Exactamente:

Toda a noite o cavo ronco do rebentar das ondas abafara regularmente os avisos das sereias. As águas engrossadas derrubaram os muros de pedras sobrepostas entre courelas e hortas. Embora a maior parte dos cursos desmesurados fosse lançada no mar, alguns formaram represas e charcos que a luz esbranquiçada dos sinais do Farol vagamente iluminava. Meu pai fez nessa noite o seu quarto de quatro horas, mas de madrugada não se foi deitar, ficou à espera da torna da manhã. E, assim que começou a clarear, não viu razão para alterar o seu programa habitual. Em dias de folga costumava ir pescar; ou, se a pesca não desse e se a maré a isso se prestasse, procurava polvos escondidos nas rochas das praias próximas. Porém, naquele vinte de janeiro, naquela derradeira madrugada do signo de Capricórnio, era provável que, para além da mania da pesca, o movesse principalmente a curiosidade em verificar os estragos causados pelo temporal.

As veredas abertas pelos pescadores na falésia transbordavam em cascatas de lodo e lamaçal. Meu pai caminhava com cuidado a cada passo, parando de quando em quando para estudar a melhor maneira de alcançar as ribanceiras mais secas e menos inclinadas sobre a Praia. A ribeira inundara a estrada junto ao vale, cavando um estuário na areia onde a maré já vazava. Arena não faltava para as faenas fantásticas daquele cavaleiro que se tornaria meu arauto. Tanto as descrições de meu pai como as do cavaleiro tauromáquico concordavam no aspecto apocalíptico da Praia, nos caminhos cortados, nas covas e barrancos e buracos, nos cadáveres de bezerros e de vacas semi-soterrados, num cavalo morto, de patas para o ar e ventre inchado, de uma brancura baça, entre bocados desbotados de argamassa contra o paredão parcialmente destruído, coberto de água parda. Vindas do mar, lufadas de névoa avançavam em direcção à Serra, como um exército desordenado recuando em debandada. Este espectáculo criou nos presentes, e ignoro se em meu pai, a convicção de que não seria casual a coincidência de el-rei D. Sebastião e eu termos vindo ao mundo a vinte de janeiro, dia do santo do mesmo nome. Apoiando-se em tais factos, o cavaleiro Alcides de Carvalho pôs a circular a lenda do meu nascimento. Quando cresci e percebi que algo se esperava de mim, preferi, por instinto, fingir que não era nada comigo. Só muito mais tarde comecei a interrogar-me, como agora, quando olho aqui de cima, da Peninha, este mar hoje coberto de tiras de neblina.

Afinal quem sou eu?

 

ou

Sou o homólogo d'El-Rei D. Sebastião?

 

 

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