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Constituição
Dogmática
DEI VERBUM
do Concílio Vaticano II
sobre a Revelação Divina
Paulo Bispo, servo dos servos de Deus
em união com os padres do Sagrado Concílio
para perpétua memória
PROÊMIO
1. Este Sagrado Concílio, ouvindo religiosamente e proclamando
com desassombro a Palavra de Deus, obedece ao dito de São João:
''Nós vos anunciamos a vida eterna, que estava junto do Pai e nos
apareceu: anunciamo-nos o que vimos e ouvimos, para que também
vós estejais em comunhão conosco, e a nossa comunhão
seja com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo'' (1Jo 1,2-3). Por isso,
seguindo os Concílios Tridentino e Vaticano I, entende propor a
genuína doutrina sobre a revelação divina e a sua
transmissão, para que, ouvindo o anúncio da salvação,
o mundo inteiro acredite, acreditando espere, esperando ame.(1)
I. A REVELAÇÃO
2. Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a si mesmo e
dar a conhecer o mistério da sua vontade (cf. Ef 1,9), mediante
o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso
no Espírito Santo ao Pai e se tornam participantes da natureza
divina (Ef 2,18; 2Pd 1,4). Com efeito, em virtude desta revelação,
Deus invisível (cf. Cl 1,15; 1Tm 1,17), na riqueza do seu amor,
fala aos homens como a amigos (cf. Ex 33,11; Jo 15,14-15) e admitir à
comunhão com ele. Esta economia (este plano) de revelação
faz-se por meio de ações ou palavras intimamente relacionadas
entre si, de tal maneira que as obras, realizadas por Deus na história
da salvação, manifestam e corroboram a doutrina e as realidades
significativas pelas palavras, enquanto as palavras declaram as obras
e o mistério nela contidos. Porém a verdade profunda contida
nesta revelação, tanto a respeito de Deus como a respeito
da salvação dos homens, se manifesta a nós na pessoa
de Jesus Cristo, que é, simultaneamente, o mediador e a plenitude
de toda revelação.(2)
3. Deus, criando e conservando todas as coisas pelo Verbo (cf. Jo 1,3),
oferece aos homens um testemunho perene de si mesmo na criação
(cf. Rm 1,19-20) e além disso, decidindo abrir o caminho da salvação
sobrenatural, manifestou-se, desde o princípio, aos primeiros pais.
Depois da sua queda, porém, juntamente com a promessa da redenção,
deu-lhes a esperança da salvação (cf. Gn 3,15) e
cuidou continuamente do gênero humano, para dar a vida eterna a
todos aqueles que, perseverando na prática das boas obras, procuram
a salvação (cf. Rm 2,6-7). No devido tempo chamou Abraão,
para fazer dele um grande povo (cf. Gn 12,2), povo que, depois dos patriarcas,
ensinou, por meio de Moisés e dos profetas, a reconhecer nele o
único Deus vivo e verdadeiro, o Pai providente e o Juiz justo,
e a esperar o Salvador prometido; assim preparou Deus através dos
tempos o caminho ao Evangelho.
4. Depois de ter falado muitas vezes e de muitos modos pelos profetas,
falou-nos Deus nestes nossos dias, que são os últimos, através
de seu Filho (Hb 1,1-2).Com efeito, enviou o seu Filho, isto é,
o Verbo eterno, que ilumina todos os homens, para habitar entre os homens
e explicar-lhes a vida íntima de Deus (cf. Jo 1,1-18). Jesus Cristo,
portanto, Verbo feito carne, ''como homem para os homens'',(3) ''fala
as palavras de Deus'' (Jo 3,34) e consuma a obra de salvação
que o Pai mandou que realizasse (cf. Jo 5,36; 17,4). Por isso, ele, (quem
o vê, vê também o Pai), (cf. Jo 14,9), com a presença
e a manifestação de toda sua pessoa, com palavras e obras,
sinais e milagres, e sobretudo com a morte e a ressurreição,
enfim, com a missão do Espírito de verdade, realiza e completa
a revelação, e confirma-a com o testemunho divino, a saber,
que Deus está conosco para nos libertar das trevas do pecado e
da morte e para nos ressuscitar para a vida eterna. Portanto, a economia
cristã, como nova e definitiva aliança, jamais passará,
e não é possível esperar nenhuma outra revelação
pública antes da gloriosa manifestação de nosso Senhor
Jesus Cristo (cf. 1Tm 6,14; Tt 2,13).
