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Mas d� pra entender! ...Dessa vez, a id�ia era conhecer o extremo norte do Estado do Amazonas, munic�pio de S�o Gabriel da Cachoeira, onde o Brasil faz fronteira com a Col�mbia e a Venezuela. � uma das poucas regi�es da Amaz�nia brasileira onde se encontram montanhas, inclusive o Pico da Neblina, o ponto mais alto do Brasil, com 3014 metros de altura. Sai de Manaus dia 01 de setembro, as 7:30 da manh�, num bimotor da Rico Taxi A�reo, com destino a S�o Gabriel da Cachoeira, e com escalas previstas em Santa Isabel e Barcelos, vilas as margens do rio Negro, assim como a pr�pria S�o Gabriel. Alias, a viagem a�rea inteira seria acompanhando o imenso rio, o que possibilitou ver as in�meras praias e ilhas que existem no Rio Negro, durante o per�odo da seca. Na �poca das chuvas o rio sobe mais de 9 metros e as praias desaparecem, invadindo a floresta, as vezes por v�rios quil�metros. Descemos em Barcelos as 8:30. A cidade fica na margem direita do Rio Negro e at� que � bonitinha. O aeroporto fica praticamente dentro da cidade. J� em Santa Isabel o aeroporto fica bem longe, e na margem esquerda. Alias, chamar a pista de pouso de Santa Isabel de aeroporto � estar sendo muito otimista. O asfalto j� esta indo embora, a floresta esta crescendo em dire��o a pista, n�o existe ningu�m fazendo o controle de v�o e nem mesmo uma biruta existe para auxiliar o piloto no pouso. n�o preciso dizer que todas as pistas de pouso pelas quais passei n�o tinham ilumina��o, o que implica que � imposs�vel descer a noite. Os v�os na amaz�nia precisam ser bem estudados, antes de serem feitos. As pistas S�o poucas, sem ilumina��o, e longe umas das outras, muitas vezes com distancias superiores a 500 Km. O controle de tr�fego a�reo n�o tem radares suficientes para cobrir toda a a�rea eis s� deixa v�rios pontos "cegos" onde um avi�o fica por alguns minutos sem contato por radar com a torre em Manaus. Chove muito em toda a regi�o e se o piloto n�o puder descer no local planejado por causa do mau tempo, ele pode ficar numa situa��o dif�cil. Pode acontecer da pista mais pr�xima ficar muito longe e ele n�o ter combust�vel suficiente pra chegar l� ou demorar muito pra chegar, duas atr�s horas depois, e j� n�o ter claridade suficiente para fazer um pouso seguro. Ha quinze anos atr�s, um avi�o com diretores da Eletronorte caiu nestas mesmas condi��es. Independente do risco, a viagem at� S�o Gabriel da Cachoeira foi maravilhosa. S�o 3 horas e meia de v�o sobre rios e selva, sem encontrar nenhuma estrada, vilas, planta��es ou qualquer coisa que mostre que exista vida humana por perto. Exceto quando nos aproxim�vamos dessas 3 cidades ou quando sobrevo�vamos algum recreio navegando no Rio Negro, a sensa��o era de que n�o havia ningu�m no mundo, s� floresta e �gua . As praias do Rio Negro S�o de areia bem branca, contrastando com a cor escura da �gua que proporciona matizes muito bonitos nas partes razas. As cores v�o do amarelo ao negro, passando pelo laranja, ver melhor, vinho e finalmente preto, a medida que vai ficando mais fundo. Visto l� de cima, � uma paisagem de tirar o folego, n�o so pela beleza mas tamb�m pelo tamanho. Tem trechos do rio onde a largura chega a mais de 10 quil�metros, com centenas de ilhas de todos os tamanhos, muitas delas cobertas de florestas, outras somente com areia e v�rias delas com praias, principalmente na parte traseira da ilha. Depois de Santa Isabel o Rio Negro vai ficando menorzinho, com apenas uns 3ou 4 quil�metros de largura e come�am a aparecer ilhas de pedra e corredeiras, o que o deixa ainda mais bonito de se ver. Alias, o nome S�o Gabriel da