inácio era bispo de Antioquia. Foi martirizado no governo de Trajano (98-117). Naquele tempo havia um escritor famoso chamado Plínio, o Moço. Era advogado, pagão, de muita confiança do imperador. Exerceu cargos elevados na política de Roma. Veio a ser até governador da Bitínia. Estando no dever de julgar os cristãos, mas vendo que eram inocentes, Plínio escreveu uma carta a Trajano, na qual defendeu os cristãos. Nessa carta, ele dizia ao imperador:

    "Afirmam (os cristãos encarcerados) que o seu único crime consistia em reunir-se num dia determinado, antes do nascer do sol, para adorarem a Cristo, como seu Deus, e cantarem hinos em sua honra. Comprometem-se por juramento, nas suas reuniões, a não praticar crimes, a evitar furtos, violências e o adultério, e a não renegar a sua fé. Depois voltam a reunir-se para tomarem juntos um alimento comum e inocente."

    Por isso, Trajano foi tolerante para com os cristãos. Ele fez sua aquela lei de Domiciano: "Não se vai em busca dos cristãos; só serão julgados, se denunciados." Houve então um período de paz para a Igreja.

 

    Mas Inácio foi denunciado como cristão. Seu julgamento se deu em Antioquia. E, como permanecesse firme na fé, foi condenado à morte. Devia ser entregue às feras, no circo romano. Isto fazia parte dos espetáculos que Trajano estava dando em Roma, para comemorar suas vitórias nas campanhas bélicas.

 

    A viagem foi demorada. E Inácio aproveitou o tempo para escrever sete cartas às comunidades cristãs, animando-as na fé. Numa dessas cartas, ele se dirige à comunidade de Roma, dizendo que é a "Igreja favorita de Deus, esclarecida pela sua luz", e que deve ser respeitada porque "preside na caridade" toda a Igreja. Santo Inácio fala para não se preocuparem com a sua sorte, pois ele vai ser o "trigo moído pelos dentes das feras", e feliz oferenda a Deus. E assim morreu, diante de um numeroso público. Era o ano de 107.

 

 

AS CATACUMBAS

 

    Os turistas que vão a Roma têm um lugar histórico para visitar: as catacumbas. São cemitérios subterrâneos, construídos na periferia da velha Roma. Ali se encontram galerias enormes, subterrâneas, com vários andares de sepulturas. Mas estão todas vazias. Os corpos ali sepultados foram roubados pelos bárbaros, que invadiram Roma nos séculos V e VI. Os invasores levaram para si aquelas "relíquias", porque sabiam que muitos corpos eram de santos.

 

    Os cristãos adotaram as catacumbas para seus mortos porque era um lugar respeitado pelos perseguidores da fé. Os romanos tinham grande respeito pelos mortos. Permitiam que as famílias organizassem cooperativas funerais. Os cemitérios gozavam de paz. Lá os cristãos podiam reunir-se, fazer os sepultamentos com orações e proclamação da Palavra de Deus. Nas catacumbas eles ficavam à vontade para orar pelos seus falecidos. Além de "oratórios", elas serviam de refúgio para os cristãos por ocasião das perseguições violentas.

 

    Também depois das perseguições, as catacumbas continuaram sendo usadas. E até foram ampliadas, porque, com a liberdade religiosa dada por Constantino, aumentou muito o número de cristãos. As catacumbas perderam sua função de sepultura aí pelo século quinto, com a decadência do império.

 

    A catacumba mais notável é a de São Calisto, junto à Via Ápia. É como uma cidade subterrânea, onde se encontravam monumentos históricos importantes, inclusive o túmulo de São Calisto. Depois vêm as catacumbas de Santa Priscila e de Santa Domitila (Flávia Domitila). Nesta foi sepultada a família dos Flávios, que eram parentes do imperador Vespasiano.

 

    Às vezes, a sepultura de uma família dava origem a uma catacumba. Devido ao espírito de fraternidade dos cristãos, ao lado de uma família da Igreja iam sendo sepultados outros irmãos na fé. Assim deve ter acontecido com as catacumbas de Flávia Domitila que, inicialmente, reunia as sepulturas dos Flávios.   

 

 

 

 

Lição 10

 

124: OS APOLOGETAS


 

    Os cristãos eram perseguidos porque não adoravam os deuses pagãos e também porque eram caluniados. Toda corte tem os fofoqueiros e bajuladores do rei. Por isso, muitas notícias a respeito dos cristãos chegavam ao imperador distorcidas. Algumas eram totalmente falsas.

