Maniqueísmo
Considerado durante muito tempo uma heresia cristã,
possivelmente por sua influência sobre algumas
delas, o maniqueísmo foi uma religião
que, pela coerência da doutrina e a rigidez das
instituições, manteve firme unidade e
identidade ao longo de sua história.
Denomina-se maniqueísmo a doutrina religiosa pregada por Maniqueu --
também chamado Mani ou Manes -- na Pérsia, no século III
da era cristã. Sua principal característica é a concepção
dualista do mundo como fusão de espírito e matéria, que
representam respectivamente o bem e o mal.
Maniqueu e sua doutrina. Maniqueu nasceu em 14 de abril do ano 216, no sul
da Babilônia, região atualmente situada no Iraque, e na juventude
sentiu-se chamado por um anjo para pregar uma nova religião. Pregou
na Índia e em todo o império persa, sob a proteção
do soberano sassânida Sapor (Shapur) I. Durante o reinado de Bahram I,
porém, foi perseguido pelos sacerdotes do zoroastrismo e morreu em cativeiro
entre os anos 274 e 277, na cidade de Gundeshapur.
Maniqueu se acreditava o último de uma longa sucessão de profetas,
que começara com Adão e incluía Buda, Zoroastro e Jesus,
e portador de uma mensagem universal destinada a substituir todas as religiões.
Para garantir a unidade de sua doutrina, registrou-a por escrito e deu-lhe
forma canônica. Pretendia fundar uma religião ecumênica
e universal, que integrasse as verdades parciais de todas as revelações
anteriores, especialmente as do zoroastrismo, budismo e cristianismo.
O maniqueísmo é fundamentalmente um tipo de gnosticismo, filosofia
dualista segundo a qual a salvação depende do conhecimento (gnose)
da verdade espiritual. Como todas as formas de gnosticismo, ensina que a vida
terrena é dolorosa e radicalmente perversa. A iluminação
interior, ou gnose, revela que a alma, a qual participa da natureza de Deus,
desceu ao mundo maligno da matéria e deve ser salva pelo espírito
e pela inteligência.
O conhecimento salvador da verdadeira natureza e do destino da humanidade,
de Deus e do universo é expresso no maniqueísmo por uma mitologia
segundo a qual a alma, enredada pela matéria maligna, se liberta pelo
espírito. O mito se desdobra em três estágios: o passado,
quando estavam radicalmente separadas as duas substâncias, que são
espírito e matéria, bem e mal, luz e trevas; um período
intermediário (que corresponde ao presente) no qual as duas substâncias
se misturam; e um período futuro no qual a dualidade original se restabeleceria.
Na morte, a alma do homem que houvesse superado a matéria iria para
o paraíso, e a do que continuasse ligado à matéria pelos
pecados da carne seria condenada a renascer em novos corpos.
Maniqueísmo como religião. A ética maniqueísta
justifica a gradação hierárquica da comunidade religiosa,
uma vez que varia o grau de compreensão da verdade entre os homens,
fato inerente à fase de interpenetração entre luz e trevas.
Distinguiam-se os eleitos, ou perfeitos, que levavam vida ascética em
conformidade com os mais estritos princípios da doutrina. Os demais
fiéis, chamados ouvintes, contribuíam com trabalho e doações.
Por rejeitar tudo o que era material, o maniqueísmo não admitia
nenhum tipo de rito nem símbolos materiais externos. Os elementos essenciais
do culto eram o conhecimento, o jejum, a oração, a confissão,
os hinos espirituais e a esmola.
Por sua própria concepção da luta entre o bem e o mal
e sua vocação universalista, o maniqueísmo dedicou-se
a intensa atividade missionária. Como religião organizada, expandiu-se
rapidamente pelo Império Romano. Do Egito, disseminou-se pelo norte
da África, onde atraiu um jovem pagão que mais tarde, convertido
ao cristianismo, seria doutor da igreja cristã e inimigo ferrenho da
doutrina maniqueísta: santo Agostinho. No início do século
IV, já havia chegado a Roma.
Enquanto Maniqueu foi vivo, o maniqueísmo se expandiu para as províncias
ocidentais do império persa. Na Pérsia, apesar da intensa perseguição,
a comunidade maniqueísta se manteve coesa até a repressão
dos muçulmanos, no século X, que levou à transferência
da sede do culto para Samarcanda. Missionários maniqueístas chegaram
no fim do século VII à China, onde foram reconhecidos oficialmente
até o século IX. Depois foram perseguidos, mas persistiram comunidades
de adeptos no país até o século XIV. No Turquestão
oriental, o maniqueísmo foi reconhecido como religião oficial
durante o reino Uighur -- séculos VIII e IX -- e perdurou até a
invasão dos mongóis, no século XIII.
Posteridade do maniqueísmo. Embora não haja dados que permitam
estabelecer uma vinculação histórica direta, o pensamento
maniqueísta inspirou na Europa medieval diversas seitas ou heresias
dualistas surgidas no seio do cristianismo. Entre elas, cabe citar a dos bogomilos,
na Bulgária (século X) e, sobretudo, a dos cátaros ou
albigenses, que se propagou no sul da França no século XII. Este último
movimento foi uma das mais poderosas heresias da Europa, sufocada de modo sangrento
no início do século seguinte.
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