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Crise humanit�ria em perspectiva no Noroeste da Guin�

Duas Guerras na Fronteira dos Felupes


Por PEDRO ROSA MENDES, em Suzana
Sexta feira, 19 de Fevereiro de 1999

Na fronteira com Casamansa, v�-se melhor que h� duas guerras que s�o a mesma. O Senegal bombardeia do lado guineense, os guerrilheiros descem a Bissau para enfrentar o ex�rcito de Dacar e refugiados encontram-se fugindo em direc��es opostas. "Quando acabar aqui, vai ser ainda pior do lado de l�."

�s sete da manh�, quando o sol est� prestes a entrar na igreja, o padre Jos� Fumagalli toca o primeiro hino no pequeno �rg�o electr�nico que p�s ao canto do altar. Na mochila trouxe tamb�m o missal em l�ngua felupe, as h�stias, o c�lice e a caixinha de cinzas para verter sobre a cabe�a dos fi�is. Ainda antes de a missa come�ar, o mission�rio acompanha j� com o corpo - cal�a tamancos brancos - o ritmo dos tambores que dois rapazes aqueceram numa fogueira, para lhes tirar a humidade da noite. A fronteira do Senegal fica perto e, sobre ela, ouviu-se horas antes o estrondo de uma outra guerra - que � a mesma que se combate l� longe em Bissau.

Na regi�o noroeste da Guin�, ao longo da fronteira com o Sul do Senegal, � mais dif�cil do que em Bissau distinguir o conflito guineense de um outro, mais antigo, iniciado h� d�cada e meia pelos guerrilheiros independentistas do Movimento Democr�tico de Liberta��o de Casamansa (MDLC). Pelas picadas da regi�o de Suzana e Varela, guerrilheiros senegaleses pedem boleia para Bissalanca - na linha da frente dos revoltosos guineenses -, circulando por tabancas que servem de retaguarda ao MDLC e que o ex�rcito de Dacar fustigou v�rias vezes desde Junho passado.

A linha de fronteira guineense �, para Dacar, mais uma frente de combate contra a Junta Militar, e esta semana foi poss�vel ouvir em Suzana o som da artilharia pesada do lado senegal�s. J� n�o se ouve "aquele maldito avi�o senegal�s que bombardeava as tabancas do lado guineense, de Bijene a Varela", explica o padre Fumagalli, "porque a Junta montou uma rede de m�sseis Strella".

A guerra de Casamansa, por�m, continua a marcar o quotidiano do Norte da Guin�. "A situa��o humanit�ria n�o parece grave. N�o parece. Mas isso � um engano", diz o mission�rio italiano, que chegou � Guin� h� mais de 40 anos e conhece por dentro a sociedade felupe. "A desnutri��o das crian�as neste meio n�o se v� por uma quest�o cultural dos felupes, que garantem que os mais novos comem mesmo que mais ningu�m coma. Mas h� muita escassez de alimentos."

O padre Fumagalli recorda que "os refugiados de Bissau", um ter�o da popula��o do pa�s que se espalhou pelas tabancas do interior, "n�o ficaram em campos: alojaram-se em casa de parentes e h� resid�ncias que quadruplicaram o n�mero de bocas. As reservas de comida foram partilhadas com quem chegou." Desde o in�cio do conflito, houve apenas duas distribui��es de alimentos no Noroeste, uma em Agosto, da Coopera��o Portuguesa, e outra do Programa Alimentar Mundial, atrav�s da Cruz Vermelha, em Outubro - quatro meses depois do eclodir da crise.

Guerras na mesma �gua

"O pouco arroz que os habitantes daqui tinham n�o � suficiente para ter uma reserva e a chuva, que foi abundante noutras zonas da Guin�, n�o deu em Suzana-Varela." O padre Fumagalli prev� que em Maio ou Junho pr�ximos as popula��es n�o ter�o j� alimentos, ainda por cima a mais de meio ano da pr�xima colheita e na altura mais intensa de prepara��o dos campos. "Estar�o a trabalhar sem comer", avisa o mission�rio, contrariando a ideia de relativo desafogo que as ag�ncias humanit�rias t�m do que se passa em Suzana. "Dentro de tr�s meses, a situa��o ser� muito mais dram�tica do que at� agora."

Os bombardeamentos senegaleses provocaram tamb�m o abandono de muitos terrenos f�rteis ao longo da fronteiras, o que explica que, apesar de haver mais bra�os com a vaga de deslocados, o ano agr�cola tenha sido pobre. A vida em Suzana-Varela � actualmente perturbada por uma dupla crise: h� uma vaga de refugiados na Baixa Casamansa - cerca de 30 mil, segundo v�rias organiza��es humanit�rias - e parte deles atravessou para tabancas guineenses, "porque as pessoas est�o fartas de guerra e porque, como se diz, Guin� e Casamansa s�o peixes que nadam na mesma �gua", explica Jos� Fumagalli. O padre considera que do lado senegal�s "a situa��o est� cada vez mais pesada. O Alto Comissariado da ONU para os Refugiados nunca mais apareceu desde o in�cio da guerra".

"N�s ajud�mos gente de Casamansa" nos �ltimos meses, conta um felupe que combateu no ex�rcito colonial portugu�s, Ant�nio Sitanheb�. "Houve gente que se refugiou directamente nas nossas casas. Demos-lhes arroz mas depois preferimos dar-lhes terras e palmeiras para furar." Ant�nio Sitanheb� vive na tabanca de Cassalol, na estrada de Suzana para Varela. Um bombardeamento a�reo senegal�s matou uma mulher e feriu gravemente outra, no Ver�o passado.

Acontece, por causa de incidentes como esse, que tabancas fronteiri�as do lado guineense sofrem uma sangria de popula��o, que foge para norte. Foi isso que fez a mulher de Ricardo Ampaboine, um felupe de Suzana que, no in�cio da revolta de Ansumane Man�, decidiu alistar-se nas for�as da Junta. A mulher de Ricardo est� ou em Ziguinchor, principal cidade de Casamansa, ou algures na G�mbia, porque Ricardo tem fam�lia em tr�s pa�ses. Para ele, a descida a Bissau para combater as for�as lealistas e o ex�rcito senegal�s foi apenas natural. "N�s e os de Casamansa somos irm�os", justifica Ricardo. "Quando a guerra da Guin� acabar", assegura Ant�nio Sitanheb�, "a do lado senegal�s ser� ainda mais forte, at� Casamansa conseguir a independ�ncia."

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