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Acordamos no meio da noite com um barulho no mato, perto do acampamento. O Deco pegou a lanterna e focou em cima: ratos. Grandes como ratazanas de cidade, porem com a colora��o castanha e marron, n�o cinza como as ratazanas de cidade. Mas n�o deixavam de ser ratos. O Deco esclareceu que eles S�o comuns e adoram roubar a comida que fica no chao, mesmo dentro de pacotes de papel ou plastico. Por
isso o cuidado de n�o deixar comida exposta e acondicionar tudo dentro das mochilas em
lugar alto. Alem dos ratos, mucuras e quatis tamb�m aparecem a noite atras de comida.
Nesta mesma noite tambem apareceu macaco da noite. Estava um pouco longe e n�o dava pra
ver muitos detalhes do pelo, apenas os grandes olhos sobressaiam com a luz da lanterna.
A noite correu assim, de cochilo em cochilo. No dia seguinte acordei pessimo, com dores fortes nas duas pernas, principalmente nos joelhos. Tentei andar e vi que n�o seria poss�vel. Chamei o Deco e disse que n�o teria a menor condi��o de continuar, e no estado em que estava, sem condi��es de voltar tamb�m. Teriamos que ficar pelo menos mais um dia ali at� que a perna pudesse andar novamente. Dobrar os joelhos era uma tarefa imposs�vel. Quando tinha que andar, jogava a perna pra frente me apoiando com a outra. Depois, trocava de perna e jogava a outra. Parecia o Robocop andando. Uma merda e tanto. A obriga��o de ficar parado foi uma boa desculpa pra observar as aves. Como em todo lugar, l� tamb�m elas eram bem mais ativas nas primeiras horas da manh�. Vi muita coisa nova: um arapacu com o bico meio torto, um pica pau verde e amarelo, uru, jacutinga, mutum, beijaf-lores, chocas e papaformigas, periquitos e v�rios piprideos, de 3tipos, mudando apenas a cor do alto da cabeca: branco, laranja, azul. Perguntei ao Deco o nome do que tinha a cabeca branca. Ele respondeu: bon� branco. Perguntei o nome do que tinha a cabeca laranja: bon� laranja. Deduzi que o pr�ximo deveria se chamar bon� azul. Acertei! Aviso a quem estiver lendo esta carta que, tanta inteligencia assim, s� vao encontrar no Chapolim Colorado. O tal do bon�branco me chamou aten��o, n�o s� pelo fato de ser muito manso e bonito, mas por frequentar o acampamento o dia to do atras de uma frutinha vermelha que existia aos montes. Quando fui conferir a tal frutinha, vi que era pimenta. n�o acreditei: pimenta e da brava. Aquele bichinho de apenas 10 centimetros passava o dia todo comendo pimenta. Proporcionalmente, era como se um homem comesse uns 7 quilos de pimenta por dia, pura, sem nada pra misturar. Num primeiro momento, imaginei como seria o suco gastrico daquele passarinho, forte o bastante pra digerir algo t�o picante sem causar danos. Num segundo momento, imaginei como seria o peido daquele passarinho. Deveria ser pior que Valmor, Balao, Carrusca e Gurgel juntos ( todos eles S�o colegas da Eletronorte, da informatica, e bastante conhecidos pelos gazes que liberam no ar, principalmente nas segundas feiras, depois de um fim de semana a base de cerveja ). Infelizmente, vimos um decimo apenas das aves que escutamos devido a mata densa. Ouviamos com facilidade mas a vis�o era mais dificil. A grande maioria das aves estavam nas copas, a mais de 30 metros de altura. Somente as aves de meia altura ou terrestr�s eram mais facilmente avistadas. Entre os bichos de pelo, alem dos mencionados acima, vimos tamb�m jupara, esquilo e muita cutia. Nas horas em que n�o tinha p�ssaros, ficava observando o Deco. O cara era mesmo do mato. Tinha uma percep��o fantastica de tudo o que estava a sua volta. Qualquer coisa que se movesse ou fizesse algum ruido ele notava. Conhecia muito bem as plantas e sabia o nome de muitas delas ou para o que elas serviam. Eu perguntava o nome e ele falava, embora 10 segundos depois eu j� me esquecia do nome. Era tudo nome ind�gena e soava como se fosse tudo a mesma