Prática do Racionalismo Cristão

O Racionalismo Cristão expressa, neste título, a conjugação de duas práticas sublimadas. Racionalismo é palavra ligada ao procedimento dentro do raciocínio e da razão. Temos de buscar a razão ou a justiça na ação do raciocínio ou do pensamento bem orientado.

O raciocínio, trabalhado com profundidade e apuro, é iluminativo, quando elevado, e o seu uso criteriosamente esmerado é uma prática que nos conduz a conclusões lógicas, dentro da Verdade. O raciocínio lógico descobre as dolosas maquinações engendradas pelos prevaricadores. Raciocinar com consciência é promover bases sólidas para alcançar as convicções verdadeiras, é desvendar, é encontrar o que se procura no emaranhado das idéias. A palavra "Cristão", associada a "Racionalismo", completa o sentido revelador da Doutrina. Jesus expressou-se racionalmente, e a sua Doutrina é ensinada no Centro Redentor e suas Filiais. Ser Cristão e Racionalista é viver a vida terrena sob normas espiritualistas do mais alto padrão; é saber preparar o espírito para a vida presente e futura, e não para apresentar-se numa ou noutra como transgressor ou faltoso, mas como um ser esclarecido, consciente do seu estado e das suas condições espirituais.

 

Introdução

Este livro, dedicado aos militantes do Racionalismo Cristão, é a parte prática da Doutrina apresentada dentro de um critério disciplinado e uniforme. Destina-se, pois, àqueles que já conhecem os seus ensinamentos e compreendem a sua verdadeira finalidade.

Somente os que estudaram o conteúdo das demais obras racionalistas cristãs e absorveram, com proveito, os ensinos contidos nessas obras, estão em condições de compreender a parte prática da Doutrina e dar-lhe o devido valor.

Aqueles que a analisaram sob este aspecto prático, antes de inteirar-se do seu sentido eminentemente espiritualista, estabeleceram confusões que os levaram a tirar conclusões menos exatas da sua essência.

Hoje, com a edição desta obra, foi reparada a inconveniência apontada. A obra básica, Racionalismo Cristão, contém o espírito da Doutrina, em suas características fundamentais. Nela o estudioso define a sua posição. Se não estiver suficientemente maduro para sentir o desejo de firmar-se nesta Corrente Espiritualista, escusa-se de entrar em outros pormenores.

Não resta a menor dúvida de que estão em evolução, na Terra, espíritos de várias classes ou planos; portanto, a capacidade de absorver assuntos espirituais varia, de acordo com essas classes.

Estão nesse caso, para exemplificar, os que obstinadamente repelem o conceito das reencarnações. A lógica deste conceito tem um grande poder de convicção para quem possua a capacidade espiritual de penetrar no âmago da sua razão de ser.

No entanto, os que conservam a mente fechada a essa realidade têm o campo visual da espiritualidade sumamente restrito e são incapazes de aceitar outro conceito que não seja o de que se encontram saturados. É uma situação, de fato, difícil de ser alterada, pelo menos em curto prazo.

Assim, os que não podem aceitar o Racionalismo Cristão estão coerentes com o seu estado e precisam passar por experiências que outros passaram, aprendendo lições ainda não absorvidas e livrando-se de concepções materialistas ou de limitações terrenas que lhes foram marteladas no espírito, em encarnações seguidas. Isso só se dará com o correr do tempo, com as viagens contínuas, de ida e volta, entre a Terra e o plano astral.

Entregar, pois, um livro destes a quem não está em condições de o receber, é praticar um desperdício, embora a sua difusão não seja limitada aos seres esclarecidos sobre os problemas fundamentais da vida, como os que exercem funções nas Casas Racionalistas Cristãs; ele interessa a todos os que quiserem estudar, com seriedade, a vida fora da matéria.

Não há aqui a pretensão de esconder um conhecimento e torná-lo secreto, pois no Racionalismo Cristão nada se oculta. A Verdade é explanada com franqueza, sem subterfúgios, meios-termos ou evasivas. Por isso, os que preferem viver de promessas ilusórias, sem querer enfrentar os rigores da realidade, não se acomodam com a dureza de verem desvendadas, pela iluminação interior, as infrações que cometem no trato comum do viver cotidiano.

