Vaivém da ciência
Novas
pesquisas que contradizem certezas médicas confundem os pacientes e
criam modismos perigosos
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InterExatas

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Uma hora os cientistas anunciam: quem consome quatro ou mais xícaras de
café por dia está no caminho mais curto para a hipertensão. Outra,
que a cafeína é um potente analgésico contra a dor de cabeça. Ou,
ainda, que chocolate – meio amargo, diga-se – faz bem ao coração.
Mas, cuidado, pois ao mesmo tempo causa obesidade e todas as complicações
associadas ao excesso de peso. Quem se pauta pelas últimas novidades da
ciência em nome de uma vida saudável tem razões de sobra para estar
confuso. Em média, 10.000 estudos de
medicina clínica são divulgados a cada semana. Alguns deles colocam em
dúvida a eficácia ou a segurança de substâncias e tratamentos
consagrados por trabalhos anteriores – e avidamente adotados por
muitos pacientes. Não se trata de um processo perverso. Ao contrário,
cada pesquisa carrega a possibilidade de ampliar o conhecimento das doenças
e dos métodos de cura. Mas como explicar isso para alguém que apostou
seu bem-estar numa substância que mais tarde seria desmascarada como
perniciosa à saúde?
Um episódio de grande repercussão no
momento envolve mudanças dramáticas em muito do que se sabia até
agora sobre terapia hormonal. Até poucas semanas atrás, os médicos
acreditavam que as doses extras de hormônios receitadas para atenuar os
sintomas típicos da menopausa e proteger a mulher da osteoporose também
diminuíssem o risco de infartos. Uma pesquisa patrocinada pelo governo
americano, com 25.000 mulheres de 50 a
79 anos, chegou à conclusão de que a reposição hormonal pode ter
efeito oposto ao que se imaginava – ao menos no que diz respeito às
doenças cardiovasculares. Iniciado há dois anos pela organização
Women's Health Initiative, trata-se do primeiro grande estudo clínico
da eficácia da terapia com hormônios na prevenção dos males cardíacos.
A resposta definitiva só virá em 2005, mas o anúncio do resultado
preliminar foi o bastante para causar pânico nos Estados Unidos, onde
20 milhões de mulheres se submetem à terapia com hormônios sintéticos.
No Brasil não há números precisos sobre
quantas mulheres adotam essa medida. Pode-se, contudo, ter idéia da
amplitude dos tratamentos de reposição hormonal pelos dados de um dos
medicamentos contendo estrógeno e consumido por 250.000
brasileiras. A popularização dessa terapia é um excelente exemplo de
como certas especulações científicas são tomadas ao pé da letra e
se tornam modismo, inclusive entre os médicos. Inicialmente, os estudos
sobre a terapia de reposição hormonal tinham por objetivo comprovar a
eficácia no combate aos sintomas clássicos da menopausa. Os supostos
benefícios para a saúde das coronárias surgiram de evidências
indiretas. Não se levou em conta que essas mulheres geralmente têm
elevado nível de escolaridade, fumam pouco, adotam dietas balanceadas e
praticam exercícios. Como saber quais desses fatores estavam protegendo
o coração? Pelo que mostra o novo estudo, não era o estrógeno. É
bom esclarecer, antes que se instale novo furor sem sustentação científica,
que a reposição hormonal não significa uma condenação fatal.
"A elevação nos riscos de infarto e derrame foi muito pequena, de
apenas 1%", diz o médico Jacques Rossouw, diretor da pesquisa.
"O importante é saber que, pelo menos nos dois primeiros anos de
uso, o estrógeno não protege contra infartos."
Uma hipótese de cada vez – A
produção científica passa por um período muito peculiar. Nunca na
história da humanidade houve tantos cientistas, tantas pesquisas em
andamento e tanta gente interessada em seus resultados. Por ano, são
publicados de 800.000 a 900.000
estudos em revistas especializadas. O Brasil responde por 1%
desse total. Pode parecer pouco, mas é o dobro do que o país produzia
há dez anos. Estima-se que a indústria farmacêutica invista 20% do
faturamento global na pesquisa de novos medicamentos. Com tanta novidade
sendo anunciada em ritmo alucinante, é compreensível que as pessoas se
embaralhem na hora de decidir como lidar com a saúde. Os próprios médicos
são presas da propaganda dos laboratórios e das pesquisas de maior
repercussão. A única defesa possível é desconfiar de tratamentos
milagrosos que surgem da noite para o dia. A experiência mostra que ciência
séria não se faz de uma hora para outra.