coisa. Mapuracaia, cararicui, paricati, curirapeca, e outros palavroes. Eu n�o sabia distinguir, pelo nome, se se tratava de uma arvore, uma ave, ou um rio. Dos rios eu ainda consigo me lembrar: Iamirim, Iagrande, Cauaburi, Maturaca, Tucano, Tucaninho e Cuiabixi. Como n�o tinha nada pra fazer, o Deco foi reparar o seu jamanxim e pra isso precisava de cipo novo. Foi pra dentro do mato e voltou quinze minutos depois com um fardo de cipo. Ele foi tirando a casca de um por um deixando o cipo pelado, com uma bela cor meio bege. Depois foi dividindo o cipo ao meio, no sentido longitudinal, com o auxilio deuma faca, e o cipo ficou bem fino, com uns 3 a 4 milimetros de largura. Fino desse jeito, o cipo ficava bastante flexivel mas ainda muito resistente, o que permitia fazer cordoamentos de v�rios tipos, dar n�s e la�os bem fortes. Reparei que todos os paus que sustentavam o acampamento eram amarrados com esse tipo de cipo. E eram bem resistentes. Podia se pendurar sem medo de cair. O Deco era mesmo um bicho do mato. Estava completamente a vontade no meio daquela floresta. Talvez ficasse perdido no meio de um shopping ou n�o soubesse o que fazer dentro de um elevador. Mas na mata ele estava em casa.
Tudo regado a Tang. Dessa vez, de uva. Reconheci pela cor. Ou ser� que era framboeza ? Existe Tang de framboeza ? N�o, acho que era uva mesmo. A noite, a perna do�a menos. Mas eu estava realmente com vontade de voltar e desistir de tudo, simplesmente por achar que n�o teria preparo f�sico para encarar os quase 3000 metros de subida que tinha pela frente. Dormi antes das oito, pensando a quanto tempo eu n�o via uma mulher na minha frente: 4 dias ! Dormi melhor esta noite, apesar dos ratos, que voltaram. No dia seguinte, amanheci bem melhor, quase que um milagre. A perna somente incomodava, n�o chegava a doer. Os joelhos voltaram a dobrar, o que me permitiu dar uma boa cagada, coisa que n�o fiz no dia anterior, visto que n�o podia dobrar os joelhos. Ta rindo ? Experimenta cagar no mato sem dobrar os joelhos. � imposs�vel. Fiquei bem mais animado com a possibilidade de continuar em frente, tanto que cheguei at� a achar gostoso o caf� da manh�, que foi biscoito com caf� com leite, sem qualquer acompanhamento ( geleia, margarina, pat�, ou qualquer outra coisa que deixasse aqueles biscoitos saborosos ). Seria psicol�gico ? Por que aqueles biscoitos eram t�o ruins ? Olhei a data de vencimento: julho de 97. Mais essa. Estavam vencidos. Pensamos em diminuir ainda mais o peso que estava carregando. Resolvi deixar a camera 650mm e a camera 6X6, o binoculo, uma sacola de acess�rios fotogr�ficos e todos os filmes que j� havia batido. Pensei que isso ajudaria a tornar a caminhada menos cansativa. Coloquei tudo dentro de um saco plastico, pra n�o molhar, e deixei escondido no meio do mato, contando que 4 dias depois estaria l� ainda. Uma insanidade, sem duvida, mas necessaria para se chegar at� o final. O Deco deixou uma lata de �leo, macarrao, arroz, acucar e uma laterna. Fomos andando mais devagar e com menos peso. Depois que os musculos foram aquecidos, a dor diminuiu ainda mais e pude andar sem maiores problemas. Procurei um ritmo que fosse bom tanto nas subidas quanto nas descidas e parava 3 minutos a cada meia hora. Nosso objetivo naquele dia seria alcancar o bebedouro novo. Apenas um parentesis pra explicar esses nomes dos acampamentos. Essa trilha foi feita por �ndios e garimpeiros e, alem deles, ela hoje � u sada por turistas pra se chegar at� o pico. Pra facilitar o transporte de materiais, os garimpeiros fizeram v�rios acampamentos fixos a cada 3 horas de caminhada, onde se pode fazer fogueira, armar rede, colocar um toldo pra se proteger da chuva, e sempre perto de alguma fonte de �gua , seja um rio, uma bica ou simplesmente uma mina d'�gua . Todos esses acampamentos tem nomes: tucaninho, bebedouro velho, bebedouro novo, cutia, mutum, macaco, base, pico, jacu.
