Por Rui Cabaço

 

    Para se compreender melhor a Segunda Guerra Mundial, nada melhor do que começar pela ascensão de Hitler ao poder e das suas reivindicações iniciais, que levariam mais tarde ao deflagrar do maior e mais sangrento conflito da história da humanidade.

     Assim sendo, poder-se-á dizer que Hitler começou a sua caminhada para o Poder logo nos primeiros dias de paz, após a Primeira Grande Guerra, mais precisamente em Setembro de 1919 quando numa cervejaria de Munique alguns indivíduos com pretensões políticas se juntaram para fundar um partido como tantos outros: o Partido Operário Alemão.

     Junto a estes indivíduos encontrava-se um jovem Cabo Austríaco: Adolf Hitler. Principiava aqui a história do Nacional-Socialismo. Numa Alemanha humilhada, dividida pelo Tratado de Versalhes, reduzida à miséria pelas crises económicas e a inflação, o jovem Hitler soube abrir caminho. Os seus primeiros fracassos, longe de o desanimarem, galvanizaram as suas energias e deram-lhe uma fé inquebrável no seu próprio génio.   

    Ao ser posto em liberdade, reorganiza o seu partido, determina o seu programa de acção, cria uma força armada para apoiar as suas reivindicações políticas e, caso necessário, reduzir ao silêncio os adversários. Começa a preparar-se um era de violências; as suas milícias de assalto, as S.A e as S.S., treinam-se contra os comunistas, os socialistas e os judeus. Exteriormente, porém, Hitler só aspira à “legalidade”.

    Estabelece-se a ditadura e , com ela, o terror. À morte de Hindenburg, Hitler assume todo o poder. Agora é o senhor absoluto do estado e vai ter oportunidade de forjar a sua “nova ordem”, demonstrando ao Mundo que a Alemanha não é mais uma nação vencida, à qual se podia impor um “diktat” ignominioso, mas sim a herdeira de um passado de glória. Para isto, uma coisa tornava-se antes do mais

    Em 14 de Outubro de 1933, a Alemanha retira-se da Conferência Geral do Desarmamento, reunida em Genebra; uma semana passada, abandona a Sociedade das Nações. Primeira violação dos tratados internacionais, plena de consequências. Mas as grandes potências – as “ democracias”, como se lhes chama nessa época, para as distinguir dos regimes “totalitários” – têm os seus próprios problemas e as suas dificuldades. Não reagem.

    O chanceler do Reich ganha coragem. O serviço militar é restabelecido em Março de 1935; uma força aérea – a Luftwaffe – surge; um exército de mais de 500.000 homens nasce. Hitler vai ter brevemente nas suas mãos os instrumentos do poder. Quando as nações vizinhas chegarem a dar-se conta do perigo, já estará em condições de lhes “falar” como senhor, apoiado numa única razão: a força.

    Em Março de 1936, a Renânia, zona desmilitarizada, é reocupada por tropas alemãs, violando o Pacto de Locarno de 1925, já que a Alemanha precisa de recuperar o seu “espaço vital”, afogada que está dentro das fronteiras que lhe foram impostas em 1919. Tal facto é por inúmeras vezes referido por Hitler, afim de justificar tal medida. Ficam, porém, ainda muitos alemães fora da mãe-pátria. Hitler fala então da “Grande Alemanha” que é necessária reconquistar, que é necessário reunir sob uma bandeira única. “Um Povo, um Pais, um Chefe”; os cartazes com este “slogan” espalham-se por todas as paredes da Alemanha.

    As “democracias” continuam, porém, sem reagir. Têm outros motivos de inquietação: a guerra no Extremo Oriente, a conquista da Etiópia pela Itália fascista. O imperialismo Japonês e as exigências de Mussolini parecem mais ameaçadores a Paris e Londres do que os exaltados discursos de Hitler; as manifestações grandiosas, as paradas, os desfiles com archotes, de que o Fuhrer se mostra tão aficcionado, parecem demasiado teatrais para oferecerem perigo...

    Mas, para Hitler, o tempo da guerra não chegou ainda. Sabe que a sua Wehrmacht não está por enquanto em condições de enfrentar os exércitos inglês, francês, polaco, checo, se eventualmente se coligassem contra ele. É a hora das anexações pacificas. Em vista disto, Hitler afirma não ter a Alemanha outra ambição que não seja viver em boa harmonia com os seus vizinhos.

    Estas declarações, numa Europa ainda “assustada” pelas violências recentes, tranquilizam a opinião pública internacional, apesar das contínuas violações por parte de Hitler, desse “espirito de paz e compreensão” que os Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim, exaltam com grandiosa pompa. Por detrás, porém, das fachadas da propaganda pacifista, Hitler prossegue na realização dos seus planos. O Fuhrer da Grande Alemanha não se esquece de que é austríaco e que o seu pais natal, reduzido pelo tratado de San-German-en-Laye, a um pequeno Estado de 7 milhões de habitantes, é uma presa fácil.

