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Mon beau Serge Jane Birkin fala de Serge Gainsbourg No mês de março, a França parou para comemorar dez anos da morte de Serge Gainsbourg. Objeto de culto no mundo pop devido à sua personalidade multifacetada, seus textos inteligentes e sua sede enorme de inovação musical, Gainsbourg é hoje unanimidade em uma França que nem sempre aceitou seu estilo polêmico. Vide o famoso caso de sua versão rastafari da Marselhesa, que lhe valeu ameaça de atentados patrocinados pelos para-quedistas da extrema direita. Mas, ao que parece, tudo isto é passado. Hoje, as lojas ficaram abarrotadas de lançamentos como Gaisnbourg for ever (caixa de 18 CDs com a integral de sua obra), I love serge (remixes de Howie B., Sonooze e companhia) e de relançamentos como Serge Gainsbourg, de desconstruções musicais de John Zorn. Não houve periódico que não dedicou sua primeira capa ao primeiro músico popular francês que virou referência internacional para os ouvintes de Beck, Madonna e Sonic Youth. "Tenho certeza de que um dia Serge virará nome de metrô", diz Jane Birkin: sua mulher durante doze anos e séria candidata a um dos maiores ícones femininos da França dos últimos anos. Junto com Gainsbourg, Birkin formou um casal mitológico e hiper-mediático. Atriz, cineasta, dramaturga e cantora, Birkin divide-se hoje entre ações humanitárias e uma carreira de cantora pavimentada por um repertório feito sob medida por Gainsbourg. Nesta entrevista exclusiva em Paris ela fala de seu trabalho e, principalmente, de seu encontro com �Serge�. Em uma entrevista recente, você afirmou que, antes de conhecer Serge Gainsbourg, sua vida era bem convencional. Você poderia descrevê-la? É verdade que disse isto mas minha família não era exatamente convencional. Meu pai era um homem notável que participou da resistência francesa. Ele era um �passador� que navegou mais de sessenta vezes até a costa da Bretanha para levar fugitivos franceses à Inglaterra. Já minha mãe era uma atriz muito célebre e muito bela que se transformou em uma espécie de heroína na Segunda Guerra por ter participado ativamente de programas de rádio e representações teatrais em prol do exército. Hoje, ela retomou sua carreira e, com 84 anos, está fazendo a avó de Proust no Teatro Nacional de Londres. Quanto a mim, tive uma vida convencional em internatos durante a pré-adolescência. Aos dezessete anos, fiz minha primeira audição de teatro, graças à minha mãe que conhecia o diretor. Eu havia esquecido meu texto e o diretor disse que não era grave pois meu papel era o de uma surda-muda em uma peça de Graham Greene. Nesta comédia musical, eu acabei me casando com o compositor, John Barry. Toda minha família disse que não era uma boa idéia porque John já havia sido casado uma vez e tinha uma filha com a au-pair da sua primeira mulher. Sua reputação era péssima: mad, bad and dangerous to know. Após três anos, tive minha filha Kate e, quando John me deixou, me vi na situação de ter que ganhar minha vida. Nesta época, fui para a França fazer uma audição para um filme, Slogan. Acabei conseguindo o papel e lá conheci o homem que iria protagonizar o filme comigo: Serge Gainsbourg. Mas é certo que, se tudo tivesse dado certo com John Barry eu teria continuado a levar um vida bem banal. Tanto que a Newsweek da época escreveu: "John Barry, seu Jaguar tipo A e sua garota tipo A". É verdade que eu acreditava ter sido feita para ser a mulher da casa que cuida do bebê e é perfeita. Nesta época você trabalhou também em Blow-up, de Antonioni. Enquanto eu estava casada com John Barry e encenava na comédia musical, Antonioni enviou algumas pessoas para procurar garotas interessantes em Londres. Acabei indo