A calma transitante. O horóscopo e a maestreza. O impulso de escrever. O cheiro do amor e os dedos cheios de amor. O barulho dos grilos. O edredon perfumado pelo sono de ontem. O silêncio na escuridão. A solidão. O abandonado. A abandonada. O diálogo perfeito tem um final triste e um fechar de portas. Nossa individualidade. A calma para pensar.Queria eu poder fazer muitas coisas ao mesmo tempo, entrar na sua cabeça e pensar como você pensa. Entender os lados dos muitos lados de um fato, estar onde você esteve, ficar com você assim, juntinho. Poder enxergar tudo duas vezes ao mesmo tempo. A lembrança do primeiro momento do que passou, as dores e os arranhões e os músculos enrijecidos. Minha formação hereditária pulsando como uma nova era, uma nova constelação de filhos e a sensação de gozar por 3 minutos seguidos. Um copo de água, a calma dos que nos visitam impera como uma luva em seus pequenos dedos. Eu penso em você e logo apareces. Aposto que está ventando, mas não está. As nuvens estão baixas e parecem moldar-se ao relevo da encosta perto de onde estou. Eu vejo tudo pela janela. Aqueles beijos e abraços que nos molham servem para nos acalmar e para nos excitar e a qualquer momento servem para gritar. Do escuro para a luz, na vista das abelhas polinizando as flores e na chuva que une o macho e a fêmea das plantas está um pouco da harmonia universal. Om, aquele zumbido da consciência atemporal balança a natureza, a mãe de todas as coisas. Ali, Teh, o tempo muda de figura. Eu tinha virado uma abelha ao som do violão. Muita humildade, os dedos dedilham acordes maiores com seu rebuscado envelhecido pelas cordas do violão. Que violão poderia ser bom? Apenas aquele que é tocado. Enquanto batiam nossos corações em repiques pude sentir a presença de algo bom a nossa volta. Enfim, de dia a gente pode enxergar melhor a manifestação daquilo que faz parte de nós e de tudo. Teh, Tao e a calma.

No que consiste o ciclo do tempo: do céu da terra, dos sábios. As palavras se tornam escravas de seu próprio tempo, os museus se tornam uma fotografia do tempo, as fotografias são instantes de felicidade ou tristeza. O tempo e seus ciclos tem muitas faces. Uma delas fica virada pro todo pressentindo todos os movimentos e guardando seus segredos em nosso imediatismo. Assim como ela boceja o tempo todo, ou quase, todo o tempo urge em bocejar nossos sentimentos. O amor fica mais quietinho, quase parece um assobio. A velocidade, o espaço, a relatividade dos pontos e o infinitamente pequeno escondem um tanto dos homens. E ficar em casa parece ser a melhor opção. Aqui chove e o amor se manifesta outra vez parecendo pertencer todo a mim. Sim! E o tempo? Apenas escurece lá fora. Aqui tudo é mais tranquilo e eu me sinto assim também. Há pouca luz no quarto...poucas fontes de luz como a tela do computador ou a luz que entra pela persiana e seus reflexos. Sempre gostei disso. Pouca luz me atrai...e aí ainda tem o tempo que passa. O ano vai acabar e eu espero o fim da forma mais passiva. Apenas observando, deitada, deixando a preguiça levar. Algumas pessoas se envolvem nesta passagem dessa forma também e a liberdade de fazermos o que quisermos é a melhor sensação do mundo. Porque lá fora escurece e eu continuo ao lado da pessoa que eu amo. Mais um bocejo. Esta manifestação magnética tem um poder muito louco sobre mim. Ela boceja, eu bocejo na seqüência, ao mesmo tempo, frações de segundos nos separam de nosso elo amoroso. O sono tem estado presente nas entrelinhas do dia. E o tempo me diz que estamos em guerra. A explosão de exércitos pelo mundo me preocupa. Toda a teoria da conspiração que tenho imaginado as vezes toma corpo nos noticiários. Os EUA, a Europa nos contaminando, a África separada do seu próprio berço de ouro. É preciso pensar pequeno, lembrar que em Brasília existe uma lei seca coibindo a violência aos sabores das filas de desgostosos fregueses. Os bares lucram, por isso não reclamam. O que seria das guerras se não fossem os boicotes e motins? No inverno os soldados padecem de desgosto. O frio, mais uma vez o tempo, cansa e mata quem o enfrenta. Soldados morrem sem saber por que. Civis caem como gado. Explosões irrompem em todas as cidades grandes. Brasil se torna agente do primeiro mundo, explorada como uma África disfarçada de México, falida como uma Argentina quintuplicada. A moral acabou com o tempo. O tempo da moral ainda há de voltar. Ética, o general mata menos, gasta menos e poupa o tempo de cessar. Começou, tudo, tem que terminar com a maior eficiência. Está no Tao das coisas, menos a destruição. Minhas quatro mãos fogem muitas vezes do que precisa ser feito no geral. As mãos tem que ser mais do que mãos. Tem que acreditar no valor do seu trabalho, um lapso de nosso tempo quando distanciados do ócio criativo. Sabe, a falta de discussão é uma perda de tempo. Pedir para ser ouvido, outra perda de tempo. O tempo aguarda tudo, mede os atos por seu peso e verdade. E a verdade nunca mente.

O meu carro deve estar cheirando mofo. A minha noite de sono foi leve e finalmente aqueles ciclos de sonhos, fragmentos fotográficos dos dias e das noites sumiram. A chuva cai como uma luva em Brasília. Finalmente o curso natural das coisas, a chuva e todas as suas belezas chegaram. O ano novo se aproxima como o abrir de um casulo, uma nova larva se torna uma péssima borboleta. As vezes a gente pensa estarmos sendo pentelhados por pequenas coisas. Como reclamar? Do que reclamar? Sim, das pessoas que não vemos ou do dinheiro que gastamos a mais nas festas. Mas ninguém economiza em lazer. O mundo girando em torno das farmácias e das nossas neuroses, os viciados em fazer algo bom na noite aparecem para vampirizar até o que vestimos. Sinto o cheiro da fumaça de cigarro. Ela não me incomoda, me lembra da volatilidade do que respiramos, dá um toque de cor naquilo que não podemos enxergar. E na nossa frente estão os desafios, sim, os desafios pessoais. Ajudar, ser ajudado, ajudar de novo em vão. Assim me despeço de 2003. Na dificuldade de me relacionar com o velho e aberto às novas esperanças, novos projetos que estão sempre renovando a minha insatisfação. O amor está estampado em minha face, nada do que tentem me dizer ou façam atinge algo como eu. Uma superfície espelhada. Comprei ela em uma liquidação nas lojas de São Vacilão. Tamanho M. O amor é muito bom e está em todos os lugares. Pouse seu olhar em mim. Olhe para quem eu amo. Todos temos rugas, pequenas olheiras e curvamos ante a gravidade dos anos. Trabalho, personalidade, luz. Assim como quando lemos ou venta, nos afastamos do mal. O mal da humanidade está em se adaptar ao errado. O certo e estar certo, errar certo e admitir o erro são passos importantes para o caminho. Teh, ele se manifesta quando fazemos o bem. O bem está sendo feito agora mesmo, por isso chove tanto. Precisamos de água, para quem está reclamando de alguma coisa agora. Precisamos de muitas outras coisas também. Somar, subtrair, somar. Me sinto longe de tanta gente, pudera, me sinto longe de coisas obscuras e incertas. Não uso relógio e mesmo assim vago com elas, as horas. Os ponteiros sorriem para mim. Sempre com pressa, eu preguiçoso. Aqui tem uma idéia fixa em todas as linhas. Eu dizendo bom dia, acredite. Obrigado.

A chuva caiu a noite toda, fez de seu barulho a sinfonia do meu silêncio. Foi uma noite tranquila, eu dormi acordado trespassado por pensamentos insólitos pulsando lento sobre o lençol. Tudo ao meu redor estava certo, assim como a chuva naquele momento. De repente, os pensamentos. Parece que alguns tendem a reverberar enquanto busco na lembrança o que me forçou a estar aqui agora. A imagem do meu vizinho bêbado na porta de sua casa, o seu corpo balançando enquanto ele tentava conter sua tremedeira, sua esposa olhando as crianças na rua e eu saindo, voltando para meu recanto amoroso e espiritual. As vezes eu olho pras pessoas e tento me colocar em seu lugar, principalmente nos casos mais absurdos. Sempre tive tendência em travar com os excessos o caminho do equilíbrio, enxergar entre o Yin e o Yang, a luz e as trevas, meus medos e os seus medos. Meus medos. Sempre que posso, dirijo. Minha velocidade preferida é a de 80Km/h. Descobri que nesta velocidade flui em mim a sensação de estar. Estou consciente, atento ao meu ambiente e vejo o meu futuro e tomo as minhas decisões. Acima desta velocidade, eu apenas me concentro. A velocidade pode matar e quando eu penso na morte traumática sempre me concentro na vida, na minha vida e nas dos outros motoristas e pedestres e ciclistas. Acima de 80Km/h é difícil até de frear com rapidez. Os reflexos se tornam automáticos e muitas vezes escapam nossa percepção. Abaixo de 80Km/h é um saco. Fica aquele vazio, os sinais da rua ficam largos demais, os carros tendem a parar na minha frente e fluem desordenados entre os retornos e semáforos da cidade. Uma boa conversa pode disfarçar a sensação de perda de tempo, de descolamento. Esta é a minha questão. Meus 80Km/h estão em alta desde ontem.
Tenho que lembrar que conversei com meu irmão sobre o amor, sobre o medo, sobre as etapas dos sentimentos, a compreensão da plenitude e da solidão quando pensamos em nós ao estarmos vagando pelos fragmentos de nossas vidas. Existe um vácuo infinito que queremos alcançar à tôa. A vida tem momentos que nos leva a fugir um pouco da realidade, buscando um casulo seguro.

Sempre imaginei que meditar era uma forma de estar em contato com o meio sem interferir nele, apenas respirar e estar com o que nos rodeia. Meditar tinha um outro nome quando eu era menor. Mas era uma meditação tranquila sobre o dia, sobre as coisas novas e as velhas que acrescentavam a alma do meu travesseiro. Depois fui aprendendo a entrar em contato com outras coisas, meus momentos foram focalizando minúcias das horas e dos pensamentos atemporais que tinha. Depois a meditação virou uma espécie de fuga da surrealidade. Um bloqueio contra o mau-olhado e contra a baixa-estima e contra a solidão. Meditar acabou sendo um barulho bom e depois de praticar isso durante anos resolvi incorporar elementos mais humanos a minha vida. Vieram os anos de escola, a tentativa de integrar a sociedade infantil foi uma fase de muitas provações. Não consigo me lembrar se eu respirava fundo ou ofegava. Me lembro bem dos conceitos que hoje carrego comigo. Pensar duas vezes antes de agir; defender a coisa certa; respeitar a natureza das coisas; poupar energia. Talvez eu não tenha aprendido tudo isso ao mesmo tempo, antes eu comia menos legumes e meu maior medo era ser soterrado e morrer assim. Sonhei muitas vezes com pessoas que nunca vi, já vi números de telefones que não ousei ligar para comprovar alguma identidade misteriosa. Já vi lugares que depois se tornaram verdadeiras visões de um pesadelo macabro que eu tive. Isso tudo talvez pudesse ser empecinho para muita gente. Eu acabei vendo a realidade de minha cabeça; nada seria fácil para mim. Quanto mais difícil, mais elaborada era a minha fantasia. Obstáculos da mente resolvendo os enigmas da vida. O que eu li no horóscopo em Janeiro deste ano foi quase um oráculo, a resposta para uma pergunta que eu me fiz a anos. Eu esperava pela resposta a anos. Foi a pergunta que Deus demorou para responder. Eu estava relendo um dos meus livros preferidos e sem querer me lembrei porque tenho tamanha admiração por tal obra. O livro fala do que somos e da infinitude, de crença e no amor. Ultimamente eu achava que tinha perdido alguma coisa. Mas a confusão dos meus dias tem sido fruto de uma espera longa pelo meu encontro com a certeza do amanhã. Estou sentado esperando como um idiota os dias de trabalho, estou criando novas harmonias para o amanhã também. Pensar tem sido penoso e naturalmente acabei criando mecanismos paralisantes para todas as minhas ansiedades e saudades. Talvez seja melhor não pensar. Talvez seja melhor acreditar na qualidade de nossas escolhas. Nas nossas virtudes. Isso tem me dado uma energia extra neste final de ano. Nos anos passados eu estava sozinho demais. Falando daquilo que sabia sem saber. Pensando naquilo que sempre esteve acordado em mim. Hoje percebi mais uma vez que existe um fio que me separa da luz. Cadê a saída? Pensei que tenho tudo o que quero, desejos suprimem-se em nós nas costas e eu vou continuar aqui espiando minha alma gêmea do Xingu, quando eu fechar meus olhos de novo.

Acendi um incenso de rosas brancas para pacificar meu ambiente. Pensei em muitas coisas que eu poderia fazer, sair de casa e tomar uma cerveja ou acender mais um baseado para matar o tempo, escrever uma nova música ou fazer uma nova audição de reggae. Esperar saber notícias do meu carro, sua parte elétrica me causa náuseas e eu ainda almocei demais. Como pode ser assim tão lenta a minha existência? Eu aqui, gostaria de voar. Apenas voando eu poderia estar onde eu gostaria de estar. Penso, comprei um carro que não voa. Poderia ter feito N viagens com ele de avião, pelo mesmo valor até; Eu poderia estar em casa agora fazendo aquilo que eu mais gosto. Mas não estou. Mais uma daquelas escolhas infelizes de final de ano; tudo o que eu quero é um pouco de silêncio e carinho daquelas mãos pequenas. Bebo água faz dias, meu estômago parece que aceita o arroz integral com mais saúde, acho graça da minha nova condição de espera. Não gosto de como me sinto. O silêncio vaga em minhas lembranças em busca do que você me diz todos os dias de manhã. Quando eu imagino o que tem dentro de mim, eu penso em quantas vezes eu pensei em você hoje. As brasas caem sobre meu colo, eu poderia até chorar depois de algumas horas regredindo em minhas memórias. Mas eu apenas penso que tudo tem seu sentido, mesmo que seja apenas uma visão da claridade de nosso passado sobre um livro aberto no meio. Os filmes já não tem mais nomes para mim; o que é bom persiste como o vento; eu vivo, estou sentindo uma febre interna incrível, uma dor de cabeça interna que urge, um desequilíbrio total nas minhas ações. Tudo menos frio. Avaliando com cuidado vejo que só estou um pouco cansado de estar ao mesmo tempo dividido e compactado em meu tempo. Vejo uma pessoa buscando o vazio do abismo, respirar o éter e amar plenamente de modo que até o confuso tende a se desobscurecer e virar uma nova oportunidade de ser. Eu vejo porque as ilusões se tornaram fantasmas quando eu fecho meus olhos. O cosmo brinca comigo, me dá pequenos lampejos, choques e espasmos. Meu corpo pede por seu peso, o oxigênio já não basta mais. Falta o calor dos seus beijos, os meus anseios evaporando de mim se transformam em vácuo até alcançar o seu cheiro. Eu sinto ele daqui, o cheiro de tudo o que eu gosto.

As vezes eu acho que posso enganar o futuro, dar um olé nas decisões a serem tomadas. Mas as vezes eu preciso aceitar que o tempo está dedica a todos nós e eu tenho que viver minha parte dele ao sabor de sua caminhada. Sua honestidade sempre acompanhou as lutas pela paciência necessária para esperar e fazer a coisa certa. Hoje eu tenho muitas coisas conquistadas com esta tática milenar de yin e yang. De uma arte intuitiva do vivenciar o todo como lúdicas camadas de sobriedade e espontaneidade. Isso ocorre ao sabor do amor. Ao sabor do que o sentimento faz brotar em nosso silêncio. No sofrimento daquilo que não ousamos dizer em nossos pensamentos. Fico com aquela saudade engasgada, meu pulmão intoxicado aperta contra a fumaça da cidade grande. Eu preciso de um carinho e queria apenas uma boa notícia. Apenas o telefone e uma voz que não cessa de dizer que as vezes nós já sabemos alguns traços do destino. Eu queria sorrir, mas fico apenas com a impressão de que falhei comigo. Com um carro e com um baixo, sim, olhando o cair da noite avermelhado na cidade grande. Eu aqui dolorido queria estar em outro lugar, estou feliz por crer no meu caminho e fecho meus olhos para ver o que não está aqui ao meu lado. Se eu pudesse deixar meus afazeres para os outros fazerem seria uma boa. Mas não é o meu caso. Estou com meus bolsos inchados e só eu poderei dar cabo do meu ano de glória. Meu amor, aqui tem algo para mim. Mas ele começa aqui e termina onde você começar.

Viajar de avião me distanciou de uma realidade importante para meu trabalho. A percepção de como andam as coisas na beira das rodovias, nas entradas de cada nova velha cidade são sutis impressões da situação do país. Nos aeroportos tudo é grande, bonito e automatizado. Os aviões são pesados e levam mais de cem pessoas para todos os lugares. Menos para perto do povo. E meu trabalho é mais do que um reflexo do povo que eu faço parte. No reggae o espaço para grandiosidades está no plano dos ideais. Aeroportos representam um antagonismo forte à realidade de nosso povo.

A perfeição é uma busca pelo momento pleno e efêmero do tempo e do espaço. O tempo engloba o que está ao nosso redor em constante mutação. O espaço é onde estamos e com quem dividimos nosso tempo. Comigo o tempo pára quando eu estou com quem eu amo. E apenas o vento indica que o todo está em movimento. Quase paraliso o tempo em minha alma. Os sons mais distantes pulsam com o ar e a energia das moléculas vibra em todos os sentidos até nos acertar.

Os efeitos da maconha em nosso cérebro tendem sempre a solidão, silêncio e desligamento do todo. Canalize as energias para a percepção dos elementos naturais, para sua respiração e ouça atentamente o bater do seu coração quando sobre seu efeito. Busque as nuances dos sons na natureza e nas músicas que importam, deguste alguma coisa gostosa e beba água. Fique perto das pessoas que você ama e amplie sua aura até tocar o infinito das coisas.