Não se afirma também ser o Racionalismo Cristão detentor exclusivo da Verdade. Esta está por aí, ao alcance de todos. Busquem-na os que se empenharem em encontrá-la, sabendo raciocinar. O ser humano possui livre-arbítrio, e tem o poder do raciocínio. No Racionalismo Cristão estimula-se o desenvolvimento desse poder e do propósito de fazer-se dele bom e acertado uso. Não se quer nada forçado, nada que contrarie o que determinam as leis naturais e imutáveis que definem o Poder Universal.

Muitos são os que não se filiam ao Racionalismo Cristão, para poder continuar alimentando certos vícios que reputam de pequena expressão, com o que revelam vontade fraca, apego a sensações terrenas, insensibilidade ao desperdício, descaso pela associação aos espíritos do astral inferior, e negatividade para as funções espirituais.

Esses hão de voltar, mais tarde, a renovar o mesmo curso, no correr dos séculos, quando, por alto preço pago com sofrimento, todos os índices negativos terão de desaparecer. Ninguém se deve aborrecer por não poder reformar o mundo com a força de uma rajada. Cada qual é responsável pelos próprios atos e pelo resgatar dos seus débitos, à sua custa exclusiva. Nesse período de prestação de contas, o mundo é radicalmente surdo às suas lamentações.

Só o conhecimento da Verdade libertará os homens das algemas do materialismo entorpecente. E não se diga que a Terra não oferece os meios de conhecê-la. Pelo contrário, aqui, neste laboratório psíquico, é que todos terão de encontrar o verdadeiro caminho, que é o da evolução.

A essa rota chegam os que confiam em si mesmos como componentes da Força Inteligente que governa o Universo. Aqueles que vêem no princípio básico da espiritualidade o rumo iluminado da ascensão a planos mais elevados, sabem que a vida é eterna, que a evolução se processa em encarnações sucessivas e que tanto mais será apressado o progresso individual, quanto mais rápido for o desligamento dos atrativos materiais e terrenos, substituídos pelo prazer do dever cumprido, pela alegria de proporcionar felicidade, pela satisfação de sentir-se útil, pela paz interior que deriva da exata compreensão do que lhe cabe fazer na posição que ocupa no seio da coletividade.

A evolução pode processar-se, lentamente, à custa de doloroso resgate de débitos morais produzidos, incessantemente, num percurso de milhares de anos, em que se renovam centenas e centenas de encarnações, umas perdidas e outras mal aproveitadas, ou mais depressa, evitando-se a prática de erros.

No primeiro caso evidencia-se a falta de critério, quando o indivíduo se deixa vencer pelos gozos terrenos, entregando-se ao vício de comer abusivamente, de beber, de fumar, de luxar, com o que passa a ser influenciado por forças afins do astral inferior. Neste estado, fica envolvido por uma vibração sensualista, dentro da qual reflete toda a sua natureza adulterada ou degenerada.

Em tais condições mórbidas, pode o indivíduo encarnar e desencarnar, sucessivamente, milhares de vezes, sempre marcando passo na escala da evolução. Conhece, nessa trajetória multimilenária, a loucura, a delinqüência, o crime, o suicídio, a miséria, a escravatura, a humilhação, o desprezo, a revolta, a fome e demais formas de sofrimento físico, moral e espiritual.

Um dia, porém, o espírito, cansado de tanto sofrimento, de tantos erros procura raciocinar sobre as misérias terrenas. É quando ligeira aragem espiritual principia a manifestar-se. Sempre que o ser se inclinar para as idéias e sentimentos morais elevados, novas oportunidades vão-se-lhe apresentando para progredir espiritualmente.

Entretanto, somente quando ele começa a sentir que a sua evolução pode seguir um curso mais apressado, é que se dispõe, com firmeza, a abolir os erros praticados conscientemente.