Cachoeira � devido ao grande numero de corredeiras que existem na regi�o, tanto que o porto da cidade fica a 20 quil�metros rio abaixo, exatamente porque os barcos de grande porte, assim como os recreios, n�o tem condi��es de ultrapassa-las. Somente as pequenas voadeiras consegu�m ( e pra quem n�o sabe, recreio � uma esp�cie de �nibus fluvial, que faz a liga��o entre as cidades da regi�o norte j� que, praticamente, n�o existem estradas entre elas, e voadeira � o nome dado a pequenos barcos de aluminio equipados com motores de popa de at� 45 HP ). O aeroporto de S�o Gabriel at� que � bom, levando-se em conta o fim de mundo em que esta localizado. Chama-se Uaupes (s�laba t�nica no p�s ) embora alguns escrevam Waupes. � uma palavra ind�gena que d� nome a muita coisa por l�, inclusive um belo rio que des�gua no Negro alguns quil�metros acima da cidade. Vale lembrar que S�o Gabriel j� se chamou vila de Waupes, num passado n�o muito distante. Com a vinda dos padres para a regi�o e a catequiza��o dos �ndios, os nomes foram mudando para santo isso, santo aquilo, santa n�o sei mais o que, etc. Do meu ponto de vista, uma tremenda sacanagem com a cultura e a identidade do povo da regi�o. A popula��o, em sua imensa maioria, � de �ndios edescen dentes de v�rias tribos, principalmente Yanomamis e Tucanos. A reserva ind�gena mais conhecida � exatamente a reserva Yanomami, que compreende uma vasta area que vai de S�o Gabriel para o norte at� a Colombia e a Venezuela, e para o leste at� o municipio de Santa Isabel. Mas existem pelo menos 5 outras reservas menores fazendo fronteira com a reserva Ya nomami. Os �ndios n�o S�o bonitos ( nem as �ndias ) como os da regi�o de Manaus e Balbina. S�o ainda menores na altura e de membros mais curtos. n�o vi nenhuma caboclinha que pudesse ser fotografada com sucesso. Apenas uma observacao: quando eu disse "membros" estava me referindo apenas aos bra�os e pernas dos �ndios. � bom esclarecer por que tem muita gente maldosa nesse mundo. Quando voc� ve algum branco, pode ter certeza de que � funcion�rio publico, militar ou turista. Impressiona o numero de turistas estrangeiros, vindos de toda parte do mundo, que vem a S�o Gabriel em busca de aventura, em particular na regi�o do Pico da Neblina. Tive a chance de ver alem�es, japoneses, franceses e holandeses. Eles s�o em maior numero que os turistas brasileiros e, pelo jeito, curtem muito mais as belezas da regi�o. No primeiro dia de S�o Gabriel fui conhecer a cidade.Tarefa das mais simples, dado o tamanho bem pequeno. Ela possui uma agenciado Banco do Brasil e outra do Banco do Estado do Amazonas ( BEA ), que funcionam das 10 as 15, mas j� est�o interligadas por computador. Temuma agencia dos Correios, um posto de saude, uma escola, um gin�sio, um campo de futebol, um posto telefonico ( que j� usa cartao ), v�rios mercadinhos, uma feira, lojas de tranqueiras,tr�s hoteis sendo que um deles muito bonito devido ao local em que se encontra, na Ilha dos Reis, em meio as corredeiras do Rio Negro, em frente a cidade. Tem um postoda Funai e outro do IBAMA. A maior constru��o da cidade � a Igreja, como n�o poderia deixar de ser, com uma torre bem alta que se destaca a dist�ncia. O maior problema de S�o Gabriel � a falta de energia. O fornecimento � feito por uma usina termica da CEAM, pra l� de sucateada, e que nunca funciona o dia todo. Se n�o parar por problemas t�cnicos, tem que ser desligada por algumas horas, todo dia, para desaquecer. Os pr�prios t�cnicos n�o sabem como ela ainda funciona. A cidade nunca tem luz por igual todo o tempo. Fica ligado um peda�c, o outro sem luz. Depois liga um lado e desliga o outro e assim por diante. Existe