A beleza está ao nosso redor. E parece estar despercebida de muita gente, quanta tristeza. Nas palavras amigas ou no pôr-do-sol refletido no Paranoá, nas idéias construtivas e boas e nas fotografias estão tantas belezas e admirações que dariam conta de todas as vidas para serem percebidas e apreciadas.

Trabalho. É a sina do homem. É como respirar de manhã cedo, aquela primeira inspirada forte para dilatar os pulmões. É um novo dia para todos nós. É dia de procurar o que fazer pela nossa natureza. O trabalho engrandecia o homem quando não tinha dinheiro envolvido. A burguesia e o dinheiro destruindo as instituições morais do globo e a miséria e a fome às nossas vistas. E o trabalho se torna a única ligação do homem com sua natureza. Pensar sobre o trabalho é uma tarefa árdua de auto-conhecimento. O trabalho que se desempenha gradua os próximos passos do homem.

26112003 - Sabe, negar a sua natureza é como dar um tiro na própria cabeça. Ontem a namorada de um amigo quase colocou fogo aqui em casa. Pegou uma panela e encheu de óleo para fritar nuggets, acendeu o fogo e deixou lá a panela até que o fogo começasse em suas labaredas laranja e cessasse depois de abafado e ventilado. Que porcaria de dona de casa. Dois dias antes a mesma namorada tinha me dito que queria ser dona de casa e que o namorado tinha que ganhar muito dinheiro para que isso acontecesse. Acho que ela mudou de idéia. Porque eu sacaneei muito as contradições ditas e feitas dela. É meu alívio depois de tantos dias pensando nas soluções de meu trabalho. Sim, se a dedicação intelectual e o tempo tivessem um dinheirímetro, eu poderia até estar me aposentando. Mas essa não é a minha natureza ainda.

A personalidade ambígua atua como essa namorada de um amigo meu. Não preserva nenhum comentário idiota e manifesta o mal-olhado para onde vai. É como um átomo implodindo ou excesso de carga em avião. Deixa o ambiente pesado e turbulento, sem espaço para respirar - nossas opiniões são alívios de nossa consciência - e acompanhados de desculpas e de excessos de perdão. Cada uma dessas personalidades se manifesta de um jeito. Sua raiva e egocentria são ativados, geralmente, pela negação de algum ato que ela julga imperdoável. Em geral esse ato é o reflexo do que esta personalidade teria feito, mas ela nega que tenha sido realizado de outra pessoa. É como um sim seguido de não. É uma merda.

24112003 - Eu me coloco na posição de um narrador para tentar explicar o caso da personalidade ambígua. Nem sei como tal coisa aconteceu na humanidade ou se é de fato um caso para análises. Existe porque eu já vi ele ocorrer em duas pessoas. Pessoas que não tem relação de parentesco alguma e que se desconhecem. Talvez tenham sentados perto em algum Time´s ou Piantella, quem sabe curtem o mesmo sushiman. Mas são desconhecidas e se desconhecem.
Toda vez que o amor se envolve nos nossos sentimentos existe um grande conflito que está sempre às margens de acontecer. Quando o amor é fraterno, ainda mais complicada pode ser a relação e o conflito. Por isso, calma. Quando existe aquela vontade louca de sumir ou se calar, ou falar mais alto do que todo mundo para dizer nossas convicções, mais alto do que nossas mães estamos nos agredindo e aos outros. Menos pior do que calar diante das ordens ou do descaso. Das palavras fortes de desprezo ou da violência dos olhares marejados de ódio. Eu já vi muitas vezes esta expressão de amor e ódio misturados em minhas emoções e tive o desprazer de conviver com gente que olhava assim para mim todos os dias. Palavras: medíocre, vagabundo... Expressão: você não vai ser nada na vida assim, se você me ameaçar, eu te mato... Nas arenas da vida, na escola e para os vizinhos sempre palavras de amor: meu filho é lindo, eu só me orgulho dele... Expressão: ele não fez nada errado até hoje... Quando vivemos dentro de um ambiente rico em natureza humana e opressor de nossa personalidade, primeiro nos rebelamos e refutamos as ordens diárias. Estabelecemos nosso espaço. Segundo, ouvimos todas as reclamações de tudo o que merecemos passar por sermos aquilo que somos. Eu me lembro das broncas. Eu me lembro dos olhares dos meus professores de segundo grau. O desprezo pela minha juventude. Quando a personalidade ambígua aparece notamos que ela nos fez trilhar muitos conflitos pessoais. Crises de choro ou desentendimento da totalidade de nossa rotina. Caso seu trabalho tenha sido relaxar com as broncas, o problema é seu. Mas se os calos em suas mãos forem uma prova de seu esforço material pela aceitação, continue. A personalidade ambígua está ao seu redor e é uma pessoa que amamos que nos confundiu todos esses anos. Ainda tenho na memória o dia em que tudo isso ficou evidente. Demorou anos até eu poder juntar os pedaços de minha estima, juntá-los todos a uma só condição de existência e entender quem me queria tão bem e mau ao mesmo tempo. Por que? Esta resposta cabe a cada pessoa que convive com personalidades ambíguas. Eu prefiro evitá-las ao máximo e confrontar suas confusões mentais apenas quando necessário e sem muitas delongas. O legado da paciência é uma trilha longa que merece meu respeito. Assim termino meu desabafo. Obrigado e te amo.

20112003 - Apenas um assunto polemiza em minha tranquilidade. Sempre ele, os meus dentes sempre estão em enorme movimento. Eu me olho no espelho hoje. Daqui um mês está tudo mudado no meu sorriso. Ou eu estou dando muita importância para eles. De fato, não sei. Apenas tenho eles em movimento em mim. No mais, as metas se tornaram uma constante no que faço. Um problema exige uma solução. Estou aí na disposição. Com aquele eco na minha garganta. Com aquela figura linda voando em minhas todas horas vagas. Um telhado quebrado e uma reforma são apenas momentos onde penso mais ainda na felicidade em que me encontro, com suas reservas e distância e saudades demais. Estou com aquela cerveja entelando em minha garganta, o sol tosta a cabeça do meu assistente de telhados. Sim, existem muitas coisas que eu sei fazer. Trocar telhados é uma lacuna em minha vida. É difícil e exige estratégia, metragens e algum dinheiro. De todos os meus novos sonhos um telhado é o de mais importante no momento. Minhas costas e minha garganta arranham alguma coisa. Quando estou sem foôlego, como agora, tenho uma vontade de pensar. Os pensamentos ainda estão voando entre Brasília e o meu telhado. Por causa dele acabei vendo um pôr-do-sol muito belo ontem. Olhar o céu tem suas implicações, todos sabemos disso. Quando eu olho para o céu é para trocar olhares e palavras com minhas espiritualidades. O meu papo com o céu exige hora certa e muitas simplicidades. Dor, amor, saudade, as eventualidades... tomar conta de mim tem minado minha paciência.
Fui ao banco, paguei as contas e estou aqui de prontidão. O telhado está ficando muito bom. As telhas novas de amianto pesam 35Kg e sobem aos céus com uma corda grossa apenas. Um nó duplo e o atrito seguram as pontas. Que perigo ficar debaixo daquilo.
A fotografia é uma das coisas que eu considero mais sublime em nossa humanidade. Ela capta muitos momentos. Eu me admiro quando me pego olhando meu porta-retrato. Está lá a foto do meu amor. Eu tirei e ela me faz lembrar de todos os momentos sublimes. É bela.

18112003 - Minha cabeça passeou por muitos sonhos e isolamentos nos últimos dias. Pesou em mim a noção do que é a depressão e da inteligência incomum de Cristo. No final de dias me dei conta de que os passos que tenho dado estão indo para um horizonte feliz e de muitas bençãos. A luz se propaga em todas as direções e só interrompe sua tragetória quando encontra alguma solidez em seu caminho. Um monte de grãos de areia ou um meteorito suspenso na anti-gravidade. Me sinto muito bem comigo e com o curso das coisas. O melhor ainda está por vir e tudo conspira a favor de nós. Simples e natural. Mas as grandes ações requerem grandes pessoas. Daí surge minha dúvida sobre a inteligência. Onde ela se tornou inócua contra os efeitos do materialismo? Pois nos meus ciclos de vida pude ter contato com muitas pessoas inspiradoras que tiveram seus caminhos interromkpidos pelas tragédias humanas e pela descrença geral de seus semelhantes. A força do capitalismo, os salários recebidos sem esforço físico e a vanguarda invisível de nossos pensamentos... sinto muito quando medito ou quando estou na minha memória randômica. O silêncio enfim brota dos meus dedos e caminha por todos os meus átomos até fundir-se com o silêncio do mundo. A noite de ontem estava muito bonita. Tinha ali meu telefone, meu amor e meus sistemas insones tropicando. Vodca, não. Um pouco de televisão. Assim tive que me conformar com as visões. Fui dormir com o mesmo buraco na alma. E com alguns 40 quilos a menos.

7.11.3002 - Estou com uma sensação de mudança no ar. A calma do tempo é sinal de que as mudanças estão sendo para pior. Eu sabia, mas disse para pouca gente que isso ia acabar acontecendo. Foi uma primavera seca onde os narizes sangraram como um presságio da maldade. Onde estão os insetos? Onde está a solidão? Eu que já tive meus dias de sono hoje estou acordado pensando no café de amanhã. Naquelas pequeninas mãos que tenho esquentado... e no nascer do sol entre as libélulas. Aqui em Porto Alegre o mundo gira mais inclinado e os dias parecem não findar. O meu único desejo se esvai em meditações sobre o prazer de amar e na paciência de estar. Como tenho pouco contato com os argentinos aqui presentes me sinto apenas flutuando a altura dos olhos. As palavras cruzam meu caminho e a queimadura em meu dedo está quase toda cicatrizada. Por que tanto silêncio? Não tenho visto ninguém pelas escadarias. Vou ali sentir saudades.

27 - 10 - 2003 - Quando olho para a ponta do meu dedão vejo uma cratera e três pequenos furos de explosão. Isso poderia ser uma imagem fantástica, mas é a queimadura de primeiro grau e seus efeitos saindo do meu dedo. Saindo como um pus podre, escuro e fétido inflamando meu final de semana. Tomei um perigoso choque elétrico.
Eu lembro de estar fora de meu corpo conduzindo uma força que me paralisou quase todo. Apenas meu cérebro pedia agudamente para se soltar. Foi um momento nítido de dor e silêncio. Eu queria gritar e consegui depois de estar totalmente eletrocutado. Eu queria enxergar e consegui depois de perder a noção de espaço e tempo. Eu flutuei no branco da descarga elétrica que pulsava além de mim e acelerava meu coração. Eu quis me soltar e depois que eu pude ver que estava grudado à escada de meu sótão tive forças para vencer a contração de meus músculos. Pois eu quis acender a luz da escada e coloquei meu dedão e a mim em risco. Fui com a mesma naturalidade de sempre apertar aquele interruptor perigo. Eu sabia disso. Assim como nem tudo é perfeito e nem todos são espertos. Eu queria a luz. Eu vi a luz. Mas eu acho que aquele choque foi um excesso para minha felicidade.
Duas seqüelas: meu dedão esquerdo está queimado, dolorido, inflamou ontem depois de sete horas dirigindo. Sim, eu ainda tive que voltar de BH no Domingo. Não teve show. Mas eu tive que sentir aquela dor o tempo todo, me consumindo e minando a calma daquele dia. Meu pulso, o mesmo que me ligou à escada por muitos segundos, ficou tão dolorido que tive de imobilizar. A sensação era como se ele tivesse ficado horas em esforço físico, duro e totalmente imprestável.
Perdi o tato de muitas coisas. O choque não me fez bem. Parece um sinal de Pare ligado a mim pelos neurônios. As caras assustadas de minha mãe, de minha namorada, a paciência que meus irmãos tiveram comigo e a fuga de meu cachorro são agora motivo de reflexão. Ninguém teve tempo de me socorrer. O escuro me deu uma lição cruel e só a maciez dos meus pêlos sofreram com o incidente. Eu aprendi de novo a recomeçar. Por isso, hoje acordei com uma nova proposta.
O dia nasceu rosa e os insetos da chuva sairam todos para comemorar. Voavam em bando transformando o Tennessee em um tapete de asas refletindo o amarelo do alvorecer. Eu me vi abraçado, amado, todas as querelas se transformando em vitalidade. Se fosse como antigamente, eu acenderia um baseado. Proponho abrir mais um canal em mim de calmaria e novidade. Pois eu estou cheio de sim. Respeito o astrólogo e vou estar além do que aconteceu na semana passada. Obrigado.
Queria poder ter dito boa sorte ao meu amigo na sua retirada para o Rio. Mas não o fiz. Tenho mais razões para manter com ele silêncio do que diálogos. Muitas histórias, muito tempo de convívio. Torço por ele e por sua escolha. O caminho abre portas e só o tempo mostrará as que permanecerão abertas. Eu acho que ele fechou muitas outras antes de partir. Isso seria bom, um recomeço. Espero que, muito mais do que sucesso e fama, ele descubra qual o nome dele. Já não tenho ilusões quanto a isso. Mas eu lembro sempre de uma ex-namorada dele dizendo "enquanto vocês alimentam o monstro, eu digo para ele suavemente seu nome". Agora eu entendo o motivo dela. Não há mais gangues no Lago Norte.
Um acidente de carro, um amor doloso, uma banda. Se tive anos para influenciar e pedir hoje tenho motivos para manter a fé. Fé nos meus. Os meus estão anunciando planos. Eu não os ouço. Acho que gritei demais e agora só ouço nossos corações. Cada sigo, cada qual. Eles gritam muito mais alto do que eu. Meu irmão tem uma música onde ele diz: ficamos muito bem quando separados. Por nada, mesmo assim, obrigado". Boa sorte a todos e um bom dia.

17/10/2003 - Há uma pressão no ar. Assim como cantam os pássaros ao amanhecer vai acontecer algo com o tempo hoje. O vento gelado avisa o navegante que pesadas nuvens chegam. Talvez chegue um pouco de frio com essas nuvens. Quem sabe o meu edredon esteja bom o suficiente para dormir. Pena que ele é um edredon king size e eu sou não. Pensei em muitas coisas legais ainda cedo. Ver a filha do Prata tão cedo me pôs a questionar a natureza. Pois ela fez um cara muito preguiçoso levantar cedo pra ficar atiçando a cadela Nica. A sua ex-mulher reclamou logo cedo. Ela quer fazer alguma coisa, um agito de dia. E ele, meu amigo, só quer ficar por aí. De repente me sinto assim leve e ainda menos cheio. Completando o funil das horas. Os espaços sendo invadidos pelos nossos corpos. A energia subatômica exercendo sua forte influência no microscópico mundo dos quarks e nós lutando, assim como nossos átomos, para estarmos aqui. Um dia após o outro, como indo em busca da luz que nos levará ao paraíso. Sim, ele está aqui na Terra. Como dia e como a noite, após a rajada de vento que leva o mal para longe. Tudo ficará melhor depois do vento.
O imposto de renda é, de longe, a coisa mais devagar que já fez parte da minha vida de contribuinte. De longe...mas a gente crê, bota fé no presidente e no continuismo do plano, na melhora social e no desenvolvimento dos potenciais do Brasil, o turismo, a agricultura. Na educação que urge, urge no nascimento de cada criança. Pois a fome tem que acabar e com ela toda uma geração de nanicos... pô, se eu nunca tivesse posto meus olhos na fome e miséria de verdade. .. tendo visto melhor do que teria sonhado agora vejo que é imprescindível a mudança e a divisão igualitária dos bens. Com tanta desigualdade na distribuição do básico fica difícil começar a pensar no fim da fome. Ela é fruto do comércio. No fim da miséria. Ela é fruto da fome. Simplesmente não se aprende com os olhos voltados para caras feias de fome e de sujeira. Eu pude vivenciar isso no interior. E pior anda, no coração de minha cidade. Olhos esbugalhados, cansados e pesados. Olheiras, a boca seca pedindo água. Mas o que fazer? No final do dia é o dinheiro que vale. Que pena. Até eu me vejo as vezes preso ao dinheiro. E quem só tem isso na vida faz o que? Eu já vi a cara do desesperado. As suas lágrimas são salgadas e o tremor de sua voz, a voz do desesperado, é como uma forte pontada nos rins. Eu já senti isso também. Ao telefone meu coração foi se partindo e agora eu estou a mercê de um depósito. Tudo que eu quero é fazer a coisa certa. Vazio de todos os sentidos eu vejo melhor. Estou a mercê do melhor momento. Vou ter que me atentar a outras coisas agora.

16/10/2003 - Tem músicas que nos fazem simplesmente existir. Eu fui induzido a estar aqui, escrevendo, e só assim posso descrever mais ou menos o que está acontecendo comigo. No mundo existe uma grande energia que estica e encolhe. Essa energia se propaga nas mais diversas formas. Físicas e espirituais, de sim e de não. O que aconteceu foi uma obra de arte. Ela, a beleza que ela nutre somou com minha energia sonora e acabou por me dizer algo doce. Foi então que lembrei das palavras de minha namorada sobre a ficção que não é feita no Brasil e eu me detive a sonhar. Pois a ficção é uma obra surreal e as vezes sopra com a vida dos homens.

