O que é valor
Olhe
à sua volta. Escolha um objeto ou pessoa e faça um juízo de
realidade:
a) esta caneta é
azul;
b) esta caneta énova;
c) Maria saiu por
aquela porta;
d) a barraca está
cheia de frutas;
e) João foi à
igreja.
Observe também que, ao mesmo tempo, é inevitável fazer juízos
de valor:
a) esta caneta azul
não é tão bonita quanto a vermelha;
b) a caneta antiga
escrevia melhor que esta;
c) Maria não
deveria ter saído antes de terminar o trabalho;
d) as frutas fazem
bem à saú-de;
e) orar reconforta
o espírito.
No
primeiro caso trata-se de avaliação estética, no segundo
considera-se o valor de utilidade, no terceiro parece ocorrer a
transgressão de um valor moral, no quarto há referência ao
valor vital e, no último, ao valor religioso.
Há,
portanto, o mundo das coisas e o mundo dos valores. Mas não
podemos dizer que os valores são da mesma maneira que as coisas
são. Isto é, não existe o valor em si enquanto coisa, mas o
valor é sempre uma relação entre o sujeito que valora e o
objeto valorado.
Isso
significa que os valores existem na ordem da afetividade, ou
seja, não ficamos indiferentes diante de alguma coisa ou pessoa,
pois somos sempre afetados por elas de alguma forma. Reclamamos
da caneta que não escreve bem, ouvimos várias vezes com prazer
a música de nossa preferência, recriminamos quem usa de violência
e assim por diante.
Valorar
é urna experiência fundamentalmente humana que se encontra no
centro de toda escolha de vida. Fazer um plano de ação nada
mais é do que dar prioridade a certos valores, ou seja, escolher
o que é melhor (seja do ponto de vista moral, utilitário etc.)
e evitar o que é prejudicial para se atingir os fins propostos.
À
conseqüência de qualquer valoração é, sem dúvida, dar
regras para a ação prática. Assim, se o ar é um valor para o
ser vivo, é preciso evitar que a poluição atmosférica
prejudique a qua lidade desse bem indispensável. Se a
credibilidade é um valor, não posso estar o tempo todo
mentindo, caso contrário as relações humanas ficariam
prejudicadas. Portanto, diante daquilo que é, a experiência dos
valores orienta para o que deve ser.
De onde vêm os valores?
Se os
valores não são coisas, pois resultam da experiência vivida
pelo homem ao se relacionar com o mundo e os outros homens,
talvez pudéssemos concluir que tais experiências variam
conforme o povo e a época. É o parece nos sugerir a diversidade
de costumes: para algumas tribos, é indispensável matar os
velhos e as crianças que nascem com algum defeito, o que para nós
pode parecer incrível crueldade. Na Idade Média era proibido
dissecar cadáveres, e no entanto as instituições de justiça
tinham o direito de torturar seres vivos. Nosso costume de comer
bife escandaliza o hindu, para quem a vaca é animal sagrado.
Isso
significa que os valores são em parte herdados da cultura. Aliás,
a primeira compreensão que temos do mundo é fundada no solo dos
valores da comunidade a que pertencemos.
Em
tese, tais valores existem para que a sociedade subsista,
mantenha a integridade e possa se desenvolver. Ou seja, a moral
existe para se viver melhor. Talvez essa afirmação cause
espanto, se considerarmos que as regras morais são concebidas
como condição de repressão humana, sendo, assim, geradoras de
infelicidade. Isso também é verdadeiro, mas só enquanto
defor-mação da moral autêntica e em contexto diferente daquele
que estamos conside-rando aqui. O que nos interessa enfatizar, em
um primeiro momento, é que os grupos humanos precisam de regras
para viver bem.
Por
isso é possível entender como, em certas tribos, onde há
escassez de alimentação, há o costume de matar crianças
defeituosas e velhos incapazes de produzir, uma vez que se tornam
peso prejudicial à sobrevivência do grupo.
Dito
de outra forma, mesmo que varie o conteúdo das regras morais, conforme
a época ou lugar, todas as comunidades têm a necessidade formal
de regras morais. É formalmente correto que a coragem é melhor
que a covardia, que a amizade é um valor desejável entre os
membros de um grupo. No entanto, a coragem é um valor formal
cujo conteúdo varia. Tomemos um exemplo corriqueiro, ainda que não
referente àmoral propriamente dita: se alguns riem do caipira
com medo de atravessar a avenida na grande cidade, certamente será
ele que rirá do citadino assustado com sapos e cobras na
fazenda. Transportando o exemplo para o campo da moral, a coragem
do guerreiro da tribo é certamente diferente da coragem do homem
urbano desafiado, por exemplo, pelos riscos da corrupçao
Se a amizade é um valor universal, a sua expressão varia
conforme os costumes. Na sociedade patriarcal, em que a mulher se
encontra confinada ao lar e subordinada ao homem, é impensável
que ela tenha amigos do sexo masculino fora do círculo de amizades
do seu próprio marido ou distante do seu olhar benevolente. Isso
muda nos núcleos urbanos, após a liberação da mulher para o
trabalho fora do lar.
