Pela Verdade

Prefácio

PELA VERDADE vem a público como obra de luta, mas de luta construtiva, como foi toda a vida de seu imortal autor.

Há aqui a demonstração eloqüente da capacidade e brilho com que Luiz de Mattos tecia as suas campanhas, afirmando sempre a sua personalidade invulgar de construtor sadio, que lança os lampejos da sua inteligência sobre a multivariedade dos assuntos que mais diretamente a solicitam, para desbravá-los, com a sua indiscutível boa vontade de esclarecer seu semelhante.

Abrangendo, na sua pesquisa, campos de outros mais conhecidos, ainda assim o seu talento polimorfo se afirmou como um colaborador sensato e honesto, rasgando caminhos novos em setores científicos ainda ignorados.

No terreno do psiquismo, abandonado pelo materialismo ortodoxo aos planos secundários e desprezíveis do misticismo e da superstição, Luiz de Mattos traçou, com pulso firme de Mestre, um vasto programa de estudos, que culminaram numa melhor compreensão do homem, da vida e do Universo.

Sem estudos médicos que !he outorgaram uma bagagem desses conhecimentos, pôde, ainda assim, à maneira de Pasteur, tornar-se o descobridor de causas novas de doenças, desbravando um terreno inculto pela desídia dos homens de ciência, e proclamando, com dados objetivos, que a atividade mental do individuo influi, poderosamente, tanto na sua saúde, quanto na doença.

É bem verdade que há muitos séculos se fala, discute e afirma em obras médicas, que o psiquismo individual pode, por si só, ocasionar distúrbios da mais variada natureza.

Verificamos, porém, que as vozes que se têm erguido nesse sentido, pela unilateralidade dos seus conceitos, foram postas à margem, por não terem encontrado a acústica precisa para assertivas de tão alto teor.

Vencer sempre aquele outro ponto-de-vista, também unilateral, de encarar o lado psíquico do homem, como subalterno da matéria, e assim mais acentuadamente se vinculou o espírito ao corpo, ou a alma à matéria.

Com Luiz de Mattos, começamos a ter uma visão de conjunto, uma idéia mais harmônica e precisa das correlações existentes entre a alma e o corpo. Tudo isso, bem interpretado, nos leva àquela unidade do ser que os nossos tempos, de mais liberdade de raciocínio, deixam antever.

Assim, começamos a dar, por uma medida de reconhecida justiça, o devido valor aos estudos admiráveis que nos levaram ao conhecimento completo da matéria, e senhores de outros dados, avançamos, resolutos e decididos, no estudo sistematizado e científico daquela parte invisível do homem.

No terreno da saúde, já sabemos quais as causas físicas, microbianas, químicas e tantas outras das inúmeras doenças que a Medicina estuda. Mas, a estas, podemos acrescentar, dada a sua importância capital, a força psíquica, ainda hoje discutível, mas absolutamente impossível de ser negada. Foi exatamente visando essa demonstração, que Luiz de Mattos escreveu estas páginas, convidando os homens da ciência ao estudo criterioso da psique humana.

Criaturas pouco afeitas à ponderação e ao justo raciocínio, não compreenderam bem a obra do grande lidador, estigmatizando-a, logo, como malsã, por verem na crítica altamente construtiva que ele fazia à medicina materialista, na parte em que esta se sobrepunha à transcendência dos assuntos atinentes à Força, o ataque ao médico.

Os princípios do Racionalismo Cristão, fundado por Luiz de Mattos, têm, como origem, o estudo científico do homem, como base, a cultura e, como fim, a espiritualidade dos seres.

Podemos ainda, em breves palavras, definir essa obra grandiosa como tendo o estudo individual por princípio, o enobrecimento da família como base e a espiritualização dos povos como fim.

Os seus princípios basilares demonstram o desejo de que as criaturas esclarecidas e fortes abram caminho na vida, construindo existências úteis, sadias e valorosas, sobreexcedendo-se a si mesmas, dando, cada vez mais, o melhor de si próprias, alargando o raciocínio, cultivando a inteligência e enobrecendo a existência humana.

Luiz de Mattos não regateia aplausos e elogios á obra de muitos médicos e à ação salutar e meritória da Medicina, que a Humanidade beneficiada reconhece. Seu objetivo é dizer que a obra da Ciência é infindável e como processo contínuo não pode estacionar nem anatematizar aquilo que ignora, pelo simples fato de não querer pesquisá-lo.

Os redutos acadêmicos, em matéria de estudos psíquicos, têm agido, em regra, de maneira anticientífica, prelecionando sobre fatos que não estudam, achando mais cômodo condená-los, do que entendê-los.

Esses mentores do saber organizado e inatacável são prejudiciais à humanidade, porque sem a sua indolência, não haveria tanta superstição e tanta religiosidade malsã a arruinar almas e corpos.

Cabe à Ciência tudo estudar. Não lhe é permitido, em nosso século, dogmatizar, porque as Academias não são Concílios onde os guardiões dos dogmas revelados se reúnem para decretar, como puros e certos, os sofismas esdrúxulos da fé.

Ciência significa estudo, pesquisa e Verdade. Sendo assim, não admite atitudes defensivas, porque ela se alteia aos interesses de classes.

Luiz de Mattos, em toda a sua vida, nada mais pediu aos homens de Ciência que não fosse o estudo daquilo que ele lhes apresentava.

Lutou, valentemente, mas não logrou ser compreendido. Não teve, como Pasteur, a glória de ver os redutos acadêmicos aplaudi-lo e homenageá-lo, mas aqueles que lhe secundam a obra, esperam vê-la um dia no seio das próprias Academias, compreendida e acatada como merece.

 





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