um projeto de se fazer uma pequena hidroel�trica para resolver o problema energ�tico local, sendo que o governador Amazonino Mendes esteve naquela mesma semana na cidade para acenar com esta possibilidade a m�dio prazo, prometendo energia farta aos moradores. Por enquanto, a energia continua fartando. Esta parecendo mais campanha politica para as pr�ximas elei��es. Em frente a cidade, na margem esquerda do Rio Negro, existe uma praia enorme, com quase um quil�metro de extens�o e at� 300metros de largura, que � a coisa mais linda. �gua limpa e quase morna, bem transparente, areia branquinha e fina. Uma delicia. Entre a praia ea avenida que margeia a praia, alguns bares e pousadas, onde se � possi vel tomar uma gelada ou comer um peixe, assim como fazemos em algumas praias do Nordeste. A popula��o frequenta a praia o dia todo, seja paratomar banho, jogar bola, pescar ou, principalmente, lavar roupa. Embora S�o Gabriel n�o se J� t�o quente quanto Manaus, aindaassim � um lugar bem quente e a tarefa de lavar roupas debaixo do sol pode ser bem desagradavel. As mulheres, entao, armam uns suportes de madeira, dentro d'�gua , a mais ou menos um metro de profundidade, de modo que elas podem lavar roupa e ficar com o corpo dentro d'�gua tamb�m. � engra�ado voc� observa-las de longe: aquelas cabecinhas pra fora e uma pilhas de roupa colorida na frente. Elas entram com roupa e tudo, e muitas vezes, usam apenas uma blusa de malha de algodao, sem nada por baixo o que torna a observa��o bastante interessante. Ao fundo, na dire��o sul, existe um conjunto de morros de pedra, bastante altos, que se destacam no meio da floresta plana. O povo chama esse conjunto de "Bela Adormecida", por verem em suas formas uma mulher deitada de barriga pra cima, como se estivesse dormindo. Os mais er�ticos consegu�m ver que a mulher deitada n�o esta usando sutia. Esse conjunto faz parte da Serra do Curicuriari, as margens do rio de mesmo nome e que des�gua na margem direita do rio Negro, uma hora rio abaixo. O rio, as corredeiras, as praias, as ilhas, a floresta e as montanhas formam uma paisagem das mais bonitas que se poderia imaginar. Foi um dos locais mais fotografados por mim, aqui na Amaz�nia. Logo que cheguei em S�o Gabriel fui recebido pelo Elzio, um funcion�rio do IBAMA de seus 50 anos apr�ximadamente, e que me atendeu com honras de Chefe de Estado. Logo de cara, colocou um carro a disposi��o, indicou local pra dormir, pra comer, pra comprar mantimentos e tamb�m me apresentou o Deco, o guia que me levaria at� o Pico da Neblina. Fiquei hospedado no Hotel Waupes, cujas gerentes eram asir mas Sandra e Concei��o, duas netas de �ndios Yanomamis, bastante simp�ticas e prestativas, mas com um raciocinio bem lento. Achava interessan te o fato de que elas simplesmente se recusavam a atender o telefone durante as novelas do SBT. Podia tocar quantas vezes fosse necess�rio que nenhuma delas se levantava pra atender. Somente o faziam quando entrava o comercial. Elas faziam tudo: arrumavam os quartos, cozinhavam, faziam o caf� da manh�, lavavam a roupa e, nas horas vagas, faziam trabalho de pedicure e manicure. Aproveitei e fiz as unhas do pe. O Hotel era bem fraquinho, n�o tinha �gua quente e, como faltava luz com frequencia, a �gua tamb�m faltava. Mas, em compensa��o, era em frente a praia. Sois s� j� valia a pena ficar hospedado nele. Em frente ao Hotel funcionava um "Breg�o", uma esp�cie de casa de show, misturado com bar e puteiro, tudo ao mesmo tempo. A noite, rolava musica ao vivo, CD, principalmente pagode, boi e, claro, Reginal do Rossi. Era divertido ficar assistindo. S�o Gabriel tem o mesmo fuso horario de Manaus, mas