A EUROPA EM CRISE (Parte III)

Por Rui Cabaço

 


A Abdicação de Munique: 29-30 de Setembro de 1938

 

    A 29 de Setembro, pelo meio-dia e meia hora, naquela cidade Bávara onde humildemente começara a sua vida de homem político e onde conhecera o amargo sabor da derrota quando fracassara o “putsch” da cervejaria em 1923, Adolf Hitler recebeu como vencedor os chefes de Governo da Grã-Bretanha, França e Itália. Naquela manhã, muito cedo, havia-se encontrado com Mussolini, em Kufstein, na antiga fronteira austro-alemã, para determinar as bases de uma acção comum na conferência.

    Chamberlian, por seu lado, não tivera o mesmo cuidado de reunir-se com Daladier a fim de preparar uma estratégia comum.

 

    As conversações, que começaram ás doze horas e quarenta e cinco minutos, não revestiram qualquer carácter dramático e constituíram, por assim dizer, uma simples formalidade que iria permitir entregar a Hitler absolutamente tudo o que desejava e na data que ele determinasse.

 

    Os membros da conferência puseram-se realmente a trabalhar quando Mussolini, ao usar da palavra, declarou que, “a fim de chegar a uma solução pratica do problema”, trouxera escrita uma proposta concreta.

    O que o Duce fazia então passar por projecto de compromisso idealizado por ele, na realidade fora redigido á pressa na véspera, em Berlim, no Ministério dos Negócios Estrangeiros, por Goering e dois altos funcionários alemães.

 

    Goering levara-o pessoalmente a Hitler, que o aprovara. Depois de traduzido rapidamente para francês, fora enviado ao embaixador italiano, que o transmitiu a Mussolini, no momento em que este se dispunha a tomar o comboio para Munique. Foi assim que as propostas “Italianas” forneceram a esta conferência quase improvisada, não só a ordem do dia, mas também as condições essenciais do Acordo de Munique. Como todos os assistentes tinham acolhido calorosamente as propostas “italianas”, só ficavam alguns pormenores para organizar.

 

    Chamberlain sugeriu fazer comparecer os verdadeiros interessados; contudo, Hitler não quis nem ouvir falar em tal hipótese. Não consentia em admitir nenhum checo na sua presença. Daladier cedeu sem dificuldade mas Chamberlain acabou por obter uma pequena concessão. Combinou-se que um representante checo poderia estar á disposição dos participantes no aposento contíguo.

 

    Com efeito, durante toda a sessão da tarde, dois representantes checos, o Dr Vojtech Mastny (ministro checo em Berlim) e o Dr Hubert Masaryk (ministro dos Negócios Estrangeiros em Praga) chegaram e foram introduzidos, sem a menor cerimónia, num aposento ao lado.... Aí permaneceram desde as 14 horas. Pelas 19 receberam uma notícia brutal. Um funcionário inglês veio informá-los de que se havia conseguido um acordo geral do qual ele não podia ainda dar os pormenores, mas que se mostrava muitíssimo mais duro do que as propostas franco-britânicas.

 

    Masaryk perguntou se os Checos não podiam ser ouvidos. Contudo, conforme contou depois o representante checo ao seu governo, o inglês respondeu:

“- Que ele parecia ignorar como a situação das grandes potências era difícil e não podia compreender até que ponto as negociações com Hitler haviam sido penosas”

 

    Às 22 horas, os checos foram conduzidos junto de Sir Horace Wilson, conselheiro do primeiro-ministro britânico. Wilson comunicou-lhes, da parte de Chamberlain, os principais pontos do acordo das quatro potências e entregou-lhes um mapa das zonas Sudetas que deviam ser imediatamente evacuadas pelos Checos. Quando os dois enviados tentaram protestar, Sir Wilson cortou-lhes a palavra. Não tinha mais nada a dizer-lhes, declarou.

 

“- Se os senhores não aceitarem – acrescentou ainda antes de deixar o aposento – serão obrigados a regular, sozinhos, os seus negócios com os alemães. Talvez os franceses vos digam isto menos brutalmente, mas, acreditem-me, eles têm os mesmos pontos de vista que nós. Desinteressam-se do problema”

 

    Era a verdade, por mais dolorosa que parecesse aos dois emissários checos. No dia 30 de Setembro, pouco mais ou menos pela 1 hora da madrugada, Hitler, Chamberlain, Mussolini e Daladier apuseram as suas assinaturas no Acordo de Munique, estipulando que o exército alemão entraria na Checoslováquia no 1º de Outubro, como Hitler sempre havia dito e marcando o termo da ocupação dos Sudetas até 10 de Outubro. Hitler obtinha aquilo que lhe fora recusado em Godesberg.