Se n�o houvessem esses acampamentos prontos, teriamos que dormir nas redes diretamente no relento, o que seria uma merda em caso de chuva, ou perderiamos um tempo muito grande cortando madeira pra levantar as estruturas, ou levariamos muito peso com as barracas. Chegamos ao bebedouro novo as 13:30. Andamos bem menos que no primeiro dia e, pela hora, ainda tinha luz suficiente pra tentar an dar at� o acampamento da cutia. Mas eu n�o queria forcar a perna demais e achei que chegar at� ali j� tinha sido uma vitoria. Altitude: 900 me tros. Escutei um delicioso ruido de �gua em cascata. Era o rio Cuiabixi que soava logo abaixo do acampamento, uns 200 metros de distancia. O barulho era bastante convidativo e pensei em tomar um bom banho, lavar a roupa e descan�ar mais cedo. Desci at� o rio e pude ver que era realmente muito bonito. Tirei a roupa e cai de uma vez... e voltei t�o r�pido quanto entrei. A �gua era gelada. Parecia a �gua das serras em Itatiaia, no Rio de Janeiro. Lindas, cristalinas, porem geladas. Tive que me preparar psicologicamente para entrar na �gua outra vez. Entrei. Brrrrrr $$ Pensei comigo: depois acostuma. at� certo ponto fui acostumando mesmo, mas continuava achando fria. Quem n�o se acostumou foi o meu pinto, que quase desapareceu. Parecia um
anjinho barroco. O bom da �gua fria � que ela acaba com a sensa��o de cansaco, e
desperta a gente. Aproveitei a fartura de �gua e resolvi lavar a rou pa, que j� estava
ficando com um delicioso cheiro de vestiario depois do jogo. Fiz a barba, escovei os
dentes, lavei as partes, parecia at� um ser civilizado. Me senti bem melhor depois do
banho. s� quem j� tomou banho num riacho de serra sabe o poder regenerador que a �gua
tem.
Voltei com outra disposi��o para o acampamento e fui observar os p�ssaros no fim da tarde. Em cima do acampamento havia uma ar vore bem florida, o que atraia muitos p�ssaros. Sem o bin�culo, pude identificar apenas beijaf-lores, sete cores da amaz�nia, cricrio, pica pau, arapacu, bone branco e saira.
O jantar foi a merda de sempre: miojo. Com Tang. Dormi r�pido e naquela noite n�o ouvi ratos nem carapanas. Em compensa��o, acordei de madrugada com frio nos p�s e na orelha. Tive que vestir mais roupas pra continuar dormindo. Devido a mata fechada e a altitude, as noites eram bem mais frias que no vale. Mas eu ainda n�o tinha id�ia do frio que me esperava l� em cima. No dia seguinte, o de sempre: caf� com biscoitos vencidos. Novamente, n�o levamos �gua . fomos caminhando contando com a �gua que encontr�ssemos no caminho. s� que a �gua que encontramos dessa vez... O que era uma bica de �gua corrente virou um po�o de �gua parada, quer dizer, quase parada, porque os insetos que nadavam na superf�cie n�o deixavam a �gua exatamente parada.