 

    Conta-se que alguns pagãos escreviam ao imperador dizendo que os cristãos, em suas reuniões litúrgicas, praticavam coisas horrorosas. Por exemplo: sacrificavam crianças e bebiam seu sangue, viviam em promiscuidade e praticavam o sexo entre os parentes... além dos atos de ateísmo (não crer nos deuses dos pagãos), que era um crime contra a humanidade.

 

    Diante disso, surgiram os apologetas ou apologistas cristãos. Estes defendiam o cristianismo, procurando desfazer as mentiras e mostrar o lado positivo das comunidades da Igreja : o amor, a fé, a justiça, a verdade, a honestidade, o respeito para com os outros, inclusive pelo imperador e autoridades legítimas. Mostravam que a fé em Jesus Cristo era vivida no amor e não no ódio.

 

    Os escritos dos apologetas (cartas ou livros) muitas vezes eram dedicados ou dirigidos aos próprios imperadores, para que estes os lessem e tomassem conhecimento da verdade. Eis os principais apologetas: Quadrato, que escreveu em 124, e dedicou sua obra ao imperador Adriano; Aristides, que escreveu entre os anos 117 a 138, e dedicou seus escritos também a Adriano; Militão de Sardes, que dirigiu sua apologia ao Imperador Marcos Aurélio. Outros apologetas: Taciano, Atenágoras, Arnóbio...

 

    Os dois apologetas mais famosos são: Justino e Tertuliano. São Justino é chamado o "rei dos apologistas". Era filósofo e escritor muito conceituado. Em 153, dedicou sua primeira apologia a Marco Aurélio. Nela, não só defende a Igreja, mas afirma a divindade de Jesus Cristo. Tertuliano era jurista famoso e grande orador de Cartago. A seguir, veremos um trecho de sua apologia escrita em 197.

 

 

TERTULIANO DEFENDE OS CRISTÃOS

 

Os cristãos eram atacados pelos pagãos por se reunirem e rezarem, por terem uma "caixinha" da comunidade e pelas refeições em comum. Então Tertuliano, jurista e orador cristão, fez a defesa da Igreja. Eis alguns trechos de sua "apologia":

"Somos um corpo, pelo sentimento da mesma crença, pela unidade da disciplina, pelo vínculo da mesma esperança. Formamos uma unidade e uma congregação para cercar a Deus com nossas orações, como um exército em formação cerrada... Nós nos reunimos para ler as Sagradas Escrituras. Os conhecimentos do presente nos obrigam a procurar nelas, sejam advertências para o futuro, sejam exemplos do passado. Com estas santas palavras nutrimos nossa fé, levantamos nossa esperança, reforçamos nossa confiança e aperfeiçoamos também nossa disciplina, gravando no coração os seus preceitos. É ainda nessas reuniões que se fazem exortações e correções em nome de Deus...

 

Se existe entre nós uma espécie de caixa comum, ela não é constituída por quantias honorárias, pagas pelos eleitos, como se a religião fosse comprada. Cada um dá sua contribuição modesta, num dia fixo do mês ou quando quer, e se quiser e puder. Ninguém é forçado. A contribuição é livre. É uma oferta que parte da fé. De fato, não se usa desse dinheiro para festas e diversões, mas para nutrir e sepultar dignamente os pobres, para socorrer meninos e meninas que não têm recursos dos pais, ou os servos idosos, ou ainda os náufragos. E se alguns cristãos sofrem nas minas, nas ilhas, nas prisões, unicamente por causa do nome de nosso Deus, eles se tornam os filhos queridos da religião que professam. É essa prática da caridade que, aos olhos de muitos, vem a ser motivo de difamação. Eles dizem: ‘Veja como (os cristãos) se amam uns aos outros!’ — porque eles (os pagãos) se odeiam uns aos outros. Dizem ainda: ‘Veja como eles (os cristãos) estão prontos a morrer uns pelos outros!’ — porque eles (os pagãos) estão prontos, mais do que tudo, a matar uns aos outros.

 

Quanto à nossa refeição, o próprio nome diz o que ela é. Chama-se ‘ágape´, uma palavra grega que significa ‘amor’... Não nos sentamos à mesa antes de ter feito uma oração a Deus. Come-se tanto quanto é preciso para saciar a fome; bebe-se com sobriedade. Saciamo-nos como homens que estão lembrados de que devem adorar a Deus, mesmo durante a noite; conversa-se como gente que sabe que Deus nos escuta" (Apologético, capítulo 39).

