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JAMES ENSOR 1860-1949
UM SER MARGINAL E SOLIT�RIO |
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"julgo que como pintor sou inclassific�vel." J.Ensor |
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N�o � f�cil encontrar um art�sta dos finais do s�culo XIX cuja obra seja mais complexa, mais bizarra, e t�o rica de interpreta��es poss�veis do que a do pintor belga, James Ensor. E disso mesmo estava o pintor consciente, como comprovam as suas palavras: <<Julgo que como pintor sou inclassific�vel>>. Ao morrer, em 1949, Ensor deixa numerosos desenhos, gravuras e pinturas, no entanto, o seu per�odo �ureo situa-se entre 1885 e 1895, ou seja, entre os vinte e cinco e trinta e cinco anos de idade. Se � fato que ao longo da vida foram as m�scaras grotescas que o tornaram conhecido do grande p�blico, as paisagens e as naturezas mortas, tal como os seus ins�litos trabalhos gr�ficos, continuam ainda hoje por descobrir. Ensor, um homem obstinado e anticonformista, pouca import�ncia dava �s grandes correntes art�sticas dominantes no seu tempo, marcadas sobretudo pelo realismo de Gustave Coubert e o impressionismo franc�s cujo chefe de fila era Claude Monet. A sua pintura expressiva, frequentemente caracterizada por formas fant�sticas e tonalidades quase agressivas, a sua vis�o obstinadamente subjetiva das coisas influenciam duradouramente numerosos art�stas do s�culo XX. Sobre este aspecto sublinharemos em particular o caso dos pintores alem�es Emil Nolde (1867-1956) e George Grosz (1893-1959) - mais tarde naturalizado americano -, do sui�o Paul Klee (1879-1940), e do desenhista e gravurista austr�aco Alfred Kudin (1877-1959). Mas quem era este criador de um universo t�o fant�stico e controvertido, este homem que vivia retirado do mundo, cuja obra multifacetada continua ainda hoje a incomodar quem a v�? O quadro Ensor de chap�u forido (abaixo), pintado em 1883 e retomado em 1888,revela-n0s um rosto voluntarioso, obstinado at�, que parece fixar o observador com um ar distante e cr�tico.
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Ensor de ch�p�u florido 1883-1888 �leo sobre tela, 76.6 x 61.5 Ostende, Museum voor Schone Kunsten
Este pertubante auto-retrato, a meio caminho entre o realismo e o fant�stico, � uma das primeiras obras de arte de Ensor. O olhar desafiante sublinha a seguran�a do art�sta narc�sico que se compara a Rubens, o c�lebre pintor flamengo do barroco. O chap�u, o bigode � mosqueteiro e a moldura circular do espelho seriam acrescentado cinco anos mais tarde, quando o pintor come�ou a utilizar cores mais claras, por influ�ncia do impressionismo. |
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Cinco anos depois de o ter conclu�do, Ensor reformulou este auto-retrato, sobrecarregando-o com um chap�u emplumado e uma coroa florida, um bigode de mosqueteiro e acrescentando-lhe um espelho circular, numa alus�o a um auto-retrato de Peter Paul Rubens ( 1577-1640), o mais famoso pintor flamengo do per�odo barroco. Desejaria Ensor colocar o seu talento ao mesmo n�vel do seu vener�vel compatriota? A sua inten��o era parodiar Rubens ou tro�ar de si pr�prio? O art�sta, que se definia a si mesmo como um ser genial e �nico no seu genero, anuncia em 1911 que <<tinha antecipado todas as tend�ncias modernas>>, e f�-lo <<em todas as dire��es>>. Tudo leva a crer que Ensor se considerava a partir dali o maior pintor moderno da Flandres, julgando at� ter direito, tal como Rubens, a um lugar de destaque no panorama art�stico da B�lgica. Os seus �ltimos auto-retratos s�o, em contrapartida, profundamente marcados pela desilus�o, por vezes mesmo pela armagura, o medo e a obsess�o da morte; em v�o procuramos neles aqueles tra�os voluntariosos e de orgulho, aqueles laivos de humor que caracterizam as obras de juventude. James Ensor nasceu a 13 de Abril de 1860, em Ostende, cidade do litoral da B�lgica. No seu pa�s natal, a monarquia n�o tem mais do que trinta anos de vida, a Igreja debate-se vigorosamente por conservar a sua influ�ncia, as transforma��es motivadas pelo r�pido desenvolvimento industrial geram profundas tens�es sociais, e verificam-se confrontos entre os dois grupos �tnicos de l�ngua tradi��es diferentes: flamengos e