fazer uma audição que consistia em escrever meu nome com um giz em uma parede e virar de perfil de vez em quando. Quase no fim do meu nome, um italiano apareceu gritando comigo e me insultando, eu comecei a chorar. Neste momento, Antonioni chegou na sala dizendo: �Basta. Tudo o que eu queria era saber se você sabia chorar. O papel é seu. Mas te previno que você deverá aparecer nua. Vá para casa, pense um pouco e depois conversamos�. Voltei para casa e disse tudo a John Barry, que ria da minha cara dizendo: �Você só vai para a cama com as luzes apagadas. Como você teria coragem de aparecer nua em um filme?�. Isto me deu forças para aceitar o papel. Depois, John me disse: �Só mesmo o melhor cineasta do mundo para te fazer tirar a roupa�. Bem, o filme foi um sucesso e acabei sendo conhecida como Jane �Blow up� Birkin, isto antes de virar Jane �Je t�aime� Birkin. Você havia cantado antes de fazer duo com Gainsbourg em Je t�aime, moi non plus? Eu havia cantado uma canção quando fazia comédia musical mas foi tudo. Quando Serge me ouviu cantar em uma tonalidade muito aguda, ele achou ideal para Je t�aime. O que me deixou muito feliz porque eu já sabia que várias belas mulheres diziam a Serge: "Aquela canção que você fez com Bardot e que ela te impediu de lançar, você não quer fazê-la comigo? ". Assim, quando ele perguntou se eu queria cantar, eu disse imediatamente sim. Nós fomos à Londres gravar a música e, quando retornamos, Serge levou-a ao chefe da Phonogram, que lhe disse: "Por que você acha que eu quero ir para a cadeia por causa de uma canção? Se for para ir para a cadeia, é melhor fazermos um disco inteiro". Por causa disto, voltamos a Londres e Serge compôs várias outras canções para mim, como 69 année érotique etc. Sempre canções para um personagem que ele me criou: uma espécie de Lolita E como era o sistema de trabalho entre você e Gainsbourg Serge nunca procurava a perfeição. Bastava apenas que a coisa o comovesse. É provavelmente por isto que ele gostava de cantar com atrizes. Ele preferia escutar uma atriz a uma �voz� perfeita. Daí porque Serge recusou-se a trabalhar com Piaf. Ele realmente acreditava que não era a boa pessoa para isto, que suas canções eram muito sofisticadas. Você disse que Gainsbourg construiu um personagem para você, uma espécie de Lolita. Como você se sentia com este personagem? No início eu gostava mas, aos poucos, eu percebi que não me parecia mais com esta Lolita. Eu não era mais ela. Com vinte anos, eu estava muito feliz por ter encontrado alguém que me via como o critério de beleza. Os seios davam medo a Serge e eu não os tinha. Uma mulher que parecesse com um garoto o permitiria jogar com sua ambigüidade sexual e eu tinha exatamente este físico. Mas Serge não queria que as pessoas mudassem. Quando Charlotte cresceu e seus pés não cabiam mais na cama eu disse que precisávamos comprar uma cama nova, ele me respondeu: �Basta que ela use meias�. Ele era assim. A História de Melody Nelson é hoje um disco cultuado por toda uma geração de novos cantores pop (Beck, Madonna, SonicYouth). No seu ponto de vista, porque ele tem este lugar privilegiado? Serge foi praticamente a única pessoa a ter a idéia de fazer um album que é uma história completa, tal como uma ópera. Mas, na época, ninguém comprava o disco e eu não conseguia entender. Lembro que meu irmão batia nas portas das rádios de Londres com o disco e ninguém queria saber. Foi preciso esperar que Madonna, Johnny Deep, Vanessa Paradis dissessem que Melody Nelson era um dos discos que mais o influenciaram. E por que Gainsbourg está se transformando em uma espécie de ícone pop, principalmente no mundo anglo-saxão? Eu acho que isto está acontecendo só agora porque Serge esteve