Me recusei a beber aquele liquido. n�o era �gua . Aprendi na escola desde pequeno que �gua n�o tem cheiro, cor ou gosto. Aquela tinha os tres. Mas o Deco adiantou que a pr�xima �gua somente no final do dia. Sendo assim... encarei. Os insetos n�o gostaram muito do fato da gente Ter-lhes tirado o pouco da �gua que eles tinham pra nadar mas eu argumentei que "lei da selva � lei da selva". E tome subida! A partir do bebedouro novo o caminho era subida e mais subida. n�o tinha refresco. E nem poderia ser diferente: ter�amos que chegar at� a base do pico, a 2000 metros de altura, e est�vamos a apenas 900 metros.
Apos os 1200 metros tudo come�ava a mudar. A vegeta��o alta dava lugar a uma vegeta��o mais baixa e densa, com aumento da umidade, do vento e do frio. Muitas raizes expostas tornavam a caminhada ainda pior. O terreno ficava cada vez mais alagado e eu tinha que to mar cuidado com a minha bota, que n�o era impermeavel. E tome subida $ Em compensa��o, a fauna ia ficando bem mais interessante. Os p�ssaros que via l� em baixo n�o existiam nas partes altas e vice versa. E os que eu via agora eram quase tudo novidade pra mim. Um tucano verde, um surucua de barriga vermelha, beijaf-lores, dancador de crista, sabia dofrio, ticotico da mata, ticotico do tepui, pulapula, etc. Alem da beleza das esp�cies, chamava a aten��o o fato de que todos eram muito mansos, permitindo me aproximar as vezes at� 3 ou 4 metros de distancia. Lembrei do pico de Itatiaia, no Rio de Janeiro, onde os p�ssaros que existem por l� S�o tamb�m muito mansos. Seria uma mera coincidencia ou existiria alguma rela��o entre a altitude e o fato dos animais se tornarem mais mansos ? n�o tenho resposta pra isso, mas o fato existe. E quanto mais alto ficava, mais mansos eles eram. Tirei boas fotos neste trecho, inclusive de algumas cobras que encontramos pelo caminho. Em alguns pontos, dava pra ver o Pico da Neblina e o Pico 31 de Marco, que tamb�m ficava naquela regi�o. Nos pontos em que se avistavam os picos, dava pra ver tamb�m a mudanca do clima. Grandes nuvens passavam pela gente a grande velocidade, encobrindo as copas das arvores frequentemente. Muito vento e frio. Acima dos 1800 metros n�o existiam mais �rvores grandes. Somente arbustos baixos e uma quantidade enorme de liquens, musgos e bromelias. Muitas plantas rasteiras e flores. Encontr�vamos beijaf-lores o tempo todo e todos sempre mansos. Por mais que eu tentasse desviar dos alagados, a umidade alta e a garoa provocada pelas nuvens baixas deixavam as roupas e as botas bem molhadas, como se estivesse chovendo. Devido a isso, quase n�o dava pra tirar fotos. O equipamento ficava molhado tamb�m e a lente emba�ada, n�o permitindo tirar fotos n�tidas. E n�o havia como secar a lente pois n�o tinha nada seco. Era complicado. No meio da tarde chegamos no ponto mais alto da serra do tucano, a 2000 metros de altura. Teriamos uma hora de descida at� a base do pico, onde acampariamos. A descida era lama pura, com direito a tombos e escorregoes. Felizmente a �gua era farta e limpa. E gelada. Lembrei daquele comercial da Kaiser, onde a guia tur�stica explicava o que eles iriam fazer durante todo o dia e todos perguntavam ao mesmo tempo: d� pra tomar uma Kaiser antes ? No momento em que chegamos a base do Pico da Neblina, o mesmo estava totalmente encoberto pela neblina, o que justificava bastante o nome que tinha. O acampamento da base era espacoso e conforta vel, com lugar pra pendurar as tralhas e ficar sentado sem colocar os p�s no chao. � claro que, quando eu falo em "confortavel", estou falando em conforto dentro daquelas condi��es. As pernas e os joelhos nunca ficaram completamente curados daquele primeiro dia de caminhada, mas a