 

O GNOSTICISMO

 

    No início do segundo século, alguns cristãos intelectuais começaram a introduzir na Igreja uma heresia chamada Gnosticismo. (Heresia é a negação de uma ou mais verdades da fé.) O gnosticismo era uma mistura de religião e filosofia. A inteligência humana queria fazer a vez da revelação divina. Tentava explicar a fé e seus mistérios por meio de certas filosofias. Os gnosticos viam a Deus mais como uma Verdade a ser conhecida do que como uma Pessoa a ser amada.

 

    Eles achavam que a fé simples, tal qual se encontra no Evangelho, servia para o "povão". Ao lado dessa fé simples, devia haver uma outra, apresentada de maneira científica, ao nível dos intelectuais. Então começaram a "racionalizar" os mistérios da fé, sobretudo para explicar o problema do mal. Substituíram a simplicidade evangélica por uma filosofia sobre Deus.

 

    Para os gnósticos, a salvação estava mais no conhecimento dos mistérios e das verdades divinas do que na graça de Deus e na fé em Cristo Ressussitado. O gnosticismo foi uma reação da inteligência orgulhosa diante da simplicidade evangélica.

 

    Segundo os gnósticos, o mundo não teria sido criado diretamente por Deus, mas através de "intermediários"; a redenção da humanidade teria sido realizada pelo "Pensamento Divino", e não pelo sangue de Jesus; Deus seria uma "Idéia" impessoal, e não um Pai amoroso e providente.

 

    Os defensores do gnosticismo mais conhecidos foram Valentim e Cerdon. O Papa Higino e outros Papas fizeram tudo para que os gnósticos vissem seu erro, mas pouco conseguiram.

 

    As "idéias" do gnosticismo já existiam no tempo dos Apóstolos, pois a Carta aos Colossenses alerta os cristãos, dizendo: "Tomai cuidado para que ninguém vos seduza com vãs e enganosas filosofias, segundo a tradição dos homens e a sabedoria deste mundo, e não segundo Cristo" (Cl 2,8).

 

 

 

 

 

Lição 11

 

175: MONTANO E SUAS REVELAÇÕES


 

    Aí pelo ano 175, havia na Frígia (Ásia Menor) um sacerdote pagão chamado Montano. Ele cultuava as divindades de seu país: o deus Átis e a deusa Cibele. Um dia Montano converteu-se ao cristianismo. Mas as raízes das idéias pagãs ficaram em sua cabeça. Por isso, passado algum tempo, ele voltou a seguir as inspirações de seus deuses. E acabou fundando uma seita dentro da Igreja, que se chamou Montanismo.

 

    Montano considerava-se iniciador de um novo Pentecostes. Dizia que o Espírito Santo havia descido sobre ele para revelar-lhe as coisas que iriam acontecer. Ele tinha duas discípulas: Priscila e Maximila. Elas julgavam-se iluminadas por Deus e começaram a profetizar sobre o fim do mundo e o breve retorno de Jesus à terra, para um reinado de mil anos.

 

    O Montanismo espalhou-se rapidamente, começando pela Ásia, onde o povo era mais místico e gostava de revelações. Os montanistas afastaram-se da Igreja e passaram a profetizar segundo as revelações que recebiam diretamente de "Deus".

 

    A novidade da seita atraiu muita gente. Até um cristão culto como Tertuliano deixou-se levar por ela. O seu fanatismo impunha ao povo exagerada penitência e rigoroso jejum. Chegou a ensinar que as pessoas deviam renunciar ao casamento, em preparação ao retorno de Jesus à terra.

 

    Montano pregava um moralismo que ia contra o Evangelho. Ele dizia que os pecados mais graves não deviam ser perdoados. Tais pecados eram: idolatria, apostasia, adultério, homicídio... O rigorismo da seita ia ao ponto de proibir a seus adeptos que aceitassem cargo público ou que as mulheres usassem qualquer adorno.

 

    A comunidade cristã de Lion, perturbada com a grande confusão causada pela seita, enviou a Roma o seu sábio bispo Santo Irineu com uma carta ao Papa, pedindo orientação. A "Didaqué", que era uma espécie de catecismo da Igreja Primitiva, alertou os fiéis sobre o perigo do Montanismo. Finalmente, o Papa São Zeferino (199-217) condenou a seita.

