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Carta Encíclica
DIVINO AFFLANTE SPIRITU
sobre os estudos bíblicos
Aos Veneráveis Irmãos Patriarcas,
Primazes, Arcebispos,
Bispos e outros Ordinários dos Lugares,
em Paz e Comunhão com a Sé Apostólica,
e igualmente a todo o Clero e Fiéis Cristãos do Orbe Católico.
Veneráveis Irmãos e Amados Filhos: Saúde e Bênção
Apostólica!
INTRODUÇÃO
Ocasião da Encíclica "Providentissimus Deus".
Modo de celebrar o seu quinquagésimo aniversário.
Sob a inspiração do Espírito Santo compuseram os
escritores sagrados aqueles livros que Deus, pelo seu paternal amor ao
gênero humano, quis prodigalizar "para ensinar, para convencer,
para corrigir, para instruir na justiça, a fim de que o homem de
Deus seja perfeito e apto para toda a obra boa" (1). Não é
pois para admirar que a Santa Igreja, assim como recebeu incontaminado,
das mãos dos Apóstolos, este tesouro concedido pelo céu,
que ela considera preciosíssima fonte e norma divina da doutrina
de fé e costumes, o tenha também guardado com cuidado especial,
o defenda de toda a interpretação falsa e perversa, e o
utilize solicitamente na missão de granjear às almas a salvação
suprema, como o demonstram amplamente quase inumeráveis documentos
de todas as épocas. Mas como nos tempos recentes se discutiu de
modo especial a origem divina e a reta interpretação das
Sagradas Letras, a Igreja propôs-se defendê-las e protegê-las
com denodo e empenho ainda maiores. E assim, já o sacrossanto Concílio
de Trento decretou solenemente que era preciso reconhecer "como sagrados
e canônicos os livros íntegros, com todas as suas partes,
na forma como se costumavam ler na Igreja Católica e se contêm
na antiga edição Vulgata Latina" (2). E no nosso tempo
o Concilio Vaticano, para reprovar as falsas teorias sobre a inspiração,
declarou que estes mesmos livros os tinha de considerar a Igreja "como
sagrados e canônicos", "não porque, compostos unicamente
pela indústria humana, tenham sido depois aprovados pela sua autoridade,
nem precisamente porque contenham a revelação sem erro,
mas porque, escritos sob inspiração do Espírito Santo,
têm por autor a Deus, e como tais foram entregues à Igreja"
(3). E posteriormente ainda, como contra esta solene definição
da doutrina católica, segundo a qual os livros "íntegros,
como todas as suas partes", gozam da dita autoridade divina, que
implica a imunidade de todo o erro, certos escritores católicos
se atrevessem a circunscrever a verdade da Sagrada Escritura unicamente
às coisas de fé e costumes, reputando as outras, quer de
ordem física quer de ordem histórica, como "ditos acidentais"
e - como eles pretendiam - sem conexão com a fé, o Nosso
Predecessor Leão XIII, de imortal memória, na Carta Encíclica
"Providentissimus Deus" de 18 de Novembro de 1893, feriu de
morte, com plena razão, aqueles erros, e deu ao mesmo tempo sapientíssimos
preceitos e normas para o estudo dos Livros Divinos.
Ao apresentar-se a conveniência de comemorar o 50º aniversário
da publicação daquela Encíclica, considerada lei
fundamental nos estudos bíblicos, pareceu-Nos da maior oportunidade,
segundo a solicitude que desde o princípio do Nosso pontificado
temos consagrado às disciplinas sagradas (4), confirmar e inculcar
o que o Nosso Predecessor estabeleceu sabiamente e os seus sucessores
contribuíram para consolidar e aperfeiçoar, e determinar
o que os tempos presentes parecem requerer para incitar cada vez mais
a uma coisa tão necessária e louvável, todos os filhos
da Igreja que se dedicam a estes estudos.
I. PARTE HISTÓRICA:
SOLICITUDE DE LEÃO XIII E DOS SEUS SUCESSORES PELOS ESTUDOS BÍBLICOS
§ lº - A obra de Leão XIII. Doutrina da inerrância
biblica.
O primeiro e máximo cuidado de Leão XIII foi expor a doutrina
da verdade dos livros sagrados e defendê-la das impugnações
contrárias. Assim, pois, fixou com graves expressões, que
se não dá erro algum quando o escritor sagrado, ao falar
de coisas físicas, "se deixa guiar pelas aparências
sensíveis", como diz o Angélico (5), falando "ou
de um modo figurado, ou como a linguagem vulgar costumava fazê-lo
naquele tempo, e o faz hoje em muitas coisas da vida cotidiana, entre
os próprios homens mais cultos". Porque os mesmos "escritores
sagrados, ou mais exatamente - as palavras são de Santo Agostinho
(6) - o espírito de Deus que falava por eles, não se propôs
ensinar aos homens essas matérias (isto é: a constituição
íntima das coisas aparentes), pois não aproveitavam à
salvação de ninguém" (7); isto "convirá
transportá-lo para as disciplinas afins, especialmente para a história",
refutando com efeito "de modo semelhante as falsidades dos adversários"
e defendendo "dos seus ataques a autoridade histórica da Sagrada
Escritura" (8).
Nem seria de imputar-se ao escritor sagrado o erro quando "escapassem
algumas inexatidões aos copistas na transcrição dos
códices "ou quando fosse ambígua a significação
genuína de alguma frase". Finalmente, que não é
lícito de modo nenhum "restringir a inspiração
unicamente a algumas partes da Sagrada Escritura, ou conceder que errou
o próprio escritor sagrado", sendo que a inspiração
divina "não só exclui por si mesma qualquer erro, senão
que tão necessariamente o exclui e repele como necessário
é que Deus, suma verdade, não seja absolutamente autor de
erro nenhum. Esta é a antiga e constante fé da Igreja"
(9).
Pois esta doutrina, que com tanta gravidade expôs o Nosso Predecessor
Leão XIII, propomo-la também Nós, com a Nossa autoridade,
e inculcamos que todos a sustentem religiosamente. Determinamos, além
disso, que se não ponha menor cuidado em obedecer nos nossos próprios
dias aos mesmos conselhos e incitações que ele para o seu
tempo acrescentou, com grande sabedoria. Porque como surgissem novas e
não leves dificuldades e questões, tanto das preconcebidas
opiniões do "racionalismo", que por toda a parte se difundia,
como, sobretudo, pelos antiquíssimos documentos achados e explorados
em numerosos lugares das regiões orientais, o mesmo Nosso Predecessor,
impelido pela solicitude do seu cargo apostólico, não só
para que tão preclara fonte da revelação católica
estivesse aberta mais segura e abundantemente para utilidade da grei do
Senhor, mas também para que em parte alguma fosse violada, desejou
ardentemente "que fossem muitos os que tomassem como coisa sua, e
a mantivessem com vigor, a defesa das Letras Sagradas; e que sobretudo
aqueles a quem a divina graça chamou às ordens sacras, empregassem
cada dia maior diligência e indústria em lê-las, meditá-las
e explicá-las, o que tudo é justíssimo que assim
seja" (l0).
Impulso dado aos estudos bíblicos. Escola Bíblica de Jerusalém.
Comissão Bíblica.
Por isso o mesmo Pontífice, que já muito antes tinha louvado
e aprovado a Escola Bíblica de Jerusalém, fundada junto
da Basílica de Santo Estêvão, pelo Mestre Geral da
Sagrada Ordem dos Pregadores, para fomentar o estudo dos livros sagrados,
dizendo especialmente dela "que os estudos bíblicos tinham
recebido não pequeno impulso e o esperavam ainda maior" (11),
no último ano da sua vida acrescentou nova razão para que
estes estudos, tão recomendados na Encíclica "Providentissimus
Deus", se aperfeiçoassem cada vez mais e se promovessem mais
eficazmente.
