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É verdade
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Propensa a descortinar correspondências
entre o ramerrão da sua vida e os portentos do Testamento Antigo,
também Joana Correia de Castro se convenceu de que aquilo não era um dilúvio
qualquer, era o Dilúvio a valer. Anos depois, sempre que eu insistia em
voltar a ouvir o sucedido, tintim por tintim ou com variações mínimas,
ainda os seus dons efabulativos conseguiam transmitir-me o pavor que
sentira. Da mãe herdara minha mãe um gosto desmesurado pelas letras
sagradas. O único livro que havia lá por casa, muito manuseado, era o Breviário
da Família e do Lar, de dura capa escura que lhe dava um ar de
solenidade. Não me surpreendi por isso ao descobrir que Joana condimentava
de reminiscências bíblicas as suas ousadas comparações da trovoada com
comportas imaginárias e açudes escancarados que de súbito inundassem
quintas e pomares em redor do farol
da Roca e por aí fora, como se os longos abismos, como se os lagos
submersos que armazenam as ardentes águas dos infernos inexplicavelmente
tivessem crescido a ponto de rebentarem com as matrizes naturais, com as
fontes e veios e nascentes cujo caudal se foi juntar à chuva que caía sem
cessar.
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Muitas vezes, hoje mesmo, os sonhos me
trazem imagens da catástrofe. Sinto arrepios ao evocar as circunstâncias
que precederam e que de certo modo predisseram o instante em que vi a luz do
dia.
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Sobre a hora do almoço desse dezanove
de janeiro, o mar malhava contra os penhascos do Cabo, e a espuma chegava às
janelas das casas dos faroleiros, que à cautela tinham ligado já um dos
geradores e os compressores de ar das sereias, como alerta máximo. O pior
viria lá para a tarde, quando as trevas antecipadas impediram de perceber a
extensão das enxurradas. Na cerração da noite as bátegas batidas por
rabanadas de vento arrancaram grandes árvores que as levadas arrastavam
contra as pontes de pedra, em pouco tempo destroçadas, arrasando então
tudo à volta, currais e gado, carros e carroças. Até dois ou três velhos
levados na torrente, desapareceram sem deixar rasto. Os colossais tonéis de
madeira da Adega Regional, apesar de bem cheios e bem arrumados, foram
arremessados pelas águas contra os portões altos, os gonzos
despregaram-se, os portões cederam, pipas e tonéis rolaram várzea fora,
ficaram enterrados no areão da Praia
das Maçãs no meio do entulho de troncos partidos, tábuas, terra da
Serra e lixarada.
Terá esta tempestade arrasado com toda a região?
Sim
Não |