 

 

 

 

Lição 12

 

217: HIPÓLITO, O PRIMEIRO ANTIPAPA


 

    Santo Hipólito era um sacerdote romano muito culto. Ocupava cargo de relevo junto ao Papa Vítor I. Seu nome consta nas listas como primeiro antipapa, embora não haja provas de que ele tenha atribuído a si o título de Papa. Na verdade, foi mais adversário do que antipapa.

 

    Hipólito se revoltou contra o Papa São Zeferino (199-217) devido a uma heresia chamada monarquianismo, que negava a existência de Três Pessoas na Santíssima Trindade. Ensinava que só havia a Pessoa do Pai; o Filho e o Espírito Santo eram apenas "modalidades" da manifestação do Pai. Por isso, tal heresia chamou-se também modalismo. Teve ainda o nome de sabelianismo, porque seu maior pregador chamava-se Sabélio.

 

    Duas pessoas se manifestaram contra tal heresia: Tertuliano e, sobretudo Hipólito. Este chegou a atacar o Papa Zeferino, pois achava que o Papa estava fazendo média com os hereges, porque não os condenava. É claro que o Papa Zeferino não concordava com a heresia, mas também não era de seu feitio ficar fazendo polêmica e lançando excomunhões. Ele era um homem simples, pacífico, de linha moderada. Ensinava a verdadeira doutrina, mas não conbatia diretamente a heresia.

 

    Além do sabelianismo, o Papa teve que enfrentar o montanismo, que vimos na lição anterior. Mais ainda: nesse período, levantou-se nova perseguição contra a Igreja. Muitos cristãos testemunharam sua fé com o martírio. Os mais famosos foram: Santas Perpétuas e Felicidade, São Clemente de Alexandria e São Leônidas, pai de Orígenes.

 

    Morto São Zeferino (217), foi eleito Papa São Calisto. Houve um período de paz externa durante os imperadores Heliogábalo e Alexandre Severo, mas permaneceram os ataques de Hipólito, porque São Calisto seguia a linha moderada de seu antecessor. Na verdade, Calisto já havia sido atacado por Hipólito juntamente com o Papa Zeferino, porque era secretário de São Zeferino, que o tinha apoiado para ser o novo Papa. Portanto, além da questão da heresia, devia entrar também o ciúme.

 

 

HIPÓLITO E OS ANTIPAPAS

 

    Hipólito era da "linha dura". Queria que a Igreja negasse o perdão aos hereges e aos apóstatas. (apóstatas ou lapsos eram aqueles que negavam a fé em Jesus Cristo diante das torturas.) Por isso, Hipólito atacou os Papas Zeferino e Calisto, porque estes usavam de tolerância. Contudo, Hipólito acabou entrando na misericórdia de Deus, e veio a ser santo. Foi assim:

 

    O Papa Calisto I faleceu no ano 222; sucedeu-o Santo Urbano (222-230); em seguida veio o Papa São Ponciano (230-235). Neste ano faleceu o imperador Alexandre Severo, e Maximino Trácio assumiu o império. Maximino recomeçou as perseguições contra a Igreja. Ele mandou Ponciano e Hipólito para o exílio. Foram para os trabalhos forçados numa mina da Sardenha.

 

    São Ponciano foi o primeiro Papa deportado. E, ao partir para o exílio, teve um gesto de grande amor à Igreja: ele renunciou ao cargo de Papa, para que os cristãos pudessem eleger outro Papa, e não ficassem desorientados. Esse gesto nobre de Ponciano deve ter comovido o coração duro de Hipólito, o qual se reconciliou com a Igreja. Aí os partidários de sua linha dura lhe perguntaram: "Agora, a quem devemos seguir?" E Hipólito respondeu-lhes: "Sigam o Papa. É o único guia".

 

    Daí para frente, ao longo da história da Igreja, vieram muitos antipapas. O último foi Félix V (1439-1449). Mas ninguém deve escandalizar-se com a existência dos "antipapas". Estes não governavam a Igreja. A Igreja sempre foi governada pelos Papas legítimos. Um Papa verdadeiro sucedia a outro verdadeiro. Os antipapas entravam por ambição pessoal ou pela política. Às vezes eram impostos pelo poder das armas. Mas logo eram depostos, como foi o caso de Constantino de Nepi (768). Os antipapas eram falsos papas, ou concorrentes ilegais, que pretendiam se apossar da Cadeira de Pedro a qualquer custo. Em geral, não tinham capacidade para conduzir a Igreja.