bem que poderia ser outro, com uma hora a menos. Como a regi�o fica 900quilo metros a noroeste de Manaus, acontece de estar escuro ainda as 6 dama nha e, em compensa��o, ficar claro at� as 19:30. Naquela noite jantei na Arlete, uma caboclinha bem simp�tica e boa de cozinha que transformou a casa em refeit�rio. Alem da comida ser gostosa, o restaurante ficava de frente para as corredeiras do rio. No dia seguinte fui conhecer o Deco, um simp�tico guia como sorriso tipo 1001, ou seja, um dente, duas falhas, outro dente. Acho que era por isso que ele evitava sorrir abertamente. Conversando com ele vi que, de cara, eu estava levando equipamento demais. Estava com uns25 quilos de bagagem e ele me disse que eu jamais subiria com tudo aquilo. O Elzio, sempre prestativo, me emprestou a rede e um saco de dormir, o que me permitiu deixar a barraca e os colchonetes. s� ai eu economizei uns 6 quilos. Fomos fazer o "rancho" e eu deixei tudo por conta do Deco. Deixei que ele decidisse o que deveriamos comprar elevar somente o necess�rio. Entramos em v�rias daquelas lojas de tranqueiras e compramos basicamente leite, cafe, chocolate, sal, ac�car, macarr�o, jab�, sopa, biscoitos, sucos artificiais em p�, sardinha, salsichas e algumas outras conservas. Nada muito saud�vel, porem pr�tico. Deu pra perceber que o custo de vida em S�o Gabriel � bastante caro. Tamb�m, pudera: quase tudo que vai pra l� sai de Manaus, que j� paga uma nota de transporte. Imagine ainda o frete de Manaus para S�o Gabriel. S�o 3 horas e meia de v�o ou 5 dias de barco subindo o rio. As poucas coisas baratas que encontrei ( como Coca Cola ) vem da Colombia e da Venezuela. � mal servida de hortifrutigranjeiros e, por incr�vel que pare�a, tem que importar peixe. Mas isso � mais por costume alimentar do povo de l�. Eles n�o gostam de comer o aracu e o filhote, que s�o os peixes mais comuns por l�. Eles preferem o tucunar�, o tambaqui e o pirarucu, que s� S�o encontrados dois dias rio abaixo, a partir de onde se formam os primeiros lagos do rio Negro. Dessa forma, at� o peixe que se come � caro. O segundo dia foi totalmente gasto na prepara��o da viagem at� o Pico da Neblina. Gastei uns R$ 100,00 de provis�es, R� 185,00 de combustivel ( gasolina e �leo 2 tempos para o barco e diesel para aToyota ), R$ 250,00 para o guia, etc. Saimos naquela tarde com a inten��o de dormir pr�ximo ao ponto de embarque, pra ganhar tempo. Pegamos auni ca estrada que existe saindo de S�o Gabriel e fomos em dire��o a Cucui, um povoado que fica na fronteira entre o Brasil, a Colombia e a Venezuela. � uma regi�o de conflitos. n�o s� pelo fato de ser fronteira com mais 2 paises, sendo que um deles � o maior exportador de cocaina do mundo, como tamb�m por possuir um parque nacional de caracteristicas unicas no Brasil, v�rias reservas ind�genas, grande quantidade de ouro e, descobriu- se agora, uma das maiores reservas de minerio do Brasil. Existem interesses internacionais, IBAMA, FUNAI, ex�rcito, garimpeiros, traficantes, �ndios, ecologistas, turistas, exploradores de min�rios, todo mundo querendo tirar proveito das riquezas da regi�o. A minha bola de cristal diz que a flora, a fauna e os �ndios v�o sair perdendo nessa briga. Andamos 85 Km e dormimos no sitio do Luis, um funcion�rio do Ibama, amigo do Elzio. A estrada n�o era das piores, levando- se em conta a regi�o onde est�vamos. Haviam poucos atoleiros e algumas eros�es, tanto que a viagem durou apenas 2 horas. Dormimos na rede, num galp�o de madeira ao lado da casa. A noite fez um friozinho gostoso, principalmente depois da chuva que deu. E que chuva ! Uma hora de tempestade, fazendo um barulh�o no telhado que n�o