5. A Deus revelador é devida a ''obediência da fé''
(Rm 16,26; cf. Rm 1,5; 2Cor 10,5-6); por ela, o homem todo entrega-se
livremente a Deus oferecendo ''a Deus revelador o obséquio pleno
da inteligência e da vontade''(4) e prestando voluntariamente assentimento
à sua revelação. Para prestar essa fé, é
necessário o prévio auxílio da graça divina
e o auxílio interior do Espírito Santo, que mova e converta
a Deus os corações, abra os olhos da alma, e dê ''a
todos a suavidade no assentimento e na adesão à verdade''.(5)
Para que a inteligência da revelação seja sempre mais
profunda o mesmo Espírito Santo aperfeiçoa sem cessar a
fé mediante os seus dons.
6. Pela revelação divina quis Deus manifestar e comunicar
a sua pessoa e os decretos eternos da sua vontade a respeito da salvação
dos homens, ''para os fazer participar dos bens divinos , que superam
absolutamente a capacidade da inteligência humana''.(6) Este sagrado
Concílio professa que ''Deus, princípio e fim de todas as
coisas, se pode conhecer com certeza pela luz natural da razão
a partir das criaturas''(Rm 1,20); mas ensina também que deve atribuir-se
à sua revelação que ''aquilo que nas coisas divinas
não é inacessível à razão humana pode
ser conhecido por todos com facilidade, firme certeza e sem mistura de
erro''.(7)
II. A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO
DIVINA
7. Deus dispôs amorosamente que permanecesse íntegro e fosse
transmitido a todas as gerações tudo quanto tinha revelado
para salvação de todos os povos. Por isso, Cristo Senhor,
em que toda a revelação de Deus se consuma (cf. 2Cor 1,30;
3,16 ¾ 4,6), mandou aos apóstolos que pregassem a todos,
comunicando-lhes os dons divinos, como fonte de toda a verdade salutar
e de toda a disciplina de costumes, o Evangelho prometido antes pelos
profetas e por ele cumprido e promulgado pessoalmente.(1) O que foi realizado
com fidelidade, quer pelos apóstolos que, na sua pregação
oral, exemplos e instituições, transmitiram aquilo que ou
tinham recebido dos lábios, conversação e obras de
Cristo ou tinham aprendido por inspiração do Espírito
Santo, quer por aqueles apóstolos e varões apostólicos
que, sob a inspiração do mesmo Espírito Santo, escreveram
a mensagem da salvação.(2)
Porém, para que o Evangelho fosse perenemente conservado íntegro
e vivo na Igreja, os apóstolos, deixaram os bispos como seus sucessores,
''entregando-lhes o seu próprio lugar de magistério''.(3)
Portanto, a Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura dos dois
Testamentos são como um espelho no qual a Igreja, peregrina na
terra, contempla a Deus, de quem tudo recebe até ser conduzida
a vê-los face tal qual ele é (cf. 1Jo 3,2).
8. E assim, a pregação apostólica, que se exprime
de modo especial nos livros inspirados, devia conservar-se, por uma sucessão
contínua, até à consumação dos tempos.
Por isso, os apóstolos, transmitindo o que eles mesmos tinham recebido,
advertem os fiéis a que mantenham as ''tradições''
que tinham aprendido quer por palavra quer por escrito (cf. 2Ts 2,15),
e a que lutem pela fé uma vez recebida (cf. Jt 3).(4) Aquilo que
foi transmitido pelos apóstolos, abrange tudo quanto coopera para
a vida santa do povo de Deus e para o aumento da fé, e assim a
Igreja , na sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as
gerações tudo aquilo que ela é, tudo aquilo que ela
acredita.