 

 

 

 

 

Lição 13

 

240: OS MANIQUEUS


 

    Outro mal que se infiltrou na Igreja foi o maniqueísmo. Desta vez o problema não surgiu dentro da comunidade cristã, mas veio de fora. Era uma doutrina de origem pagã. Seu fundador chamava-se Manes ou Mani, um persa nascido na Mesopotâmia por volta do ano 215. Começou a pregar sua doutrina aos 25 anos de idade, por ocasião da coroação do rei Sapor I, em 241.

 

    Manes ensinava que havia dois Princípios criadores: o Princípio do bem e o Princípio do Mal. Deus era representado pelo Bem, e o Diabo representado pelo Mal. Eram duas forças contrárias, as quais lutavam entre si, eternamente. O Maniqueísmo atribuía ao Demônio um poder divino, pois ensinava que o Princípio do Mal era eterno como o Princípio do Bem. Era como se houvessem dois deuses, ambos eternos. Os dois haviam criado o mundo. Um era o Deus do Bem, o outro o Deus do Mal.

 

    Ora, essa doutrina está errada. Não pode haver dois deuses. O verdadeiro Deus é absoluto. Não pode ser dividido com outro "deus", pois deixaria de ser Deus. Sabemos que o Demônio é uma "criatura", e não criador. Foi criado por Deus (não como Diabo, porque Deus não cria o mal). O Demônio era um anjo bom que se revoltou contra Deus. Foi expulso do céu e se tornou inimigo do Bem (cf. Ap 12,7-9).

 

    Manes formou uma verdadeira escola para difundir suas "revelações", recebidas aos doze anos de idade. Seus seguidores adotavam uma disciplina rigorosa, para poderem fazer frente às forças do Mal. Chamavam-se "eleitos" ou santos. Os próprios pagãos combateram o maniqueísmo, porque tal doutrina levava seus seguidores a um desastroso pessimismo.

 

    Manes foi morto por ordem do rei da Pérsia, Barã I. Aí a política entrou no meio. Os árabes apoiaram os maniqueus, e a seita espalhou-se até no Ocidente. Infiltrou-se no Budismo e no Cristianismo, criando problemas para a Igreja. Santo Agostinho, na sua juventude, foi ardoroso maniqueu. Mas, depois de convertido, combateu a heresia.

 

 

 

 

 

Lição 14

 

250: O ANTIPAPA NOVACIANO


 

    Durante a perseguição do Império Romano, milhares de cristãos testemunharam sua fé com o martírio. Mas havia também alguns que, diante da tortura e da ameaça de morte, fraquejavam na fé e adoravam os deuses dos pagãos. Tais cristãos eram chamados "lapsos", isto é, "caídos".

 

    Muitos desses lapsos arrependiam-se dos pecados e pediam para voltar à sua comunidade. A Igreja os aceitava, depois de rigorosa penitência. Mas, por volta do ano 250, um sacerdote chamado Novaciano se opôs a essa atitude misericordiosa da Igreja. Ele queira uma Igreja severa e pura, como Hipólito (cf. lição 12).

 

    Acontece que, nesse tempo, devia ser escolhido um novo Papa. E o candidato indicado era Cornélio, conhecido como indulgente, favorável à readmissão dos lapsos. Ora, Novaciano era ambicioso e pretendia ser Papa. Por isso, ele e seu partido se opuseram à eleição de Cornélio, alegando que este iria desmoralizar a Igreja.

 

    Mas, apesar dessa oposição, Cornélio foi eleito Papa pela grande maioria. A divisão, porém, continuou. Até se agravou mais ainda, porque Novaciano foi ordenado bispo por três bispos da linha dura. Aí sua prepotência aumentou. Os rigoristas se ajuntaram a ele e formaram a oposição organizada contra o Papa Cornélio. Estava, pois, iniciado um cisma, sendo Novaciano o segundo Antipapa. Diante disso, o Papa Cornélio convocou um sínodo com 80 bispos, e excomungou Novaciano.

 

    Nesse tempo, surgiu outro problema: uma grande peste em Roma. E o imperador Galo jogou a culpa do flagelo sobre os cristãos. Desencadeou-se mais uma perseguição contra a Igreja. Cornélio foi desterrado e faleceu no exílio. Foi Papa somente 15 meses. Era o ano 253.