deixava ningu�m conversar. O Deco gostou da chuva porque ia fazer com que os rios subissem, facilitando a navega��o. Na manh� seguinte, tudo molhado, uma neblina bem forte, e o cheiro delicioso de terra molhada. Um pouco de frio tamb�m. As 8:30 chegamos na beira do Ia Mirim, o primeiro dos quatro rios que percorreriamos at� o inicio da caminhada. O Ia Mirim � lindo, e convida a pescar. Muitos pocos, muita tranqueira, pedras, remanso se alguns trechos de corredeiras. O nivel das �guas estava alto e n�o se via o barranco. n�o havia divis�o entre rio e floresta, um invadia a �rea do outro. No inicio da viagem de barco o rio ainda � bem estreito e perigoso de se navegar para quem n�o conhece. Frequentemente tem que se abaixar a cabe�a pra n�o bater nos galhos que cruzam as margens. L� em cima, as copas se juntam de maneira que quase n�o se ve o ceu. durante o percurso do Ia Mirim vi poucas aves. Apenas alguns socos, surucuas, beijaf-lores, andorinhas e um gavi�o solit�rio. J� no final do rio, quase na foz com o Ia Grande ,passamos por uma aldeia Yanomami. Vi muitas crian�as brincando na margem e v�rias mulheres lavando roupa e descascando mandioca ( no sentido literal do termo, por favor, n�o leve essa express�o pra maldade ). n�o vi nenhum �ndio. Provavelmente, eles deviam estar pescando ou descansando na rede, coisa que, alias, eles fazem muito bem ( descansar na rede ). J� quase chegando na foz do Ia Grande vi um bando enorme de biguatingas, que l� o povo chama de mergulh�o pintado, mas se tratada mesma ave, classificada por Anhinga Anhinga. Chegamos no Posto da Funai as 11:00 e paramos pra almo�ar. Este posto fica na conflu�ncia dos rios Cauaburi e de seu afluente, o Ia Grande. A partir dai, a viagem seria toda subindo o Cauaburi, at� o ribeir�o Tucano. Conheci o Modesto, um funcion�rio com mais de 30 anos de Funai e que morava na casinha do posto. De cara, ele me pareceu sermeio maluco. Com 10 minutos de conversa percebi que era completamentedebil mental. Tamb�m, com 30 anos no meio do mato, trabalhando pra Funai, lidando s� com �ndio, qualquer um de nos ficaria maluco. Mas era bastante hospitaleiro e fez a comida pra gente. Contrariando as regras da boa educa��o, comemos e saimos sem limpar nada, sem lavar nada, e mal agradecendo a hospitalidade. O Deco pediu informa��es sobre as condi��es do Cauaburi rio acima. O Modesto respondeu que estava tudo bem porque o rio tinha subido muito e estava facil navegar. O Cauaburi � ainda mais bonito que o Ia Grande e o IaMirim e com muito mais curvas. Parei de contar quando chegou em 250.Tamb�m � bem mais largo que os anteriores, com uma largura de 60 metros em me dia. Embora se J� mais bonito pra se navegar, tem a desvantagem de que o sol judia da cabe�a o tempo todo, seja por falta de cobertura florestal, devido a dist�ncia entre as arvores das margens, seja por falta de cobertura capilar, na minha cabeca. Apesar do calor que fazia, ainda foi poss�vel ver maguaris, gar�as, picaparras, socos, martins, ma�aricos e duas aves novas pra mim: o corocoro e o bitiro. O primeiro � uma ave aquatica mais ou menos do jeito de uma gar�a, s� que verde musgo e com o bico torto. O bitiro � um pequeno p�ssaro da familia dos tyrannideos, que vive exclusivamente nas margens dos rios, a pouca altura da �gua . Juntamente com asandori nhas de coleira, foram as aves mais comuns ao longo de todo o Cauaburi. No meio da tarde encontramos as primeiras serras. A primeira e mais bonita foi a Serra do Padre, chamada assim por possuir dois pequenos picos de pedra que, de longe, sugerem a imagem de um padre ( pedra maior ) falando ao seu sacrist�o ( pedra menor ). Esse povo imagina cada