val�es. As rela��es de for�a na B�lgica, sejam elas de car�cter pol�tico, socio-econ�mico ou �tnico, continuam a ser o tema dos quadros de Ensor. A forma por vezes totalmente irreverente com a qual trata a autoridade estabelecida chega a chocar os pr�prios amigos e conhecidos. Quadros como a A Alimenta��o doutrin�ria, de 1889, no qual o rei Leopoldo II e representantes do Ex�rcito, da Igreja e da Administra��o prodigalizam � multid�o, de boca aberta, os seus excrementos, ilustram bem a sua cr�tica <<an�rquica>>. Pode dizer-se que Ensor nunca abandonar� Ostende. Um pacato porto de pescadores adormecido ao longo do Inverno, chegado o Ver�o, a cidade de dezesseis mil habitantes transforma-se numa est�ncia balnear extremamente mundana, frequentada pela Casa Real belga e a fina flor da sociedade europeia, sobretudo ingleses. O pai, James Frederic Ensor, nasceu no seio de uma pr�spera fam�lia brit�nica. Tendo frequentado a faculdade de Medicina de Bona, na Alemanha, falava v�rias l�nguas e passa por ser bom m�sico. Passados anos, ser� ele o �nico a demonstrar interesse e compreens�o pela carreira art�stica de James. Ap�s uma estadia na Am�rica e embora n�o tenha conseguido estabelecer-se profissionalmente em Ostende, o pai de Ensor mant�m-se na cidade, onde casa com uma rapariga de origem local. Maria-Catherina Haegheman � oriunda de uma classe social bem mais modesta. Analfabetos, os av�s maternos de Ensor, s�o donos de uma loja de rendas de Bruxelas, o irm�o vende conchas e, em sociedade com a irm�, Mimi, dirige uma loja de bric-�-brac ex�tico e artigos de carnaval - m�scaras, brincadeiras, quinquilharias e lantejoulas, disfarces, etc. Recheada dos mais bizarros trastes, a loja, onde, j� adulto, Ensor ajudava a m�e durante os meses de ver�o, alimenta j� a imagina��o do adolescente. O art�sta afirmara mais tarde:<<...Passei a minha adolesc�ncia rodeado do esplendor das conchas nacaradas de mil reflexos iridiscentes, de esqueletos bizarros, monstros e plantas marinhos. Este ambiente opulento de cores magn�ficas, de reflexos e de radia��es contribuiu para fazer de mim um pintor apaixonado pela cor e sens�vel aos maravilhosos reflexos da luz.>>
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Esqueletos procurando aquecerem-se, 1889 �leo sobre tela, 74.8 x 60cm Forth Worth (Texas), Kimbell Art Museum
Exangues, os esqueletos serviram-se das suas �ltimas for�as para se reunirem em torno do fog�o. Por�m, a chama extinta e as cinzas frias retiram-lhes toda a esperan�a de calor e de vida. Ensor serve-se aqui do vestu�rio e dos s�mbolos dos personagens para obter um jogo sutil de cor e luz. |
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A senhora de preto, 1881 �leo sobre tela, 100 x 80cm Bruxelas, Mus�es royaux des Beaux-Arts de Belgique
A audaciosa combina��o das cores confere ao quadro uma atmosfera tensa, quase dram�tica. Foi a irm� de Ensor, Mitche, que posou para esta obra. |
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Os maus m�dicos, 1892 �leo sobre madeira 50 x 61 cm Bruxelas, Universit� Libre de Bruxelles
A avers�o que Ensor nutre pelos padres, os pol�ticos, os m�dicos e os ju�zes consubstancia-se em caricaturas corrosivas. Neste caso, o pintor escarnece dos m�dicos, representando-os em plena a��o, patenteando a sua idiotice e incompet�ncia. |
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Auto-retrato, 1889 �gua-forte sobre pergaminho, 11.6 x 7.5 cm Ostende, Museum voor Schone Kunsten
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O meu retrato esqueletizado, 1899 �gua-forte sobre papel artesanal, 11.6 x 7.5 cm Ostende, Museum voor Schone Kunsten |
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Uma fotografia de Ensor, tirada em casa dos Rousseau, em Bruxelas,serviu de modelo a esta obra. Esta primeira vers�o da �gua-forte mostra Ensor com fei��es <<normais>>. Ap�s sucessivos retoques, o pintor vai <<descarnando>> progressivamente o rosto, representando-se numa pose orgulhosa de vencedor, semelhante � da Morte. |
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Ensor Ulrike Becks-Malorny As m�scaras, o mar e a morte Tradu��o: Alexandre Correia, Lisboa Revis�o: Ant�nio Rocha, Lisboa Taschen |
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