Dream dream dream. When I want you in my arms and all your charms Whenever i want you All i have to do is Dream. Foi ao som de alguma dessas músicas lentas que eu fui e vou muito além de mim mesmo. Pois as vezes só o toque suave de nossa pele e a leveza de nossos passos é que acusa o primeiro sinal da paixão. Ou se torna o primeiro dos primeiros dos dias mais malucos do amanhã. A quem a distância pede passagem e paga referência para seguir seu caminho selvagem e explosivo. Meus ouvidos estão quase surdos. Acho que a sujeira tomou conta deles por dentro. As vezes eu falo e ele parece funcionar de novo. I want to give you some good good loving, turn your lights down low . Um tipo de poesia grave e sentimental que até hoje me toca ardente e suave. Eu vou me lembrando de tudo, do bom e do que tive que passar para entender a calada desta noite de hoje. Muitas saudades no ar, essa música harmonizando com o silêncio da madrugada, o reggae natural e preparado como a dança lundu, eu aprendi nas palavras cruzadas algo sobre elas. Aqui é como a África e lá é pior do que aqui. Muita tristeza naqueles lábios grossos. O sorriso parece uma fotografia do infinito. Duro e negro e brilhante como o diamante mais bonito. Só o amor cuidaria bem daquela gente de marfim e ébano. Os primeiros habitantes da terra, no continente mais velho onde está a sabedoria dos antigos etíopes, egípcios, hebreus, ah quanta gente velha. O amor que existe existe a tanto tempo. Vamos somar. Eu lembro das atrocidades. Fico cheio de tanta tristeza e miséria. Daí eu tento e consigo. Eu esvazio o vaso. Quantas vezes for preciso. É o que tem alimentado minha saudade. Os dias estão cada dia mais lentos. Eu fico olhando e esvaziando as coisas com a calma necessária. Eu lembro de tudo. Vou marximizando os sentimentos. Hoje, ontem, antes de ontem. O controle sobre o que está acontecendo está brincando comigo. Nasci de um jeito que só o esquecimento poderia calar o que já nasci sabendo. Os traços marcados em minhas mãos são a prova da velhice de quem respira comigo. Seu eu fosse apenas eu seria fácil. O amor está presente. Desde que eu nasci eu sinto isso. Hoje, da maneira como tudo parece diluir e voar fico a espiar o amor que brota de tudo e em todos. Há na incapacidade da palavra o gesto intuitivo de ajudar o próximo. O amor se propaga de maneira misteriosa. Assim, tenho certeza de que até quando estou a xingar os céus o amor está comigo. Fecho os olhos. Ouço o soar das horas e it's all right, here comes the sun!

No aeroporto eu consigo muitas vezes avaliar com paciência os meus pensamentos. Na verdade, quando eu olho as pessoas que estão ao meu lado no aeroporto eu tenho a impressão de que eles estão a fazer o mesmo do que eu. É uma coluna de avaliações pessoais. Muitas caras fechadas, olhos fechados. Olheiras e maquiagem. Tudo falso e parecendo de cera. É a cara do aeroporto.
Ela apareceu toda maquiada. Morena dos olhos amarelados pronta pra não sair. O taxi é realmente muito caro aqui em São Paulo. E todo mundo está precisando entregar algum dinheiro para alguém por aqui. Mesmo que ela seja uma brasiliense muito da braba. Ela é mãe da filha de um amigo meu.

A janela entreaberta deixava entrar os primeiros raios da manhã. Meus olhos ainda não estavam abertos e eu apenas sentia aquele calafrio da manhã e o suspiro ao meu lado, roco. Suspiro de Jafah, meu fantasma preferido. Uma entidade perdida nos anos e que agora zomba da minha sanidade aparecendo de dia, aos olhos de todos e sempre querendo se fazer notado. Jafah, por favor, me dê uma trégua hoje. O sol está cada vez mais alto e eu tenho que trabalhar. Ao abrir os olhos, não vejo o velho fantasma. Vejo uma silhueta pesada suspirando, roncando ao meu lado. A luz do dia ilumina apenas aquelas costas meio feias. Ao meu lado? Quem seria? É um sonho. Eu fecho meus olhos de novo. Sinto Jafah, estou ao lado de Faye Dunaway e meu coração está pulsando nervoso. Quem sou eu? O dia e o sol agora tomam conta de meu quarto e não há mais opção a não ser acordar de vez e encarar a verdade. Olho, abro os olhos e avisto aquele corpo pesado. É de uma mulher. A vida vai tomando conta daquela pessoa. O sangue vai deixando seu rastro nas veias de suas pernas grossas. Meus dedos tremem de nervoso e eu não tenho palavras para dizer. O grito que grita em minha cabeça amortece a tensão daquele momento. Quem será esta mulher? Qual a cara dela? Os cabelos negros vão caindo em sua face, vejo apenas o nariz pontudo apontando o teto. Meu Deus, que belos seios. Ela vai virar.
Quando olhei meu amante, juro que quase chorei. Ele tinha aquele brilho de criança no olhar. Estava completamente aterrozido com alguma coisa. Eu sorri, tirei os cabelos da cara. Acho que estou horrível. O dia já começou para muita gente mas eu acho que não para mim. Pare! Que graça de homem. Vou ao banheiro. Ao me olhar no espelho vi uma mulher decidida. Forte, de dentes fortes e de uma pele maravilhosa. Meus seios, que maravilhosos. Meu cabelo é negro e de fios fortes. Acho que meu único defeito são os pés... deixa eles em paz. Estou aqui, feliz e plena. Que homem é este ao meu lado? Ontem ele parecia um Deus. Hoje ele parece um menino de pau duro. O que a bebida nos fez? Eu me importo? ahahaahha, estou em casa então deve ser natural que ele esteja sofrendo. Eu gosto disso.

14/10/2003 - A filmadora está ligada a dias. Mas a coragem para traduzir, em partes, o que estou vendo só tomou conta de mim hoje. Por que? Através da saudade que estou sentindo e do amor, todo o amor em jogo do mundo, perdi a vontade de estar onde estou. Mas hoje acordei com um sonho a caminho. Acordei pensando em minha namorada e na calma que estou sentindo. Apenas depois do primeiro suspiro eu pude filmar um pouco. Ontem, porém, presenciei algo especial.
Estou no litoral de Santa Catarina, Itapema, uns 70Km ao norte de Florianópolis. Perto daqui ficam as praias de Balneário Camburiú, Itajaí e de Porto Belo, Meia Praia e Bombas e Bombinhas. Uma tranquilidade de vida aqui não exalta nada. É o barulho do vento que tira o silêncio e o iodo do mar oxidando o ar. O sol arde aos olhos e o vento suaviza sua força. Resolvi que tudo isso pedia uma visão ampla e veloz de onde estou. Resolvi comprar uma bicicleta e olhar o Balneário. Aqui ao lado de minha pousada tem uma bicicletaria muito modesta. Nela tudo é muito mais barato porque tudo é feito no Brasil e fabricado no Paraná, estado tão próximo que arde de lembrar. Pedi uma bicicleta que eu tinha em mente a tempos, uma daquelas dos surfistas antigos de cano côncavo e pneus slick. Com guidão de moto e rodas e aros negros. Estilo, como dizia o catarina bicicleteiro, puxando o sotaque dos Açores. Ele me contava sobre a economia da cidade enquanto seu ajudante, de Ponta Grossa e não passando dos 16 anos, ia raiando os aros negros que eu tinha trocado da bicicleta muito careta que eu ia transformar. Transformar em uma bike Estilo. O efeito daquele moleque trabalhando, raiando os aros deveria ter sido filmado tamanha a facilidade com que ele colocava os arames e ia apertando as juntas com uma máquina de apertar. Tudo muito moderno e ao mesmo tempo artesanal. Eu me detive a olhar e tenho aqui nítida a lembrança daquele momento. E a lembrança de minha namorada. E aqui minha mãe poderia morar, em Itapema. Tem uma ótima livraria por aqui.

30/09/2003 - Acordei com aquela mancha preta sobre minhas ideias, com a cabeca cheia de saudades e visualizando uma linha do tempo que agora esta me dando calafrios. Estou esperando, espero para ouvir meu nome ao telefone. Assim, o medo mais uma vez pousou ao meu lado e eu so sei disso porque estou em Curitiba e alguma coisa aconteceu no Domingo la em Sao Paulo para eu me sentir assim. Desolado na mais hospitalar familia que meus amigos podiam ter.
Domingo foi um dia dificil, tudo estava envolto nas lembrancas do dia anterior, na viagem que fizemos calados. Calados pela vergonha e pelo sucesso. O antagonismo latente de todo o Domingo era a vontade de rir. Rir para mais uma vez nao chorar. No dia anterior meu personagem favorito apenas falou de manha. De tarde sucumbiu ao silencio para depois provar que nossos sentimentos devem nos ajudar a crescer e enfrentar nossos medos. O samurai esta lutando, mas de olhos vedados.
Um golpe apenas. O ataque mortal, a brisa da lamina que corta a carne do inimigo. O suspiro, a honra e depois a morte lenta. Por que a solidao? Foi o pressentimento da vitoria, diria o samurai, que levou seu adversario a morte. Apenas um golpe eh necessario para ferir a carne humana.
Eh muito complicado falar sobre o mesmo assunto repetidas vezes. E fazer isso para as mesmas pessoas, as mesmas orelhas de todos os dias, eh outra tarefa desgastante. Acabou a paciencia. O dia e a noite, o Ceu e a Terra. Estas forcas que nos geram e nos assustam pregam pecas e nos ensinam todos os dias a acreditar que as boas acoes sao o diferencial entre o corajoso e o covarde.
As muitas responsabilidades que nos delegam no dia-a-dia exalam sempre o cheiro da preguica e da ordem. Cada vez que nos delegam ordens que ferem nossa estima pensamos no que estamos fazendo da vida e para onde iremos com nossas decisoes. As decisoes nos levam a experimentar o gosto pelo poder e determinam a nossa obstinacao sobre o como, quem e quando. E quanto custa tambem.
Meu velho samurai escreveu sobre os aneis, o relevo, o tempo e o espaco e sobre a energia vital que acompanha o iluminado. A disposicao e fe nos homens e a vitalidade da espada guiam o espirito do guerreiro em busca de paz e silencio. Nas linhas que cortam o ar, no barulho das folhas cantando as palavras do vento e na gota de suor que aparece na testa depois do unico golpe desferido pela mao do samurai esta a forca vital.

Acordei com aquela sombra em cima de todos nos e pude supor apenas uma coisa: preciso voltar pra casa. Preciso muito.

26-09-2003 - Assim me lembro de ontem. Eu lia o seu primeiro texto original para mim. O seu coração aberto e sangrando diante de meus olhos. A vista da redoma de ouro que nos separa do mundo podre e sujo é fardada como um capitalista. Quase pude sentir o gosto de suas lágrimas em meus lábios, eu que já não mais sentia o gosto de mel. Sua emoção e seu espírito me fascinam. E eu ouço com atenção ao seu chamado especial. Eu que já me senti assim tão leve e capaz de voar. Me misturar ao éter das coisas. E eu senti quando foi a primeira vez que abri os olhos para este novo mundo. Os planos, as asas e os eixos. As curvas e cada tesourada que damos ao sair de casa atestam nosso destino. Sim, eu tenho lido meu horóscopo desde antes de te ver. Assim continuei a ver o que não via. Ouvindo sua respiração ao telefone eu queria estar mais perto de você. Meus dentes doem ainda mas isso não faz a menor diferença. O que importa é a visão.

Pode parecer tolo. Besta ou bocó. Mas eu tenho pensado profundamente sobre como a respiração afeta minha vida de um modo geral. No caso, hoje eu quase senti um alívio enorme de uma dor de cabeça apenas respirando como um yôge, assim como eu pude aprender a uns anos atrás. Nunca tinha me dado conta da reação a dor que meu corpo vem tendo. A minha respiração enfraquece a ponto de parecer que eu não estou vivo. Hoje fiz o oposto como prova de que é preciso canalizar algo no ar que entrará curando e sairá contaminando. Quem nos purificaria de nós mesmo? A dor de cabeça quase acabou, persistiu aquela fadiga do corpo que está dolorido e cansado apenas para me sentir pesado e preguiçoso. O que eliminei de mim foi o mal-estar que eu estava sentindo apenas me concentrando em algo que fosse me curar da enxaqueca. As vezes eu mentalizava algo material, depois comecei a usar apenas a luz para representar a minha energia no todo. Um sistema próprio ou autodidata de me sentir bem e em equilíbrio com o que há a minha volta. Minha dor de cabeça é como muitas. E deve se perpetuar como todas enquanto persistem a nos incomodar ou nos alertar.

As visualizações do que atinge a natureza humana é um tema que me fascina.

O manifesto do segundo Harakiri

"Pare de me importunar com chagas de sua cabeça. Eu não tenho mais tempo para servir a mim, quanto mais servir a própria vida."
E abre-se o caminho da lâmina em sua veia, jovem samurai. Morto pela mesma lâmina que matou seu pai e avô. Morto pela mesma honra. O destino nos guia a passos distintos todos os dias. Respirando até que a morte nos leve. Abra os olhos e respire o ar da manhã. Ele é pesado e nutre os primeiros e últimos instantes da vida.

O manifesto do primeiro Harakiri - 23.09.2003

Assim como o verao tem seus dias abafados, surge no primeiro dia da primavera, neste dia de hoje, um grande sentimento de responsabilidade. O ar ja nao eh mais tao leve; fica pesando com nossos pensamentos matutinos e nos debitos bancarios do dia anterior. Temo que muita gente tenha que se matar hoje por falta de opcao. No melhor estilo samurai de ser. O harakiri.
Um corte sutil na jugular, veia que sobe o lado esquerdo de nosso pescoco. A veia que explode o sangue que percorre o nosso cerebro.
A onisciência de um suicida deve ser algo como atear fogo a própria roupa. Ou então pagar pelos pecados dos outros. De todo mundo mesmo. No desesperado que foge de sua cidade por achar que lá não está o seu caminho. E o caminho que nos leva a boa vida e a bondade é muito árduo e exige demais de nós. Exige de nós disciplina e uma sabedoria estranha. Por isso há o suicídio. Por meio da lâmina. Mas o primeiro Harakiri é mental. Vem com a desesperança, o desapego e com a falta de amor e responsabilidade. Com o que? Julgo não achar apropriado generalizar. Porque pode estar em todas as coisas e nos menores motivos. Uma união, uma célula de acertos e erros. Um punhado de ofensas. Um luxo intelectual daqueles que me ferem o coração.
E eu não posso segurar a mão de quem se fere. E isso já me doeu muito. Hoje, apenas me choca. O Harakiri é o meio de deixar de ver o inesperado e a natureza das coincidências.
Talvez a morte mande um pequeno símbilo, um suspiro do vento ou o primeiro brilho do luar. Apenas o último pedido antes da morte. Não existiram palavras a serem ditas. Apenas o silêncio e o medo apareceram nas faces dos vivos.
Os sábios e guerreiros entendem a tradição. Ela é uma linguagem sobre o fracasso da honra. Da perdição da alma. Da fuga da luz. A ordem serve para estabelecer limites aos fracos. Os bons e os fortes existem sem ordens. O limite é o amor a vida. Ao desapego com o amanhã de manhã.

Ao imaginar como se dissipa a fumaca no espaco, se misturando com a luz do sol que entra pela janela e a todos os gases que compoem o ar de Sao Paulo, me desculpe os acentos, tudo parece tao mistico e simbolico. Meu amor simplesmente exercita meu corpo e ajusta minhas saudades. Vou estar aqui a compor mais uma visao do que simplesmente me equilibra na solidao.

Sinto-me incapaz de dizer tudo aquilo que venho sentindo. Apenas minha namorada sabe como realmente me sinto. E as vezes, disfarcado pela saudade, eu quase sinto a presenca dela ao meu lado. No meu sono, eu tomo a forma de seu corpo pequeno e deslizo seus cabelos, ou os meus, para o lado que nao nos incomodaria. Eh dificil dormir assim. Eu durmo porque estou tranquilo e em paz com a vida. Justica a minha e a toda rejeicao a que submeti minha alma por esses anos.

E eu sinto saudades...

15-09-2003 ->Sempre vi e conheci gente muito esperta. Meu Deus, quanta gente esperta me brinda com sabedoria e luz. Quando e depois de acordar o dia começou e eu me vi sozinho na cama, a tristeza do até amanhã. Hoje eu me sinto quase nu.

18-08-2003 - A tosse me consome a cada minuto. Eu vejo o dia passando no relógio, cada minuto passando lentamente aos meus olhos. Estou em busca de um sinal evidente. Um sinal de coragem e um sinal de partida. A luz das cinzas de um cigarro batem em meu peito. O barulho quase imperceptível de uma furadeira, intermitente furando uma nova parede, de um novo edifício, de uns anos que me consomem o sono. Um ano e meio depois eu vejo o meu presente como uma jóia. Caí dentro de meu casulo por um momento. estive quase doendo de dor de doente de medo. Quanto tempo se passou. Foi florecendo no meio deste amor que eu pude sentir de novo uma tranquilidade enorme na vida. Não ter que fugir nem ir embora apressado. Peguei minhas malas e abri, deixei tudo que tinha dentro delas sumir com minhas preocupações e tristezas. Eu via meu novo caminho abrir-se de felicidade para mim quando voltei pra casa. Uma certeza de que o peso de muitos anos de trabalho e dedicação iriam sair de mim por completo. E ele, o peso, se foi. Fiquei muitos dias pensando no que havia acontecido, mudado, para melhor em mim. Saí daquele franjudo magrelo das pernas tortas de 12 anos ferido pela infância de ilusões perdidas para um moleque de 16 anos altamente endividado com a vida e com as palavras, um início de boa vida, para um homem de 21 anos dominado pelo medo e pela perda, para um novo ser de 23 anos que reviu a chance de trilhar o que sonhou. Nenhuma vez senti que o mal pudesse ganhar do bem. Até quando me vi sozinho perdido em hotéis baratos não senti tanto a solidão quanto ao olhar sob os telhados vanguardistas de São Paulo, os aviões que passam pela minha casa todos os dias me incomodam. A poeira, tanta sujeira já não maltrata mais meus olhos, daqui a pouco lavo-os com colírio. Tomarei água pura da bica e lerei mais um livro. Estou pensando a 1000Km/h, estou fotografando alguns lapsos de minha memória por causa disso. Eu queria poder radiografar algo como o instante que eu vi meu primeiro seio, ou que eu penetrei uma vagina. Ou melhor, o instante em que eu nasci. Não tenho memória de japonês. Nem a tecnologia embutida em meus neurônios. Eu tive e tenho tido espasmos elétricos enquanto penso em algo relevante. Como se fosse um alerta, um alarme de prossiga se puder... tome um choque se aguentar. Nada dolorido, nada que não valha a pena de sentir. O distúrbio da sociabilização, o momento de recuar e pedir um tempo para refletir. Calar-se pela inaptidão. Não comprar aquela briga inútil que mais toma do que doa. Doar é dar aquilo sem esperar nada em troca. Um mana de emoções caóticas sobre amor, posse e direito. A natureza que pede silêncio quando vê o perigo. Um parênteses - quando eu falo com minha namorada sempre me ocorre um pensamento que perco por não poder anotá-lo... aqui fica um deles - intuição.... tipo esse lance de sociabilizar. melhor do que ler no horóscopo é ficar se dando conta de que esses sentimentos alertas estão agindo na hora certa... é como pulsar com tudo... só que me causa certo mau estar... um enjôo por estar ligado demais... talvez por isso eu esteja tão maconheiro - e final de parênteses. Na melhor fase possível do não saber eu prefiro ficar com você.