coisa... n�o vi semelhan�a com bosta nenhuma.Vi apenas uma serra muito bonita e pronto. Se algu�m quiser tirar duvidas, fotos � o que n�o vai faltar. Alias, esqueci de dizer que, desde oavi ao, que o equipamento n�o sai da mao e qualquer coisa que apare�a no caminho � pretexto pra uma fotografia. J� era tarde, quase umas cinco horas, o dia inteiro andando de barco, uma curva depois da outra, o sol batendo na cara, a gororoba n�o foi muito bem digerida, come�ou a dar um enjoo, uma dor de cabe�a. N�o tive outra alternativa sen�o chamar o Hugo. Botei a cabe�a pra fora do barco, enfiei o dedo na garganta e chamei "Hugoooooooooo....". Ela se foi o almo�o e, com ele, o enjoo e a dor de cabe�a. N�o costumo enjoar em barco, mas depois de comer um rango que s� o cheiro tinha mais de 500 calorias, n�o foi poss�vel segurar a onda, ainda mais com o sol forte que fazia. �, a viagem n�o come�ou muito bem. Me senti melhor quando chegamos na barra do rio Tucano. Este rio era pequeno e havia sombra novamente. Mais 5 minutos e aportamos no barranco e come�amos a fazer o acampamento para passar a noite. J� havia nas margens algumas estruturas de madeira, colocadas previamente pelos pr�prios guias, para facilitar o trabalho de fazer e desfazer acampamentos. Com isso, al�m de ser r�pido o trabalho, n�o se perdia tempo pro curando madeira, nem se precisava armar a base para a cobertura. Era s� jogar a lona por cima, amarrar com cipo e pronto. Bastante pr�tico. Na pr�pria madeira que sustentava a lona, amarravam-se as redes. Dormia-se praticamente ao relento, sem nenhuma separa��o entre voc� e a floresta virgem logo ao lado. Esse tipo de acampamento seria uma constante durante os pr�ximos dias. Tinha dia que aparecia muito mosquito, carapana e pium. Em outros n�o aparecia nenhum. N�o encontrei explica��o para o fato. Pelo menos levei repelente e isso resolvia o problema nos dias em que os mosquitos estavam atacando. Dia 04 de setembro. Levantamos as 6:30 e comemos biscoitos com Nescaf� e leite em p�. Nada de queijo, margarina, presunto ou uma geleia. O guia garantiu que tinha bastante �gua pelo caminho e n�o havia necessidade de levarmos mais peso que o necess�rio. Apesar do receio de passar sede, con fiei no que dizia. Naquela manh� eu estava novo outra vez. n�o tinha mais dor de cabe�a e o enjoo tinha passado. Na minha cabeca, os problemas que tive foram causados pelo excesso de sol, e pela comida pesada. Mas tamb�m poderia ser a PVC ( porra da velhice chegando ). Parei de pensar na causa e comecei a procurar pelos p�ssaros da regi�o e, quem sabe, foto grafar alguns. Encontrei tucanos, beijaf-lores, gralhas da mata, danca dor de bone laranja, aracari, japu, choquinha, picapau, um falc�o desconhecido ( provavelmente um micrastur ) e um beijaf-lor grande que, por estar na sombra, n�o foi poss�vel visualizar as cores mas que suspeito se tratar de um Topaza Pella. Dias depois, em conversa com um garimpeiro, soube que este beijaf-lor ocorre com alguma frequencia alguns quil�metros rio acima. Poderia, ent�o, se tratar do mesmo. Infelizmente n�o consegui fazer nenhuma foto deste que havia visto e n�o tornei a encontrar mais nenhum durante os dias em que passei na mata. O guia come�ou a deixar um pouco de mantimentos escondidosno mato, a fim de diminuir o peso a ser carregado. n�o haveria necessidade de levalos, uma vez que s� seriam consumidos na volta. Me chamou a aten��o o fato de que o guia se preocupava em diminuir qualquer peso que pudesse. E eu pude constatar, da pior maneira poss�vel, que qualquer quilo desnecess�rio torna-se uma tonelada ao final de um dia de caminhada. Ele n�o usava mochila. Em seu lugar, usava um