 

    A Igreja, porém, continuava a crescer, apesar das perseguições. Naquele ano, a comunidade cristã de Roma chegou a ter 30 mil fiéis, vários bispos, 46 padres, 7 diáconos, 7 subdiáconos, 42 acólitos e 52 leitores. Socorria 1.500 viúvas e indulgentes.

 

 

 

 

 

Lição 15

 

254: CIPRIANO E ESTÊVÃO


 

    Muitos pagãos convertidos conservavam certos hábitos do paganismo. E isto podia gerar algum cisma ou heresia. Portanto, além do inimigo externo (paganismo), a igreja tinha também inimigos internos: os cismas e as heresias. (Cisma é um rompimento na unidade da Igreja; heresia é a negação de uma ou mais verdades da fé.)

 

    Nesse tempo, surgiu um problema quase inexplicável: São Cipriano, que tinha sido o maior defensor do Papa Cornélio na questão dos lapsos, passou a discordar do Papa, sobre o mesmo assunto. Ele (Tácito Cipriano) era bispo de Cartago. Tinha escrito um livro sobre a unidade da Igreja. Afirmava com unhas e dentes que o Papa era o sucessor de Pedro e sinal da unidade na Igreja. São de Cipriano estas frases: "Quem abandona a sede de Pedro, sobre a qual está fundada a Igreja, como pode afirmar que está na verdadeira Igreja?" E ainda: "Não pode ter Deus por Pai quem não tem a Igreja por mãe".

 

    Pois bem, depois de tudo isso, Cipriano achou que os lapsos para serem readmitidos na Igreja, deviam ser batizados de novo. O Papa Estêvão discordou, e definiu com firmeza: "Se alguém vier ter convosco, arrependido da heresia, nada deveis acrescentar contra a tradição em vigor. Deveis limitar-vos a impor-lhe a mão pela penitência" (dar-lhe o perdão).

 

    No entanto, Cipriano não ficou satisfeito. Ele reuniu um sínodo em sua diocese para reafirmar sua posição pastoral. Mas, por graça de Deus, morreu santamente. Se errou, lavou seu pecado no sangue do martírio, durante a perseguição do imperador Valeriano. O Procônsul Galério Máximo proferiu a santença, dizendo: "Ordenamos que Tácito Cipriano seja morto pela espada!" E o corajoso Cipriano respondeu com a firmeza de herói: "Demos graças a Deus!"

 

 

OS IMPERADORES QUE MAIS PERSEGUIRAM

 

    A Igreja foi perseguida durante dois séculos e meio: de Nero até a conversão de Constantino (ano 312). Mas no meio desse tempo houve períodos de relativa paz. Alguns imperadores seguiram a lei de Trajano: "Não se buscam os cristãos, mas quem for denunciado deve abandonar a fé, sob pena de morte".

   

    Os imperadores que mais perseguiram a Igreja são:

  • Nero (54-68) - Serviu-se do incêncio de Roma para iniciar a perseguição aos cristãos. Os dois mártires em destaque são: Pedro e Paulo.
  • Domiciano (81-96) - Deu a si mesmo o título de "Dominus et Deus" (Senhor e Deus). Quem não lhe prestasse culto seria punido. Executou cristãos de família nobre, como: o cônsul Acilo Gabrion, Flávio Clemente e sua esposa Flávia Domitila.
  • Marco Aurélio (161-180) - Executou muitos cristãos na África, na França e na Ásia Menor. Mártires notáveis: São Justino e o senador Apolônio.
  • Septímio Severo (193-211) - Para acabar com a Igreja, determinou que não houvesse nem catequistas nem catecúmenos. Mártires notáveis do seu tempo: Santas Perpétua, Felicidade e São Clemente de Alexandria.
  • Décio (249-251) - Obrigou os cristãos a oferecer sacrifícios aos deuses, sob pena de deportação e de morte. Mártires notáveis de seu tempo: o Papa São Fabiano e Santa Águeda.
  • Valeriano (253-260) - Nesse tempo havia na Igreja muitos cristãos de famílias ricas. Valeriano confiscou seus bens. Mártires insignes de seu governo: Estêvão I (Papa), Cipriano, Lourenço, Tarcísio.
  • Diocleciano (284-305) - Organizou a mais dura perseguição. Correu sangue cristão em Roma e nas províncias. Mártires notáveis: São Sebastião e Santas Luzia e Inês.