Hoje eu acordei cheio de certezas, de um sono profundo de 3 dias seguidos. O frio me reprime. No entanto, esclarece que no meio está o princípio e o final do caos. Tive sonhos pesados, muitos deles eu apenas esqueci. Outros fui agraciado com a memória e pude digerí-los depois que eu acordei. Muito fumo, muito sono. Muitos filmes ruins na televisão. Uma porção de decepções e de falta de respeito para com tudo. As contas de casa arrasadoras. Os deslizes na madrugada, as festas repentinas que nunca levam à nada... apenas meu sono indo em vão para o infinito. O acúmulo de gente nova, aquela rotatividade de rostos calados e caídos no esquecimento da noite. Estou ao redor de muita gente assim, que anada com os meus e estão o tempo todo aqui em minha casa. O que eu fiz? Me deitei no sofá como forma de protesto e até hoje de manhã eu ainda estava lá. Protegendo. Não sei bem quem eu tenho visto. Mas sou forçado a acreditar que todo mundo é bom e só está aqui por bem. Na teoria de Caim, só os convidados aproveitam a festa de verdade. Estou meio confuso com isso.
Meu período de isolamento não está restrito ao silêncio das manhãs que as vezes tenho o prazer de curtir. Está na maneira como me omito nos assuntos caseiros e deixo de lado o profissional, meu trabalho, para descansar a cabeça deste quebra-cabeça gigante que foi a minha volta pra casa. No mundo girando, eu estive quase parado. E se eu pude fazer isso é causa direta do amor e da paciência que o tempo trás aos nossos corações.

É preciso mudar. Está na corrupção dos valores óbvios, na fome e na necessidade a minha indignação. Está no dia-a-dia dos pobres e ricos que sobem as ladeiras da Pompéia, no dinheiro gasto no luxo e deixado de lado a sanidade do sol e do trabalho. Meus olhos enxergam toda forma de luz. As imagens opacas que me cercam são os cadáveres dos bares que estão sendo frequentados pelos meus amigos. Eu diria que sim. Eu espero que sim. Um dia eu acordei com eles todos infelizes por mim. Por eu não estar nesta festa bizarra de malas e playboys e trabalhadores equivocados da noite. Meu fôlego acabou. Estou buscando sempre estar no caminho da luz. E os astros me indicando as sombras e eu estou desviando delas.
E está na atenção uma virtude a mais. Olho, ouço, sinto. Um som. Um silêncio... o vento, os passos sóbrios do meio dia. Sim.

13/08/2003 - Radiografia de Adane B.

Acordei hoje com um pouco de ciúmes de B. Ele teve uma noite difícil, o tempo todo agoniado com o resfriado, aquele zumbido que aparece depois de tanto fungar, fungar o ar frio de São Paulo. O remédio, o remédio fê-lo dormir até quase sarar. Depois, perdi-o de visto. B. estava pensando no amor e na saudade e não tenho mais intimidade com esse tipo de sentimento; o mesmo que me levou ao inferno, e se repito isso é porque sofri e ainda sofro, se bem que sofrerei ainda mais, o que chamo de descaso.
Uma talagada de anti-respingo de solda, aquela moleza da gripe, os ossos não suportando o peso da carne, dos orgãos, do que pensamos. Aquela fome que consome suas últimas forças, encosta-se no estômago e depois gruda-se nas costas. O dia inteiro ensolarado e a sombra lembra o frio que nos aguardará hoje. B. não se sentindo muito bem acabou de sair para comer. Eu tentei ouví-lo conversar, não consegui ouvir. Na casa dele todos ouvem música alto. Os sons poluem os meus pensamentos. Aquilo que está corroendo minha pele é o tempo, a leitura e a lembrança de tempos antigos, dos alucinógenos que tomei anos atrás. Me sinto cheio de químicos. Não me poupei nem um pouco. E talvez seja por isso que me aproximei de B. Um homem cheio de certezas, cheio daquele olhar perdido, daquele sorriso no canto da boca. Quando B. ficava mais comigo eu entendia. Hoje eu sinto que só conheci seu lado B. O que há de bom nele está sendo visto apenas por quem o aceita como ele é. Eu não sou uma dessas pessoas. Eu acredito que B. tem um caminho que irá iluminar o meu e os dos perdidos pela vida. Ele anda, eu sigo. Assim como poucos entendem sua afeição à dor também poucos entenderiam sua devoção ao silêncio de hoje. Muito pouco tenho sentido suas palavras. O som alto persiste, esse Bob Dylan que me diz para seguir meu caminho. . .

Um passeio longo pela saudade. Eu tive um sonho com você. Eu me sentia aquecido com todo aquele carinho e meu sono foi ficando cada vez mais pesado. Minhas pálpebras fechavam-se com sua imagem ao fundo, suas costas me afagando o peito e o frio ia indo para bem longe da gente. Ouvi um barulho de porta, pé ante pé entrando em minha sala. Quem me acordaria daquele sonho? Quem ousaria me tirar daquele sono saudável? Ninguém. Assim como acordei vivo desse sonho, me pus a lembrar do que havia esquecido, de telefonar para dizer Boa Noite as 21:30h (eram 3:30h aquela altura). Acendi um beck, dei umas talagadas servidas, virei os olhos e me pus a buscar o caminho de minha cama. O sono, enfim, o sono me disse sim.

12.08.2003 - Radiografia de Adane B.

No limite deste almoço a fome vai consumindo-se em suco gástrico e baforadas de cigarros baratos. Meu dia começou observando a volta de carro de B. Ele, tendo seguido para o oeste paulista, deve ter ido visitar sua avó. Lá é um de seus lugares sagrados. Talvez seja por isso que eu nunca sinta vontade de acompanhá-lo até lá. As vezes seu pensamento me deixa ver pela janela de sua alma. As vezes eu sinto o aroma do café adocicado de sua avó, ouço as muitas palavras das tias sobre moda, cigarros, dinheiro, muitos pedidos e também sinto a paz do silêncio que as vezes rola por lá. B. tem muito cuidado com a avó, quando pensa nela sempre deixa escapar um sorriso.

O que, a alergia que me pousa é toda a poeira do universo. Eu sinto meu nariz totalmente congestionado, a garganta está tão seca quanto aguento. Um copo, dois copos seguidos de água e nada adianta. O ar está todo sujo e sujando as casas e os novos prédios da Pompéia. E eu aqui respirando esse mesmo ar viciado. Hoje é um daqueles dias em que não se deve sair de casa. Estou respeitando o sol e as nuvens. Ontem a noite elas voavam rápido por cima de meu telhado, a lua cheia brilhando ao longe e iluminando o alto daquelas velozes nuvens que rumavam sul, sul invernal. O escorrimento nasal, a assadura que ela proporciona. Mesmo os lenços finos não impedem que o atrito corroa nossa carne na gripe e no resfriado. Eu me sinto assim. Em um dia seco de inverno. Me ligue, me chame que eu vou. Ou venha. Hoje a poeira sumirá. Pelo menos do meu assoalho, da minha casa. Nem toda a poluição poderá afetar a limpeza que está rolando hoje. Nem a ginástica que acabo de recusar poderia afetar a paz que está por chegar. Estou resfriado, com a alergia epidêmica de São Paulo. Uma crise que dura 20 dias alojada em nossa carne. Meu amigo sofreu algo mais doloroso. A gripe que paralisa. A gripe que dele tem tirado o direito de fumar e lhe deu as lágrimas de alguns amigos. A gripe que pede socorro em seu cerebelo. Grite, eu adivinhei que toda gripe tem seu lado benigno. A gripe de meu amigo é daquelas que nos coloca pensativos. Sim, vulneráveis a todo tipo de intimidade, o mesmo ar que está pesando aqui e em Brasília. Menos aquele ar condicionado fungus totalis que persiste em estar ligado contaminando bebês e idosos. O ar da U.T.I. deve estar pesado. No direito de quem furou a fila dos mais pacientes, das lágrimas que deveriam ser suprimidas. A esperança deve um favor aos que esperam na fila. Na elegância do silêncio de quem sabe esperar vibrou a mesma energia que levou meu amigo de uma sala a seu quarto particular, com direito a visitas infinitas e a privacidade que um ser dolorido merece. Seus olhos, o sedativo que impedia-nos de falar algo efetivo apenas me trouxe à memória o sentimento de estar. Estar e ceder e doar. Esperar o melhor sempre é possível. Morte é uma espécie de energia volátil e geradora de si. Aproveitemos a queda, quanto maior será a subida depois do sufoco, da insuficiência de ar. Gripe, meus amigos. A alergia está passando de verdade?

...10...08...2003 - Estou pisando nos meus ovos de novo. E na minha casa sinto aquela saudade de tudo o que eu estava vivendo de tudo um tudo de novo. Um novo dia. O sargento do dia, uma fresta ensolarada entre os edifícios, o vento que apita na sua janela. É mais uma viagem pela minha imaginação. Um velho livro de guerra que abro todos os dias. Cada capítulo pode e deve ser lido tanto quanto assimilado. Quantas cabeças se corta nos sonhos? Um único golpe antecipa a adrenalina. É o TAO guiando a lâmina. O suor que transpiramos após a luta deve ser frio. O calor queima nossa alma e tende a nos cegar. O vento, a lágrima de suor escorrendo, o sol queimando as folhas secas. Os livros de verdade. O que há por trás do que amamos? O nascer do sol dá a vida aquilo que a noite ceifa devagar.

Radiografia de Adane B.

Conheci o meu amigo B. andando por São Paulo. Eu já tinho tido perdido tudo, minha integridade e moral. Comigo tudo estava péssimo. Daí, depois de sair de uma igreja eu vi B. entrando em uma loja de vinis. Não fui falar com ele de imediato. Mas fiquei com a imagem dele na cabeça. Hoje eu o vi de novo. Ele estava mais leve. Parecia ter colocado seu sono em dia, seus cabelos brilhavam neste dia nublado. Acabara de chegar de viagem, sempre trabalhando pelo que eu saiba. B. tem estado muito ocupado com ele mesmo, ouvi dizer. Por dentro e por fora. Eu? Eu estou meio cansado das coisas. Da metafísica. Das guerras que deflagrei com o mundo. Ver e ter com o diabo me fez enxergar de novo o amor. Perdi algo que amava. É tudo o que eu lembro. Porque ele me tirou a memória de tudo. menos de B. E eu agora vivo pensando nele e na sua sorte. O cara tem uma família boa e vive sempre rodeado de boa gente. Quem dera eu pudesse sê-lo um dia. Menos. Não gostaria de lhe rogar uma praga. Acho que a lealdade nos uniu desde aquele dia, o primeiro de todos os outros. Até hoje eu observo B. Ele estava longe de todos e perto de ti. Assim como ele deve estar pensando nela agora mesmo. Eu digo, sinto falta da minha querida. Ela queima no fogo do inferno, culpa daquele carro e de mim. Eu a quis e apostei o corpo no abismo de Satanás. B. me ajude. Você não sabe, mas trilhou este caminho direitinho. Os olhos viram, o céu dá aquela pequena pausa para você e para ela. Tudo é nosso.

É preciso mudar. É preciso enxergar além do que esconde a poeira seca refletida pelo sol. Aquele azul do céu já não é mais o mesmo. Não é mais o mesmo desde que eu passei a ver melhor o meu amanhã.

O Tao Espera com Certeza

19...07...2003 - E é com aquela saudade encrustada na cabeça, adormecido pela saudade e pelo meu dia perdido. Era um Sábado que pedia para não começar. Mas algo dizia sim, sempre que posso ouço sim. E eu despertei. Olhei meu irmão inerte no sofá ao lado, busquei o relógio do vídeio-cassete. Era cedo para ir viajar. Tinha tempo para me acostumar. Com a claridade do dia, com a televisão ligada em algum canal.
Depois dirigi até o aeroporto. Minha mãe e Vitor foram comigo, todos conversamos sobre como as nossas atitudes mudam, e mudam, nosso ambiente. A preguiça de uns é a mazela dos meus. Falamos como sempre fazemos, atentos ao deslize do carro nas curvas ou no azul do céu. Sair do Lago Norte de manhã, dirigindo aquela subida suave do início do eixo norte, os gramados esverdeados e as árvores do cerrado, os baixos prédios. O céu é tão azul que sorri. As nuvens brumosas flutuam com a leveza atômica.
No aeroporto abri meu Contraponto, do Huxley. Talvez eu seja um dos últimos dos meus que ainda não tenha lido este livro. Estou lendo devagar, com a paciência de vassalo, de samurai. Lendo sobre o amor. E eu divagando sobre o amor. Conversei sobre o amor de verdade e de mentira. Sobre ele digo, acho que amor que não é de verdade deve ter outro nome, assim como um Picasso não é um Monet, e ambos são fruto do mesmo sentimento.
A leitura acabou me levando longe de mim, no avião eu sentia frio e sentia a fome de 3 dias mal alimentados. Sofro, até agora, de fome porque abro mão de muita coisa por outras melhores. Fico entre o sexual e meus jejuns. Talvez porque eu tenha adquirido o hábito de comer pouco nessas viagens. E como estou muito envolvido com ambos acabou que me adoeci. Acho que foi uma intoxicação alimentar. Mas eu me sinto doente tem tempo. Como se fosse algo me corroendo aos poucos e doendo aqui, ali. Sumindo e reaparecendo. De tudo, eu tenho que me cuidar agora. Tenho mesmo. Devo.
Parei um pouco a leitura e me ocorreu pensar em algo que eu li. Pensei sobre elegância porque tinha lido em uma Playboy sua entrevista. E nela estava um repórter sendo levado como em uma dança onde a mulher quase amolece nos braços do homem, como um forró arrastado ou um tango. Saiu do óbvio, daquelas perguntas fúteis para a elegância do povo brasileiro. A decepção de Paulinho da Viola sobre a perda de nossa elegância. E eu tive que concordar com ele, assim como tive que dar a mesma bronca duas vezes no mesmo dia sobre jogar cigarro pela janela do carro, na secura de Julho. Em duas pessoas no mesmo ponto da terceira ponte Juscelino Kubitschek (errrr..). Eu lia e sentia prazer em como a entrevista ia sendo conduzida pelo samba e não pelo sexo. Uma puta crítica a todos nós, em nosso íntimo elegantes mas perdidos na malandragem. Ele critica quem fura fila ou deixa de pagar uma entrada de show assim como a corrupção industrial ou ao governo. Digo: o povo não abre mais a porta nem diz uma saudação agradável. E nem respeita o silêncio(as vezes estamos emburrados ou mal humorados).
Desembarque relâmpago, taxi, Pompéia. Antes, pego meu próximo bilhete, de volta, e busco um taxi. Um senhor baixo, bem bronzeado de cabelos e bigode branco logo me alcança e diz que tem um taxi. Sigo-o, tenho pressa. Mas tenho aquela sensação de elegância no ar. O dia está bonito, quente. Vamos pra casa.

...11...07...2003 -> Eu aceito a vida. Eu me deitei, pensei nos Budas adormecidos da Tailândia e na face serena e suave, seus traços de ouro e o sorriso. Tento sorrir depois de pensar no que me ocorreu. Acho que tive um período meio balançado, conturbado com os astros. Muitas mudanças recentes, dolorosas e amorosas, a briga que meu corpo está tendo com minha cabeça, o sentimento de saudade e saúde que me dividem... o mais e o menos, o ciclo de uma ignorância sublime no anonimato de nossa cabeça. A confusão que descrevo tem a ver com a distância da luz. Daquele pequeno ponto que visualizamos ante a meditação de nosso éter. Sim, eu me vi dentro do casulo. Me vi perdido e perdendo a esperança. Meu Deus, eu detive o que buscava por pouco e por pouco sofri o que achava ser a minha perdição. Pedi forças para ir ao trabalho e encontrei um grande vazio. E entendi. Entendi mais uma vez o caminho. E de tanta solidão, de novo, pude começar a ler sobre ela no Contraponto e dormir ao cair da noite no avião.
Sinto que devo umas palavras jovens... me sinto compelido a dizer que estou no auge de um turbilhão de idéias sujas. NOvidades de mim. Para ti. ->

Não vi seu mundo do avesso. Não pude participar da dor que vens sentindo. Meu amigo, eu não precisei te ver duas vezes para sentir seu pranto baixo, quase calado, por trás daquele gole, mais um gole amargo daquele copo, daquele dia em que nada parece sóbrio. Se te pego pela mão, prossigo, te diria siga em frente, desdobre o espaço sombrio de sua alma pelo corrimão de sua alma. Mas vejo que busca uma visão mais aguda, onde não há lugar para muitos olhos espiarem. A visão do vidro, da fina camada, leve poeira de areia que é o sim e o não que fazem parte do eu aceito. Sim, eu já deixei de comer e de amar e agora estou deixando muito mais de lado. Estou abandonando um eu que eu criei para viver melhor comigo. Sim, vc pode estar querendo deixar de ser você. Só por um tempo. E sim, isso é crível. I believe.
Acontece que a vida deixou em mim marcas, eu sinto que a doença do mundo está em mim, o câncer, o SARS, a AIDS, a fome e a miséria. Li que Gandhi conteve a total abertura da Índia apenas rogando sua morte aos líderes de seu povo. Líderes daquela pobreza. Da minha pobreza. Hoje ouvi na T.V, R.E.M, quando vc acha que teve muito demais da vida.... eu precisei abrir meus olhos de novo pra muitas coisas. Não estou satisfeito, não tenho pensado muito. Virei aquele animal que gosta do que tem nas mãos. Revi amigos muito antigos cheios de uma sabedoria que me satisfaz. Eles, eu, nós buscando viver uma vida melhor. E nossos encontros são sempre emocionantes e honestos... mesmo os mais calados buscam seu lugar no espaço. Mesmo os bêbados e cocainômanos, mesmo os que querem brigar como cães ou apenas não enxergam mais os átomos em movimento, urgindo pelo metal. Pare, pense. respire. Olhe ao longe, me diga. Eu sinto que expando e retraio.... ouço uma velha melodia no rádio. O que vc ouve? O que vc sente?
Devo admitir que um receio enorme de estar morrendo ronda a todos nós. Sinto isso toda vez que vôo de avião. Vejo isso nos olhos de muita gente no mesmo avião. Eu sigo um conselho de meu pai. Eu penso em um círculo de fogo, uma proteção espiritual que ronde a mim, e no caso, se estou no avião, que ronde e proteja a todos nós. E respiro como a aeronave, sinto o ar condicionado, a tensão dos passageiros massageando meu ar e espero a decolagem acreditando por todos nós que aquilo vai dar certo. E enquanto escrevo sinto um imã sobre mim. Será a mão pesada da verdade? Obrigado!