Esta tradição apostólica progride na Igreja sob a
assistência do Espírito Santo.(5) Com efeito, progride a
percepção tanto das coisas como das palavras transmitidas,
quer mercê da reflexão e do estudo dos crentes , que as meditem
no seu coração (cf. Lc 2,19-51),quer mercê da íntima
inteligência que experimentam das coisas espirituais, quer mercê
da pregação daqueles que, com a sucessão do episcopado,
receberam um carisma seguro de verdade. Isto é, a Igreja, no decurso
dos séculos, caminha continuamente para a plenitude da verdade
divina, até que nela se realizem as palavras de Deus. As afirmações
dos Santos Padres testemunham a presença vivificadora desta Tradição,
cujas riquezas são transferidas para a prática e para a
vida da Igreja crente e orante. Mediante a mesma Tradição,
chega ao conhecimento da Igreja o cânon inteiro dos Livros sagrados,
e a própria Sagrada Escritura nela se entende mais profundamente
e sem cessar se torna operante ; e assim, Deus que outrora falou, dialoga
sem interrupção com a esposa do seu amado Filho, e o Espírito
Santo, pelo qual ressoa a voz do Evangelho na Igreja, e pela Igreja, no
mundo, introduz os crentes na verdade plena e faz com que a palavra de
Cristo neles habite em toda a sua riqueza (cf. Cl 3,16).
9. A Sagrada Tradição, portanto, e a Sagrada Escritura relacionam-se
e comunicam estreitamente entre si. Com efeito, ambas derivando da mesma
fonte divina, fazem como que uma coisa só e tendem ao mesmo fim.
A Sagrada Escritura é a palavra de Deus enquanto foi escrita por
inspiração do Espírito Santo; a Sagrada Tradição,
por sua vez, transmite integralmente aos sucessores dos apóstolos
a palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo
aos apóstolos, para que, com a luz do Espírito de verdade,
a conservem, a exponham e a difundam fielmente na sua pregação;
donde acontece que a Igreja não tira a sua certeza a respeito de
todas as coisas reveladas só da Sagrada Escritura. . Por isso,
ambas devem ser recebidas e veneradas com igual afeto de piedade.(6)
10. A Sagrada Escritura e a Sagrada Tradição constituem
um só depósito sagrado da palavra de Deus, confiado à
Igreja; aderindo a este, todo o povo santo persevera unido aos seus pastores
na doutrina e na comunhão dos apóstolos, na fração
do pão e nas orações (cf. At 8,42 gr.), de tal modo
que na conservação, atuação e profissão
da fé transmitida haja uma singular colaboração dos
pastores e dos fiéis.(7)
Porém, o múnus de interpretar autenticamente a palavra de
Deus escrita ou contida na Tradição,(8) foi confiado só
ao magistério vivo da Igreja,(9) cuja autoridade é exercida
em nome de Jesus Cristo. Este magistério não está
acima da palavra de Deus, mas está a seu serviço, não
ensinando senão o que foi transmitido, enquanto, por mandado divino
e com assistência do Espírito Santo, a ouve piamente, guarda
santamente e expõe fielmente, haurindo deste único depósito
da fé todas as coisas que propõe à fé como
divinamente reveladas.
É claro, portanto, que a Sagrada Tradição, a Sagrada
Escritura e o Sagrado Magistério da Igreja, segundo o sapientíssimo
plano da Deus, de tal maneira se relacionam e se associam que um sem os
outros não se mantém, e todos juntos, cada um a seu modo
sob a ação do mesmo Espírito Santo, colaboram eficazmente
para a salvação das almas.
III. A INSPIRAÇÃO DIVINA
E A INTERPRETAÇÃO DA SAGRADA ESCRITURA
11. As coisas reveladas por Deus, que se encontram escritas na Sagrada
Escritura, foram inspiradas pelo Espírito Santo. Com efeito, a
santa Mãe Igreja, por fé apostólica, considera como
sagrados e canônicos os livros inteiros tanto do Antigo como do
Novo Testamento com todas as sua partes, porque, de terem sido escritos
por inspiração do Espírito Santo (cf. Jo 20,31; 2Tm
3,16; 2Pd 1,19-21; 3,15-16), têm Deus por autor e como tais foram
confiados à própria Igreja.(1) Todavia, para escrever os
livros Sagrados, Deus escolheu e serviu-se de homens na posse das suas
faculdades e capacidades,(2) para que, agindo ele neles e por meio deles,(3)
pusessem por escrito como verdadeiros autores, tudo aquilo e só
aquilo que ele quisesse.(4)
E assim, como tudo quanto afirma os autores inspirados ou hagiógrafos
deve ser considerado como afirmado pelo Espírito Santo, por isso
mesmo se deve acreditar que os Livros da Escritura ensinam com certeza,
fielmente e sem erro a verdade que Deus, causa da nossa salvação,
quis que fosse consignada nas sagradas Letras.(5) Por isso, ''toda a Escritura
divinamente inspirada é útil para ensinar, para argüir,
para corrigir, para instruir na justiça: para que o homem de Deus
seja perfeito, experimentado em todas as obras boas'' (2Tm 3,16-17 gr.).