Porque por meio da carta apostólica "Vigilantiae", datada
de 30 de Outubro de 1902, constituiu o Conselho, ou como hoje se chama,
a Comissão de graves varões, "que teriam como seu campo
de atividade própria cuidar com todas as suas forças e fazer
que a palavra divina seja entre nós objeto daquele estudo mais
cuidado que os tempos pedem, e se mantenha isenta não só
de todo o sopro de erro, mas de qualquer opinião temerária"
(12); Comissão que também Nós, seguindo o exemplo
dos Nossos Predecessores, confirmamos e ampliamos, usando do seu serviço,
como o tínhamos feito antes muitas vezes para levar os intérpretes
dos livros sagrados àquelas leis sãs da exegese católica
que os Santos Padres, os doutores da Igreja e os próprios Sumos
pontífices Nos confiaram (13).
§ 2º - A obra dos sucessores de Leão XIII. Pio X: Criação
dos graus académicos. Programa dos Estudos Bíblicos. Instituto
Bíblico.
Ao chegar a este ponto, não Nos parece inoportuno fazer grata menção
do que os Nossos restantes Predecessores acrescentaram de mais importante
e útil para o mesmo fim, e que bem poderíamos chamar complemento
ou fruto da feliz iniciativa leonina. E em primeiro lugar Pio X, querendo
"subministrar um modo certo de se obterem com abundância mestres
recomendáveis pôr sua gravidade e sincera doutrina, que interpretassem
nas escolas católicas os livros divinos, institui os graus acadêmicos
de licenciado e doutor em Sagrada Escritura, que a Comissão Bíblica
havia de conferir" (14).
Depois promulgou a lei "sobre a orientação que se havia
de observar no estudo da Sagrada Escritura nos seminários eclesiásticos",
procurando que os alunos "não só entendessem e conhecessem
por si mesmos a força, os modos e a doutrina da Bíblia,
mas também pudessem fácil e frutuosamente dedicar-se ao
ministério da palavra divina, e defender de qualquer ataque, os
livros escritos sob a inspiração de Deus" (15).
Finalmente, "para que na cidade de Roma houvesse um Centro de Estudos
Superiores sobre a Sagrada Escritura, que promovesse da maneira mais eficaz
que fosse possível a doutrina bíblica, e todos os estudos
a ela anexos, segundo o sentir da Igreja Católica", fundou,
confiando-o à ínclita Companhia de Jesus, o Pontifício
Instituto Bíblico, que quis fosse "dotado dos mais acreditados
mestres e de todos os instrumentos de erudição bíblica",
e traçou as suas leis e disciplina, professando seguir neste ponto
"o salutar e frutuoso propósito" de Leão XIII
(16).
Pio XI: Prescrição dos graus acadêmicos. Mosteiro
de S. Jerônimo para a revisão da Vulgata.
Tudo isto aperfeiçoou, finalmente, o Nosso próximo antecessor,
de feliz memória, Pio XI, determinando, entre outras coisas, que
ninguém "ensinasse nos seminários Sagrada Escritura
senão depois que, terminado o curso especial de tais disciplinas,
estivesse na posse legítima dos graus acadêmicos conferidos
pela Comissão Bíblica ou pelo Instituto Bíblico".
Quis além disso que estes graus gozassem de iguais direitos e tivessem
os mesmos efeitos que os legitimamente outorgados em Sagrada Teologia
e Direito Canônico; estabeleceu também que a ninguém
se conferisse um "beneficio a que estivesse canonicamente anexa a
obrigação de explicar ao povo a Sagrada Escritura, se além
dos restantes requisitos não possuísse a licenciatura ou
o doutorado em Sagrada Escritura". E ao mesmo tempo que exortava
os gerais das Ordens e Congregações religiosas, e os Bispos
do orbe católico, a escolher alguns entre os seus melhores alunos,
para os enviar a cursar estudos e obter os graus acadêmicos no Instituto
Bíblico, confirmava essas exortações com o seu próprio
exemplo, constituindo da sua liberalidade rendas anuais para o mesmo fim
(17).
Foi o mesmo Pontífice quem, depois de ter, pelo favor e com a aprovação
de Pio X, de feliz recordação, no ano de 1907 "confiado
aos monges beneditinos o encargo de preparar as investigações
e os estudos onde se firmasse a nova versão latina das Escrituras,
que tem o nome de "Vulgata" (18), querendo estabelecer com mais
firmeza e segurança esta "árdua e trabalhosa empresa",
que exige largo tempo e grandes dispêndios, e cuja extraordinária
utilidade havia já sido demonstrada pelos egrégios volumes
editados, criou desde os fundamentos, e dotou abundantissimamente de biblioteca
e mais subsídios da investigação, o Mosteiro de S.
Jerônimo, na cidade de Roma, que devia dedicar-se àquela
exclusiva finalidade" (19).
§ 3º - Cuidados dos Sumos Pontífices pelo uso e difusão
da Sagrada Escritura.
Também parece que se não deve passar aqui em silêncio
o que recomendaram os Nossos Predecessores nas ocasiões oportunas:
o estudo, a pregação, a piedosa leitura e meditação
das Sagradas Escrituras. Porque Pio X aprovou com ardor a sociedade de
S. Jerônimo, que procura levar os fiéis ao costume, certamente
louvável, de ler e meditar os Santos Evangelhos, e facilitá-los
o mais possível; e exortou-a a perseverar animosamente no propósito,
dizendo "que era a coisa mais útil de todas, e a mais apropriada
a estes tempos", pois contribuía não pouco para "desfazer
a opinião de que a Igreja repugnava que a Sagrada Escritura fosse
lida nas línguas modernas, ou a isso opunha algum impedimento"
(20). Bento XV, por sua parte, ao cumprir-se o XV centenário da
morte do Doutor Máximo, na exposição das Sagradas
Escrituras, depois de ter inculcado com empenho os preceitos e o exemplo
deste santo doutor, e os princípios e normas dados por Leão
XIII e por ele próprio, e de ter feito novas recomendações
nesta matéria, oportuníssimas e inolvidáveis, exortou
"todos os filhos da Igreja, especialmente os clérigos, ao
respeito à Sagrada Escritura, unido à sua piedosa leitura
e assídua meditação"; e advertiu "que nestas
páginas se havia de procurar o alimento com que a vida do espírito
se nutrisse para a perfeição" e que "o principal
uso da Escritura havia de ser para o exercício santo e frutuoso
do ministério e da palavra divina"; e louvou igualmente de
novo os trabalhos da sociedade que recebia o nome de S. Jerônimo,
por cujos cuidados se difundem tão extensamente os Evangelhos e
os Atos dos Apóstolos, "que já não há
família cristã que os não tenha, e todos têm
por costume a sua leitura e meditação diária"
(21).
§ 4º - Frutos desta multíplice ação.