    Além do mais, não são os austríacos, com os mesmos títulos dos cidadãos do Reich, homens de raça, cultura e língua germânicas? Desde a sua ascensão ao poder, Hitler acaricia o projecto “Anschluss”, essa união da Áustria com a Alemanha, que faria dele, em seu próprio proveito, o restaurador do Sacro Império Romano-Germânico... Hitler faz tábua rasa, das vacilações do seu Estado-Maior, que não se atreve a correr o risco de uma guerra. Os generais cépticos caem em desgraça e o ditador põe à frente do Ministério dos Negócios Estrangeiros um homem da sua confiança, consagrado de corpo e alma à causa nazi: Von Ribbentrop.

    Falta agora somente colocar o Mundo perante o facto consumado. A 12 de Fevereiro de 1938, o chanceler da Áustria, Schuschnigg, é convidado pelo Fuhrer a visitar a sua residência de Berchtesgaden. Hitler exige dele concessões exorbitantes, que converteriam a Áustria numa espécie de protectorado alemão. Em caso de recusa, ameaça invadir a Áustria. No seu regresso a Viena, o chanceler Schuschnigg submete-se: elementos nazis passam a fazer parte do Governo e, com eles, o mais fanático partidário do “Anschluss”, Seyss-Inquart.

    Hitler não está, contudo, satisfeito. Temendo o apoio franco-britânico a um Áustria ameaçada na sua independência, dirige, em 11 de Março de 1938, ao Governo Austríaco, um ultimato de capitulação. A França e a Inglaterra não adoptam qualquer medida, nem sequer de carácter diplomático. Schuschnigg, abandonado por todos, demite-se e, no mesmo dia, à meia-noite, o chanceler Seyss-Inquart pede ás tropas que marchem sobre Viena “para restabelecer a ordem”.

    A jogada estava feita: em 12 de Março, as tropas alemãs penetram na Áustria; a 14, o chanceler do Reich, o austríaco Adolf Hitler, faz a sua entrada na capital do antigo Império Austro-Húngaro. Na sua província natal, Linz, espera-o um acolhimento apoteótico. A 10 de Abril, um plebiscito meramente formal confirma e legaliza o “Anschluss”: 99,7% dos Austríacos aprovava a união com a Alemanha. Os que se opõem estão já nas prisões de Viena, à espera de seguirem para os campos de concentração, onde se vão reunir aos democratas alemães.

    A Sociedade das Nações “não abriu sequer a boca”. Por acaso, os Austríacos não tinham o direito de dispor de si mesmos?

    Sem perder um soldado, Hitler conseguia os seus propósitos. Fora do Reich não ficavam mais do que três milhões de alemães: os Sudetas da vizinha Checoslováquia, que a nova Alemanha cercava por três lados. Cinco meses depois, o seu regresso à mãe-pátria era um facto consumado: havia sido resolvido em Munique.

 

Breve Cronologia

 

1923- É preciso destruir a república, o objectivo de Adolf Hitler. No 1º de Maio, uma tentativa inicial aborta ao nascer. Do dia 7 a 9 de Novembro, ajudado por Ludendorff, o chefe nazi passa à acção. A propaganda oficial do regime apoderar-se-á, mais tarde, deste acontecimento e glorificá-lo-á. Mas a conspiração não obtêm êxito. Hitler é preso na fortaleza de Landsberg, onde apenas cumprirá oito meses dos cinco anos a que fora condenado.

1923-  Condenado à prisão, é nela que escreve “Mein Kampf”, obra que virá a ser o evangelho do nazismo.

1925- Em Outubro, Stresemann reconhece, em nome da Alemanha, a validade das fronteiras da sua pátria com a França e a Bélgica e garante-as solenemente.

1930- O seu partido tem já 107 deputados no Reichstag (parlamento alemão).

1933- Em Janeiro, o presidente Hindenburg nomeia-o chanceler.

1934- Em Junho,  realiza-se um encontro entre Hitler e Mussolini, o Duce não aprova a política do seu futuro compadre. Porém, nada sairá desta entrevista em Veneza.

1936- Hitler denuncia no Reichstag o Tratado de Locarno. Horas antes, as suas tropas tinham penetrado na Renânia. A Europa fica paralisada de assombro, com esta insolente audácia, ainda que não esboce reacção alguma.

1936/1937- A guerra de Espanha ocupa e preocupa todas as mentes. Os jornais, em grandes títulos, não falam de outra coisa.

Bibliografia de referência: Grande Crónica da Segunda Guerra Mundial

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