12. Como, porém, Deus na Sagrada Escritura falou por meio dos homens
e à maneira humana,(6) o intérprete da Sagrada Escritura,
para saber o que ele quis comunicar-nos, deve investigar com atenção
o que os hagiógrafos realmente quiseram significar e que aprouve
a Deus por meio das sua palavras.
Para descobrir a intenção dos hagiógrafos, devem
ser tidos também em conta, entre outras coisas, ''os gêneros
literários''. Com efeito, a verdade é proposta e expressa
ora de um modo ora de outro, segundo se trata de gêneros históricos,
proféticos, poéticos ou outros. Importa, por isso, que o
intérprete busque o sentido que o hagiógrafo em determinadas
circunstâncias, segundo as condições do seu tempo
e da sua cultura, pretendeu exprimir e de fato exprimiu com a ajuda dos
gêneros literários então usados.(7) Com efeito, para
entender retamente o que o autor sagrado quis afirmar, deve atender-se
convenientemente, quer aos modos nativos de sentir, dizer ou narrar em
uso nos tempos do hagiógrafo, quer àqueles que costumavam
empregar-se nas relações entre os homens de então.(8)
Mas, como a Sagrada Escritura deve ser lida e interpretada com o mesmo
Espírito com que foi escrita,(9) não menos atenção
se deve dar na investigação do reto sentido dos textos sagrados,
ao conteúdo e à unidade de toda a Escritura, tendo em conta
a Tradição viva de toda a Igreja e a analogia da fé.
Cabe aos exegetas, de harmonia com estas regras, trabalhar por entender
e expor mais profundamente o sentido da Escritura, para que, mercê
deste estudo preparatório, se facilite o juízo da Igreja.
Com efeito, tudo quanto diz respeito à interpretação
da Escritura, está sujeito ao juízo último da Igreja,
que goza do divino mandato e do ministério de guardar e interpretar
a palavra de Deus.(10)
13. Portanto, manifesta-se na Sagrada Escritura, salvas sempre a verdade
e a santidade de Deus, a admirável ''condescendência'' da
eterna sabedoria, ''para conhecermos a inefável benignidade de
Deus e com quanta acomodação ele falou, tomando providência
e cuidado da nossa natureza.''(11) As palavras de Deus, com efeito, expressas
por línguas humanas, tornam-se intimamente semelhantes à
linguagem humana, como outrora o Verbo do eterno Pai, tomando a carne
da fraqueza humana, se tornou semelhante aos homens.
IV. O ANTIGO TESTAMENTO
14. Deus amantíssimo, planeando e preparando com solicitude a salvação
de todo gênero humano, por uma providência especial escolheu
um povo a quem confiasse as suas promessas. Tendo estabelecido uma aliança
com Abraão (cf. Gn 15,18) e com o povo de Israel por meio de Moisés
(cf. Ex 24,8), de tal modo se revelou junto desse povo como único
Deus verdadeiro e vivo, em palavras e obras, que Israel pudesse conhecer
por experiência os planos de Deus sobre os homens, os compreendesse
cada vez mais profunda e claramente, com a ajuda do mesmo Deus falando
pela boca dos profetas, e os difundisse entre os homens (cf. Sl 21,28-29;
95,1-3; Is 2,1-4; Jr 3,17). Mas a economia da salvação predita,
narrada e explicada pelos autores sagrados está nos livros do Antigo
Testamento como verdadeira palavra de Deus. Por isso, estes livros divinamente
inspirados conservam um valor perene: ''Tudo quanto foi escrito, foi-o
para nossa instrução, para que, por meio da paciência
e consolação que nos vem da Escritura, tenhamos esperança''
(Rm 15,4).
15. A economia do Antigo Testamento destinava-se sobretudo a preparar,
a anunciar profeticamente (cf. Lc 24,44; Jo 5,39; 1Pd 1,10) e a significar
com várias figuras (cf. 1Cor 10,11) o advento de Cristo, redentor
universal, e do reino messiânico.