A vida nos surpreende com o que vemos em casa. Uns pedras, outros água. Eu vi a transmutação, eu chorei quando ouvi a música do Vitor no Domingo, eu nos braços dela e senti que tudo estava no lugar. Eu e os meus, os meus indo pra casa ouvir a sabedoria que antevi. O desejo de estar vivendo em família cresceu em mim. Agradeço a minha mama. Ela sempre acreditou nos dela. A mãe do Guri faz o mesmo o tempo todo, a do Bicudo faz também, só que fuma demais (ya kna it, bro) mas sua irmã lhes trará paz. I believe. Je pense que Ric está buscando o caminho nas louras erradas, no embrulho que nos condena a perder a cabeça. Busque, o todo fará o resto.

...28...06...2003 - Eu aqui sonhando com os saris malaios, as vestimentas cruas da Índia, com a minha próxima encarnação. Com meu destino boêmio e a minha alegria em ter encontrado tudo aquilo que persegui até agora. Minha insatisfação só me trás as boas novas. Um acidente de carro, a finalização de um disco cheio de mistérios. Os sons se confundem com a batida do meu coração em disritmia. Estou saindo de mim com o balanço do dia. Das minhas emoções. Estou descontrolado com o que sinto quando estou ocioso. Depois de tanto pensar, daquilo que não me alembro mais depois de cantar muitas melodias, velhas melodias de um cancioneiro emocionado, negro e chorão. Meu amigo, eu sempre sorrindo e eles chorando nas favelas da Jamaica. Fico revoltado quando penso que, aqui divido, dividindo meu tempo e meu coração, tenho que escolher qual a minha parte no todo do que estou realizando. Um disco de músicas que eu assino, sinto tê-las tocado porque agora sou eu para sempre ali, registrado. Um mix processado, saturado, com delay distorcido. A alma suando, soltando éter pelo estúdio e eu aqui me ouvindo teclar ao silêncio da fita... os ruídos do ar condicionado e os gritos de sucesso... quero ir pra casa logo logo me achar em casa.

...27...06...2003 - Tem gente que acha que me conhece. Ou finge que me conhece de um jeito. De um jeito que só os puxa-sacos entenderiam. Abro meus olhos e vejo o branco da parede, minha cabeça pensa mil coisas e meu coração sente algo magnético que paira no ar... passa e atravessa meu campo, orbita minha alma e depois se vai. Se diluí no espaço. Na ordem do dia, andar, comer, ouvir todo tipo de desculpas. Os olhares não se cruzam, alguém acha que está fazendo mais do que menos; outros,julgo, mais do que se imaginam. Outros acham que fazem menos do que podem. E no achismo onde ficam as idéias? Eu olhei nos olhos do meu contratante, ele dizendo que me ama, e eu vi que ele acredita no meu existencialismo. Que é no meu eu, neste que escreve e erra e acerta que está um pouco da poeira do tempo. O veículo ideológico por trás da máquina que vende arte. Eu me tornei para ele um objeto de polir. Meus pêlos lustram os móveis que estarão nas casas de muitas pessoas. E elas sentirão o que ele vê em meus olhos. Raiva do comércio musical. Ódio de quem trata como réles entretenimento o modo de viver de gente honesta. Um trabalho honesto, eu diria que tem muita carne viva ainda pulsando pela arte.
Ficar fora de casa causa esse tipo de trauma. Olhar o horizonte, os costumes e as pessoas de uma cidade mal quista é algo que não me seduz mais. O dia me diz sempre algo como "fique calmo, respire com calma", mas existe sempre o suspiro da razão ou o olhar do diabo por trás de meus atos mais simples. Dividir se tornou uma prioridade. Mas quem divide comigo sofre por soldar. Eu sofro pela minha mudez momentânea. Meu socialismo não acerta em cheio o coração da divisão documental. O contrato quebra minhas veias. Me deixa solitário. Eu que respiro o mesmo ar que todo mundo me sinto apenas inflando. Me diga como? Tudo se repetindo... todas as invejas, inseguranças... divisões. E eu vou ter que lidar com isso de novo? Assim, queria eu jejuar até morrer e, como Gandhi, interromper a divisão do povo hindu nos anos 20. Não me matarás, divisão da matéria. Deixe que meu pulso toque de leve a avareza dos meus. Obrigado.

...25...06...2003 - Me dedico a pensar que muito do que acredito tem bases tão sólidas em mim como uma lenda urbana ou algo como uma chaga isolada no Brasil. Idéias que de tão cimentadas em minha convicção transformaram minha vida em uma benção, uma canção sobre essa convicção e sobre ver o que eu sempre quis. A visão da certeza, de que é absolutamente possível criar algo pelo instinto. De prever um terremoto, as doenças e seduzir a morte, sentir a juventude nos braços, ouvir o pulso fraco do sono, o despertador insone de manhã e enfim abrir os olhos para o céu de todos os dias. O mesmo céu que pode ter visto Neruda na Ilha Negra ou Napoleão enlouquecido em Elba. O que eu gostaria mesmo era de estar no espaço de novo. Perguntar como eu pude ser tão feliz e pleno sem ao menos ter sido pai. Meus valores em constante mudança, as idéias de 1994 sendo concretizadas, o jeito azarado e torto com que o esquerdo virou dono da casa aconteceu para provar que há esperança. Eu leio as poesias e leio as prosas e ouço de bocas honestas muitas das coisas que eu prefiro, acredito e penso. Onde quer que eu esteja, estão lá as mesmas forças, os mesmos livros e citações. O obrigado matinal, a vergonha de olhar no espelho e a sensação de que mais uma tragada é necessária, uma tragada de ar.
Eu durmo coberto. Não sinto o frio, sinto que gelo, que morro dormindo. Prefiro então todos os dias, acordado, olhando e sentindo. Muito. Pensei em umas frases, achei que fosse um poema. Agora sei que foi um insulto. Não me lembro dela, ainda bem.

...24...06...2003 - Me identifico muito com Pablo Neruda. Com seu jeito de escrever e dizer pelas vírgulas e exemplos mil o que pensa. O que sente ao lembrar do que viveu. Como ele era poeta e eu já me senti como tal sinto, além da afinidade, sua alma. Naquilo que ele escreveu está a alma de um homem como eu. Que felicidade. Em meus ídolos, nas figuras que eu realmente admiro, existe algo de muito comum e simples de ver. Um algo que eu sei o que é mas não quero dizer. Não há por que. Também acabei por estabelecer um forte elo com a distância, do tempo e no espaço. Tive que me acostumar rapidamente a solidão dos meus dias de trabalho. Estou na pior cidade possível de se estar. Aliás. Estou aqui como investidor, sem comida garantida nem o sucesso comercial almejado traçado. Estou a minha própria mercê, comendo como rei dos meus dias... de sol e de muito pouca praia. Lendo o cogumelo da minha mente. O fungo que deixa minha téz pálida, horripilante. As olheiras de um viajante jovem. De muitas amantes, solitudes e pensamentos ociosos. Dos livros, da bagagem de mão e da saudade de casa. Impár de todos os jeitos possíveis. Acho que sinto os astros me dizendo para ter calma. Ficar ligado. E ligado estou. Vieram hoje me dizer que estou com meus neurônios perdidos. Eu sinto que meus neurônios preguiçosos e ansiosos, sim, fugiram de mim e restaram os neurônios espirituais, da carne de vaca ao leite de cabra, minha dieta de carne feminina, das bebidas que bebi e das fumaças que experimentei. De tudo, de todas sobrou apenas umas três beldades em meus sonhos que eu já tive o prazer de colocar meu corpo em cima, mais do que isso, coloquei minha sorte acima de qualquer instinto defensivo. Me doei porque estou dolorido demais. Sou de quem me diz SIM. Obrigado.

...20...06/2003 - Estava pensando no fardo que Cristo, gente como Sidarta e Maomé sentiram ao tentar compreender a natureza desconfiada do homem. O próprio princípio de que nada devemos temer do próximo, amá-lo e chamá-lo de irmão deveria exumir a culpa que sentimos por não lidarmos bem com nossa angústia. Li uma vez que Cristo sofria ao saber que as pessoas não lhe davam confiança, que seus milagres eram apenas uma pequena prova do que ele sentia por todos nós até hoje. Em quem confiar o coração, todas as dores alheias e dar para si um grande passo rumo a bondade fundamental? Eu abro meus olhos quando acordo com aquele pequeno ponto iluminado na testa sendo atraído pelo sol e pelos astros, pela gravidade, confrontá-la me dá prazer. Acho que sei como respirar, estar e ouvir e interagir... assim que eu penso nos Budas e Cristos e nas mensagens de paz. Em quem confio meu amor e para que eles dedicaram sua vida. O pulsar do Cosmo coincide com o meu coração. Assim, estou confiando no universo todo, e no que chamo de ar, no meu suspiro desesperado, o que ouço e a surdez, aquele ruído no final da cabeça...
Acho que percebo o deserto enganando as pessoas, suas visões. O calor de nossos corações, a sede pela água fresca da moringa. Eu ouço os ruídos da babilônia, os sinos e os gritos contra a crucificação de Cristo, seus discípulos incrédulos esperando a ressurreição e o mistério mais divino que senti. No caminho, no silêncio, no estar, na alma que transpõe no corpo e respira além de nossa pele; eu diria que só ouço os choros. Não é verdade. Falta-me a coragem de dizer SIM. Sinto falta de ter sido mais presente em algumas vidas. Acho que minha presença se fez muito consciente nos algos que tenho buscado. Percebo com clareza o amor e a confusão de nossa cadeia alimentar.

Buda se tornou uma pessoa serena pela disciplina de sua confiança, interagindo com os sentimentos que o tentavam e o traíam. No caminho, os limites de nossa força estão confiados ao Céu e a Terra. Acreditar é confiar. O mistério da iluminação de Buda se faz presente na expansão do indivíduo ao extremo do todo, na física atômica e na propagação da energia dos átomos pelos nossos corpos e pela natureza. Vi na foto de gente do Daime, do Osho (sorriso brabo, diga-se de passagem), do SaiBaba ou sei lá o quê, do Dalai Lama e de monges vendedores de incenso o sorriso fundamental, da busca. Em outros vi a maconha, a noite consumidora de talento e energia, cocaína, bebidas demais e de menos. Nos monges e em todas as pessoas. Até em mim. E ali rola uma confiança. No que diz respeito ao caminho, uma confiança cega no que não acontecerá a cada um de nós ali, sem a proteção divina. Estamos a mercê do que?

Pensei isso tudo usando meu melhor remédio, usando minha roupa mais confortável e ouvindo a melhor música possível. Que me deixa tonto e ao mesmo tempo presente m cada segundo que a ouço. Meus amigos, se vcs pudessem ouvir bem fundo, ouviriam o que estou ouvindo agora mesmo. Ouviriam o eco por milênios. Eu acredito. Play it Louder!

...19...06/2003 - Não sei mais o que é dormir. Troquei meu sono pelos sonhos, pela solidão de minha cama de casal. Os quartos de hotel tem, cada um, uma história pra contar. Meu próprio quarto na casa de minha mãe é repleto de sacanagens e delitos e felicidade. Tudo no quarto. Onde começa o dia de muita gente. Onde eu me sinto seguro. No quarto que tem o nascer do sol mais bonito e de onde se vê o céu como uma tela de cinema. Dali eu vi que todos tem uma segunda, terceira chance de estar canalizando a paixão. Fico com as palavras de Bucowski, da sua saudade da ex-namorada ou de uma fã apaixonada. Mas fico com minha vontade de estar sempre descobrindo onde dói mais suas dentadas no meu corpo. E ver que as marcas de seus dentes são a mostra de que corre sangue em meu coração. Eu vi nos olhos de muita gente medo de mim. Do que pode acontecer quando o reto faz uma curva. Onde se vê o sim dizer não e o título vira o nome do dia. Meu amigo, eu disse sim e acabei descobrindo meus 17 anos de novo.

E se insere um novo sentimento de insegurança sobre todas as minhas palavras. Coisa que nunca senti tão forte na vida. Um novo sentimento que faz meu coração bater tão forte que eu posso ouví-lo. Naturalmente, parece que vou enfartar de tanto que ele pulsa agressivo. Idiota. Eu me acho doente e só o que faço é pulsar como algo tão alto que não se ouve. Uma bomba de Hiroshima. Só quem deita no meu peito ouve esse fervor.

18...06/2003 - Depois das 6hs ...
Ao me deparar comigo, com meu próprio espelho e ler suas palavras, o desespero e a lucidez transpostos pelas críticas, pelo retiro espiritual e o descanso da vista, lendo aquilo senti meu dever cumprido. A dignidade se torna um parâmetro e nenhuma música se atreve a soar ante a descoberta de si. O silêncio se torna um trovão e enxergar vira uma novidade quase brumosa, uma alegria solitária. Apenas o sorriso médio, infinito no canto da boca mostra que, enfim, se deu mais um passo no caminho da bondade, a infinita bondade que existe em nós. Meu irmão tem um dom que poucos conhecem. Eu sinto o privilégio de conhecer seu lado mais existencial e honesto. Sua visão é aguçada e muitas vezes telescópica. Só ele me vê chorar porque ele chora comigo.

Hoje eu acordei depois de duas noites sem sono. Acordei de um sono muito pesado, cheio de escuros e barulhos surdos do buraco negro de meu cansaço. Eu estava com saudades da sua cama pequenina e do meu edredon encharcado de suor. De um suor honesto, cheio de cumplicidades... cheio de enigmas sobre o amor e sobre a espectativa do que há de acontecer. Não penso muito sobre o futuro. Estive ansioso por saber que só estou em casa porque o mundo girou para nós. Eu estou aqui olhando pra dentro de mim e vejo uma pessoa que tem de tudo um pouco. Eu acho que já senti o cheiro das coisas mais bonitas. Dos perfumes fui guiado pelos meus lábios até a sua boca. Chorei de emoção ao abrir os olhos e minhas mãos, enfim, sentiram uma leve brisa.