sensa��o de dor era pequena e a cada dia diminuia um pouco. Naquele frio, o cansaco era menor. O banho � que se tornava um problema. Se a �gua a 900 metros de altura era fria, imagine a 2000 metros. Era otima pra fazer o Tang, mas pra tomar banho... n�o dava pra ficar sujo, n�o tinha como esquentar a �gua , o jeito foi encarar a �gua assim mesmo. Entrei. n�o gritei. Quer dizer, a voz n�o saia. Acho que as cordas vocais congelaram. O corpo todo tremia de frio, os dedos ficaram roxos, e o pinto desapareceu de vez. Um anjinho barroco, do meu lado, j� poderia ser considerado um bem dotado. Sem voz, gritei um puta que pariu em pensamento. Pra piorar, um vento forte e gelado ajudava a arrepiar as coisas ainda mais. O Deco havia acendido a fogueira pra preparar a janta. Ahh que calorzinho gostoso... n�o dava mais pra sair de perto da fogueira. Falando em janta, qual seria o menu de hoje ? Arroz com jab�? Que delicia $ Tang pra beber ? E tudo isso regado a farinha ? � muita mordomia $ Abri o equipamento fotogr�fico e coloquei perto da fogueira pra tirar a umidade da lente. Enquanto ele secava, fui fazer algumas anotacoes pra n�o esquecer detalhes mais tarde. Quase que n�o pude escrever nada: o papel estava umido devido a garoa e a caneta rasgava o papel com facilidade e n�o escrevia nada. Parecia que tinha chovido no papel. s� consegui escrever nas folhas mais internas. Quando j� estava quase escuro na base, o ceu limpou e eu pude ver o por de sol iluminando o pico bem na nossa frente. Era muito lindo. Aquela montanha enorme e pontuda de pedra, toda dourada com a luz do sol, sem vegeta��o, sob um fundo azul escuro, e abaixo a mata j� sem luz, fazendo contraste com o pico. Aproveitei pra tirar um monte de fotos. Foi quase um filme inteiro s� com o visual do pico. O Deco falou que eu tive sorte em ver o pico logo no primeiro dia. Por v�rias vezes, ele j� passou at� uma semana sem conseguir ver nada. n�o sei se da pra fazer as pessoas entenderem o prazer que a gente sente ao conseguir chegar num lugar desses. Da uma sensa��o de vitoria, de conquista, sei l�. � um daqueles lugares magicos que s� o fato de estar l� j� � um premio. Pra quem � chegado em civilizacao, � como aterrissar em Nova York, ou Paris, ou Londres. Pra quem � mais ligado em natureza, � como visitar o Gran Quenyon, o Salto Angel na Venezuela, o Everest, Foz do Iguacu, os Alpes, Bora Bora ou Havaii. � um lugar magico. s� isso. O prazer maior esta em chegar l� e depois contar pra todo mundo que esteve l�. Assim como comer a Sharon Stone. Nao teria a menor graca se n�o pudesse espalhar pra todo mundo. Achei que dormiria bem melhor naquela noite, afinal j� havia conseguido o objetivo principal, que era chegar l�. O Deco, que at� entao quase n�o falava, resolveu conversar como nunca naquela noite. Contou estorias do tempo em que j� foi garimpeiro no Brasil, na Venezuela e na Colombia. Estorias de brigas e mortes por causa do ouro dos garimpos, prisoes e fugas, tanto da policia quanto dos traficantes que existiam muito por l�, antes do exercito aparecer. Contou que haviam traficantes que faziam o comercio da cocaina por motivos mais politicos que financeiros. Eles queriam acabar com a juventude americana atraves da droga, numa esp�cie de vinganca contra os americanos por entenderem que eles acabaram com a esperanca de futuro da juventude latina atraves da explora��o financeira, politica e comercial. Contou que largou o garimpo porque n�o valia a pena. Estava sempre na ilegalidade, a maior parte do tempo n�o conseguia ouro suficiente sequer pra gastar com comida e prostituicao. E se achasse uma quantidade grande, tinha que esconder muito bem pra evitar emboscada dos pr�prios companheiros de garimpo.