É grato e justo confessar que o conhecimento e o uso das Sagradas
Escrituras progrediram não pouco entre os católicos, não
só por estas iniciativas, preceitos e exortações
dos Nossos Predecessores, mas também pelo trabalho e fadigas de
quantos os secundaram com diligência, escrevendo, ensinando, pregando,
traduzindo e propagando os Livros Sagrados. Porque das escolas em que
se dão cursos superiores de Teologia e Escritura, especialmente
do Nosso Pontifício Instituto Bíblico, saíram e saem
cada dia mais numerosos cultores da Sagrada Escritura, que animados de
ardente amor aos livros sagrados educam com o mesmo ardor o clero adolescente,
e comunicam-lhe cuidadosamente a mesma doutrina que beberam. Não
poucos deles promoveram e promovem também com os seus escritos
os temas bíblicos, quer editando os textos sagrados segundo as
normas da arte crítica, explicando-os, ilustrando-os, traduzindo-os
nas línguas modernas, quer propondo-os à piedosa leitura
e meditação dos fiéis, quer, finalmente, cultivando
e estudando as disciplinas profanas que são úteis para a
explanação da Escritura. Destas e outras iniciativas que
cada dia se propagam e desenvolvem, como são, para dar algum exemplo,
as Associações Bíblicas, os Congressos, as Reuniões,
Semanas, Bibliotecas e Confrarias para a meditação dos Evangelhos,
concebemos a esperança de que não poderá deixar de
crescer em toda a parte, para bem das almas, a reverência, o uso
e o conhecimento das Sagradas Letras, contanto que todos sustentem mais
firme, mais ardorosa, mais fielmente a norma do estudo bíblico,
prescrita por Leão XIII, declarada com mais amplitude e perfeição
pelos seus Sucessores e confirmada e aumentada por Nós - pois é
a única segura e comprovada pela experiência - sem recuarem
ante as dificuldades que, como acontece em toda a obra humana, também
não faltarão nunca nesta empresa gloriosa.
II. PARTE DOUTRINAL:
O ESTUDO DA SAGRADA ESCRITURA NOS NOSSOS TEMPOS
Estado atual dos Estudos Bíblicos.
Ninguém há que não possa facilmente, notar que nos
últimos cinquenta anos mudaram muito as condições
da ciência bíblica e das suas ciências auxiliares.
Porque omitindo outros muitos fatos, quando o Nosso Predecessor escreveu
a encíclica "Providentissimus Deus" apenas um ou outro
lugar da Palestina se havia começado a explorar com escavações
destinadas a tais estudos. Agora, porém, estas investigações
cresceram muitíssimo em número e, aperfeiçoadas com
método e processos mais rigorosos, ensinam-nos muito mais e com
mais certeza. Todos os especialistas e os que se dedicam a estes estudos
conhecem bem quanta luz saiu daquelas investigações, para
mais reta e plena inteligência dos Livros Sagrados. A importância
dessas explorações aumenta ainda com a descoberta de documentos
escritos, que servem grandemente para o conhecimento das línguas,
literaturas, acontecimentos, costumes e cultos dos homens mais antigos.
De não menor importância é o descobrimento e a investigação
- tão frequente na nossa época - de papiros, que tanto serviram
para conhecer as letras e instituições públicas e
privadas, sobretudo da época do nosso Salvador. Além disso
encontraram-se e editaram-se conscienciosamente velhos códices
dos Livros Sagrados; investigou-se mais ampla e profundamente a exegese
dos Padres da Igreja; esclareceu-se, finalmente, com inumeráveis
exemplos, o modo de falar, narrar e escrever dos antigos. Tudo isto, que
não sem especial desígnio da Providência o nosso tempo
conseguiu, convida e adverte em certo modo os intérpretes das Sagradas
Letras para que usem animosamente de tanta luz conseguida, para perscrutar
com mais perfeição, ilustrar mais claramente, e propor mais
luminosamente a palavra de Deus. E se é certo que, com grande conforto
da alma, vemos que os aludidos intérpretes já secundaram
e secundam cuidadosamente este convite, isso é fruto, e não
o último nem o mais pequeno, da encíclica "Providentissimus
Deus", com que o Nosso Predecessor Leão XIII, como que pressagiando
este novo florescimento das disciplinas bíblicas, chamou ao trabalho
os exegetas católicos e lhes definiu sabiamente qual havia de ser
o seu caminho e o seu método de trabalho.
Nós, também, por Nossa parte, desejamos conseguir, por meio
desta encíclica, que este trabalho não só perdure
constante, mas se aperfeiçoe e torne mais fecundo, procurando sobretudo
mostrar a todos o que resta fazer e com que disposição de
ânimo o exegeta católico há de empreender hoje tão
grande e excelsa empresa, e acrescentar novo alento e novos estímulos
aos operários que trabalham com diligência na vinha do Senhor.
§ 1º - Recurso aos textos primitivos. Estudo das línguas
bíblicas.
Já os Padres da Igreja, e especialmente Santo Agostinho, recomendavam
com instância ao intérprete católico, que se propunha
entender e explanar as Sagradas Escrituras, o conhecimento das línguas
antigas e o recurso aos textos primitivos (22).
Mas as condições dos tempos eram então tais que muito
poucos, e esses só imperfeitamente, conheciam a língua hebraica.
Na Idade Média, por seu lado, quando chegou ao seu máximo
florescimento a Teologia Escolástica, havia diminuído tanto
o próprio conhecimento da língua grega, que até os
maiores doutores daquelas épocas, ao explicar os Livros Divinos,
se apoiavam unicamente na versão latina, que chamam Vulgata. Ao
contrário, em nossos dias não só é familiar
a quase todos os cultores das antiguidades e das letras a língua
grega, que já desde o Renascimento havia sido em certo modo chamada
a nova vida, mas propagou-se extensamente entre os homens cultos o conhecimento
do hebreu e de outras línguas orientais. A ponto tal, que hoje
há tanta abundância de subsídios para aprender aquelas
línguas que o intérprete bíblico, que, rechaçando-os,
se tolhe o acesso aos textos originais, não poderá evitar
a nota de leviano e descuidado.
Porque é também missão do exegeta recolher com extremo
cuidado e veneração os mais pequenos pormenores que sob
a inspiraçao do Espírito Divino saíram da pena do
hagiógrafo, para chegar a um conhecimento mais perfeito e pleno
do seu pensamento. Por isso deve procurar com diligência adquirir
cada dia mais perícia nas línguas bíblicas e nos
outros idiomas orientais e dotar a sua interpretação com
todos os auxílios que lhe possa fornecer qualquer gênero
de filologia. Já S. Jerônimo intentou com empenho consegui-lo,
conforme o permitiram os conhecimentos da sua época, e a isto mesmo
tenderam, com incansável trabalho e não mediano fruto, não
poucos dos grandes exegetas dos séculos XVI e XVII, embora então
fosse muito mais escasso que hoje o conhecimento das línguas. Pela
mesma razão convirá, pois, explanar o texto primitivo, que,
escrito pelo próprio autor sagrado, tem maior autoridade e peso
que qualquer tradução antiga ou moderna, por boa que seja;
o que se conseguirá com maior facilidade e fruto, se ao conhecimento
das línguas se aliar também, pelo que diz respeito ao próprio
texto, um sólido conhecimento dos preceitos da crítica.
Importância da crítica textual.
Advertiu claramente Santo Agostinho a importãncia que se deve atribuir
a esta crítica, quando entre os preceitos que se deviam inculcar
ao estudioso dos Livros Sagrados pôs, em primeiro lugar, o cuidado
de obter textos bem corrigidos. "A diligência de quem deseja
conhecer as Escrituras Divinas - diz aquele preclaríssimo doutor
da Igreja - deve olhar primeiramente à correção dos
códices, de modo que aos não emendados se prefiram aos emendados"
(23).
Atualmente esta arte, conhecida pelo nome de "crítica textual"
e que com grande louvor e fruto se usa na edição de textos
profanos, emprega-se também nos Livros Sagrados, e com maior razão,
pela própria reverência devida à palavra de Deus.