 

OS PAPAS DO TEMPO DA PERSEGUIÇÃO

Até o ano 67 - Pedro: crucificado no governo de Nero.

De 67 a 76 - Lino: decapitado pelo cônsul Saturnino.

De 77 a 88 - Anacleto: morto no governo de Domiciano.

De 89 a 98 - Clemente: morreu exilado no governo de Trajano.

De 98 a 105 - Evaristo: morto no governo de Trajano.

De 106 a 115 - Alexandre I: degolado no governo de Trajano.

De 116 a 125 - Sisto I: morto no governo de Adriano.

De 125 a 136 - Telésforo: morto no governo de Adriano.

De 137 a 140 - Higino: não se sabe como morreu.

De 141 a 155 - Pio I: não se sabe como morreu.

De 156 a 166 - Aniceto: morto no governo de Marco Aurélio.

De 167 a 174 - Sótero: morto no governo de Marco Aurélio.

De 175 a 189 - Eleutério: morto no governo de Marco Aurélio.

De 189 a 199 - Vítor I: morto no governo de Septímio Severo.

De 199 a 217 - Zeferino: morto no governo de Septímio Severo.

De 217 a 222 - Calisto I: atirado a um poço.

De 222 a 230 - Urbano I: morto no governo de Alexandre Severo.

De 230 a 235 - Ponciano: deportado para a Sardenha.

De 235 a 236 - Antero: morto no governo de Maximino.

De 236 a 250 - Fabiano: morto no governo de Décio.

De 251 a 252 - Cornélio: deportado para Centuncellae.

De 253 a 254 - Lúcio I: não se sabe como morreu.

De 254 a 257 - Estêvão I: degolado no governo de Valeriano.

De 257 a 258 - Sisto II: decapitado no governo de Valeriano.

De 259 a 268 - Dionísio: morte natural, governo de Galieno.

De 269 a 274 - Feliz I: morte natural.

De 275 a 283 - Eutiquiano: morte natural.

De 283 a 296 - Caio: não se sabe como morreu.

De 296 a 304 - Marcelino: morto no governo de Diocleciano.

De 307 a 309 - Marcelo I: morto no governo de Diocleciano.

De 309 a 310 - Eusébio: provavelmente martirizado.

De 311 a 314 - Melcíades: morte natural.

    São estes os Papas que governaram a Igreja desde a ascenção de Jesus ao céu até a conversão do imperador Constantino.

 

 

 

 

 

Lição 16

 

300: A PRIMEIRA LEI DO CELIBATO


 

    Os padres não se casam. A este estado de vida damos o nome de "celibato". A primeira lei do celibato foi elaboada no Concílio de Elvira (Espanha), no ano 300. Mas nesta data o celibato ainda não se estendera a toda a Igreja, porque o Concílio de Elvira era provincial e não ecumênico.

 

    O objetivo dessa lei era levar os bispos e os padres a viverem mais integralmente a sua consagração ao serviço de Deus. De início o celibato foi bem aceito. Naquele tempo, muitos padres já renunciavam espontaneamente ao casamento.

 

    No Oriente, o celibato não teve a mesma aceitação. Lá, homens casados são ordenados padres até hoje. Só os bispos não podem ser casados. O casamento dos padres é permitido somente antes da ordenação sacerdotal. E não podem casar uma segunda vez, no caso de viuvez.

 

    No Ocidente, o celibato tornou-se lei para todos os padres a partir do século quinto. E nunca mais deixou de ser lei, embora sempre tenha havido casos pessoais de padres que deixam o seu ministério para se casar. A crise maior aconteceu na Idade Média, devido à riqueza e indisciplina do clero. Nos séculos X e XI, o número de padres vivendo em concubinato era tão grande que o Papa Gregório VII chegou a pedir aos fiéis para que não aceitassem os atos ministeriais dos padres "casados".

 

    A Igreja introduziu o celibato baseando-se na Bíblia Sagrada. O Apóstolo São Paulo não era casado, e dizia: "Quem não é casado está inteiramente disponível para as coisas do Senhor, e procura agradar a Deus; quem é casado preocupa-se com as coisas do mundo, e procura agradar a mulher. Está, portanto, dividido" (1Cor 7,32-33). E Jesus prometeu recompensar com a vida eterna os discípulos que tivessem deixado tudo, inclusive a família, por causa do Reino dos Céus (cf. Mt 19,29-30).

 

 

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