Crônicas oportunas
PREFÁCIO
Quando o autor de um romance recém-lançado é entrevistado sobre sua obra, surgem sempre duas perguntas, quase que uma só formulada de duas formas: "Há alguma coisa de autobiográfico no livro? Você se identifica com algum personagem de sua estória?" E geralmente daí se descamba para uma série de indagações a respeito da vida particular do escritor: onde estudou, qual sua formação literária, que autor prefere, quais suas ocupações prediletas e por aí adiante. Isto é praticamente inevitável, qualquer repórter sabe como gostam todos de conhecer um pouco da vida dos autores dos livros que pretendem comprar. Não se trata de mera curiosidade. É realmente importante sentir se um escritor tem ou não a vivência e a bagagem cultural necessárias para nos transmitir algo que valha a pena.
No caso de ser o livro constituído de pequenas crônicas ou artigos como acontece com o volume que ora prefaciamos a pergunta sobre o que há de autobiográfico se torna totalmente absurda, é claro, pois nesta forma literária o escritor nunca nega a autoria das opiniões que emite, dos conselhos que dá, das observações que faz a respeito de pessoas ou fatos. Não menos interessante, entretanto, é saber um pouco sobre quem escreve.
É por isto e também para não deixar que se percam com o tempo as homenagens das quais a autora de Contos morais, Folhas esparsas e Páginas soltas foi objeto pouco depois de seu falecimento, a 30 de outubro de 1971 que foram reunidos neste mesmo volume vários depoimentos sobre a personalidade marcante de Maria Cottas. "Viveu estranha aos ultrajes, impassível, superior aos prazeres e às dores, invulnerável à falsidade e à maldade, completamente devotada à sua família e ao próximo, que também ela considerava família; diz dela o editorialista do jornal A RAZÃO. "Dotada de extrema sensibilidade, vivia dentro do mundo que construíra, cultivando a literatura, a pintura e a música"; lembra Othon Ewaldo. "A morte do corpo representou a viagem prêmio de uma vida tão laboriosa quanto produtiva", escreve Olga B. C. de Almeida. "Uma mulher extraordinária"; classifica-a uma neta. "Uma das figuras mais exponenciais da vida carioca, não apenas pelos seus dotes intelectuais senão também pelas virtudes do coração"; ressalta o Deputado Alcir Pimenta, em discurso no Congresso Nacional.
"Tanto amor tinha à vida e tanto ainda precisava viver"; comenta saudoso o Dr. João Cottas, seu cunhado. "Dela se pode dizer que dignificou ao máximo o papel de mulher, elevando-o à mais alta expressão de sensibilidade feminina", destaca o genro, Antônio Cristovam Monteiro. "Não conhecia a palavra sacrifício quando tratava de atender a um ente querido que necessitasse de conforto e ânimo" recorda o sobrinho Humberto Rodrigues. "Escritora nata e educadora por vocação irresistível, em todos os livros de D. Maria Cottas se nota a sua preocupação de contribuir, por meio de conselhos e admoestações, impregnados de sincera afeição, para o aperfeiçoamento moral da juventude que ela tanto amava"; salienta o amigo Joaquim Costa.
Conhecido, portanto, o valor de Maria Cottas como pessoa humana, resta realizar a feitura de suas crônicas, atentando para seu grande valor também como escritora de estilo leve e agradável.
Ângela Teresa Cottas de Jesus Costa
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