Porque de sua própria natureza ela oferece a vantagem de restabelecer
o mais perfeitamente possível o texto sagrado, expurgando-o das
corrupções introduzidas, por deficiência dos copistas,
e libertando-o, tanto quanto possível, de glosas, lacunas, inversões
de palavras, repetições e outros erros de toda a espécie,
que costumam infiltrar-se em escritos transmitidos ao longo de muitos
séculos. Escusado será advertir que esta crítica,
empregada há uns tantos decênios por alguns, a seu livre
arbítrio, e de tal maneira que alguém pôde dizer que
o que pretendiam era introduzir no texto sagrado, as suas opiniões
e preconceitos, chegou a alcançar tal fixidez nas suas leis, e
tal segurança, que veio a tornar-se notável auxílio
para editar mais pura e esmeradamente a Palavra divina, e para que qualquer
abuso se possa descobrir facilmente. Nem é preciso também
recordar aqui - porque é notório e claro para todos os estudiosos
da Sagrada Escritura - em quanto apreço e honra a Igreja teve,
desde os primeiros séculos aos nossos dias, estes estudos da crítica.
Hoje, pois, que a tanta perfeição chegou o emprego desta
arte, é honrosa missão dos estudiosos da Bíblia,
embora nem sempre seja fácil, procurar com todas as forças,
que os católicos preparem oportunamente, e quanto antes, edições,
tanto dos Livros Sagrados, como das versões antigas, redigidas
segundo estas normas, isto é, de modo que aliem à máxima
reverência ao texto sagrado a mais exata observância das leis
da crítica.
E saibam todos que este longo trabalho não é só necessário
para ler retamente os escritos que nos foram dados por inspiração
divina, mas que o exige aquela piedade com que nos fica bem mostrar a
nossa gratidão a Deus providentíssimo, que do trono da sua
majestade nos enviou a nós, seus próprios filhos, estes
livros, como se fossem cartas paternais.
Valor do decreto Tridentino sobre o uso da Vulgata. Versões em
lingua vulgar.
Não pense alguém que este uso dos textos primitivos, obtidos
pelos métodos críticos, seja contrário, no mínimo
que seja, ao que o Concílio Tridentino sabiamente estabeleceu a
respeito da Vulgata Latina (24). Consta, na verdade, dos documentos, que
os Presidentes do Concílio foram encarregados de pedir ao Sumo
Pontífice, em nome do mesmo Concílio - o que eles fizeram
- que mandasse corrigir, como melhor se pudesse, primeiro, a edição
latina, depois o texto grego e hebreu, divulgando-o para utilidade da
Santa Igreja de Deus (25); e se então, pelas dificuldades dos tempos
e outros obstáculos, se não pôde satisfazer plenamente
a este desejo, atualmente, como confiamos, poder-se-á satisfazer,
com mais amplitude e perfeição, juntos os esforços
de todos os doutores católicos. Quanto à vontade do Concílio
de Trento de que "todos usem como autêntica" a versão
latina Vulgata, todos sabem que isto se refere unicamente à Igreja
latina e ao uso público da Escritura e de modo nenhum diminui,
sem dúvida de espécie alguma, a autoridade e força
dos textos originais. Porque se não tratava então dos textos
originais, mas das versões latinas que então circulavam,
entre as quais determinou o Concílio que deveria preferir-se, com
razão, aquela que "recebeu aprovação na mesma
Igreja pelo largo uso de tantos séculos".
Assim pois, esta autoridade proeminente da Vulgata, ou, como lhe chamam,
esta autenticidade, não a estabeleceu o Concílio guiado
sobretudo por razões críticas, mas antes pelo legítimo
uso que dela se tinha feito na Igreja, no decurso de tantos séculos:
uso que por si só demonstra que está imune de qualquer erro
em matéria de fé e costumes, de modo que, segundo o manifesta
e confirma a mesma Igreja, pode citar-se com segurança, e sem termo
de errar, nas disputas, lições e pregações;
de tal modo que a sobredita autenticidade mais merece o nome de jurídica
que o de crítica. Por isso esta autoridade da Vulgata em assuntos
doutrinais não impede - mais ainda, quase exige hoje em dia - que
esta mesma doutrina se comprove e confirme pelos próprios textos
originais, e que se invoque continuamente o auxílio dos mesmos
textos, com os quais se aclare e patenteie cada vez mais a reta significação
das Sagradas Letras.
Também se não proíbe pelo decreto do Concílio
Tridentino que para uso e proveito dos fiéis, e mais fácil
inteligência da palavra divina, se façam traduções
nas línguas vivas, e diretamente dos textos originais, como sabemos
que já se fez, louvavelmente, em muitas regiões, com aprovação
da autoridade eclesiástica.
§ 2º - Interpretação dos Livros Sagrados. Importância
e investigação do sentido literal.
Bem apetrechado com o conhecimento das línguas antigas e os recursos
da crítica, o exegeta católico há de empreender o
trabalho de encontrar e expor a genuína significação
dos Livros Sagrados, que é o principal de todos os trabalhos que
lhe estão confiados. Na execução deste trabalho há
de ter presente os intérpretes que o seu maior cuidado se há
de pôr em distinguir e definir com clareza qual é o sentido
das palavras bíblicas a que chamam literal, "do qual somente
- como afirma bem o Aquinatense - se pode argumentar" (26). Assim,
pois, deduzam com toda a diligência a significação
literal das palavras com o seu conhecimento das línguas, recorrendo
ao contexto e comparando com outras passagens semelhantes: subsídios
todos de que se costuma lançar mão na interpretação
dos escritos profanos, com o fim de aclarar até à evidência
o pensamento do autor.
Porém os exegetas das Sagradas Letras, recordando que neste caso
se trata da Palavra inspirada por Deus, cuja guarda e interpretação
foi, pelo mesmo Deus, confiada à Igreja, hão de ter em conta,
com diligência não menor, as explanações e
declarações do magistério da Igreja, bem como as
explicações dadas pelos Santos Padres, e também a
"analogia da fé", como advertiu sabiamente Leão
XIII, na encíclica "Providentissimus Deus" (27). Procurarão
com singular empenho não expor somente - como lamentamos que se
faça em certos comentários - as matérias relativas
à história, à arqueologia, à filologia e outras
disciplinas semelhantes, mas embora utilizadas estas, na medida em que
possa ajudar a exegese, hão de mostrar de preferência qual
é a doutrina teológica de fé e costumes de cada livro
ou texto, de modo que esta sua explicação não só
ajude os Professores de Teologia na tarefa de propor e confirmar os dogmas
da fé, mas sirva de auxílio aos sacerdotes para explicar
ao povo a doutrina cristã, e sirva finalmente a todos os fiéis
para levarem uma vida santa e digna de um homem cristão.
Reto uso do sentido espiritual.
Ao dar esta interpretação preferentemente teológica,
como dissemos, reduzirão eficazmente ao silêncio aqueles
que, afirmando pouco encontrarem que eleve o espírito a Deus, alimente
a alma e promova a vida interior, apregoam que é preciso refugiar-se
numa certa interpretação espiritual e mística. Quão
pouco assisadamente estes pensam demonstra-o a própria experiência
de tantos que na consideração e meditação
contínuas da palavra divina aperfeiçoam a sua alma e se
tomaram de veemente amor a Deus; e ensinam-no claramente a constante prática
da Igreja e os ensinamentos dos maiores doutores.
É certo que se não exclui da Escritura qualquer sentido
espiritual. Porque as coisas que se disseram e se fizeram no Antigo Testamento,
foram dispostas e ordenadas por Deus tão sabiamente que o passado
fosse, de modo espiritual, um símbolo antecipado do que havia de
suceder na nova lei da Graça. Por isso o exegeta deve encontrar
e expor esta significação espiritual, contanto que conste
exatamente que Deus a quis dar, do mesmo modo que o faz com a interpretação
própria ou literal, como lhe chamam, que o hagi6grafo teve em vista
e exprimiu. Só Deus pôde com efeito conhecer e revelar-nos
esta significação espiritual.