Mas os livros do Antigo Testamento, segundo a condição do
gênero humano antes do tempo da salvação instaurada
por Cristo, manifestam a todos o conhecimento de Deus e do homem, e o
modo com que Deus justo e misericordioso trata os homens. Tais livros,
apesar de conterem também imperfeições e coisas relativas
a um determinado tempo, revelam, contudo, uma verdadeira pedagogia divina.(1)
Por isso, os fiéis devem aceitar com devoção estes
livros que exprimem um vivo sentido de Deus, uma sabedoria edificante
a respeito da vida humana, bem como admiráveis tesouros de preces,
nos quais, finalmente, se esconde o mistério da nossa salvação.
16. Foi por isso que Deus, inspirador e autor dos livros dos dois testamentos,
dispôs sabiamente que o Novo Testamento estivesse escondido no Antigo,
e o Antigo se tornasse claro no Novo.(2) Pois, apesar de Cristo ter alicerçado
a nova aliança no seu sangue (cf. Lc 22,20; 1Cor 11,25), os livros
do Antigo Testamento, integralmente assumidos na pregação
evangélica,(3) adquirem e manifestam a sua significação
completa no Novo Testamento (cf. Mt 5,17; Lc 24,27; Rm 16,25-26; 2Cor
3,14-16), que iluminam e explicam.
V. O NOVO TESTAMENTO
17. A Palavra de Deus, que é poder de Deus para a salvação
de todos os crentes (cf. Rm 1,16), apresenta-se e manifesta a sua virtude
dum modo eminente nos escritos do Novo Testamento. Quando chegou a plenitude
dos tempos (cf. Gl 4,4), o Verbo fez-se carne e habitou entre nós,
cheio de graça e verdade (cf. Jo 1,14). Cristo estabeleceu o Reino
de Deus na terra, manifestou com obras e palavras o Pai e a sua mesma
pessoa, e levou a cabo a sua obra com a sua morte, Ressurreição,
e gloriosa Ascensão, e, finalmente, com a missão do Espírito
Santo. Sendo levantado da terra, atrai todos a si (cf. Jo 12,32, gr.),
ele que é o único que tem palavras de vida eterna (cf. Jo
6,68). Este mistério, porém, não foi revelado as
outras gerações como agora aos seus santos apóstolos
e aos profetas no Espírito Santo (cf. Ef 3,4-6, gr.) para que pregassem
o Evangelho, e despertassem a fé em Jesus Cristo e Senhor, e congregassem
a Igreja. Os escritos do Novo Testamento são testemunho perene
e divino de todas estas coisas.
18. Ninguém ignora que entre todas as Escrituras, mesmo do Novo
Testamento, os Evangelhos têm o primeiro lugar, enquanto são
o principal testemunho da vida e doutrina do Verbo Encarnado, nosso Salvador.
A Igreja defendeu e defende sempre e em toda a parte a origem apostólica
dos quatro Evangelhos. Com efeito, aquelas coisas que os apóstolos,
por ordem de Cristo, pregaram, foram depois, por inspiração
do Espírito Santo, transmitidas por escrito por eles mesmos e por
homens do seu grupo, como fundamento da fé, ou seja, os quatro
Evangelhos, segundo Mateus, Marcos, Lucas e João.(1)
19. A Santa Mãe Igreja defendeu e defende firme e constantemente
que estes quatro Evangelhos, cuja historicidade afirma sem hesitação,
transmitem fielmente as coisas que Jesus, Filho de Deus, durante a sua
vida terrena, realmente operou e ensinou por amor da salvação
eterna dos homens, até o dia em que subiu ao céu (cf. At
1,1-2). Na verdade, os apóstolos, após a Ascensão
do Senhor, transmitiram aos seus ouvintes aquelas coisas que ele tinha
dito e feito, com aquela compreensão mais plena de que eles, instruídos
pelos acontecimentos gloriosos de Cristo e iluminados pelo Espírito
da verdade,(2) gozavam.(3) Os autores sagrados, porém, escreveram
os quatro Evangelhos, escolhendo algumas coisas dentre as muitas transmitidas
por palavra ou escrito, sintetizando algumas, explicando outras segundo
o estado das igrejas, conservando, finalmente o caráter da pregação,
sempre de maneira a comunicar-nos com sinceridade e verdade o que diz
respeito a Jesus.(4)
Com efeito, quer tenham escrito segundo a própria memória
e recordação, quer baseados no testemunho daqueles ''que
desde o princípio viram e foram ministros da palavra'', fizeram-no
sempre com a intenção de que conheçamos a ''verdade''
das coisas a respeito das quais fomos instruídos (cf. Lc 1,2-4).
