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CLONAGEM HUMANA


A opinião pública mundial sofreu forte impacto com a recente notícia da realização, nos Estados Unidos, do primeiro caso de "clonagem humana". Os autores da referida proeza científica se apressaram em declarar que não tencionavam reproduzir "um novo ser humano", mas apenas em "early-embryo", ou seja um "embrião em estado inicial" ou "pré-embrião"; e isto com a intenção "humanitária" de produzir células ou tecidos capazes de realizar curas prodigiosas de males até hoje incuráveis, como câncer, diabetes, cirrose, mal de Parkinson, mal de Alzheimer, etc.
Estamos diante de um ou vários sofismas que pretendem justificar atos moralmente ilícitos. A Igreja sempre ensinou que, desde o primeiro momento da fecundação, existe um ser humano. O mesmo vale quando o embrião é produzido não pela fecundação "tradicional", mas pelo método de clonagem para "xerocar" uma pessoa preexistente. Parece até ridícula a pretensão de determinar "convencionalmente" quando é que o "pré-embrião" se tornaria um ser humano, ou seja, quando é que "começa a ser gente". A condenação radical do aborto se baseia justamente nesta verdade: desde o primeiro momento da concepção existe um ser humano, uma pessoa, que é, portanto, sujeito (e não objeto) de direitos; uma pessoa verdadeira, cujos direitos devem ser respeitados, começando pelo direito à vida.
Se é ilícito "produzir" a vida humana em laboratório, é ainda muito mais grave produzir embriões para depois destruí-los, a fim de beneficiar terceiros. Nesta e noutras ousadias da engenharia genética, estão sendo violados, entre outros, dois princípios fundamentais da moral natural; primeiro: "o homem não é o árbitro supremo da moralidade"; segundo: "o fim não justifica os meios".


'SEREIS COMO DEUSES'

No paraíso terrestre, o tentador, para induzir nossos primeiros pais a violarem o preceito divino, fez-lhes esta promessa fraudulenta: "sereis como deuses, versados no bem e no mal" (Gen. 3,5). Esta tentação continua sempre presente na história da humanidade: vemos, todos os dias, o homem pretendendo adquirir domínio absoluto sobre a vida e a morte, tentando solucionar seus problemas prescindindo de Deus ou até agindo diretamente contra a Lei Divina. Entretanto, tanto a razão natural como a Revelação nos ensinam que o homem não é senhor absoluto de si mesmo, nem de seus atos, nem do mundo; que existe acima do homem uma lei-moral objetiva, à qual ele deve submeter-se. Esta doutrina foi exposta, de maneira magistral, pelo Santo Padre João Paulo II, no n. 35 da encíclica VERITATIS SPLENDOR. Eis suas palavras: "A revelação ensina que não pertence ao homem o poder de decidir o bem e o mal, mas somente a Deus. O homem é certamente livre, uma vez que pode compreender e acolher os mandamentos de Deus... mas esta liberdade não é ilimitada... chamada que é a aceitar a lei moral que Deus dá ao homem..." Esta lei moral, dada por Deus ao homem, está sintetizada no Decálogo, cujo quinto preceito decreta solenemente: NÃO MATARÁS.
Somente Deus tem o poder de determinar o que é bom e o que é mal. Quando o homem se comporta como se fosse "árbitro da moralidade", está usurpando um direito divino, está querendo "ser como Deus". Esta mentalidade (errônea e condenável) está implícita naquele programa televisivo intitulado: "você decide" por votação. A moralidade não se "decide" por votação. Um determinado comportamento não se torna bom pelo fato de ser aprovado por uma maioria de votantes.

O FIM NÃO JUSTIFICA OS MEIOS

Outro princípio fundamental da ética natural e da moral católica é o seguinte: "O FIM NÃO JUSTIFICA OS MEIOS". Encontramos esta norma proclamada literalmente nas palavras de São Paulo: "Não é lícito praticar o mal para se conseguir o bem" (cf. Rom 3,8).
A moral natural ensina que existem ações intrinsecamente más, ou seja, que nunca devem ser praticadas, mesmo que o agente tivesse "boa intenção", ou pretendesse alcançar um objetivo bom através daquela ação. O Concílio Vaticano II (Gaudium et Spes n.27) nos oferece uma ampla exemplificação de tais atos: "Tudo o que atenta contra a própria vida, como qualquer espécie de homicídios, o genocídio, o aborto, a eutanásia e o próprio suicídio voluntário, tudo o que viola a integridade da pessoa humana, como as mutilações, as torturas físicas ou morais e as tentativas de dominação psicológica; tudo o que ofende a dignidade humana, como as condições infra-humanas de vida, os encarceramentos arbitrários, as deportações, a escravidão, a prostituição, o mercado de mulheres e jovens e também as condições degradantes de trabalho, que reduzem os operários a meros instrumentos de lucro, sem respeitar-lhes a personalidade livre e responsável: todas estas práticas e outras semelhantes são efetivamente dignas de censura". A esta lista deve-se acrescentar a clonagem humana.
Uma "finalidade boa" jamais justificaria a prática de qualquer dessas ações. Não é lícito, por exemplo, abrir uma casa de prostituição, para poder, com o respectivo lucro, construir casas para os pobres desabrigados. Igualmente, não se pode matar uma criança inocente para transplantar seus órgãos e salvar vidas de adultos. Pelo mesmo motivo, não é lícito praticar a clonagem humana "por fins terapêuticos", ou seja, para usar as células na suposta cura de outras pessoas.


CONDENAÇÃO DA CLONAGEM


No dia 24 de junho de 1997, foi publicado pela Santa Sé um importante documento elaborado pela "Pontifícia Academia para a Vida" e intitulado: "Reflexões sobre a clonagem". Este documento, depois de analisar profundamente os aspectos biológicos, éticos e jurídicos da clonagem humana, declarou-a moralmente inaceitável.
Recentissimamente, o Santo Padre João Paulo II - no passado dia 28 de novembro deste ano de 2001, isto é, depois da divulgação da mencionada "proeza americana" - dirigiu-se a um grupo de médicos com estas palavras: "Caríssimos, manifesto meu apreço pelo vosso empenho profissional e vos encorajo a defender, sem compromissos, a vida e a dignidade da pessoa, atuando no respeito da lei moral. O verdadeiro humanismo não pode admitir jamais métodos e experiências que constituem ameaças programadas, de maneira científica e sistemática, contra a vida".


D. José Cardoso Sobrinho


Extraído de: A Mensagem Católica - Ano X - N° 105 - Dezembro de 2001, página 03

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