Que tal sentido existe é-nos indicado e ensinado pelo próprio
divino Salvador nos santos Evangelhos; mostram-no os Apóstolos
oralmente e por escrito, imitando o exemplo do Mestre; mostra-o a doutrina
perpetuamente transmitida pela tradição da Igreja; declara-o,
finalmente, o mais antigo uso da liturgia, segundo o conhecido axioma:
"lex precandi lex credendi est" (a norma da oração
é norma de fé). Assim, pois, os exegetas católicos
devem esclarecer e expor este sentido espiritual, querido e ordenado pelo
próprio Deus, com a diligência que pede a dignidade da palavra
divina; mas tenham meticuloso cuidado em não propor como sentido
genuíno da Sagrada Escritura outras significações
figurativas das coisas.
Porque se, sobretudo no cumprimento do dever da pregação,
pode ser útil, para ilustrar e recomendar os assuntos de fé
e moral, um certo uso mais amplo do texto sagrado, obtido por translação
da significação verbal, contanto que se faça com
sobriedade e moderação, nunca se deve esquecer contudo,
que este uso das palavras da Sagrada Escritura lhe é como que externo
e adventício, e não está isento de perigo, sobretudo
hoje que os fiéis, e especialmente os instruídos nas ciências
sagradas e profanas, procuram mais que o próprio Deus, nos quer
significar nas Sagradas Letras do que aquilo que o eloquente orador ou
escritor expõe usando com certa destreza as palavras da Biblia:
"a palavra de Deus, que é viva e eficaz, e mais penetrante
que qualquer espada de dois gumes, e que atinge até a alma e o
espírito, até as junturas e as medulas, e que discerne os
pensamentos e as intenções do coração"
(28), não necessita acicates nem retoques humanos para mover e
sacudir as almas; porque as páginas sagradas, escritas sob a inspiração
do Espírito Divino, abundam só por si em significações
originais; dotadas de força divina, valem por si mesmas; adornadas
de galas celestiais, luzem e brilham por si, contanto que o intérprete
as explique tão íntegra e escrupulosamente que se mostrem
à luz todos os tesouros de sabedoria e prudência que nelas
se escondem.
Incitamento ao estudo dos Santos Padres e dos grandes Intérpretes.
Na consecução destes fins poderá o exegeta católico
receber grande benefício do diligente estudo das obras em que os
Santos Padres, os Doutores da Igreja e os ilustres intérpretes
dos tempos passados expuseram as Sagradas Letras. Porque embora eles por
vezes possuam menos erudição profana e conhecimentos linguísticos
que os intérpretes do nosso tempo, contudo, em virtude do papel
que Deus lhes havia marcado na Igreja, sobressaem por certa e suave perspicácia
nas coisas celestes, e por uma admirável agudeza mental com que
penetram intimamente os recônditos da palavra divina e trazem à
luz tudo quanto possa conduzir a ilustrar a doutrina de Cristo e promover
a santidade da vida. Precisamente se deve lamentar que esses preciosos
tesouros da antiguidade cristã sejam escassamente conhecidos para
não poucos dos escritores atuais, e que os cultores da história
da exegese não tenham feito já quanto era necessário
para investigar cuidadosamente, e dar o devido valor a coisa de tanta
importância. Oxalá haja muitos que, investigando com afinco
os autores e obras de interpretação católica das
Escrituras, como para esgotar as imensas riquezas que outros amontoam,
contribuam eficazmente para que cada dia se veja melhor até que
ponto penetraram e ilustraram a doutrina dos Livros Sagrados e deles tomem
exemplo os modernos intérpretes para voltar aos temas oportunos.
Porque assim se conseguirá finalmente a feliz aliança da
solidez e da suavidade espiritual da linguagem dos antigos, com a maior
erudição e mais avançado método dos modernos,
que há de trazer, certamente, novos frutos ao campo das letras
divinas, nunca assás cultivado e nunca esgotado.
§ 3º - Cuidados especiais dos Intérpretes nos nossos
tempos. Estado atual da exegese.
Além disso, com razão se pode esperar que também
os nossos tempos nalguma coisa poderão contribuir para a mais completa
e minuciosa interpretaçao das Letras Sagradas. Porque não
poucas coisas, especialmente das relativas à história, ou
mal foram explicadas pelos escritores dos séculos passados ou não
o foram no grau necessário, porque lhes faltavam quase todos os
conhecimentos necessários para as ilustrar. Com que dificuldades
e quase impossibilidades tropeçaram os próprios Santos Padres
vê-se bem, para omitir outros pormenores, pelos esforços
em que muitos deles insistiram para interpretar os primeiros capítulos
do Génesis, e também pelas repetidas tentativas de S. Jerónimo
de traduzir os salmos de modo que se visse claramente o seu sentido literal,
ou seja: o que exprimem as próprias palavras. Há, finalmente,
outros livros ou textos sagrados cujas dificuldades se descobriram recentemente,
quando com mais profundo conhecimento das antiguidades surgiram novas
questões que requerem mais atento estudo.
Sem razão, pois, andam dizendo alguns, que não compreendem
bem as condições das ciências bíblicas, que
ao exegeta católico do nosso tempo nada falta acrescentar ao já
dito pela antiguidade cristã, quando é certo que a nossa
época suscitou tantas coisas que necessitam nova investigação
e exame e estimulam não pouco a atividade científica do
intérprete de hoje.
Deve-se estudar a índole do Hagiógrafo.
Assim como a nossa época tem de arrostar com novas questões
e novas dificuldades, oferece também, por mercê de Deus,
novos subsídios e ajudas para a exegese. Entre estes parece digno
de peculiar menção o de que os teólogos católicos,
seguindo a doutrina dos Santos Padres, e especialmente a doutrina do Doutor
Angélico e Comum, tenham investigado e apresentado a natureza e
os efeitos da inspiração bíblica melhor do que era
costume fazê-lo nos séculos passados. Porque partindo, no
seu raciocínio, da suposição de que o hagiógrafo
ao compor o livro sagrado é "organon" ou instrumento
do Espírito Santo, mas instrumento vivo e dotado de razão,
advertem justamente que ele, levado de moção divina, emprega
as suas faculdades e forças de tal modo que, do livro que nasce
por obra sua, podem coligir todos facilmente "a sua índole
própria e peculiar e, por assim dizer, os seus traços e
qualidades singulares" (29). Portanto, o intérprete, com todo
o esmero e sem descurar nenhuma luz que hajam trazido as investigações
mais recentes, esforçar-se-á por distinguir qual foi a índole
própria e o teor de vida do escritor sagrado, em que época
floresceu, que fontes escritas ou tradição oral utilizou,
que formas de linguagem empregou. Porque deste modo melhor poderá
conhecer quem foi o hagiógrafo e o que ele escrevendo quis significar.
Com efeito, não passa despercebido a ninguém que a norma
suprema da interpretação é que se veja e defina o
que quis dizer o escritor, segundo a magnífica advertência
de Santo Atanásio: "Aqui, como convém praticar em qualquer
outro lugar da Escritura divina, é preciso observar em que ocasião
falou o Apóstolo e ter em conta escrupulosa e fielmente quem é
a pessoa e qual o assunto por cuja causa escreveu, não seja caso
que, por ignorância destes pormenores, ou entendendo outra coisa
em vez daquela, alguém se afaste do significado verdadeiro"
(30).
Importância do gênero literário especialmente na história.
