|
|
|
Claro, ninguém teve coragem de desmentir a avó Catarina e contar outra história que não fosse a do ovo.
Na véspera do meu nascimento caíra sobre a serra de Sintra a tempestade mais tremenda de que as pessoas se lembram. A aurora chegara enrolada em nimbos baixos, tão carregados de cúmulos em forma de couve-flor de chumbo, que nunca, em muitos anos de embarcado, meu pai observara tal espessura de nuvens, tal secura de trovões confirmando o rifão: se trovão seco no céu reboa, tempo violento nos apregoa. João de Castro era um repositório destas regras rimadas, de teorias proverbiais com que explicava as estranhezas que rodearam o dia memorável: relâmpagos ao norte e vento forte, se do sul vem, chuva também. Mas não foi chuva o que veio, foi uma catarata caída do firmamento, um entornar de aéreas águas sobre a terra e o mar já inchado do furor das vagas. O horizonte desapareceu completamente, uma escuridão de estanho esfumado avançara dos lados do Norte de África à velocidade de um tornado, atroando tudo com o barulho de todos os bombos e tambores do universo. Minha mãe garantia que três vezes a terra tremera. E o meu sisudo pai, com o seu fraco por filosofar, opinava que naqueles momentos a Serra era um ventre de grávida percorrido pelos abalos que antecedem o parto. Uns uivos surdos, curtos, seguidos de outro mais demorado, desvairaram os animais das vizinhanças, lançaram o pânico entre os humanos que viram telhas e tectos abrindo, paredes estalando, soalhos rachando ou incendiado-se quando as brasas das lareiras se espalharam, quando a fraca chama das velas de repente pegou fogo a panos que estavam perto, quando as chaminés de vidro dos candeeiros a petróleo explodiram estilhaçadas. Houve quem corresse para fora de casa, preferindo o dilúvio ao estoirar dos telhados. O último estertor fora o pior, e não faltou quem se preparasse para o fim do mundo. Ou Foi apenas o prelúdio do meu nascimento?
|
|
|