Jesus recomendava que se examinassem todas as coisas e se retivesse o que fosse bom, isto é, o que fosse verdadeiro e útil. Essas palavras vão de encontro às que proíbem leituras morais divergentes das sectáricas, ou delas se esquiva o leitor. O Racionalismo Cristão vem, com o apoio nas lições do Astral Superior, afirmando a verdade sobre a lei das reencarnações e o nulo efeito dos perdões. É pena que para essa verdade tantos se obstinem em fechar os olhos.

Uma vez chegados à convicção, pela iluminação espiritual, de que os erros têm de ser resgatados por quem os pratica, custe o que custar, leve o resgate o tempo que levar, sem nenhuma possibilidade de serem perdoados ou anulados, então um novo critério passará a ser adotado.

Não havendo erros a resgatar, (ou quando estes são mínimos) os sofrimentos quase desaparecem, os bons hábitos tomam o lugar dos maus, as correntes brancas do bem afastam os espíritos do astral inferior, começa a haver mais saúde e tranqüilidade, os negócios prosperam, a amizade no meio social floresce e a vida se transforma.

São considerados erros os atos que contrariem as leis naturais, e entre eles, a alimentação de vícios de qualquer espécie e tudo quanto seja cometido em prejuízo próprio ou do próximo: as ações denunciadoras da falta de caráter; as fraquezas morais, o desperdício, a leviandade, a luxúria, a indolência, a vingança, a mentira, a infidelidade, a traição, a mistificação, as apropriações indébitas, as injustiças e outras práticas idênticas.

Deve, pois, considerar-se a vantagem de ser processada a evolução por um caminho mais curto, evitando tanto quanto possível, as longas e desnecessárias caminhadas que acarretem sofrimentos inúteis. É esta, aliás, a orientação que os ensinamentos do Racionalismo Cristão a todos proporcionam, e só fecham os olhos para eles os que realmente estiverem incapacitados de os apreender, seja pelo estado mental, pelo fanatismo, pela inconformação de deixarem velhas crenças, hábitos e costumes, ou pela falta de sinceridade e de espírito de renúncia.

É certo que o sectarismo religioso também condena os erros apontados. O mal está, no entanto, em serem os sectários pedintes obstinados e esmoleiros inveterados; em fazer campanhas ostensivas de angariação de dinheiro, tomando-o, por opressão moral, sem se limitarem ao círculo dos prosélitos; o mal está em apresentarem ao mundo um deus materializado, sem onisciência; em admitir o perdão para os erros cometidos, mesmo quando tenham redundado em graves prejuízos morais e físicos para terceiros; em desconhecerem o que se passa depois da desencarnação, limitando-se a fantasiar acanhados conceitos lendários, de nenhuma realidade, quando, na época que atravessamos, já não há mais barreira intransponível entre esta e a outra vida; em se recusarem a aceitar a verdade sobre as reencarnações, pela completa ignorância do processo evolutivo universal; em incutirem idéias falsas de inferno, de céu paradisíaco, de condenação eterna, ridicularizando, deste modo a Justiça emanada das leis espirituais; em fecharem o raciocínio ao cenário da vida, que apresenta à reflexão cegos e loucos, aleijados e maltrapilhos, ao lado de ricos e sábios, poderosos e sadios, sem atentar para a evidência das culpas e responsabilidades, do mérito e dos acervos espirituais, tudo isso também porque apreciam a vida no curto e limitado espaço de uma existência terrena efêmera, quando ela tem de ser considerada através de numerosas reencarnações, uma vez que os fatos da existência presente estão diretamente ligados ou associados aos das vidas anteriores.

Assim se pode compreender porque não convém entregar um livro destes a um sectário. A sua concepção de vida está formada sob um outro aspecto. Ele encontra-se viajando por um caminho sinuoso, e este, apesar disso, mais lhe agrada; ele também chegará à meta final, muito embora isso possa levar séculos incontáveis e encarnações saturadas de dor.