O consumo medicinal de vinho tinto é um
bom exemplo disso. Um grupo de pesquisadores da prestigiada Universidade
Harvard recomendou uma taça diária da bebida para o bom funcionamento
do coração. Experiências em laboratórios mostraram que o vinho
aumentava as taxas de colesterol bom, o HDL, no sangue. Em seguida,
surgiu outro trabalho revelando que a bebida poderia elevar a pressão
sanguínea. "Quando se trata de temas complexos, é preciso
investigar uma hipótese de cada vez", diz Eduardo Moacyr Krieger,
presidente da Academia Brasileira de Ciências. Não é assim,
infelizmente, que o resultado de muitos trabalhos chega ao grande público.
Os pesquisadores, sobretudo os americanos, que têm contas a prestar aos
financiadores da pesquisa e, algumas vezes, aos investidores da bolsa de
valores, estão ansiosos para mostrar resultados. Trabalhos apenas
parciais são propagandeados como verdades absolutas.
Quando se investiga a ação de
determinados alimentos ou os efeitos secundários de um medicamento
sobre o organismo, os resultados tendem a ser sutis e demorados.
Levou-se quase um século para perceber que a aspirina também protege o
coração. Uma das áreas mais estudadas atualmente é a da nutrição.
Trata-se, por sinal, de uma das mais difíceis para obter resultados
claros e imediatos. Durante cerca de quatro anos, pesquisadores
americanos do Instituto Nacional do Câncer e da Universidade do Arizona
acompanharam 3 500 pessoas. Todas seguiam uma dieta com alto teor de
fibras e baixa concentração de gordura – exatamente a alimentação
que se acreditava ideal para prevenir o câncer de intestino. Divulgados
recentemente na conceituada revista The New England Journal of
Medicine, os estudos mostram que o regime alimentar não evita o
surgimento de pólipos que podem levar ao câncer. Assustados com o possível
efeito da novidade sobre os pacientes, os médicos apressaram-se em
advertir que, por enquanto, nada mudou. Dietas ricas em fibras e pobres
em gordura podem não combater os tumores malignos de intestino, como se
pensava, mas ainda são as mais saudáveis. Trazem benefícios
comprovados contra doenças cardíacas, diabetes e obesidade.
"Percebeu-se que esse tipo de alimentação não é eficaz a curto
prazo, mas ainda não se sabe se evita o câncer a longo prazo",
diz Arthur Schatzkin, do Instituto Nacional do Câncer. "Alguns
tumores levam mais de dez anos para se desenvolver."
É natural que tanta gente, ansiosa por
remédios que ajudem a viver melhor, se deixe impressionar com
resultados precoces de trabalhos médicos. "Há uma enorme diferença
entre uma pesquisa de laboratório, feita com animais, e uma avaliação
controlada de um grande grupo de pessoas", diz Irineu Tadeu
Velasco, diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Mesmo assim, muitos pesquisadores divulgam suas descobertas feitas com
cobaias como se elas valessem, sem restrições, para todo mundo. Um
alimento pode brecar o câncer em ratinhos, mas não necessariamente fará
o mesmo com seres humanos. "Muita gente tem interesses comerciais
em divulgar estudos precocemente, ainda na fase de laboratório",
diz Krieger. Afinal, tratamentos inéditos, alimentos anunciados como
milagrosos, substâncias recém-descobertas ou novos suplementos
nutricionais podem render milhões de dólares em vendas de livros ou
produtos. Para não enlouquecer no meio de tantas descobertas médicas
nem se deixar levar por um resultado precoce ou insignificante de uma
pesquisa, é aconselhável considerar apenas o que já é consenso entre
as sociedades científicas. "São elas que avaliam as novas levas
de trabalhos e fazem a recomendação final do que os médicos e
pacientes devem seguir", pondera Jorge Kalil, presidente da Comissão
de Ética em Pesquisa do Hospital das Clínicas de São Paulo.
Um ótimo exemplo de como a divulgação
precoce de um fato pode fazer estragos ocorreu nos Estados Unidos com um
artigo publicado na revista científica Pediatrics, em 1972. A
pesquisa sobre a síndrome da morte súbita aconselhava os pais a
equipar os berços com uma parafernália eletrônica para monitorar o
sono das crianças. Foi a origem de uma verdadeira indústria de vigilância
dos pequeninos, apesar de a morte de cinco crianças de uma mesma família
americana apontar para a origem genética do problema. Na hora de colocá-los
para dormir, era preciso seguir uma lista de recomendações. Muitos
anos depois, descobriu-se que os cinco bebês usados como base para o
estudo haviam sido assassinados. Os editores da Pediatrics
tiveram de se desculpar pelo erro, mas àquela altura os pais já tinham
gasto fortunas em babás eletrônicas e passado noites em claro à toa.