 

    No entanto, tal como Daladier em Paris, também Chamberlain voltou a Londres como um triunfador. O primeiro-ministro, radiante, viu-se diante de uma multidão enorme que se acotovelava em Downing Street. Depois de ter ouvido o povo gritar: “Viva Neville!” e cantar a toda a força: “For he´s a jolly good fellow”, Chamberlain, sorridente, pronunciou algumas palavras do alto de uma janela do segundo andar:

 

“- Meus queridos amigos, pela segunda vez na nossa história, a paz, com honra, foi trazida da Alemanha para Downing Street. Julgo que, desta vez, é a paz dos nossos dias

 

 


As Consequências de Munique

 

    Nos termos do acordo de Munique, Hitler conseguia, em suma, o que pedira em Godesberg, e a comissão internacional, vergando-se perante as sua ameaças, concedeu-lhe bastante mais ainda. O acordo final obrigava a Checoslováquia a ceder à Alemanha 28.600 quilómetros quadrados de território, onde habitavam 2.800.000 alemães dos Sudetas e 800.000 Checos. Nesta zona situavam-se as mais importantes fortificações Checas que constituíam, até então, a linha defesa mais formidável da Europa, com excepção, talvez, da Linha Maginot.

    Os Polacos e os Húngaros, depois de terem ameaçado, também eles, de recorrer à acção militar contra a nação reduzida á impotência, lançavam-se agora sobre a Checoslováquia para lhe arrancarem uma parte do seu território. A Polónia “apropriou-se” de cerca de 1.700 quilómetros quadrados à volta de Teschen, com uma população de 228.000 habitantes, dos quais 133.000 eram Checos.

    A Hungria obteve uma maior fatia ainda, que lhe foi adjudicada a 2 de Novembro por Ribbentrop e Ciano, 19.500 quilómetros quadrados, com uma população composta por 500.000 Magiares e 272.000 Eslovacos.

 

    Depois destas “amputações”, o sistema de comunicações ferroviárias, rodoviárias, telegráficas e telefónicas estava completamente desorganizado. Segundo os números oficiais alemães, a Checoslováquia, acabava de perder 66% do seu carvão, 80% da lenhite, 86% dos produtos químicos, 80% do cimento, 80% dos têxteis, 70% do ferro e aço, 70% da energia eléctrica e 40% da sua riqueza em madeiras. Uma nação industrial em plena prosperidade via-se, de um dia para o outro, retalhada e reduzida á falência.

 

    Por isso não admira que Jodl tivesse escrito no seu jornal, nessa mesma tarde da reunião de Munique:

 

“Assinou-se o Pacto de Munique. Como potência, a Checoslováquia deixou de existir. O génio do Fuhrer e a sua resolução de nunca recuar, mesmo diante da ameaça de uma guerra mundial, obtiveram uma vez mais a vitória, sem o recurso á força. Pode-se esperar que os incrédulos, os fracos e os indecisos estejam convertidos e que não mudem mais de opinião”

 

    Em grande número, os indecisos ficaram convertidos, na verdade, e os outros, aliás um pequeno número, mergulhavam no desespero. Alguns generais alemães, tais como Beck, Halder e Witzleben, e ainda os civis que os aconselhavam, não tinham tido razão, uma vez mais. Hitler obtivera o que desejava e ainda acabara por alcançar uma grande conquista sem disparar um tiro. O seu prestigio subiu como nunca, até então!

 

    Quem quer que se encontrasse na Alemanha durante os dias que se seguiram a Munique, apercebia-se facilmente da embriaguez que se apoderou do povo alemão. Não sentia apenas alívio de que se tivesse evitado a guerra, mas também estava arrebatado de orgulho por esta vitória conseguida pacificamente por Hitler, não só sobre a Checoslováquia mas igualmente sobre a Grã-Bretanha e a França. Seis meses haviam bastado a Hitler (faziam-no notar os alemães) para conquistar a Áustria e o país dos Sudetas, o que enriquecera o Terceiro Reich com 10 milhões de habitantes e um vasto território estratégico que se prestava a abrir caminha á dominação alemã sobre o Sudeste da Europa. E isto sem perder uma só vida alemã!

 

    Com o tipo de genialidade instintiva pouco frequente na Alemanha, tinha adivinhado as fraquezas dos pequenos Estados da Europa Central e ainda das grandes potências Ocidentais, a Grã-Bretanha e a França. Concebera e utilizara com um êxito fulgurante uma nova estratégia e uma nova táctica de guerra política que tornava inútil a verdadeira guerra.

 

    Em menos de quatro anos e meio, este homem de origem modesta fizera da Alemanha desarmada, caótica e à beira da falência, a nação mais poderosa do Velho Mundo, diante da qual tremiam até a Grã-Bretanha e a França. Só Winston Churchill, pareceu compreender a gravidade da situação. Ninguém expôs as consequências de Munique com a precisão com que ele o fez no seu discurso de 5 de Outubro, na Câmara dos Comuns:

 

“- Sofremos uma derrota total e absoluta....Estamos no seio de uma catástrofe de uma amplitude incomparável. O caminho das embocaduras do Danúbio... o caminho do mar Negro está aberto....Um atrás do outro, todos os países da Europa Central ver-se-ão arrastados pela vasta torrente da política nazi... e não penseis que isto é o fim. Não, isto não é mais que o princípio.”

 

Mas Churchill não fazia então parte do Governo e as suas proféticas palavras não foram ouvidas!

 

(FIM)

 

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