Enquanto a gente conversava, bandos de sabias do frio e de ticoticos do tepui entravam dentro do acampamento, as vezes a menos de um metro do meu pe, como que conferindo a cara dos visitantes. Entravam, nos olhavam e depois saiam. n�o demonstravam nenhum receio. O Deco me avisou sobre um p�ssaro que se chamava seis-e-meia, pois tinha o h�bito de cantar sempre naquela hora. Num determinado ponto da conversa, ele interrompeu e chamou a aten��o para o tal canto. Olhei no relogio e vi que eram 6:35. O passarinho estava um pouco atrasado. Consegui achar o p�ssaro, mas n�o pude identificar no momento. Sabia apenas que nunca tinha visto. Depois, j� em casa, conferindo as fotos feitas com os livros que tinha sobre p�ssaros, vi que se tratava de um wissia, um p�ssaro migratorio dos Estados Unidos e que passava o verao nas montanhas do norte da Am�rica do Sul. Era considerado raro e fiquei feliz em conseguir tirar fotos dele. Quando escureceu, um temporal caiu sobre o acampamento demonstrando imediatamente a grande quantidade de furos que haviam na lona que nos cobria. Tentamos ajeitar as nossas coisas entre uma goteira e outra, de maneira a n�o molhar nada. Com a mesma rapidez que a chuva veio, ela se foi. Ficou a penas o barulho da �gua pingando e aqueles ruidos tipicos da noite: sapos, grilos e corujas. Enquanto o sono n�o vinha, ficava pensando que j� estava a 6 dias sem ver uma mulher na minha frente. Pensei no Amir Klink. Ele ficou um ano na Ant�rtida e, consequentemente, um ano sem ver mulher. Que for�a de vontade !!! Ha 6 dias n�o ouvia radio, n�o via televis�o e nem lia um jornal. O que ser� que estava acontecendo no mundo ? n�o tinha contato com ningu�m a n�o ser o Deco. Parei de pensar quando percebi que meus p�s estavam congelando. A temperatura caiu r�pido. Perguntei ao Deco quanto costumava cair. Ele disse que at� os 8 graus era comum. O Deco j� estava acostumado com o frio mas eu j� havia me habituado ao calor de Manaus, com temperaturas sempre acima dos 25. Resolvi vestir todas as roupas que havia trazido, inclusive as sujas. Ao todo, foram 3 calcas, 4 camisas, um casaco, 6 pares de meias, a bota e tudo isso dentro do saco de dormir, fechado at� a cabeca. E ainda assim senti frio. Mas consegui dormir. No dia seguinte, se n�o fosse pela vontade de fazer pipi, acho que n�o sairia de dentro da rede. Mas como tive que levantar pra n�o fazer na rede, aproveitei pra lavar a cara, escovar os dentes, tudo com �gua gelada, � claro. Tava muito frio, o sol ainda n�o tinha apontado, embora l� em cima no pico j� houvesse luz, o que me permitiu tirar fotos muito bonitas. S�o Pedro estava colaborando comigo e n�o mandou nenhuma nuvem pra atrapalhar. Tirei lindas fotos com a maquina gelada. Depois das fotos, fui me deliciar com o soberbo desjejum preparado pelo chef Deco: Nescaf� com leite e biscoito seco, duro, vencido e, agora, gelado. Todo farelo jogado no ch�o era imediatamente atacado pelos sabi�s e ticoticos. Um sabi�, mais exigente, fez cara de quem n�o gostou dos biscoitos. n�o posso culpa-lo. Depois que os p�ssaros iam embora, o que sobrava era comido por uns ratos interessantes, bem peludos e avermelhados, parecidos com um hamster. Chegavam a ser simp�ticos, embora fossem ratos. Eram parecidos com hamster tamb�m no tamanho, bem pequenos. Feito o desjejum, o programa do dia era caminhar at� o cume, pela trilha do Montila, contornando o pico a leste e subindo por traz at� o topo. O Montila, como todos sabem, � uma pequena serra que limita o vale da base do pico, do lado oeste, em contraste com a serrado Tucano, do lado leste. Durante a caminhada, muita lama, muitas flores, e tamb�m muitos