O sujeito moral
Seriam
então os valores, além de relativos ao lugar e ao tempo, também
subjetivos, isto é, dependentes das avaliações de cada indivíduo?
Se
cada um pudesse fazer o que bem entendesse, não haveria moral
propriamente dita. O sujeito mora tem a intuição dos valore
como resultado da intersubjetividade, ou seja, da relação com
os outros. Não é o sujeito solitário que se toma moral, pois a
moral se funda na solidariedade: é pela descoberta e pelo
reconhecimento do outro que cada homem se descobre a si mesmo.
Intuir o valor é descobrir aquele que convém à sobrevivência
e felicidade do sujeito enquanto pertencente a um grupo.
O que
acontece com freqüência é que, em certas épocas, não há
condições de se perceber alguns valores -por exemplo, que a
escravidão é desprezível -, e outras épocas em que valores
fundamentais são esquecidos: na cidade grande, o individualismo
exacerbado torna as pessoas menos generosas e mais desconfiadas.
O
sujeito moral surge quando, ao responder à pergunta "como
devo viver?", o faz com pretensão de validade universal. Ou
seja, o sujeito moral não é o eu empírico, individual, egoísta,
mas é o eu enquanto capaz de reconhecer o Outro como sendo um
Outro-Eu: o Outro é tão importante quanto eu sou.
Ninguém
nasce moral, mas torna-se moral. Há uma longa caminhada a ser
percorrida para a aprendizagem de descentralização do eu
subjetivo, afim de superar o egocentrismo infantil e tornar-se
capaz de "con-viver".
'Progresso moral
Nem
sempre a mudança moral equivale a progresso moral. Existe
progresso quando se dá um avanço com melhoria de qualidade.
Isso significa que certos valores antigos não precisam
considerados necessariamente ultrapassados, da mesma forma que
valores dos "novos tempos" algumas vezes podem não
indicar progresso.
Quais
seriam então os critérios para avaliar o progresso moral?
Examinemos alguns deles.
- Ampliação da esfera moral: certos atoss, cujo cumprimento
antes era garantido por força legal (direito), por imposição
religiosa, passam a ser cumpridos por exclusiva obrigação
moral. Por exemplo, um pai divorciado não precisaria da lei para
reconhecer a obrigação de continuar sustentando seus filhos
menores de idade. Por outro lado, certas situações em que as
pessoas fazem o bem tendo em vista a recompensa divina são
indicações de diminuição da esfera moral, porque, nesse caso,
o estímulo para a ação não é a obrigação moral, mas uma
certa "barganha" visando recompensa.
- Caráter consciente e livre da ação: a responsabilidade moral
está na exigência de um compromisso livremente assumido.
Responsável é a pessoa que reconhece seus atos como resultantes
da vontade e responde pelas consequências deles. Quando adultos,
como mulheres e escravos, permanecem tutelados, o resultado é o
empobrecimento moral das relações humanas.
- Grau de articulação entre interesses ccoletivos e pessoais:
enquanto nas tribos primitivas o coletivo predomina sobre o
pessoal, nas sociedades contemporâneas o individualismo
exacerbado tende a desconsiderar às interesses da coletividade.
É importante que desenvolvimento de cada um não seja feito à
revelia do desenvolvimento dos demais.
O último
item nos faz refletir sobre as re1ações entre política e
moral. Embora sejam campos de ação diferentes e sem dúvida autônomos,
política e moral estão estreitamente relacionadas.
A política
diz respeito às ações relativas ao poder e à administração
dos assuntos públicos. Quando há desequilíbrio de poder na
sociedade, e a maior parte das pessoas não atingem a cidadania
plena, isto é, não tem formar de atuação política, isso
repercute na moral individual de inúmeras maneiras: as exigências
de competição para manter ou alcançar privilégios e a luta
pela sobrevivência na sociedade desigual elevam a níveis
intoleráveis o egoísmo e o individualismo, geradores de violência
doa mais diversos tipos é assim que se poder falar em falte a de
ética tanto diante da malversação de verbas publicas,
provocando, por exemplo, o colapso da rede de hospitais, como
também em moral sequestrar ou assaltar a mão armada.
Mas
os problemas decorrentes da decadência Ética que presenciamos não
podem ser resolvidos a partir de tentavas isoladas de educação
moral do indivíduo. É preciso que exista a vontade política de
alterar as condições tatogênicas, isto é, as condições
geradoras da doença social, para que se possa dar possibilidade
de superação da pobreza moral.
Dito
de outra forma, não basta "reformar o indivíduo para
reformar a sociedade". Um projeto moral desligado do projeto
político esta destinado ao fracasso. Os dois processos devem
caminhar juntos, pois formar o homem plenamente moral só é possível
na sociedade que também se esforça para ser justa.
( Fonte: Veja o
Link Bibliografia )