Guri, imaginei que todos escolhemos nossos livros pelo título. O título muito significa e resume o que sinto. Acontece que o embrulho tem todo o seu charme e está pronto a ser rasgado, sendo frágil e ao mesmo tempo inquebrável de se ver. Imaginei como todo embrulho urge por ser aberto e descoberto. Imaginei que o conteúdo fosse um palhaço de mola que assusta o seu dono na primeira vez que aparece. Depois me imaginei como sendo um título. E vi que apenas acreditando no que sentimos, na impressão animal que é a primeira, a primeira vez, é que abre-se o caminho para o saber ver. As confusões e o desespero se apresentam logo em seguida para provar que todo novo mundo é como um parto, um nascimento para a vida e a erupção de um vulcão. Aos olhos de Deus apresentar-se-á o amor a ti e o vento te saboreará os cabelos e a pele. E os átomos gritarão nossos nomes e continuarão o ciclo relativo deles. E a borboleta aparecerá e desaparecerá, como que como uma ilusão ácida. Os nossos orgãos irão pulsar o sangue velho para nossos pulmões e o ar oxidará nosso corpo até a morte. <...>

Eu nunca diria algo que não fosse a mais pura verdade. Não sei qual é o meu sentimento. As vezes nem sei do que estou falando. Mas sei que há algo muito estranho nas coisas que as vezes prevejo. Estranho para mim. As pessoas não ligam minhas previsões as suas expectativas ou realidade. As que o fazem sempre me agradecem. Minha sinceridade é algo que me traz muita alegria hoje em dia. Obrigado! No mais, também há uma insegurança, uma instabilidade no ar. Eu sinto um desequilíbrio desfavorável à saúde. Uma pulsação irregular. A arritmia da vida e a descrença popular em si. Uma, um milhar de cérebros e almas individualizados pela riqueza, um milhão de pessoas individualizados pela diferença; Sigo infeliz com estes fatos, onde o continente africano sofre como não sabemos e onde somos 1% de algo que chamamos de capitalismo. Me sinto pequeno e impotente quando penso sobre política. Trabalho para que meu ambiente seja, pelo menos, transgressor. Que dia de dúvidas. Que dia mais efêmero e incomum ao mesmo tempo. Lembrei do amor enquanto tocava... lembrei de que sou muito querido. E lembrei que tem muita gente sendo explorada, mal tratada e gente que nem sabe do que estou falando; que dia mais brasileiro.

eu passei a semana toda meio doente. Daí, hoje eu descobri que minha avó passou a semana toda doente também .Fui visitá-la e comecei a falar sobre como eu não me lembrava nada sobre minha infãncia em São Paulo e fui pegando umas lembranças bem antigas e montando com ela um quebra-cabeça. Eu vi que lembrava algumas coisas de São Paulo, mas ainda não me recordo de onde eu morei nem dos meus pais, nem do breno, de nada. > Depois, do nada, resolvi pegar um livro pra ler na estante da casa da minha avó. Olhei todos os livros. E escolhi um por causa do autor(a) que era japonês. Abri o livro e o prefácio era sobre como a beleza é um fim odioso para as coisas divinas, uma citação de Dostoiévski. Depois, a primeira frase do livro é, não me recordo as palavras exatas, mas dizia que o autor lembrava-se do seu primeiro dia, do seu primeiro banho depois que nasceu. Olhei pra minha avó e disse: sabe o que é isso? (depois que eu sintetizei mais ou menos a história pra ela)? Deus

28/05/2003 - No sentido bom das coisas existe mesmo a inevitabilidade. Ela enfrenta estéticas, a idade, o dia e a noite ao mesmo tempo. Enfrenta a nós com a cara deslavada que se disfarça de destino. Como tenho estado atento a inevitabilidade, tenho pensado muito sobre o homem e a mulher, nas suas diferenças e por ques? . Mas de tudo o que eu pensei, de todas as diferenças genéticas e sociais que pude pensar e imaginar sobre o sexo humano, cheguei a uma única conclusão: a alma é igual para todos. Como lidar com isso? Fiquei me imaginando primeiro pequeno. Somos todos iguais e eu sou um pedacinho de tudo. Depois senti mais confiança. Não me senti mais tão paladino das coisas que penso. Depois pensei nas mulheres e de novo caí na tentação. Me senti um homem que pensa demais na vida.
Meu sono tem sido uma tempestade de idéias e textos que não ouso discutir com alguma pessoa. As idéias fluem de acordo com meu estado de espírito. As idéias surgem ante a meditação de meu corpo e da minha alma estática ao luar. Fico alucinando vibrando por entre o peso do edredon, o lençol de algodão e da poeira que paira no ar de minha casa. Todo dia é a mesma coisa, o mesmo distúrbio no sono e depois uma profunda queda no esquecimento. Não paro quieto nos instantes finais do sono, viro e reviro em busca do que sonhei ou continuo meio consciente a lembrança que estava presenciando. Me imagino sempre preso ou claustrofóbico, sem forças ou decepcionado. Antigamente eu me sentia ansioso e inseguro. Hoje, até controlo a vontade de mijar ou um leve espirro. Mas nada que as paredes de minha mente não estejam espremendo em mim. Preciso encontrar uma luz.
Já basta eu estar vivo para que todas as minhas memórias reaparecem como um lembrete das experiências que já tive. As boas coisas, as ruins. As que tem me atormentado são as lembranças que mais me desagradam. São as memórias do que fiz para provar um ponto de vista errado. Um ponto de vista exibicionista e sem integridade. Um erro mesmo da vida. Como sinto que a idade chega, chega junto dessas imagens antigas meros borrões ou ruídos que me fazem tremer. Um sentimento de que perdi parte de mim, e que agora encontrei com a avaliação de meu caráter. Como sou uma experiência humana, um foco de luz e animal ao mesmo tempo não pude deixar de notar que sofri. Sofro e sinto hoje que a felicidade só me achou porque ela sempre me acompanhou. O tempo que ela se foi, eu sofri. No mais, sinto uma sintonia forte rolando nesses dias. O sol não aquece no inverno, mas eu me sinto aquecido e querido. Junte meus pedaços e encontrará um homem que nasce todos os dias em um ritmo muito particular. O ritmo que estou é lento e ocioso.
Mas eu já acelerei muito meu Maveric. Fui a 180Km/h, vivi economizando na gasolina à 60Km/h muitas vezes. Ando sempre que posso de carona e na velocidade dos outros. Nos ônibus que me levam pra lá e pra cá. Nas sucatas aerodinâmicas do Brasil. Acelerei nas minhas mentiras e acelerei nas minhas verdades. Muitas glórias e algumas derrotas. Junte meus pedaços e terá um quebra-cabeça.

Me julgo um samurai. Lutei na infância e adolescência. Muito, de todo jeito. Lutas limpas, sujas e na minha imaginação. Lutas internas e filosóficas. Lutas com meus pais e irmãos. Muita luta pra me tornar eu. Hoje, não luto. Apenas aprendi a dar o primeiro golpe e pensar.
Escrevo cartas de amor no vapor que fixa no box do banheiro. Lembro que cada um tem seu caminho. E lembro da inevitabilidade que me trouxe tudo o que tenho. Obrigado!

21/05/2003 - Parte II - Muita responsabilidade. Muita atenção à vida alheia. Muito pouco de mim. Muita raiva. Eu só queria falar com uma pessoa. Não consegui, desisti e vou trabalhar em nome de todos. Estou no computador de uma grande provedora mandando todos a merda e mais um pouco. Foda-se.

21/05/2003 - Muita coisa na minha cabeça. Muitos sonhos passando pelos meus olhos, pela madrugada a dentro, me viro na cama sem vontade alguma de me mover, de sair do meu leito. Tenho um cristal na cabeceira da cama que me deixa febril. Eh o preço que pago pelos excessos da vida. Excesso de pensamentos mal direcionados e inconclusivos. Fiquei escrevendo muitas palavras esta noite. Muitas delas vagam pelo que venho sentindo. Não sei se estou doente ou sadio. Não sei muita coisa sobre o que vai acontecer amanhã. Tenho jejuado em busca de uma resposta satisfatória para meus sintomas. Metade da minha poesia se vai pela madrugada, nas minhas palavras mudas e pela noite se vão as minhas lembranças. Durmo porque não aguento o sono pesado. Não estou aguentando respirar. Nem as tonteiras que sinto me enfraquecem mais. Muita cafeína, apenas líquidos e a certeza de que estou aprendendo de novo a me sentir apaixonado acompanham esta fase do meu caminho. Uma sintonia forte que sinto e me deixa feliz. Certo de que há muito por fazer, muitos beijos por acontecer. E eu rio. Minhas unhas compridas mostram como estou sentido com a vida. Meus cabelos, cortei.
Insatisfação. É algo muito presente em mim. Principalmente depois de tanta mazela, tantos dias confusos e depois de tantas mudanças astrais. O projeto de 2003 está sendo mais difícil do que eu tinha imaginado. E também mais pleno e florido, colorido pelas fotografias que tirei. Dos dias que pude descansar e apenas ir. Cruzei uma ponte errante. Caí no jardim da tranquilidade e hoje faz um belo dia ensolarado em São Paulo. Continuo aqui, insatisfeito, projetando planos para a próxima semana. Estou disposto a viver mais por mim. Estou vendo meu espaço cada dia diminuir em meu peito. Na casa onde vivo e naquilo que mais gosto. No hábito de viver. Não tenho agradecido muito a dias. Tenho estado apático, esperando o momento de reclamar o meu pedaço. Sa'mu'rai! Quanto menor o espaço mais presente no todo. Estando no todo, o caminho da totalidade de multiplica. A vida abre um largo sorriso. Pede calma aos convidados. Pede um favor: continue -

Tive muito tempo para me dar conta de que a falta das coisas é apenas uma ilusão. Falta apenas o ato de cada um. O ato de Querer. O ato de Mudar. O ato de Estar Sempre disposto a mudar.

12/05/2003 - Tarde ensolarada, vento frio e cortante - O que me causa verdadeiro espanto em mim é como eu ainda não me dediquei ao meu projeto instrumental da maneira como ele merece? Estou ouvindo ele agora mesmo, fico emocionado como aquela música faz curvas, distorce as emoções de cada integrante que participou daquela orgia musical. Lembro da namoradas, seus olhos espantados com tamanha sintonia, o barulho dos amplificadores de segunda linha, os cigarros e as cervejas, um microfone e sonhos... meus sonhos ainda soam como essas músicas. Escrevi mais algumas, pretendo gravá-las com meus amigos. Com aqueles que acreditam no projeto. Fazer uma nova reunião para captar as vibrações do momento... da fuga do espírito alcoolizado ou da vertigem aluginógena, das noites frias no deserto... lembro do meu desespero e da minha vontade de amar. Da ansiedade que coloriu meus dias em Brasília, os beijos mais doces que saboreio cruzando Brasília. Que época feliz. Um inferno astrológico reinou sobre nós em Abril. Mas Maio está chegando pra amansar o frio do inverno e o inferno terá que produzir muito calor pra nos queimar. Tanto gelo pra derreter. O meu gelo, o gelo do meu peito evaporou. Vou pensar no melhor modo de continuar a realizar meus desejos, na ausência de apego e na simplicidade do ser. Quero viver instrumental. Apontando e sendo lançado para o que conquistei.
"All I want in life is a little bit of love to take the pain away"
"Getting strong today and try a step each day."

HananidnanA ut est mu etnamaid!

12/05/2003 - Madrugada Fria - Eu vi fraqueza nos olhos do meu pai. Um grito desesperado em sua voz trêmula e baixa. Eu vi ele começar a desistir de alguns sonhos e de estar apenas pronto para o pior. Para ele, o pior está acontecendo. Eu me impus sobre ele nesse dia de fraqueza. Acho que fiz isso por mim. Para suprir algo que me foi tirado a tempos. O direito de ser. A fraqueza de meu pai é o alicerce que fortalece minha alma sobre a certeza de que venho vivendo a vida suavemente. E tudo tem acontecido ao sabor dos astros e do tempo.
Meu pai está muito preocupado com tudo o que ele tem. Seu desejo de possuir é algo difícil de descrever. Percorre as fronteiras da era moderna com pitadas de brilhantismo e espiritualidade. Sua preocupação é pertinente, é sobre seus filhos. Ele sente que já não é nem uma ameaça e nem fonte inspiradora para seus filhos. Meu pai tem uma excelente memória e deve estar, neste exato momento, vendo o filme de sua vida e procurando o lugar onde ele abandonou seus sonhos e suas ilusões. Porque ele, eu sinto isso, vive uma desilusão.
Eu acredito que ele vê em mim esperança. Percebo que ele teve que me engolir, porque ele sempre deixou claro que engolí-lo não era fácil. A língua ferina que nos separou durante anos é hoje nossa maior semelhança. Ele crê nisso e até me admira e a meus irmãos por isso. Por não ficarmos calados incrédulos e passivos com o que nos magoa ou soa vazio. A ignorância é algo que nos separa de muita gente. Meu pai sempre nos distanciou das pessoas. Talvez por vergonha. Talvez por segurança. Mas por ignorância também. Isso ficou tão marcado em nossas vidas que hoje é o elemento que une meu pai a mim e aos meus irmãos em mesas de bar ou em restaurantes. Falamos sempre sobre nós. Sobre como sofremos ou sobre nossos pontos de vista. O mundo é algo que fascina nossas conversas, economia, investimentos, música e muito de esotérico está sendo discutido por nossas almas. Meu pai tem sempre uma palavra sábia por trás daqueles óculos. Eu sempre me lembro ou cito algo que meu pai me fala porque o homem tem muita certeza do que diz.
Meu pai tem problemas em terminar o que ele começa. É uma síndrome de sua geração. A geração mais maneira tem em sua coletividade um buraco, um erro social. A extrema individualidade adquirida (EIDA) e me proponho a debater sobre este tema em outra oportunidade. Meu pai e muitos outros pais que eu conheço e convivo tem esta mesma síndrome. Uma particularidade do século 20, da geração dos anos 40 e 50, algo, como Bob Dylan descreveria, "tolo" e paranóico sobre a liberdade. Meu pai deveria aprender com minha mãe. Eu já disse isso a ele. Mas ele sente uma forte repulsa em ser como ela. Paciente, amorosa, cuidadosa. Meu pai é um atacante como o Edmundo. Vascila. A começar pelo seu casamento (que não acabou), seus filhos pelo mundo, seu patrimônio, seus carros, negócios, dívidas pessoais ... meu pai vive uma bola de neve de coisas infinitas. Uma alma como a dele sobrevive e aguenta mais pressão do que imaginamos. Porque sofre com a falta de realização pessoal desde criança pelos motivos que guiaram seu caminho até agora. Seu pai, sua infância rigorosa, o amor por sua mãe, a relação fraca e distante com os irmãos, a morte do pai, o desejo por saber e aprender, a física contemporânea, guitarra, artes plásticas, inglês, francês, computadores imensos... o mármore das escadarias da Light e Brasília. Os filhos e a esposa, o mundo todo. Meu pai quis para ele o mundo. O mundo deu a ele o que ele plantou.
Meu pai, eu respeito. Uma coisa que ele disse: você deve querer ser melhor do que eu. Para um pai, a maior felicidade é ver o filho ser melhor do que ele. Eu acredito nisso. Melhorar a vida, as visões da vida. Ampliar a vida. Sorrir para a vida. Aceitar a vida como ela é e os caminhos como eles são.

Pai, se vc ler isto, (eu acho que vc sabe tudo ainda), eu acredito em vc. Há um grande mistério por trás de nossa relação. Eu acredito não ser fácil ter que lidar com isso. Com o mistério de muitos reflexos de sua própria imagem. A imagem dos filhos, de suas mães e avós e avôs, a herança de muitas gerações e de uma visão do futuro. Uma piscadela na Espanha, um navio português, donzelas que amamos, o vinho tinto seco que adoramos saborear, a música que move e embala nossos corações. O tilintar preocupado de nossos pensamentos, o medo de errar, a vontade de fazer a coisa certa. As vozes graves, o volume dos cabelos e as discussões. Deus. Jesus Cristo. Furtos automotivos, as razões de tanta mágoa em seu coração. Não entendo. Nem de hipismo e nem de armas. Me preocupo com vc assim como vc se preocupa com todos nós. Porque eu sou assim como quem me ama sem saber. E vc fala muito de morte. Eu prefiro suas lembranças, o que vc lembra é mais precioso do que a morte.

10/04/2003 - Noite Fresca e de Luar - Há algo que não posso falar. Tem coisas que eu não saberia dizer. Tem coisas que eu sei, mas não me foram ditas com palavras; tem coisas que já se nasce sabendo, tá ligado? O Tao se expressa de maneiras curtas e longas. Que vão e voltam; mas está em uma percepção global, de coisas universais e elásticas. Não me atrevo. Queria ter algo de cientista em mim. Minha língua é curta demais. Prefiro intuir e observar ao invés de atuar ou esperar. Estou no meu momento de esperar, tenho certeza. Está nos astros. E está comigo e com muita gente ao mesmo tempo. E como se vive com toda essa inevitabilidade? Sei que disso nasceram as melhores invenções. É um elemento fantástico.
Tinha que trabalhar mais. Estou com a cabeça influenciada pela simplicidade do Tao. Respeitando as coisas mais simples e evitando as vontades bizarras que eu já achei que me fariam muito bem. Fizeram melhor, eu diria. Como seria bom ouvir algo de Burroughs, um comentário do tipo "ei, vc tinha que tomar esse cogumelo?" ou "aposto que em mim fez um efeito muito louco, em 196... sei que não me lembro..." . Eu aposto que minhas lembranças me cobram sentimentos que estão flutuando sem direção a anos... que sentimento libertário. Experimente vc.

8/4/2003 - Eu sabia que estava acontecendo alguma coisa desfavorável. Eram os dias me dizendo acalme-se. Se abstenha. Diga sim ou si ou yes ou o que seja. Tenho que esvaziar o vaso. O vaso se enche e depois transborda. O que vai e fica remoto um dia volta a sua origem. Que eu fiquei longe de mim um tempo, eu fiquei. Agora estou perto de mim assim como antes. Trabalhando e indo com fé. Comprei um Tao The Ching em inglês, pensei que tinha feito besteira. Que nada. Estou lendo 2 vezes ao mesmo tempo. Traduzo tudo com cautela. Leio e releio as reflexões e os anseios e o ato de Lao Tsé. 2 vezes toda vez. Tive um sono bastante incomum noite passada. Sonhei com muita música e, não tenho dormido bem, não fiquei incomodado com isso. Meus sonos tem sido muito conscientes. Ou estou confuso com o que sinto. Isso sim. Isso é um não e muito mais. Tive mais uma daqueles momentos onde o tempo para, o coração pulsa com os astros e a sabedoria parece sair de meu corpo para o todo. Aprendi que isso é esvaziar o vaso. Meu caminho, não sei onde termina, mas é um caminho e tanto de se viajar. Que vida doida. Que vida boa.

Aprendi a dançar e hoje sinto que flutuo. Obrigado. Eu aprecio. Sofro. Usufruo. Rio. Choro. Como um povo. Como um só. Vou e volto.

E tentar explicar a loucura que aconteceu na minha cabeça ontem. Eu nem sei por onde começar. Estou me sentindo confuso com meus sentimentos. E tem vozes que me dizem para ter calma, estar sempre atento e ficar esperando o momento de agir corretamente. Acho eu que estou confuso porque, é inegável, estou vivendo o mesmo sentimento de perda de uns meses atrás. Porra, eu ando perdendo demais o tempo das coisas. Estou anti-garrincha, anti-craque. E minha confusão é algo como um teleporte. Estou no lugar errado remoendo minhas emoções e tentando manter minha sanidade. Troquei um sonho por outro. E fico feliz que a cada dia um novo desafio se apresente a mim. Só que as escolhas estão ficando cada dia mais difíceis e eu vivo num conflito interno por causa disso. Ser algo que sonhei ou viver além do que já vivi. Como a sina de minha vida é trabalhar e nada do que eu tenho caiu do céu, tenho certeza de que assinei um contrato comigo até os meus 30 anos. Sei lá o que acontecerá das minhas paixões. O que será de mim é outra pergunta que não me interessa. Sinto que estou em conflito comigo porque meu sono está tenso. Ouço músicas familiares ao dormir, lembro dos meus amigos e das minhas meninas, fico com saudades de existir apenas. De reger uma sinfonia ácida e alcoólica. Os beliscões, os beijos, o cheiro de 17 anos de idade, a intensidade dos choques que nossos corpos produzem... e ao mesmo tempo a lembrança de que a perfeição é algo volátil e efêmero me confunde ainda mais. Estava eu tranquilo e com uma disposição pra viver. Hoje, estou cansado de querer o que não tenho. Paciência é a minha confusão de hoje em dia.