Nas palavras e escritos dos antigos autores orientais frequentemente não
é claro, como nos escritores nossos contemporâneos, qual
é o sentido literal. Porque nem as leis da Gramática e da
Filologia nem o contexto determinam, por si sós, o que eles quiseram
significar com as suas palavras; é imprescindível que o
intérprete remonte mentalmente a esses recuados séculos
do Oriente e auxiliado convenientemente pelos subsídios da história,
da arqueologia, da etnologia e outras disciplinas distinga e veja claro,
que gênero literário, como se diz, quiseram empregar e de
fato empregaram os escritores daquela vetusta idade. Porque os antigos
orientais, para exprimir o que tinham na mente não empregavam sempre
as mesmas formas e modos de dizer que nós usamos hoje, mas sim
os que corriam entre os homens do seu tempo e da sua nação.
Quais foram estes, não pode o exegeta estabelecê-lo de antemão,
mas só depois de cuidadosa investigação da antiga
literatura do Oriente. Porém esta investigação, nos
últimos decênios, conduza com maior cuidado e diligência
que antes, esclareceu quais as formas de linguagem se usaram na antiguidade
para descrever poeticamente as coisas, ou para apresentar as leis e normas
de vida, ou finalmente, para narrar os fatos e sucessos da história.
Esta mesma investigação comprovou também com evidência
que o povo israelita sobressaiu singularmente entre as demais nações
do velho Oriente no tocante ao escrever devidamente a história,
tanto pela antiguidade como pelo fiel relato dos sucessos, o que já
se deduziria pelo carisma da inspiração divina e pelo fim
peculiar da história bíblica, que é religioso.
Pois bem: ninguém que conceba retamente a inspiração
bíblica deve admirar-se de que também nos escritores sagrados,
como nos outros antigos, se encontrem certos modos de expor e narrar,
certos idiomatismos peculiares sobretudo às línguas semíticas,
chamados aproximações, e certas hipérboles e, por
vezes, até paradoxos com que as coisas se gravam mais firmemente
no espírito. Porque não é alheio aos livros sagrados
nenhum daqueles modos de falar de que a linguagem humana costuma servir-se,
para expor um pensamento, entre os povos antigos, e sobretudo entre os
orientais, com esta só condição: que o gênero
literário usado não repugne à santidade e à
verdade de Deus, como, segundo era de esperar da sua sagacidade, adverte
já o mesmo Doutor Angélico com as seguintes palavras: "Na
Escritura as coisas divinas são-nos comunicadas segundo os modos
usados pelos homens" (31). Pois assim como o Verbo substancial de
Deus se tornou semelhante aos homens em tudo "exceto no pecado"
(32), também as palavras de Deus expressas pela língua humana
se tornam semelhantes à linguagem humana em tudo menos no erro,
o que já foi exaltado por S. João Crisóstomo, com
grandes louvores, como "synkatábasin" ou "condescendência
de Deus, e assegurou repetidas vezes que se dava nos Livros Sagrados"
(33).
Por isso o exegeta católico que queira satisfazer plenamente as
exigências atuais dos estudos bíblicos, quando expõe
a Sagrada Escritura e trata de mostrar e provar que ela está imune
de qualquer erro, há de empregar também prudentemente este
subsídio, a saber: averiguar em que pode contribuir para a verdadeira
e genuína interpretação a forma de expressão
ou gênero literário usado pelo hagiógrafo; e convença-se
de que este aspecto do seu dever não pode ser descurado sem grande
detrimento da exegese católica. Não raro, com efeito - para
só mencionar um exemplo - quando alguns lançam a acusação
de que os autores sagrados se afastaram da fidelidade histórica,
ou referiram sucessos com menos exatidão, vem a provar-se que só
se trata daquelas expressões usuais antigas que eles costumavam
empregar continuamente no seu trato mútuo e de fato se empregam
correta e universalmente. A imparcialidade exige, portanto, que quando
se encontrem coisas semelhantes na elocução divina, que
fala para os homens com palavras humanas, não se devam arguir de
erro mais do que se faria se se encontrassem no uso cotidiano da vida.
Assim conhecidos e apreciados retamente os modos de dizer e gênero
de falar e escrever dos antigos poder-se-ão resolver muitas das
objeções contra a verdade e fidelidade histórica
das Letras Divinas, além de que este estudo conduzirá à
mais plena e clara compreensão do pensamento do autor sagrado.
Estudo das antiguidades bíblicas.
Os nossos estudiosos dos assuntos bíblicos trabalharão,
pois, também nisto, com a devida diligência, e não
omitirão nenhuma das provas descobertas que ofereçam a arqueologia,
a história antiga ou o estudo das línguas primitivas e que
sejam idôneas para fazer conhecer melhor a mentalidade dos escritores
antigos e a sua maneira, forma e arte de raciocinar, narrar e escrever.
Nesta ordem de coisas advirtam também os seculares católicos,
que podem não só trazer algum proveito aos estudos profanos,
mas bem merecer da causa católica, entregando-se a explorar e investigar
as antiguidades com toda a diligência e empenho convenientes, e
colaborando na medida das suas forças para a solução
desse tipo de problemas, até agora menos claros e nítidos.
Porque todo o conhecimento humano, ainda que não seja de coisas
sagradas, tem já uma íntima dignidade e excelência
- como participação finita que é do conhecimento
infinito de Deus; mas adquire nova e mais alta dignidade e como que consagração,
quando se emprega para ilustrar com mais intensa luz as próprias
coisas divinas.
4º - Como tratar as questões mais difíceis.
Dificuldades felizmente resolvidas com os estudos modernos
Em virtude dessa mais perfeita investigação das antiguidades
orientais de que falamos, do estudo mais cuidadoso do próprio texto
original e do conhecimento mais amplo e diligente das línguas bíblicas
e de todas as particularidades relativas ao Oriente, aconteceu felizmente,
com a graça de Deus, que não poucas daquelas questões
que no tempo do Nosso Predecessor Leão XIII, de perpétua
recordação, tinham levantado contra a autenticidade, antiguidade,
integridade e fidelidade dos livros sagrados, os críticos afastados
da Igreja, ou inclusivamente adversários dela, hoje estão
já resolvidas e solucionadas. Porque os exegetas católicos,
empregando retamente as mesmas armas científicas de que os adversários
não raro abusavam, propuseram as interpretações,
que estando de acordo com a doutrina católica e o parecer tradicional
e genuíno dos antigos, parecem ao mesmo tempo ter evitado as dificuldades
que as novas investigações e descobertas suscitaram ou as
que a antiguidade legou sem solução ao nosso tempo.
Daí proveio entre os católicos uma restauração
total da confiança na autoridade e na verdade histórica
da Bíblia, que no parecer de alguns se havia diminuído um
pouco perante o número dos ataques; e ainda mais: porque não
faltam escritores não católicos, que depois de levar a cabo
um inquérito com ânimo sereno e imparcial, foram levados
a deixar as teorias dos modernos e voltaram, pelo menos neste ou naquele
caso, às opiniões mais antigas.
Esta mudança de situação deve-se em grande parte
ao trabalho incansável com que os expositores católicos
das Sagradas Letras, sem se amedrontarem ante as dificuldades e obstáculos
de todo o gênero, lutaram com todas as suas forças por fazer
reto uso dos conhecimentos, que trouxera para a solução
dos problemas a investigação dos eruditos contemporâneos,
no campo da arqueologia, da história e da filologia.
Dificuldades ainda nao resolvidas
Ninguém se admire, contudo, de que ainda se não hajam resolvido
e vencido todas as dificuldades, e que ainda hoje inquietam não
pouco as inteligências dos exegetas católicos graves questões.