beijaf-lores. Haviam basicamente 3 tipos, mas um deles, com a barriga alaranjada e as
costas verdes era o mais comum. A medida em que iamos subindo, as esp�cies de p�ssaros
diminuiam, porem as quantidades das esp�cies de cada tipo aumentavam. Numa altitude em
que praticamente n�o haviam mais arbustos, somente plantas baixas, encontrei um tal de
furaflor, o alegrinho de garganta branca, a guaracava da serra, andorinha de bando e
andorinhoes do temporal.
Todos eles p�ssaros que s� conhecia pelos livros e nuncaos tinha visto, muito menos fotografado. Enriqueci bastante o meu arquivo fotogr�fico com eles. Havia tamb�m uma grande quantidade de calangos nas pedras do caminho, alguns bem coloridos. Muitas flores tamb�m e, neste caso, lamentei n�o ter nenhum conhecimento do assunto mas, segundo o Deco, no ano de 95 um frances ficou mais de um mes acampado na base do pico, somente para estudar as flores e, segundo ele, a maior parte das esp�cies encontradas na Serra do Tucano e na Serra da Montila S�o endemicas, ou seja, s� existem l� e em nenhuma outra parte do globo. No caso dos p�ssaros, isso tamb�m acontece com algumas esp�cies, como o ticotico do tepui, que s� existe nessa fronteira montanhosa entre o Brasil e a Venezuela. Ir durante o dia at� o cume � uma tarefa dificil e ingrata pois, quando se chega l� em cima n�o se enxerga nada. E o seguinte: depois das 8 da manh�, as nuvens come�am a aparecer e fechar completamente o pico, de forma que quem esta em baixo n�o ve o que esta em cima e quem esta em cima n�o enxerga nada l� pra baixo. � tudo branco. So nuvens e nuvens, como num avi�o. n�o ha o que ver nem o que fotografar. Somente pedras e um monte de tranqueiras deixadas pelos outros aventureiros que estiveram l� antes de mim: fotos, bandeirinhas, registros de toda esp�cie, marcas do exercito brasileiro e venezuelano, etc. Para se ver algum espetaculo interessante, como o nascer do sol ou o por do sol, � necessario que se durma l� no pico, onde a temperatura baixa dos 4 graus, os ventos S�o bem mais fortes e praticamente garoa todo o tempo. Porra, eu quase congelei na temperatura da base, o que seria de mim l� em cima ? Dormir l�, nem pensar. Desci no mesmo dia. Embora n�o seja uma trilha simples, tamb�m n�o precisa ser alpinista pra subir at� o topo, nem ha necessidade de cordas ou outros apetrechos. Como j� disse antes, o mais gostoso � saber que se chegou l�. Consigo entender, perfeitamente, o que sente um alpinista quando vence a montanha. � muito gostoso. As vezes sentia um pouco de tontura e me cansava com muita facilidade. Devia ser efeito da altitude. Tinha que parar com muita frequencia e passar mais tempo descansando. Somente l� em cima � que pudemos fazer uma refei��o mais saborosa. Castanha de caju com caramelo e chocolate. O Deco havia levado especialmente para ser consumido l� em cima. Segundo ele, se o cara n�o comer muito chocolate, fica fraco e n�o consegue descer depois. Acreditei nele e, naquela altura do campeonato, acreditaria em qualquer coisa pra