3-4-2003 (Noite, choverá) - Astrologia é algo muito pós-moderno. Seu, de muitos e seu. As possibilidades se abrem quando temos experiênias com a Astrologia. Fascinante. Quem diria? Muitas foram as vezes que eu passei por ela despercebido, até com certo preconceito. Essa barreira eu fui quebrando aos poucos. Mas entender aquele "algo mais" dela é que me foi apresentado a pouco tempo. Agradeço a uma amiga, sua irmã e os livros que elas me emprestaram. Por instantes acreditei em algo que me assustava. Sabe, é difícil ler as palavras que exprimem algo de nós. E interpretar os sinais astrológicos e o horóscopo se tornou algo esotérico nos meus dias. Algo de gente "ligadona" ou hippie. Pode ser de todos nós. Hoje eu posso ler, sem exagerar, e me guiar pela astrologia. É como perguntar ao Cosmo alguma coisa. A resposta demora o tempo que precisar. Você. A dica é saber fazer o que for preciso para acontecer. Dica: esperar e agir.

Não é exagero. Acontece que eu li e aconteceu do jeito que foi escrito. Previsão? Será que tem mais de "eus" por aí? Como eu me senti ontem? Pleno, cansado e até burro. No sentido de que um burro empaca depois de fazer muito esforço (assim ele imagina). Travei no meu amor. Na imagem de quem eu quis. Minha linda, tu é tudo que eu queria. Assim como a frase "eu sofro, desfruto, rio e choro como o povo". Sou um latino AA - amor e arte - que deu certo na vida. Eu estou aqui com uma pulga atrás da orelha porque estou com meus radares pessoais perturbados pela idéia de estar mais perto de vc. Fico aqui com a imagem grudada nas bebidas e baseados que experimento todos os dias. Fico com o sol estampado na alma, umas gotas de chuva caindo pelos meus olhos e a terra sob meus pés descalços. Estou querendo amar. E acho que consegui.

Je sois I Love YOU!!!!

31/03/2003 - Ensolarado e abafado - Tenho pensado nos últimos dias sobre um tema que hoje me bateu como um soco na alma. A inevitabilidade. Uma palavra que eu usei muito pouco. Falei muito pouco. Mas acho que experimentei dela um pouco no carnaval e na semana do meu aniversário. Antes de mais nada, que felicidade. Que momentos felizes eu pude viver nessas semanas de muita reflexão, amor, lisergia e festas. Reencontrei a paixão que me levou a inevitabilidade. O querer tanto que magicamente acontece. Os lançamentos mais precisos de Guri e eu batendo de jeito, apenas colocando a bola no gol. A inevitabilidade aconteceu comigo como o fogo arde. Consumiu por dentro minha alma, trouxe à tona uma vontade escondida da minha personalidade, me deu a chance de sentir aquele torpor pelo corpo antes do primeiro encontro amoroso. Me deu um sorriso mais que lindo, mil palavras que ficaram grudadas em mim, a dança que enfeitiçou meu corpo fechado e me abriu por dentro. Todos viram que eu vi algo mágico.
Inevitabilidade - caminho povoado de histórias que acontece com as pessoas no intuito de trazer a iluminação através do convívio e experiência com a vida e com as relações pessoais da matéria e do espírito. Une pessoas para desencadear mais atos de fé e promover a bondade e a verdade. Momento único e colorido no curso da vida. Espelho de nossas almas. O ciclo.

E se estou envolvido com a inevitabilidade é porque eu aceitei o chamado da alma para dar um tempo e amar.

19/03 - Descobri uma chama dentro de mim que queima em harmonia com o tempo; que faz meu coração bater como o cosmo. Que me mostrou que no prazer de estar com quem se ama está a verdadeira liberdade. No amor há bondade sublime e senti que queimo de paixão.
No carnaval das paixões me entreguei a todos os tipos de afetos e desafetos com a mesma disposição de driblar (o drible da vaca) e chutar à gol. Me diverti demais em todos os sentidos. Quando eu cheguei e vi todos os meus amigos cabeludos senti que havia uma sintonia explosiva no ar. A mesma que conectou eu, o Guri e a Emilia no carnaval e nos trouxe muita paz de espírito e comunhão astral. O sol brilhou para quem estava na mesma onda que todos nós. As vezes tivemos que olhar umas meninas peladas; outras vezes bebemos até morrer. Não faltou vodca nem maconha nem ácido nem lança-perfume nem picanha nem sexo nem cervejas, milhões delas inclusive.
A filosofia de vida que brota em meus amigos e em mim é algo que me dá gosto fazer parte. Tem muita gente perdida na vida. Mas eu acredito e boto fé que se estamos bem vivendo nossas vidas, já estamos vislumbrando a luz! Eu estava a caminho do amor quando vi meus amigos caminhando ao sol e por entre as gotas de chuva e acho que Deus estava ali assim como estava comigo e meus amigos na 3 ponte do Lago. Estava comigo quando eu enfureci em casa. Se Deus é assim tão divino, poxa, deixou-nos a capacidade de enfrentá-lo assim, nos mistérios, até que a paz reine sobre nossa atitude severa em relação a ser.

Eu sou um socialista da alma. Estou sempre pensando no todo, no pouco, no nada. Em mim e no que me completa. Em minhas moléculas que juram ser eu o tempo todo, brigam para ser parte do todo, uma árvore ou a água da piscina... ou ser éter. E teimam em ser eu e eu sinto que o movimento das almas são como moléculas que se cruzam e se isolam e se amam até que venha o sono e recomponha nossa estrutura etérea. A maior viagem é ver a longa distância.

Emilia, te conheci várias vezes. Numa delas, vc bebia e dizia a todos "O-de-nada" a quem te dizia "O-brigado". Sua alma está tão boa quanto confusa. Vc está reagindo a ilusão do mundo. Este que não é somente o mundo dos homens. Ainda bem que temos a chance de dividir este seu nascimento. Obrigado pelo TAO.

Guri, a pós-modernidade clama por interromper o nosso socialismo. Há esperança nas questões mais simples. Ver, ser, escrever. O caminho se abre todos os dias para quem busca trilhá-lo. Não há dúvidas. Se vc ainda não se perguntou, pergunte da sua janela onde estará a beleza e vc verá da sua sacada seu irmão mais novo, o verde das plantas de tarde e um vai-e-vem de gente que te ama ao seu redor, na sua casa. Obrigado pelo TAO.

Bicudo, declaradamente te considero meu irmão. Um irmão de alma e de atitude. De disciplinas universitárias, das gatas. Da troca que fizemos. Vc me beijou e eu disse que ia ser uma pessoa melhor. Porque por mim eu já era bom. Mas depois de ver vc crescer, quis ser melhor. Obrigado pelo TAO.
Breno, nada do que eu diga para vc serve. Minha vida é que representa o quanto eu amo estar perto de vc. O quanto eu me sinto completo perto de vc. O quanto eu choro por dentro e por fora por vc. Minha vida, em algumas partes, teria que ser dedicada a vc. Pela influência nas horas certas, pela sua teimosia em se render ao todo. Ninguém saberá o quanto ouvimos palavras depreciativas. Ninguém sabe de onde vem a força de nossas vozes ou de nossos cabelos. Porque poucas são as pessoas que sentem a chama que levamos dentro de nós. A minha não se apagará. E vc está comigo. Obrigado pelo TAO.

Definam amor depois disso. Por favor, eu sorrio.

18/02 - Só percebi que tinha acordado de verdade depois de preparar meu chá. E como um bom oriental, depois do chá preto eu vomitei. Já vomitei algumas vezes e já vinha prestando atenção nas reações de meu corpo desde a ingestão até a regorgitação final do que me maltratou por dentro. Hoje vomitei os excessos de muuuuuuitos dias de festa. De uma angustiante espera por chegar em Brasília. Por rever minhas raízes e descansar ao menos o corpo das viagens e das salas de espera. Vomitei, suei frio um bocado, reação normal em mim, depois sentei, respirei até me sentir bem. Quando isso acontece estou em diálogo com meu corpo, ele está me dando uma bronca e eu sou todo ouvidos.
Ontem tive um pensamento confortável. estava sentado no sofá assistindo Tv. Eu nunca estou prestando atenção a ela, mas a Tv sempre está indo de um canal a outro em busca de alguma distração. Sentei e me cobri com um velho cobertor meu. Um que me cobre a 22 anos quase. E ontem ele estava desbotado, meio ou bastante sujo, empelotado. E ao mesmo tempo eu lembro dele brilhando como novo quando saí de Brasília para São Paulo, bem limpo e cheiroso como minha mãe costuma deixar as roupas de casa. Era minha casa pela minha nova estrada, o mais íntimo cobertor. Me cobriu, serviu de tapete quando dormi no chão algumas vezes. Foi comigo em muitas viagens, de carro, vã, avião... foi pra Chapada dos Veadeiros, me cobriu no amor e na selvageria. Quando eu choro, ele chora comigo e neste cobertor vermelho amarelo todo sujo eu me cubro. Minha alma material é ele.

Sabe, minha maior frustração é minha maior motivação. Eu sabia que a noção dual das leis do universo tinham me sido apresentadas quando fui ao espaço e vi algo que me dá arrepios de pensar. Eu sinto, mas não posso dizer algo que vai contra minha fé. Vi o futuro, o passado, a criação da luz e da escuridão. Hoje sei o que experimentei. Meu canal está tão aberto que me sinto, as vezes, vulnerável. E eu já aprendi a conviver com a minha vulnerabilidade. O medo faz parte do caminho do guerreiro. Uma vez eu escrevi ''eu quero uma espada pra ferir quem me faz mal'' para a pessoa que eu mais amei. E a presença do que é inevitável e possível está tão presente em minha vida que eu já sei porque meu pai é meu pai, minha mãe é minha mãe e porque eu estou aqui sem saber onde ir, mas indo... não sei mais como evitar o futuro. Eu dou risada disso enquanto escrevo..... eu quero dizer que gosto de falar. E falo cada dia menos. Falo cada dia para mais gente. Tem sentido e eu vou acreditando que sim.

16/02/2003

Meus olhos
Meu coração
Minha luta.

Estou curioso. Muito observador e instigando o que desejo ver. A beleza nos momentos e na natureza e em detalhes onde meus olhos pousam. Continuo buscando a disciplina da meditação e senti que já venho fazendo alguma coisa do tipo a algum tempo. Minha relação comigo vem se desenvolvendo desde que descobri o amor. Antes eu apenas sonhava. Sonhava em ser um astronauta, piloto de caças ou samurai. Em minha infância eu já presentia algo belo e sublime em mim e nas coisas. (Como definir um sentimento que nos faz rir e ao mesmo tempo contemplar a vida?) Minhas observações são amplas. Vai da rotina aos detalhes do cotidiano. Muito do que me alegra é um acontecimento relâmpago ou as cartas que escrevo na cabeça. As falas que preparo para quem quer que eu encontre. Estou em busca do belo e a expressão da bondade faz isso com as pessoas. deixa-nas belas e autênticas.

Esqueci de citar Bjork entre meus ídolos. John Lennon, tem muita gente que ainda terei que citar e que me influenciam.

A beleza a que me refiro tem muito a ver com o que vemos além dos olhos. Tem a ver com a sintonia com o tempo, com reflexos de luz, de seu otimismo. Atenção aos movimentos do corpo, da percepção da aura, do escuro, do retorno ao lar depois de alguns dias. A sensação de prazer é algo que gera mais beleza ao mundo. Todos os dias eu penso e me dedico a apreciar meu corpo e meus sentimentos e o conjunto entre eu e o infinito e a relação de tudo isso com a perda de controle ou dos sentidos. Por instantes minha mente acelera tanto e a luz em minha cabeça brilha até que todas as tensões dissipem por instantes de relaxamento e liberdade de espírito. Vejo imagens e faces desconhecidas, porém leves e serenas. Procuro o silêncio que me levará a ouvir meu coração batendo, minha respiração saindo de mim e se transformando no ambiente... meus conflitos sempre aparecem, me lembram quem eu sou e de onde vim. Depois as lembranças de uma vida plena e muito feliz, as lições que aprendi. Lembro de quem me ajudou, minhas memórias são minhas amigas e me ajudam a enfrentar todas as novidades e adversidades.
Me lembro do dia em que me comprometi de verdade com alguém. Eu estava ouvindo música, ela falava ao telefone com uma amiga. Fui chamado para falar com essa amiga, ela me pergunta se eu estou namorando ou não. Você sabe, eu vi o olhar que une as pessoas. Mistura medo, ansiedade, faz o tempo frear um pouco. As marcas de uma face delicada ficam ainda mais suaves, o leve sorriso no canto da boca pedem uma resposta. Eu digo sim, desligo o telefone e beijo minha namorada.
Uma vez na vida. Uma única vez. Eu, na bateria. Meu irmão na guitarra o outro no baixo. Tocamos uma música que durou e foi eterna para mim.
O que eu acho mais bonito em mim é que eu abuso do que sou. Não posso falar sobre isso sem soar ou narciso, ou metido, Mas eu sei. Algumas pessoas sabem, sentem. Admiro quem gosta de mim.

As vezes eu amaldicôo o dia e xingo as pessoas. A minha cabeça rapidamente dá um jeito de mostrar que isso é normal e mudará se eu fizer o possível para dar uma chance ao que me causa repulsa ou medo. Meu otimismo cresce enquanto o pessimismo está na moda. Mas eu sei que é neste período que aparecem beldades de toda natureza. Os espaços vazios pedem vez para se tornarem belos. O feio pede uma chance também. O bonito se esquece as vezes do que é. O belo se fortalece nas fraquezas do que constrói também. Por isso que eu sempre insisto: esperança.

(eu esqueci o texto verdadeiro sobre beleza que eu pensei. A poesia fica para mim, infelizmente)

12/02 - Eu não mudei como pessoa. Mas minha vida mudou. E isso, relativizando o óbvio, faz com que eu não esteja mais no mesmo referencial de anos atrás. Eu sou eu no futuro, ou como eu queria ser quando era adolescente. Muitas coisas deixei pra trás. Sonhos queimados e alguns corações partidos. Minha faculdade e minhas aspirações acadêmicas. Parte da minha ingenuidade e uma dor, uma puta dor na alma depois que eu me levantei de 35 dias de terror com minha cabeça. renasci ali e depois fui parar na festa, uma pequena festa que me levou a 2003, Porto Alegre, barriga cheia, conta bancária honestamente cheia, cabeça cheia. Ainda sei quem são meus verdadeiros amigos. Não os vejo muito. Não sei o que eles fazem e não me chegam notícias. Mas eu sou diferente de muita gente. E descobri porque me sinto tão vazio. Não tenho vivido para mim. Para mim diz respeito a pensar em mim. Se eu fosse um filósofo eu pensaria em questões metafísicas e paradoxais, românticas até. Mas eu sou um coração. Então eu penso em muitas pessoas ao mesmo tempo todos os dias. Minha mãe, meus irmãos, meu pai. Todos os meus amigos, de ontem, de antes de ontem e de hoje. Penso em tudo o que se relaciona com meu trabalho, na natureza, em meu lugar nessas divagações, em Seus corações e pensamentos. Amigo, eu não ouço nada. Só a minha respiração controlada enquanto medito, meus pulsos jorrando meu sangue com a maior força (me mostra que estou pleno e vivo) e o mundo girando comigo e eu girando com os átomos. Sinto a fina presença do ar, seu vai-e-vêm; O Tao e Deus.
E eu.

Tenho consciência de que fiz uma escolha que me tirou muito, mas muito do que eu amo e admiro. E eu já conquistei tanto e tanto há para se viver que apenas a felicidade define o conjunto do que eu presencio. Vou como meus ídolos. BOb Dylan, Martin Luther King, Gisele Bündchen, François Truffault, Peter Greenaway, Jim Jarmush, Neil Young & Crazy Horse; Breno, Vitor, Wilson, Ideli, Inir; Cecília, Beth; Os poetas William Burroughs, Allen Ginsberg e Shakespeare; Pablo Picasso,(à fotografia), Sophia Loren, Marcelo Mastroianni, Catherine Deneuve, Marlon Brando, Stanley Kubrick; Budismo, Taoísmo, Dorje Dradul, Herman Hessé;

O que eu sinto falta de verdade é da cumplicidade intelectual que eu tenho com meus amigos. Não encontrei ainda um grupo que pudesse juntar tantos talentos raros. A falta da explosão de idéias, das festas orgias bebidas drogas, dos carros apertados, dos insights na TE, dos sustos e medos que desfrutamos... sinto falta de almas como a minha. Estou perdido entre fantasmas.