Certo é que não deve perder-se por isso o ânimo, nem
se deve esquecer que nas disciplinas humanas sucede exatamente o que sucede
na natureza: que as coisas crescem lentamente e não se podem colher
os frutos se não depois de muitos trabalhos. Assim sucedeu que
algumas disputas, que nos tempos passados estiveram por resolver e suspensas,
se solucionaram feliz e finalmente em nossos dias com o progresso dos
estudos. Pela mesma razão se deve esperar que também estas
outras, que hoje parecem extraordinariamente complicadas e extremamente
árduas, acabem por aparecer em plena luz, graças ao constante
esforço.
E se a solução desejada tarda e não nos sorri, e
temos de deixar porventura que sejam os nossos sucessores que consigam
o êxito feliz, ninguém se inquiete por isso, pois é
justo que apliquemos a nós, o que já os Padres, e especialmente
Santo Agostinho, advertiram no seu tempo: que Deus semeou de propósito
dificuldades nos livros sagrados, que Ele mesmo inspirou, para que, por
um lado, nos excitássemos a estudá-los e a examiná-los
com mais afinco, e, por outro lado, sentindo salutarmente os limites da
nossa inteligência, nos exercitássemos na devida humildade
da alma (34). Nada teria portanto de estranho que nunca se chegasse a
obter resposta de todo satisfatória a tal ou tal questão,
tratando-se, como por vezes se trata, de coisas obscuras e demasiado afastadas
dos nossos tempos e experiência, e podendo ter a exegese, como outras
disciplinas, os seus segredos próprios, insuperáveis para
os nossos espíritos, e incapazes de ceder a qualquer esforço.
Como se podem procurar as soluções positivas.
Apesar de ser esta a posição das coisas, o intérprete
católico, impelido por um amor forte e operoso da sua especialidade
e sinceramente dedicado à Santa Madre Igreja, de modo algum deve
deixar de arrostar uma e outra vez com as difíceis questões
ainda não resolvidas, não só para rechaçar
as objeções dos adversários, mas também para
tentar descobrir uma sólida explicação que concorde
fielmente com a doutrina da Igreja, e nomeadamente com o que a tradição
ensina sobre a imunidade de todo o erro da Sagrada Escritura e satisfaça
ao mesmo tempo, como deve ser, as conclusões certas das disciplinas
profanas.
Todos os outros filhos da Igreja recordem que todas as tentativas desses
valentes operários da vinha do Senhor devem ser julgadas não
só com imparcialidade e justiça, mas também com suma
caridade; e detestem aquele modo menos prudente de pensar, segundo o qual
tudo o que é novo é por isso mesmo rejeitável, ou
pelo menos suspeito. Porque devem ter sempre presente, que quando a Igreja
dá normas e leis é porque se trata da doutrina de fé
e costumes, e que entre as muitas coisas que se propõem nos livros
sagrados legais, históricos, sapienciais e proféticos, só
muito poucas há cujo sentido tenha sido declarado pela autoridade
da Igreja, e não são muitas mais aquelas em que seja unânime
o sentir dos Santos Padres.
Restam, pois, muitas outras e gravíssimas, em cuja discussão
e explicação se pode e deve exercer livremente a agudeza
e o engenho dos intérpretes católicos, de modo que cada
um contribua na medida das suas forças para o progresso cada vez
maior da doutrina sagrada e para a defesa e honra da Igreja.
Esta verdadeira liberdade dos filhos da Igreja de Deus - que mantém
por um lado com fidelidade a doutrina da Igreja, e por outro lado aceita
com prazer, e utiliza como uma dádiva de Deus, os contributos dos
conhecimento profanos - unanimemente mostrada e sustentada, é condição
e fonte de todo o fruto sincero e de todo o avanço sólido
na ciência católica, como adverte sabiamente o Nosso Predecessor
Leão XIII, de feliz memória, quando diz: "se não
fica salvaguardada a concórdia dos ânimos, e não se
respeitam os princípios, não se poderão esperar grandes
progressos desta ciência, por muito que se estude" (35).
§ 5º - Uso da Sagrada Escritura na instrução dos
fiéis. Várias maneiras de empregar a Sagrada Escritura no
ministério sagrado.
Quem considere os ingentes trabalhos que a exegese católica tomou
sobre os seus ombros durante quase dois mil anos, para que a palavra de
Deus, dirigida aos homens por meio das Sagradas Escrituras, seja cada
vez mais total e perfeitamente conhecida, e com mais ardor amada, facilmente
se convencerá de que os fiéis, e especialmente os Sacerdotes,
têm a grave obrigação de usar copiosa e santamente
desse tesouro acumulado ao longo de tantos séculos pelos mais altos
engenhos. Porque Deus não concedeu os Livros Sagrados aos homens
para lhes satisfazer a curiosidade ou para lhes dar um tema de investigação
e estudo, mas como adverte o Apóstolo, para que estas divinas palavras
nos pudessem "instruir para a salvação mediante a fé
em Jesus Cristo"; e "para que o homem de Deus seja perfeito
e esteja apto para toda a obra boa" (36).
Assim, pois, os sacerdotes que têm a incumbência de procurar
a salvação dos fiéis, depois de terem investigado
por si com diligente estudo as Páginas Sagradas e de as terem tornado
suas, na oração e na meditação, tomem diligentemente,
nos seus sermões, homilias e exortações, das riquezas
celestes da palavra divina, confirmem a doutrina cristã com sentenças
tomadas dos Livros Sagrados e a ilustrem com os preclaros exemplos da
História Sagrada e especialmente do Evangelho de Nosso Senhor Jesus
Cristo e tudo isto - evitando com todo o empenho e diligência as
acomodações feitas a seu capricho e tomadas das coisas mais
remotas, o que não é uso mas abuso da palavra divina - hão
de propô-lo com tal eloquência, com tal nitidez e clareza,
que os fiéis não só se movam e inflamem a conduzir
retamente a vida, mas também concebam no seu espírito suma
veneração pela Sagrada Escritura.
Os Bispos, por sua parte, tratarão de aumentar e aperfeiçoar
cada dia esta veneração nos fiéis que lhes estão
confiados, promovendo todas as iniciativas com que os homens cheios de
ardor apostólico tratam louvavelmente de excitar e fomentar entre
os católicos o conhecimento e o amor dos livros sagrados.
Favoreçam, pois e auxiliem as piedosas associações
que se propõem difundir entre os fiéis as edições
da Biblia, e em especial dos Evangelhos, e procurem com todo o empenho
que a sua leitura diária se faça nas famílias cristãs,
reta e santamente; recomendem eficazmente a Sagrada Escritura traduzida
nas línguas vivas com a aprovação da autoridade da
Igreja, falando dela e empregando-a quando o permitam as leis da liturgia,
e façam, ou procurem que outros oradores sagrados bem peritos façam
dissertações públicas ou conferências sobre
temas bíblicos. E quanto aos comentários que com tanto louvor
e tão grande fruto se editam de vez em quando nos diversos países,
ou para tratar e expor cientificamente as questões ou para acomodar
os frutos de tais investigações ao ministério sagrado
e à utilidade dos fiéis, cuidem os ministros Sagrados de
apoiá-los com todas as suas forças e divulgá-los
oportunamente entre os vários estados e classes do seu rebanho.
Porque devem convencer-se estes ministros sagrados de que tais coisas
e todas quantas o zelo apostólico e o sincero amor da Palavra divina
achem idôneas para tão excelso propósito, lhes serão
eficazes auxiliares na cura das almas.
Ensino da Sagrada Escritura nos Seminários
A ninguém passa despercebido que isto não o poderão
fazer bem os sacerdotes, se estes, enquanto estiveram nos seminários
não se embeberam de ativo e perene amor das Sagradas Escrituras.