comer algo diferente de arroz com jab� e miojo. Voltamos pouco antes de come�ar a chover, e deu tempo pra recolher a roupa que eu havia deixado pra secar, assim como a lenha pra fazer o fogo. Fui tomar banho e beber �gua . Com a chuva, a �gua ficou barrenta mas eu bebi assim mesmo. Pelo menos n�o tinha insetos nela. A �gua continuava gelada mas eu sentia que estava me acostumando. Pelo menos eu j� gritava todos os palavroes que conhecia quando me molhava. Antes eu n�o conseguia falar nada. Durante a chuva, alguns p�ssaros se esconderam sob o toldo junto com a gente, sem a menor cerimonia. Eram incrivelmente mansos. Ao cair da noite, a refei��o voltou ao normal. Arroz com jab�. Puta que pariu ! Jurei que jamais comeria jab� outra vez, depois que voltasse a civilizacao. O Deco comia como se fosse a coisa mais gostosa do mundo ou como se n�o houvesse outra coisa pra se comer na vida. De repente, vozes. Fiquei na duvida se eram vozes mesmo ou pura leseira da minha parte. Ainda n�o estava ficando leso, eram vozes mesmo. De longe pareciam dois trogloditas. Quando chegaram mais perto, vi que eram mesmo dois trogloditas. Eram o Cobal e o Andrade. Dois garimpeiros, o primeiro deles preto e o segundo branco. Quer dizer, parecia preto. Eu n�o sei se era a cor dele ou se era a cor da sujeira que cobria ele. O Cobal era uma figura saida do Jurassic Park, um elo perdido, um ser das cavernas um primo do neanderthal. Cabelos enrolados, enormes, barbas enormes e trapos no lugar de roupas, onde n�o se podia imaginar a cor que um dia elas tiveram. Ele e o Andrade j� estavam l� em cima ha quatro anos sem terem descido pra cidade nenhuma vez. O m�ximo que fizeram foi ir at� a barra do Tucaninho pra comprar mantimentos trazidos pelos comerciantes ribeirinhos ou pelos �ndios. Era esse o tempo que eles estavam sem ver uma mulher na frente. Quatro anos! n�o quiz ser indiscreto e n�o perguntei "como � que eles faziam", mas que deu vontade de perguntar, ah isso deu. O Cobal disse que, da �ltima vez em que desceu at� a cidade, gastou toda a quantidade de ouro que tinha juntado com putaria. n�o comprou nada. Imagina so. � uma vida muito doida, essa de garimpeiro. Depois, eu me encontraria com o Carioca, um outro garimpeiro, e atraves dele eu pude entender melhor o que leva um cidadao a optar por esse tipo de vida. Mais adiante eu conto essa conversa. O Cobal, apesar das aparencias, � uma boa pessoa. Tem uma amizade toda especial por um beijaf-lor e por um sabi�, que j� se habituaram a comer na sua mao, e costumam segui-lo com frequencia. O beijaf-lor chega ao ponto de sentar na beirada da caneca do Cobal e beber ao mesmo tempo, quase encostando o bico no rosto dele. O Andrade diz que metade do acucar que o companheiro compra � pra fazer a �gua do beijaf-lor. Deve ser verdade. Eles foram embora pouco tempo depois, j� quase escurencendo e n�o quiseram comer com a gente. Ainda bem, porque n�o tinha muita comida. Um detalhe que eu havia esquecido de contar. T�nhamos esquecido de trazer talheres. Haviam apenas uma faca grande e duas colheres. Esse tempo todo eu fiquei comendo de colher, inclusive o macarrao. No dia seguinte, o come�o da caminhada de volta...
Robson Czaban � fot�grafo, artista pl�stico, analista de sistemas, aventureiro, contador de causos, etc.
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