Por mais renitente e irredutível que seja o ser humano em aceitar a sua verdadeira condição espiritual, chegará o dia do enfartamento dos prazeres ilusórios da vida material. Isto porque não há condenação eterna. Todos terão a sua oportunidade e, enquanto ela não for aproveitada, voltará a apresentar-se, intermitentemente, em outras vidas, cada vez se situando em níveis mais acessíveis ao seu descobrimento, que é facilitado pela insuficiência de meios, de reservas, de modo que o sofrimento, sempre próximo, esteja pronto a manifestar-se.

Diante de tais perspectivas, não deixa de ser uma aventura possuir o indivíduo condições espirituais para sentir o que este livro encerra, e encontrar nele um caminho para as suas realizações, na prática dos princípios doutrinários. O objetivo alcançado será a disposição firme de pautar os atos da vida, em todas as ocasiões, pelos ensinos revelados pelo Racionalismo Cristão, na certeza de que está correspondendo a elevados compromissos.

Podem os seres perdoar-se mutuamente ou, melhor dizendo, desculpar as ofensas recebidas, no sentido de não alimentarem ódio, malquerença ou sentimento de vingança contra quem lhes tenha sido ingrato ou maldoso, mas esse perdão, sinônimo de desculpa, nada tem a ver com o ato falso de dizer-se a alguém, mediante rezas e donativos, que "os seus pecados (os erros) estão perdoados".

Quem acreditar nessa enganosa afirmação está sendo iludido, desviado do caminho da verdade e, mais dia menos dia, sofrerá as conseqüências, sempre desastrosas para a sua existência espiritual. O delinqüente que com dinheiro ou rezas pensa haver liquidado o seu débito para com o Poder-Justiça, fiado em vã promessa, feita levianamente, compartilha com o seu perdoador na responsabilidade do erro em que ambos ficaram envolvidos.

Apontando falhas dessa gravidade, o Racionalismo Cristão procura esclarecer as criaturas, sem o menor interesse, porque nada quer de ninguém; age, apenas, com o intuito de beneficiar os seres de boa-vontade, cumprindo os verdadeiros preceitos cristãos, sem esperar, com isso, receber recompensas ou agradecimentos. O lema de fazer o bem sem olhar a quem faz parte do Código de Princípios desta Doutrina.

O Racionalismo Cristão sugere, para todas as ocasiões, o uso da simplicidade; um uso natural e espontâneo, sem a menor afetação. O uso traz o hábito, e este se torna uma segunda natureza. A simplicidade não deve ser só na aparência, mas, principalmente, na formação interior que conduz à humildade, fator indispensável ao crescimento espiritual. Tanto a simplicidade como a humildade expressam um verdadeiro conhecimento da grandiosidade da Vida, que a inteligência humana não consegue devassar, mas tão-somente sentir, e assim mesmo de modo vago. O ser humano, esclarecido, só pode admitir a simplicidade e a humildade como molde para o seu viver.

Ser simples não é andar mal vestido e desalinhado; não é usar de falsa modéstia; não é ser retraído e tímido. Ser simples é não se envaidecer pelo que tem ou conhece; é saber humanizar-se com os que honradamente trabalham e produzem; é demonstrar identificação com a coletividade e confraternizar-se com os seus problemas. Assim também ser humilde não é sujeitar-se a humilhações; não é permitir que o ofendam ou deprimam; não é genuflectir-se diante de quem quer que seja. Ser humilde é não querer aparecer através de seus feitos; é conservar-se anônimo na distribuição de benefícios; é saber sujeitar-se, sem mágoas, aos atos de renúncia.

Eis o que explana o Racionalismo Cristão e, notadamente, o que revela este livro, em que está expresso o sentido prático da Doutrina. Os auxiliares das Casas Racionalistas Cristãs precisam compulsá-lo, amiudamente, em favor da harmonização e regularidade da disciplina das sessões. Quanto mais uniforme for essa disciplina, tanto melhor será servida a Causa. E, neste particular, o desejo de todos os servidores do Racionalismo Cristão deve ser um só: - Renovar, a cada passo, os seus esforços para cumprirem, cada vez melhor, os seus honrosos encargos.

 





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