artefato ind�gena de nome jamanxim ( ou algo parecido ), feito a base de cipo. Apesar da simplicidade do objeto, era pr�tico, leve, resistente, regul�vel e poderia transportar uma quantidade de material t�o grande quanto a minha mochila de nylon, e ainda mais pesado. Mais tarde, percebi que todos os �ndiose garimpeiros da regi�o usam o tal de jamanxim para transporte de utensilios. Segundo o guia, as mochilas de nylon "nao prestam". Elas s�o quentes, desajeitadas, frageis e permeaveis, alem de muito caras. Pelo menos isso era verdade: um jamanxim custa 12 reais na cidade, e at� menos se for comprado diretamente dos �ndios, enquanto que a minha mochila custa 75 reais em Manaus. n�o tinha id�ia do ritmo que iria imprimir a caminhada e pedi ao guia que fosse devagar, pra ir me acostumando aos poucos. Come�amos a andar as 7:30 com o objetivo de almocarmos na beira do ribeirao Tucaninho. As primeiras horas de caminhada correram bem, com poucas subidas e descidas, o que facilitava muito. Tamb�m n�o havia sol, o tempo todo havia arvores grandes sobre nossas cabecas, o que era otimo. �gua tamb�m n�o era problema. O tempo todo encontr�vamos pequenos igarapes com �gua limpa e fresca. Devagar e sempre, chegamos ao tucaninho as1:30 e, depois de um bom banho no igarape, almocamos arroz com jab�. Depois do descanco, perguntei ao Deco se acampariamos aliou se andariamos mais at� o pr�ximo ponto de parada. Ele disse queseria melhor ir mais a frente porque a partir dali a trilha piorava muito, com v�rios trechos de subida e descida e, com certeza, isso iria aumentaro tempo de caminhada. Sendo assim, fomos em frente. E foi ai que eu me lasquei. Toda a trilha, a partir do Tucaninho, era praticamente subida. E subida daquelas bem ingremes, que as vezes a gente precisa subir de quatro. E com o peso da mochila nas costas, parecendo que ficava10 quilos mais pesada a cada quil�metro que andava. Ficava imaginando oque aconteceria se tivesse trazido toda a tralha, principalmente a barraca. Depois de umas duas horas de caminhada, aquela dorzinha na perna j� tinha se transformado numa dorzona, quase uma caimbra. Depois come�ou a doer o pe, os joelhos, as juntas, tudo. E aquela porra daquela subida n�o acabava mais. Transpirava em bicas e, justamente agora, nao encontrava mais nenhum igarape. E a dor aumentando. Comecei a mancar da perna esquerda porque o joelho n�o dobrava mais e, com isso, forcei mais ainda a perna direita. Em pouco tempo mancava das duas pernas. Tinha que parar muitas vezes pra diminuir a dor e isso atrasava ainda mais a caminhada. Quando n�o tinha subida, tinha descida, o que as vezes era pior. A subida forca muito os musculos. A descida forca as juntas ejoe lhos porque sofrem o impacto do peso. Naquele ponto da caminhada, dava pra perceber que est�vamos ultrapassando uma sequencia de morros quefi cavam entre o vale do Cauaburi e a serra do Tucano. Praticamente tudo que eu subia ao me deparar com um morro, eu descia logo ali na frente, quando o morro acabava, e depois come�ava tudo outro vez, no pr�ximo morro. Se fosse subtrair o que tinha descido do que tinha subido,talvez n�o desse 100 metros de diferen�a. Me apavorei quando pensei que teria que subir 3000 metros. Se fosse daquela forma, jamais chegaria. Comecei a pensar em outras coisas pra tentar esquecer a dor. Tentava prestar a aten��o nas poucas aves que via mas n�o tinha disposi��o nem pra parar pra tirar foto. Eu queria chegar ao ponto final de parada e tentar descan�ar. Estava t�o pregado que parecia at� um senhor de quase 40 anos e n�o um garot�o de apenas 38. Engra�ado como a gente se engana. n�o me preparei fisicamente para essa aventura