Por isso os Bispos, a quem incumbe o paternal cuidado dos seus seminários,
vigiem diligentemente que também nesta matéria nada se omita
do que poderia contribuir para tal fim. Os professores de Sagrada Escritura,
por sua parte, completem toda a sua instrução bíblica
nos seminários de modo que para a formação dos adolescentes
para o sacerdócio e para o ministério da palavra divina
os instruam com aquele conhecimento e lhes inculquem aquele amor das sagradas
letras sem as quais não podem obter-se abundantes frutos de apostolado.
Por isso a explanação exegética seja sobretudo orientada
para o aspecto teológico evitando as discussões ociosas
e omitindo o que mais alimenta a curiosidade do que fomenta a verdadeira
doutrina e a piedade sólida; apresentem o sentido literal, e sobretudo
o teológico com tal solidez expliquem-no com tal perícia,
inculquem-no com tanto ardor, que aconteça em certo modo aos seus
alunos o que aconteceu aos discípulos de Jesus Cristo que iam para
Emaús e que depois de ouvir as palavras do Mestre exclamaram: "Não
é certo que o nosso coração se inflamava quando nos
explicava as Escrituras"? (37).
Convertam-se assim as Letras Divinas, para os futuros sacerdotes da Igreja,
em parte pura e perene da vida espiritual de cada um e em alimento e robustecimento
da missão sagrada da pregação, que vão receber.
Se chegarem a conseguir isto os professores desta importantíssima
disciplina nos seminários, convençam-se com júbilo
de que contribuíram notavelmente para a salvação
das almas, para o progresso da causa católica, para a honra e glória
de Deus e levaram a cabo uma obra em estreitíssima relação
com a sua missão apostólica.
Oportunidade da Palavra de Deus neste tempo de guerra: consolação
para os aflitos; para todos caminho de justiça.
Se o que expusemos, Veneráveis Irmãos e amados filhos, era
necessário em qualquer época, é com certeza muito
mais urgente em nossos lutuosos tempos, em que quase todos os povos e
nações se submergem num mar de calamidades e uma guerra
cruel acumula ruínas sobre ruínas e mortes sobre mortes,
e em que, excitados mutuamente os mais acerbos ódios dos povos,
vemos com suma dor que em não poucos diminuiu não já
o sentimento da moderação dos ânimos e da caridade
cristã, mas o próprio sentimento de humanidade.
E quem poderá sanar as feridas mortais da sociedade humana senão
Aquele a quem o Príncipe dos Apóstolos, cheio de amor e
confiança, invoca com as palavras: "Senhor, para quem iremos?
Tu tens palavras de vida eterna"? (38). A este nosso misericordiosíssimo
Redentor convém, pois, atrair a todos com todas as forças,
porque Ele é quem a todos ensina - aos que têm a prerrogativa
da autoridade pública e aos que têm o dever da submissão
e da obediência - a probidade verdadeira, a justiça integral,
a caridade generosa. Ele é, finalmente, o único fundamento
firme e a única defesa que pode existir da paz e da tranquilidade.
"Porque ninguém pode pôr outro fundamento que não
seja o que está posto, que é Jesus Cristo" (39).
Pois a este Cristo, autor da salvação, conhecê-lo-ão
os homens tanto mais plenamente, amá-lo-ão tanto mais intensamente,
imitá-lo-ão tanto mais fielmente, quanto maior fôr
o empenho com que se resolvam a conhecer e meditar as Sagradas Escrituras
e sobretudo o Novo Testamento. Porque, como diz o Estrídonense
(40): "Ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo", "se
alguma coisa há que nesta vida contenha o varão sábio
e prudente, e entre as solicitações e torvelinhos do mundo
o convença a permanecer de ânimo sereno, creio que é
antes de mais nada, a meditação e a ciência das Escrituras"
(41). Porque aqueles que estão fatigados e oprimidos por sucessos
adversos e tristes aqui haurirão os verdadeiros confortos e a força
divina para padecer e sofrer: aqui - isto é, nos Santos Evangelhos
- todos têm a Cristo, sumo e perfeito modelo de justiça,
caridade e misericórdia, e estão abertas, para o gênero
humano ferido e receoso, as fontes daquela divina graça, que, quando
se menospreza e esquece, nem os povos nem os seus governantes podem iniciar
nem consolidar a tranquilidade social e a concórdia; finalmente,
aqui aprenderão todos a Cristo, "que é cabeça
de todo o principado e potestade" (42) e "que foi feito por
Deus para nós, sabedoria, justiça, santificação
e redenção" (43).
CONCLUSÃO
Exortação aos estudiosos da Sagrada Escritura.
Depois de ter exposto e recomendado tudo isto com o fim de adaptar os
estudos bíblicos às necessidades do nosso tempo, só
Nos resta, Veneráveis Irmãos e amados filhos, relativamente
aos cultores da Bíblia que sejam filhos dedicados da Igreja e sigam
fielmente a sua doutrina e normas, não só felicitá-los
com ânimo paternal, porque foram escolhidos e chamados a tão
excelsa missão, mas dar-lhes alento para que prossigam com todo
o empenho e cuidado na execução da obra felizmente empreendida,
renovando diariamente as suas forças.
Dissemos excelsa missão, porque que coisa há mais sublime
do que perscrutar, explicar e apresentar aos fiéis, e defender
contra os infiéis a própria palavra de Deus, dada aos homens
por inspiração do Espírito Santo? Alimenta-se com
este manjar espiritual a alma do próprio intérprete e nutre-se
"para recordação da fé, consolo da esperança
e alento da caridade" (44). Viver entre estas coisas, meditá-las,
não saber mais nada, não procurar mais nada, não
vos parece que é já viver no reino celestial aqui na terra"?
(45). Apascentem-se com esta mesma comida os espíritos dos fiéis
que daí tirarão conhecimento e amor de Deus e proveito e
felicidade para suas próprias almas. Os expositores da palavra
divina entreguem-se a esta santa ocupação: com toda a sua
alma. "Orem para entenderem" (46), trabalhem para penetrarem
cada vez mais profundamente nos segredos das sagradas páginas,
ensinem e preguem para distribuírem também aos outros os
tesouros da palavra de Deus. O que nos séculos passados conseguiram
com tanto fruto os preclaros intérpretes da Sagrada Escritura,
tratem de o emular na medida de suas forças os atuais, de modo
que a Igreja, como nos tempos passados, tenha também no presente
doutores na exposição das Letras Divinas, e os fiéis,
pelo trabalho e esforço daqueles recebam toda a luz, exortação
e alegria das Sagradas Escrituras. Neste trabalho, árduo, sem dúvida,
e grave, tenham eles mesmos "por consolo os livros santos" (47),
e lembrem-se do prêmio prometido, visto que aqueles que "forem
doutos brilharão como esplendor, no firmamento, e, os que ensinam
aos outros a justiça, como estrelas durante perpétuas eternidades"
(48).
Entretanto, desejando ardentemente a todos os filhos da Igreja e especialmente
aos professores das ciências bíblicas, ao clero jovem e aos
oradores sagrados, que meditando continuamente a palavra de Deus saboreiem
como é bom e suave o espírito do Senhor (49), como augúrio
de celestes dádivas e testemunho da Nossa paternal benevolência,
a cada um de todos vós, Veneráveis Irmãos e amados
filhos, concedemos, amorosamente no Senhor, a bênção
apostólica.
- Dado em Roma, junto de S. Pedro, aos 30 de Setembro, festa de S. Jerónimo,
Doutor Máximo na exposição das Sagradas Escrituras,
no ano de 1943, quinto do Nosso Pontificado.
Pio Papa XII
  
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