sempre à frente. A sua morte já tinha sido um drama nacional. Mas isto estava restrito à França. Na Inglaterra, eles percebiam que havia um luto aqui durante toda a semana mas ninguém compreendia a razão. Para os ingleses, Serge era apenas o sujeito que tinha feito Je t�aime, moi non plus, que queimava dinheiro na TV e que tinha insultado Whitney Houston. Há nove anos, eu tentei organizar um tributo a Serge na Inglaterra. Como poucos ingressos tinham sido vendidos, eu compreendi que precisava dar entrevistas em todos os jornais. Quando comecei a falar com os tablóides, um jornalista chegou a me perguntar coisas como: �Você se sente responsável por doenças como a AIDS?�, �Você pensa em lançar mais algum dirty record?�. Isto faz apenas dez anos. Então percebi que tinha um grande trabalho a fazer. Voltei a Paris e telefonei a todas as pessoas que os ingleses conheciam: Bardot, Claudia Cardinale, Françoise Hardy, Jack Lang, Chirac, Mitterrand. A todas eu pedi para que escrevessem três linhas sobre Serge. Com este material, eu embarquei à Inglaterra, Dirk Bogart me ajudou e o tributo foi um sucesso. Depois disto, ficou claro para mim que os ingleses não conheciam a qualidade literária de Serge. Isto só ficou evidente para a geração que hoje tem 20 anos Mesmo depois da separação entre você dois, Gainsbourg continuou a compor canções para você? Um ano depois da separação ele me pediu para fazer outro disco. Ele não tinha nenhum sentimento de vingança ou revanche. Para Serge, tudo tinha sido culpa dele e do seu alcolismo. O disco era Baby alone in Babylone, que foi meu primeiro disco de ouro, e lá estão as mais belas canções que já ouvi sobre separação. Quando comecei a cantá-las, percebi que Serge me fazia cantar seu lado B, seu lado feminino. Ele não fez exatamente músicas para mim, ele me fez encarná-lo. No último disco Amour de feinte havia uma letra que dizia: �você ficou com o melhor de mim�. Era uma mensagem muito pessoal e direta. Em outra entrevista, você disse que ele construiu a mitologia do casal que sobrevive para além da ruptura. Por que Gainsbourg precisava desta mitologia? Lembro-me que, quando Serge fez os discos com Bambou (a última mulher de Gainsbourg) e viu que eles não vendiam bem, ele me ligou dizendo: �Bem, o que você quer? Para o público, o casal somos nós�. Se os discos tivessem sido �número 1� talvez ele deixasse de lado a mitologia do casal (risos). Gainsbourg ficou também conhecido por usar bastante a mídia e a provocação, principalmente nos últimos anos de sua vida. Isto porque, desde adolescente, Serge se sentia feio, com grandes orelhas, mal-amado. Ele sempre me dizia que gostaria de se parecer com Robert Taylor. E mesmo tendo as mulheres mais belas do mundo, sua insegurança persistiu. Todos os dias, ele saía para comprar os jornais a fim de ver se havia saído algo sobre ele. Era sua maneira de se assegurar que continuava vivo e amado. Na época da nossa separação, eu ataquei a Paris-Match por ter me colocado junto com nossa filha na capa e feito sensacionalismo com a ruptura do �casal infernal�. Quando Serge soube, ele me ligou dizendo: �Você está louca? Nós vendemos mais revistas do que a morte do papa�. Mesmo em meio a uma tristeza real ele não podia resistir à idéia da mitologia do casal perfeito. Mas creio que Serge será lembrado não só por suas intervenções na mídia mas, principalmente, por ter sido um poeta. Seus textos são hoje ensinados nas escolas. Serge nunca esforçou-se em ser acessível. Ao contrário, com o tempo, suas rimas foram ficando cada vez mais difíceis. Ele recortava as palavras como um Cole Porter. Há trinta anos, ele disse que a língua francesa precisava ser reinventada. Bem, ele contribuiu a esta reinvenção. |