20. O canôn do Novo Testamento contém igualmente, além
dos quatro Evangelhos, as Epístolas de São Paulo, e outros
escritos apostólicos redigidos por inspiração do
Espírito Santo, mercê dos quais, segundo o plano da Sabedoria
divina, é confirmado tudo quanto diz respeito a Cristo Senhor,
é explicada cada vez mais a sua genuína doutrina, é
pregada a virtude salvadora da obra divina de Cristo, são narrados
os começos da Igreja e a sua admirável difusão, e
é anunciada a sua consumação gloriosa.
Com efeito, o Senhor Jesus estava presente, assistiu os seus apóstolos
como tinha prometido (cf. Mt 28,20), e enviou-lhes o Espírito Santo
que os devia introduzir na plenitude da verdade (cf. Jo 16,13).
VI. A SAGRADA ESCRITURA NA VIDA DA IGREJA
21. A Igreja teve sempre em grande veneração as divinas
Escrituras, como fez com o próprio corpo do Senhor, não
deixando jamais, sobretudo na Sagrada Liturgia, de se alimentar do pão
da vida à mesa quer da palavra de Deus, quer do corpo de Cristo,
e de o distribuir aos fiéis. Sempre as considerou, e continua a
considerar, juntamente com a Sagrada Tradição, como regra
suprema da sua fé; elas, com efeito, inspiradas como são
por Deus, e registradas por escrito duma vez para sempre, continuam a
dar-nos imutavelmente a palavra do próprio Deus, e fazem ouvir
a voz do próprio Espírito Santo através das palavras
dos profetas e dos apóstolos. É preciso, pois, que a pregação
eclesiástica, assim como a mesma religião cristã,
seja alimentada e dirigida pela Sagrada Escritura. Com efeito, nos Livros
Sagrados, o Pai que está nos céus vem amorosamente ao encontro
dos seus filhos, a conversar com eles; e é tão grande a
força e a virtude da palavra de Deus que se torna o apoio rigoroso
da Igreja, solidez da fé para os filhos da Igreja, alimento da
alma, fonte pura e perene de vida espiritual! Por isso se devem aplicar
por excelência à Sagrada Escritura as palavras: ''A Palavra
de Deus é viva e eficaz'' (Hb 4,12), ''e é capaz de edificar
e dar a herança em todos os santificados'' (At 20,32; cf. 1Ts 2,13).
22. É preciso que os fiéis tenham acesso livre à
Sagrada Escritura. Por esta razão, a Igreja logo, desde seus começos,
fez sua aquela tradução grega antiquíssima do Antigo
Testamento chamada dos Setenta; e sempre teve em grande apreço
as outras traduções, quer orientais quer latinas, sobretudo
a chamada Vulgata. Mas, visto que a palavra de Deus deve estar sempre
à disposição de todos, a Igreja procura com solicitude
maternal que se façam traduções apropriadas e cuidadas
nas várias línguas, sobretudo a partir dos textos originais
dos Livros Sagrados. Se essas traduções, segundo a oportunidade
e com a aprovação da autoridade da Igreja, se vierem a fazer
em colaboração com os irmãos separados, poderão
ser usadas por todos os cristãos.