por achar que j� estava preparado. Afinal, quase toda semana eu fa�o trilhas aqui em Balbina e em todas eu estou carregando o equipamento fotogr�fico, que pesa bastante. s� que dificilmente eu ando mais que uma hora sem parar. Na maioria das vezes eu chego onde quero chegar em menos tempo do que isso, e ainda por cima sem ter que passar por tantos morros, naquele sobe e desce sem parar. Isso me pareceu verdade, principalmente se pensar que durante toda a caminhada da manh� o corpo aguentou sem problemas. Somente a tarde � que a coisa ficou preta. E bota preta nisso. Quando j� estava pra jogar a toalha e dizer que n�o aguentava mais, chegamos ao ponto de parada. O acampamento do bebedouro velho. Segundo o guia, a 400 metros de altura. Como o acampamento do tucaninho ficava a 180 metros, significava que aqueles quil�metros de subidas e descidas renderam apenas 220 metros a mais na altura. Lembrei de novo do total da subida: 3014 metros. Puta que pariu, deduzi sabiamente. Doia tudo, at� a orelha. Tinha muita sede e perguntei aonde havia �gua . O guia deu um sorrizinho maldoso e disse que "la embaixo tem uma bica". l� em baixo... Tinha que descer pra pegar �gua e depois subir de novo. n�o era poss�vel. Mas era verdade. Desci de quatro os 30 metros de altura que separavam o acampamento da bica. A altura era pequena, mas do jeito que eu estava, parecia um quil�metro. Aproveitei pra tomar um banho. De cuia. A �gua era pouca e n�o dava pra mergulhar. Deu pra notar que a temperatura da �gua j� era bem mais baixa que a �gua encontrada no rio. Subi de quatro novamente e deitei na rede prometendo a mim mesmo que jamais sairia dela at� me restabelecer das dores nas pernas. Enquanto eu tomava banho o guia foi fazer a janta. Saboreamos um delicioso spaguetti al glutamato monossodico, o que n�o passa de um frugal Miojo. Entre o Miojo e o arroz com jab� nao sei qual � o pior. Pra beber, Tang. Sabor abacaxi. Ou ser� que era maracuj�. Sei l�, essas porcarias artificiais pra mim tem tudo o mesmo gosto. n�o resta a duvida de que � pr�tico. n�o faz peso e cadapacoti nho daquele faz um litro de refresco, bastando adicionar �gua . E � possivel de beber sem estar gelado, ao contrario de uma coca-cola, por exemplo. Depois que o corpo esfriou a perna ficou ainda mais dura. Qualquer movimento era doloroso. Tentei arranjar uma posi��o na rede que pudesse descancar sem ter que mexer as pernas. No meio do mato, a noite cai depressa e rapidamente fica es curo. A cobertura de folhas l� em cima, na copa das arvores, n�o deixava que entrasse nenhuma luz, mesmo com lua cheia. Sem fogueira ou lanterna, n�o se enxerga absolutamente nada. As 7:30 da noite o breu era total, n�o tinha lampiao, radio, televisao, revista, nada que pudesse distrair a aten��o at� o sono chegar. Apesar de ser gente boa, o Deco era fraquinho de conversa que s�. Evitava puxar assunto e quando eu perguntava alguma coisa ele respondia com um silaba apenas: sim, nao, humrum... Ele tinha um jeito engra�ado de concordar com as coisas que eu falava. Repetia as duas �ltimas palavras da minha frase e depois punha um sim ou um nao, dependendo se concordava ou n�o com o que eu falava. Era algo assim: -Parece que vai chover. -Vai chover, sim. -Aquela arvore � uma castanheira ? -Uma castanheira, sim. -Essa barulho � de coruja. -De coruja, nao. Senti que o dialogo n�o iria longe e tentei dormir pra ver se o dia seguinte chegava mais depressa. Acordamos no meio da noite com um barulho no mato, perto do acampamento...
Robson Czaban � fot�grafo, artista pl�stico, analista de sistemas, aventureiro, contador de causos, etc.
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