O Racionalismo Cristão e a Ciência Experimental
Prefácio
Este livro contém uma coletânea dos artigos que publiquei na Gazeta do Racionalismo Cristão durante o período de setembro de 2003 a maio de 2004. Embora eles abordem temas individualizados procurei dar a todos a mesma diretriz, ou seja, mostrar a ligação existente entre o Racionalismo Cristão e a Ciência Experimental.
Inicialmente, o Racionalismo Cristão era denominado Espiritismo Racional e Científico Cristão. Por definir melhor a Doutrina, esse antigo nome sempre me pareceu mais adequado, pois ele deixava explícito que o Racionalismo Cristão é uma filosofia espírita que é racional e científica. É também uma filosofia cristã, pois foi essa a Doutrina que Jesus, o Cristo, tentou implantar no mundo Terra. O termo racional é usado aqui como um adjetivo e significa que usa a razão, que raciocina, que se deduz pela razão. Usar o raciocínio e fazer deduções pela razão é o princípio fundamental da ciência. Portanto, a filosofia espírita do Racionalismo Cristão tem estreitas ligações com a ciência.
Mas o Racionalismo Cristão sendo uma filosofia possui uma base essencialmente teórica. Já a ciência, é experimental, pois é baseada na demonstração prática, nos resultados obtidos em laboratório. Fazendo ciência experimental o cientista deve ser como São Tomé: ver para crer.
Para mostrar a ligação existente entre a filosofia racionalista e a ciência experimental procurei ultrapassar essa dificuldade fazendo um paralelismo entre ensinamentos e princípios racionalistas e fatos já descritos na ciência convencional.
Na maioria dos artigos publicados neste livro procurei desdobrar alguns ensinamentos e princípios do Racionalismo Cristão levantando hipóteses apoiadas em fatos já descritos pela ciência convencional que pudessem explicá-los de um modo racional. No entanto, em alguns artigos, usei a via inversa, ou seja, procurei explicar através da filosofia racionalista cristã certos temas para os quais a ciência convencional não havia encontrado ainda uma explicação plausível.
Para que os artigos desse livro tivessem a necessária credibilidade era obrigatório que eu tivesse um conhecimento amplo tanto da Doutrina Racionalista Cristã como, da Ciência Experimental. Ou, como diz a filósofa e ensaísta Marilena Chauí, eu deveria demonstrar a competência do saber.
Esse é o motivo da descrição sucinta que faço a seguir sobre os conhecimentos que possuo nesses dois campos do saber.
Nasci em 1931, na capital do Estado de São Paulo, em berço racionalista cristão e fui também criada dentro dos ensinamentos dessa Doutrina. Na minha família, o embrião racionalista cristão foi constituído por meus pais, meus avós maternos, um irmão de minha mãe e sua esposa. Conforme consta na página 42 do livro O Racionalismo Cristão em marcha em São Paulo, esse embrião se formou na cidade paulista de Santos e seus membros conheceram pessoalmente Luiz de Mattos e Luiz Alves Thomaz - os fundadores da doutrina. Mais tarde, todo esse grupo passou a residir na capital de São Paulo e ali eles se tornaram militantes na recém-fundada Casa Racionalista dessa cidade. Meu Pai Augusto Gomes da Silva que posteriormente se formou em Medicina, foi o fundador do Filiado do Racionalismo Cristão na cidade paulista de Campinas e, desse filiado, ele continua sendo o Presidente Astral. Durante os anos 80, eu comecei a desenvolver mediunidade e fui instrumento mediúnico do Racionalismo Cristão nos Filiados de Ribeirão Preto (SP), Campinas (SP) e Porto Alegre (RS).
Sou médica, graduada em 1957 pela Escola Paulista de Medicina (EPM). Meus primeiros contatos com o mundo científico foram feitos durante os anos em que trabalhei voluntariamente na EPM como Instrutora de Bioquímica. Isso me entusiasmou tanto que resolvi seguir a carreira universitária pois as pesquisas científicas são feitas principalmente no âmbito universitário.
Nessa época quem quisesse fazer Ciência no Brasil encontrava muitas dificuldades, pois ainda não existiam aqui os cursos de pós-graduação. Uma das alternativas mais usadas para resolver esse problema era fazer uma especialização no exterior estagiando em uma universidade. Decidi assim, pouco depois de formada, ir para os Estados Unidos onde permaneci durante três anos fazendo estágios em Farmacologia em duas universidades americanas: a Yale University e a Tulane University. Foi durante esse período que publiquei meus primeiros trabalhos científicos. Ao retornar ao Brasil, fui convidada para trabalhar no campus que a Universidade de S. Paulo (USP) acabara de implantar em Ribeirão Preto onde o objetivo específico era fazer ciência e formar cientistas. Fiz ali meu doutoramento em Farmacologia Médica e, posteriormente, com uma bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) passei dois anos na Itália fazendo meu pós-doutoramente na Università Degli Studi di Roma. Retornando ao Brasil e sentindo que como médica era importante ter uma vivência clínica, pedi minha transferência para o Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da USP onde permaneci durante seis anos. Essa experiência na clínica foi um bom aprendizado para mim, porém me afastou completamente das minhas pesquisas, pois eu nunca concordei em fazê-las usando para isso o ser humano como cobaia. Em 1983 consegui minha transferência da USP para a Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) onde voltei a fazer Ciência Experimental por cerca de mais dezessete anos. Oficialmente me aposentei em 1996, porém continuei ligada à UNICAMP como Professora Convidada até o ano 2000.
Ao trabalhar mais de dois terços da minha vida profissional com a Ciência Experimental, aprendi que não podemos ser especulativos e deixar que crenças sem a devida análise nos distanciem da realidade. A realidade é única e cabe a nós estudá-la de forma crítica. Foi essa a diretriz que procurei seguir ao analisar os temas dos artigos que escrevi para compor este livro.
A Autora
junho de 2004
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