23. A Esposa do Verbo Encarnado, a Igreja, guiada pelo Espírito
Santo, esforça-se por conseguir uma maior e mais profunda inteligência
das Sagradas Escrituras, para poder alimentar continuamente os seus filhos
com as palavras divinas; por isso vai estimulando também dum modo
progressivo o estudo dos Santos Padres do Oriente e do Ocidente, bem como
da Sagrada Liturgia. É preciso, porém, que os exegetas católicos
e os demais estudiosos da Sagrada Teologia, colaborando em íntima
comunhão de esforços, e sob a vigilância do Sagrado
Magistério, estudem e expliquem as divinas letras lançando
mão dos meios mais aptos, de modo que o maior número possível
de ministros da palavra de Deus possa oferecer com fruto ao povo de Deus
o alimento das Escrituras, que ilumine a mente, robusteça a vontade
e inflame os corações dos homens no amor de Deus.(1) O Sagrado
Concílio encoraja os filhos da Igreja que cultivam as ciências
bíblicas para que continuem a empresa a que se consagraram, redobrando
de esforços e mantendo-se sempre fiéis ao sentir da Igreja.(2)
24. A Sagrada Teologia apoia-se como em seu fundamento perene, na palavra
de Deus escrita, juntamente com a Sagrada Tradição, e nela
se consolida firmemente e se rejuvenesce cada vez mais, investigando,
à luz da fé, toda verdade contida no mistério de
Cristo. As Sagradas Escrituras contêm as palavras de Deus, e, pelo
fato de serem inspiradas, são verdadeiramente palavras de Deus;
e por isso o estudo destes Sagrados Livros deve ser como que a alma da
Sagrada Teologia.(3) Também o ministério da palavra, isto
é, a pregação pastoral, a catequese, e toda espécie
de instrução cristã, na qual a homilia litúrgica
deve ter um lugar principal, com proveito se alimentam e santamente se
revigoram com a palavra da Escritura.
25. É necessário, por isso, que todos os clérigos
e sobretudo os sacerdotes e todos os que, como os diáconos e os
catequistas, atendem legitimamente ao ministério da palavra, mantenham
um contato íntimo com as Escrituras, mediante a leitura sagrada
e o estudo constante, ''a fim de que nenhum deles se torne pregador vão
da palavra de Deus por fora, por não a ouvir de dentro'',(4) tendo,
como têm, a obrigação de comunicar aos fiéis
que lhes estão confiados, as grandíssimas riquezas da palavra
divina, sobretudo na Sagrada Liturgia. Do mesmo modo, o Sagrado Concílio
exorta com ardor e insistência todos os fiéis, sobretudo
os religiosos, a que aprendam ''a iminente ciência de Jesus Cristo''
(Fl 3,8) com a leitura freqüente das divinas Escrituras, porque ''a
ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo''.(5)
Debrucem-se, pois, com gosto, sobre o texto sagrado, quer através
da Sagrada Liturgia, rica de palavras divinas, quer pela leitura espiritual,
quer por outros meios que se vão espalhando tão louvavelmente
por toda parte, com a aprovação e estímulo dos pastores
da Igreja. Lembre-se, porém, que a leitura da Sagrada Escritura
deve ser acompanhada da oração, para que seja possível
o diálogo entre Deus e o homem; ''com Ele falamos guando rezamos;
a Ele ouvimos guando lemos os divinos oráculos''.(6)
Compete aos sagrados pastores ''depositários da doutrina apostólica'',(7)
ensinar oportunamente os fiéis que lhes foram confiados, no reto
uso dos livros divinos de modo particular do Novo Testamento, e sobretudo
dos Evangelhos. E isto por meio de traduções dos textos
sagrados que devem ser provistas das notas necessárias e verdadeiramente
suficiente, para que os filhos da Igreja se familiarizem dum modo seguro
e útil com a Sagrada Escritura, e se embebam do seu espírito.
Além disso, façam-se edições da Sagrada Escritura,
munidas das convenientes anotações, para uso também
dos não cristãos, e adaptadas às suas condições;
e tanto os pastores de almas como os cristãos de qualquer estado
procurem difundi-las com zelo e prudência.
26. Deste modo, pois, com a leitura e estudo dos Livros Sagrados, ''a
palavra de Deus se difunda e seja glorificada'' (2Ts 3,1), e o tesouro
da revelação, confiado à Igreja, encherá cada
vez mais os corações dos homens. Assim como a vida da Igreja
cresce com a assídua freqüência do mistério Eucarístico,
assim também é lícito esperar um novo impulso da
vida espiritual, se fizermos crescer a veneração pela palavra
de Deus, que ''permanece para sempre'' (Is 40,8; cf. 1Pd 1, 23-25).
Todas e cada uma das coisas que nesta Constituição se declararam,
agradaram aos Padres do sagrado Concílio. E nós, pela autoridade
apostólica que Cristo nos concedeu, juntamente com os Veneráveis
Padres, as aprovamos no Espírito Santo, as decretamos e estabelecemos;
e para glória de Deus, mandamos promulgar o que o Concílio
estabeleceu.
- Roma, junto de São Pedro, aos 18 de novembro de 1965.
Eu, Paulo, Bispo da Igreja Católica.
  
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