10/02 - Tenho me emocionado com a morte, com a perseguição e comigo neste últimos dias. Tenho acumulado sentimentos demais desde algum tempo. MaS estou abrindo algumas portas da minha memória, primeiro para mim, e quem sabe depois para os outros. Memórias que eu vou deixando me inundar. Memórias para esquecer o presente por míseros instantes nas noites quentes de verão. No ar apenas umidade e nas mãos a vontade de tapar o rosto na escuridão ou gritar rangendo os dentes com o travesseiro na cara. desgosto. Só pode ser aquele pingo de desgoto que persiste depois da verdade. O que vi, o que tenho sentido nas pessoas é uma descrença enorme em tudo. Não sobra espaço no mundo para gente muito idealista. Não existe mais a fé no homem nem em seu trabalho. A questão mudou de nome e lado. Os que não tem como reclamar apontam a vida como um obstáculo nervoso. Os que reclamam não sabem mais por que o fazem. Porque tem coisas que só funcionam na pressão. Tem seres humanos que só agem à base de muita pressão. E já existe uma pressão na hora do nascimento e eu fico com as linhas na cabeça da ditadura pedindo para desnascer ou para poder cantar o meu canto de novo em 1998. Se eu já fui uma pessoa satisfeita? Eu já tive tudo o que eu quis nas mãos. Eu joguei tudo como confete pra cima para ver que as mesmas dificuldades que eu enfrentava em casa são cenas correntes no meu trabalho, entre quem convive demais por muito tempo. Joguei tudo para cima como neurônios ao léu mesmo! Escondi muitos sentimentos; dormi e deixei de dormir por séculos e até respondi umas perguntas que eu tinha feito durante minha infância. Será que eu amarei duas vezes, uma vez perguntei? Idiota! Como um imã da desgraça, o período de transição é caótico e exige habilidade com espontaneidades e ideais. O que vai mudar e o que é imutável delimitam acordos verbais e não há forma mais intensa do que provar a dor quando vc enfrenta sua sabedoria. O que sabemos e o que queremos provar pro mundo. Se vc acha que faz mais do que os outros, avalie-se. Aponte algo comum, como um prato sujo. Se ele for limpo e vc não souber como terá uma resposta. Se vc limpá-lo por dias seguidos terá mais uma resposta. Se vc pedir para alguém fazer poderá receber várias respostas. Mas o pior é não perguntar, não refletir e nem receber resposta por algo tão simples.
Eu já era velho quando descobri a técnica mais mortal de cortar cabeças dos inimigos de minha intelectualidade e sabedoria. A luz. É quando ela aparece que vc vê quem eu já decepei. Aliás.... decepo as mesmas pessoas várias vezes. Não há pior morte do que a morte do querer...
E eu vou morrendo com minha sabedoria... ela fica do meu lado, é parte de minha alma e fica buscando quem tocar. Não tem encontrado ninguém especial e me disse que está um pouco cansada também. Como eu, está questionando algumas mudanças que propus a fazer. Senti isso ontem, o diabo me tentando a fazer um pacto com ele de madrugada, minha mente sonolenta querendo paz, silêncio no vácuo e o diabo do meu lado... uma presença comum em minhas viagens, sempre ao nosso lado esperando um acidente ou uma prova de maldade. Testando todos a minha volta, esperando o vascilar dos mais fracos. Eu me sinto fraco, mas comigo o diabo fala pedindo permissão e com hora marcada. E eu espanto ele de mim. Porque minha sabedoria está morrendo há esperança começando de novo. Quando eu tive um sonho me vi com uma elegante mulher de uns 34, 35 anos linda, de seios fartos e uma incrível pele morena, cabelos sempre castanhos e ela me deitava em seu colo e me dizia como eu era lindo pra ela e como a minha presença tinha acrescentado uma estrela no céu. Choro todos os Domingos, sinto muitas saudades dos almoços de Domingo e das nossas conversas. Penso nos confetes, nas festas que iremos fazer quando ela tiver 38 anos... eu terei um pouco mais e já estarei descansado de tanto procurá-la.
Só posso dizer que me sinto um fugitivo. Em dias e noites de guerra a realidade e a história são nossos maiores amigos.

9/2 - Tenho tido muito tempo para pensar e estou em dívida com minhas reflexões.

Admito que estou sendo levado a pensar demais no meu trabalho. E agora quem está me causando problemas são as pessoas que trabalham comigo. São seres humanos que me fazem pensar no meu gosto por esportes individuais e atividades solitárias. São pessoas que se deixam levar pelas opiniões, assim como eu, aos 13, 14 anos de idade, era. Usam de ebeldia sem causa, falta de comunicação e hierarquias imbecis de idade e experiência para se defender de algo muito bem elaborado e pensado. Meu trabalho virou parte de minha obcessão por conhecer gente. Eu dizia mais novo que meu mundo era quem eu conhecia... e isto acabou se tornando uma máquina fotográfica insone. Como eu tenho notado, sou uma pessoa antipática, e meus colegas de trabalho estão abusando da minha antiga simpatia. Dou risada disto porque tenho alertado a todos de que seus pensamentos com relação a profissionalismo estão equivocados pelo valor que eles julgam ser o correto. Valor que eles dão a algo que não tem preço. Um paradoxo.
De uns tempos pra cá me distanciei de quem eu trabalhava porque eu já falei demais de mim. Não obtenho respostas, apenas reclamações matutinas e as vezes meio cumprimento de tarde. Separei, inclusive com apoio de meus amigos e sócios, quem trabalha com arte de quem trabalha por cachê. Finalmente eu notei que são trabalhos imiscíveis. Porque tempo nunca foi medida para dedicação ao trabalho. Não há tempo suficiente para quem vive. Mas se vc vê caviar e come feijão acha que sofre. Se vc dorme de favor e se conforma com isso; dorme em quarto mofado, come apenas sanduíches e toma suco de laranja; alimenta o cérebro com Stephen King e revistas técnicas. E namora por namorar... preciso dizer mais sobre as pessoas que trabalham comigo?
De um lado estou eu, sem armário, com 2 jogos de cama, um quarto sem tinta investindo meu tempo com cds, lps, leituras variadas e ainda pensando em produzir música, clipes, na família, em como gasto o dinheiro que ganho. E ainda resolvendo a vida dos outros porque tem mais gente que depende de meu trabalho. E isso não tem preço.
A mágoa que isso gerou é fruto de falta de comunicação. E como eu mesmo me disse, não vou fazer mais do que ouvir as necessidades de quem já me ouviu discursar horas e horas por essas viagens pelo interior. Acho que só eu já falei por eles todos tantas vezes sobre tantos assuntos que me sinto estúpido por não ter conseguido tocar seus corações com um pingo da chama de sucesso que eu tenho na vida. Admito porém que se não fosse por eles talvez meu trabalho não estivesse tão legal. Só que cada um com seu papel. Eles não dedicam seu tempo ao trabalho integralmente como eu. Por isso eu sorrio e hoje eles fingem chorar. Mas quem cai neste tipo de piada?

É bom lembrar o que vi. Na televisão cenas de futebol, de um clássico. A chamada "11 minutos podem fazer toda a diferença, podem mudar tudo" e as cenas do Fluminense imponente sobre o Flamengo com o som de "olé, olé, olé" intermitente ao fundo. Nunca vi igual na televisão. Pois o futebol carioca está uma merda e ponto.

09022003 - Tenho vivido uma vida muito privilegiada. Cheia de histórias, de momentos que não sei partilhar com a solidão, com a fome que sinto constantemente e com a eterna dor nos meus dentes. Um prazer que se mistura com tantas pequenas dores que a dor só me atinge se for realmente aguda. Minha consciência não tem estado muito leve nos últimos tempos. Tenho, como disse uma conhecida, uma vida muito promíscua e muitas coisas boas que me acontecem dependem da generosidade das pessoas que tenho conhecido e convivido. Não é fácil fazer amigos com a idade avançando... na real tenho sido antipático como sempre fui e escondi de todos desde sempre. Trabalhar minha paciência foi um passo para me descobrir como uma pessoa cheia de sonhos, um perseguidor de metas. A minha antipatia é disfarçada pelo sorriso que não sai de meus lábios, dos vinhos ótimos que tenho bebido e a qualidade das mulheres que vagam em minhas aspirações e desejos. O segredo é estar bem consigo. É ver além de si, das pessoas que estão diariamente tentando nos tocar. Minha antipatia vem do cansaço. Sou uma pessoa que fala, fala, fala, faz, faz, mas fala demais. E não há espaço na cabeça de muita gente pra tantas palavras. Meu cansaço ultrapassa isso e vai ao meu trabalho, as coisas que eu acredito e que preciso mudar em meu mundo surreal. Mundo dos festivais e de gente que está fazendo o que ama.
Sabe, preciso pensar menos em mulher. Elas consomem muito as minhas energias. Eu me dedico a satisfazê-las e fico aqui seduzindo a mim mesmo até saber o que dizer ou como me aproximar delas. As mulheres que eu gosto e me importo de verdade participam pouco do que sou, do que eu me tornei. Pela distância, pela minha própria desilusão de possuí-las. Pelo que o tempo me proporciona. Quem sabe da vida? Quem pode me dizer o quão errado eu estou? Mulheres, .. . , é preciso ter muito coragem para falar delas uma a uma. São muitas, algumas delas são sonhos e visões. Sei que isso me consome como a pós-modernidade, e Guri, nem sei mais se isso é uma coisa boa para mim. A busca pela equalização entre a crença em Deus, em mim e nas pequenas transformações não me torna um gênio, muito menos um ser único. E na pós-modernidade há uma anarquia de pensamento com relação às relações humanas as quais eu tenho dedicado bastante tempo também. Pena que todos meus pensamentos terminem com uma calcinha caindo pelas coxas dela e a primeira aparição dos pêlos lisos e ralos dessa morena que me inspira. Ontem mesmo eu estava andando por entre milhares de pessoas, todas me viam como um vagalume, muitas me pediam conselhos ou apenas uma foto. E eu estava a procura de uma só pessoa. Uma que eu não achei porque tenho azar. Eu só tenho aquilo que eu trabalho para ter. Mas isso não diz respeito as mulheres. Diz respeito a patrimônios. O demônio da humanidade é a propriedade privada. O dinheiro é a linguagem dele. Não tenho medo nem de Deus nem do Diabo. Mas tenho medo de mulher.
O que me leva a querer relatar uma experiência minha. Porque não há mais para quem dizer o que digo. Não tenho vontade. Preciso me comunicar pelo contato físico, e isso eu faço com mulher. É um enigma. Foi um enigma que nem riscou minha beleza. Acho que virei um escapamento furado de um carro que está a mais de 120Km/h, muito barulhento e intenso. E poluente também. Penso que as pessoas querem dar uma volta neste carro. Velho, não. Meio sujo, sim. Potente, as vezes. O que define esse carro sou eu, o escapamento que está esporrando por aí tudo o que ele legou a uma só pessoa. E esse tudo foi sendo diluído pela velocidade, pelas curvas de cada estrada pelo qual este carro passou. Não há vítimas mortais, apenas lágrimas de prazer ou tapas de mal-criação. O meu barulho é tão intenso que quem está perto precisa gritar ou entrar no meu ritmo para que tudo fique calmo. A brisa da alta velocidade é algo que define o sexo e a quantidade de curvas define o piloto. O que eu quero dizer? Como é que vc percebe que, sendo vc mesmo, dá mais prazer a álguem do que outros seus amigos? Já fiz esta pergunta para mim e para muitas mulheres. Nenhuma soube definir com precisão o que perguntei, mas algumas arriscaram a afinidade como um dos fatores. A afinidade instintiva aproxima os que se atraem e repele os que fedem, pode-se assim dizer. Por isso sei que fedo, mas há algo que sai deste escapamento velho que agrada. Eu queria andar mais no meu Maverick.

522003 - Tenho tido o prazer de ler um livro instigante e ao mesmo tempo filosófico. A filosofia é um caminho instigante também para que procura um caminho na vida. Mas no geral nosso instinto prevalece e se satisfaz sem pensamentos filosóficos. A bebida ou a maconha basta.
Bertrand Russel pensava em 1935 assim como qualquer pentelho de 12 anos caga hoje em dia. Cagar porque é assim que vejo a importância que se dá de verdade ao momento que temos vivido, hoje presente, amanhã parte da história do cotidiano. Sabe, daí veio Maria, a plebéia ensanguentada com bandeira em riste de Delacroix. Falando dela, da pintura, vem à tona o verdadeiro motivo deste texto. A beleza.
Temo que todos saibam o que é a beleza. Temo que esta sabedoria esteja esgotando o que é belo aos nossos olhos. O prazer que a beleza proporciona é condenado pelo ocidente, venerado pelo oriente e mutante. A beleza tem muitas facetas. Tem uma forma, um modelo que se define constantemente, como o tempo e as estrelas. Tem magia, daquelas que impregna nossas veias ou repele todo nosso medo da verdade e da novidade. O belo tem em mim um defensor. A natureza tratou de dar a beleza tanta variedade que o todo parece preencher também este quesito. Mas isso não é verdade.
Tudo não é belo. Todos não conseguem enxergar isto. Defina o feio e veremos uma população inteira reclamar de tudo na vida, de tudo o que é belo inclusive. A vida tem se levado para o individualismo e o materialismo. O belo está perdido em nossas vidas por essas linhas que tratam de moldar o pensamento para que o grego e o gigantesco continuem indiscutíveis. E eu penso que tem nas pequenas coisas tantas virtudes e possibilidades que a beleza se encaixaria ali como em muitos detalhes das mais belas obras que já se viu. Eu vejo beleza nos atos. Efêmeros, instantaneous. E nos bons pensamentos, no sorriso de quem acaba de ouvir mais um absurdo na vida.
Eu vivo rememorando os melhores momentos que já vi. Daqueles que me lembro, ahahahahhaha, porque em tudo pode haver uma vodca, um seio e muito amor volatile como álcool. As chamas da beleza estão queimando os olhos do ocidental a anos. Abram os olhos para a beleza que é estar vivo. Deixem sua alma vibrar com o éter, com o ar, com todas as coisas. Sinta quem te ama. Sinta no cheiro do ambiente as intenções das coisas. Liberte a alma do casulo que esconde o medo do simples e de nossas metas e sonhos. A beleza de dizer isso me dá vontade de estar……..eu estou sempre por aí, onde quer que a beleza e a feiura esteja. No final, é tudo parte da mesma energia. Uma se propaga leve e solta. A outra se propaga em fragmentos e desalinhada. E isso é normal e acontece.

Sinto paz e cada dia estou mais em paz. No sol da solidão está meu caminho para realizar o que é o meu desafio. Eu sorrio para a vida e aprecio cada detalhe, até os que não presencio, por entender e sentir que existe e tudo se define pelo que vc começa e termina na vida.

29012003 - Queria falar de muitas coisas. Muitas coisas passam pela minha cabeca e felizmente elas tem dado certo no mundo. Quando falta generosidade vem a doacao mais esperada. Quando falta amor vem a prova de confianca. Eu sinto que algo conspira a meu favor. Sou eu a favor de tanta coisa boa, doo ela a todos os que eu sinto que vivem. Tenho que falar da generosidade das mulheres comigo. Tenho que citar o exemplo de sucesso de Gisele Bundchen. Sinto que o comeco da pos-modernidade eh um sintoma da ociosidade (Russel e meu amigo Guri, leiam-se). Nao fosse pelas pessoas que me acompanham e me entendem... nao fosse a saudade da vida boa e a propria boemia me consumiria como uma moqueca. Me impressiona que todos queiram trepar sem camisinha... pelo bem da humanidade! Eh algo que um velho como eu deveria ter como memoria... hum.... 1998. Que nada me modifique, obrigado.
Venho novamente tendo aquela impressao de dejavu. Como eu pressinto o medo e a intuicao tem sido minha maior amiga acabei dando vazao ao que antes sentia. Uma onda turbulenta de energia ronda nosso mundo como que a espera de nossa fraqueza. A manifestacao evidente de minha preocupacao sao inumeras. Acontecem rotineiramente. Mas a somatoria delas eh que assusta. A natureza pede licenca para agir em seu nome. Somos o que ela deixar-nos ser... ou o elemento transformador acabara de vez com nossa humildade.
Esse que foi um dia o mundo eh algo que roda na linguagem da moeda. Quem diria. Foi-se a bondade na protecao e na poupanca. Hoje quem guarda o que tem esta cooperando com o roubo.
Rodeios rodeios para dizer o que todos repudiam. Estou aqui na minha casa detonando todas as fumacas, pensando seriamente em meus amigos e no estrago que eles promovem. Dou muita risada, mas estou meio passado. Bebo, fumo, estou sempre de pau duro. Mas o que ha com eles afinal? Vou descrever a melhor onda do mundo. Uma vodca, gelo.... beba metade da garrafa e depois fume um baseado.... aposto que vc ou vomitara ou perdera sua memoria por instantes.... eu deixo aqui o convite. Tenho um encontro com o coiote com o corvo e com o lagarto no Chile. Penso todos os dias no amor que pode se extinguir se existir. Recebi a mensagem de que sou feliz e do bem. Me ajude a cumprir o que transpareco. O bom exemplo de um caminho que nao para de abrir portas.
Beber com os amigos eh massa!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 2003 Macho nao tem vez! Quem nao me teve ainda pode me ter.

15012003 - Penso muito sobre meus amigos e como eles estão. Muito devo a eles e dedico muito do que desejo à memória e saudade que sinto de todos eles. Sou um homem de muitos amigos de verdade. Uma pessoa que tem muitos melhores amigos e muita gente boa ao redor. Fico pensando em Bob Dylan, suas namoradas e casos. Penso no meu escrito favorito, em como de Dezembro a Janeiro muita coisa mudou. Mas o que posso descrever sobre a mudança? Quase nada. De tão sutil, mal raspou a mim. Acertou em cheio o seu coração. O amor...
O amor me acertou em cheio o peito. Foi de 1993 até uns dias atrás. O mesmo amor delirante e vívido e quente que eu já experimentei algumas vezes. Do jeito que o amor me influencia quero muito vê-lo ainda muitas vezes. O amor é platônico, fraterno, é efêmero quando sublime e doce ao amanhecer... a ressaca de amor é a cumplicidade do leito. No meu leito se deitam beldades. As melhores mulheres e as mais generosas. Todas elas. Prefiro as bêbadas, as festeiras e muitas vezes prefiro apenas vê-las... sendo tocadas por mim. Sou um amante da arte. Espero viver a boemia como sempre desejei. Não posso falar da consciência em mim. Estou lúcido demais para humildemente pedir perdão e um bom presságio. Muitos deles já me acompanham a tempos. E eu estou jorrando sentimentos por aí... muitos, mas muitos, mais muitos deles são do bem. Os pensamentos maus eu tenho guardado em mim e transformado em um ideal. A busca é final.
Um brinde a Cheech! Uma feliz amizade que me encoraja. Quero curá-la. Quero protegê-la. Quero ve-la brilhando de dia. Quero vê-la igualmente bela de noite. Vodca e Anfetaminas para brindar algo impossivel e belo. Eu e minha amiga... dos outros eu a verei. Dela verei além. Poderei ver você. Cuidado.

Por isso que eu penso nos meus amigos. Pena que eles estão lá e eu aqui. Um deles me diria que eu estou lá e eles aqui. O que me interessa é a apreciação. Se eles gostam, ok. Mas prefiro as gatas. Minha vez e dela.

2002

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