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Petróleo
O Petróleo
é um composto de hidrocarbonetos em seus três estados. Contém também
pequenas quantidades de compostos de enxofre, oxigênio, nitrogênio.
· Origem: restos de matéria orgânica,
bactérias, produtos nitrogenados e sulfurados no petróleo indicam que ele é o
resultado de uma transformação da matéria orgânica acumulada no fundo dos
oceanos e mares durante milhões de anos, sob pressão das camadas sedimentares
que foram se depositando e formando rochas sedimentares.
· Jazidas: O petróleo é
encontrado na natureza não como uma espécie de rio subterrâneo u camada líquida
entre rochas sólidas. Ele ocorre sempre impregnando rochas sedimentares, como
os arenitos. Como essas rochas são permeáveis, o óleo “migra” através
delas pelo interior da crosta terrestre. Se for detido pôr rochas impermeáveis,
acumula-se, formando então as jazidas. Das jazidas conhecidas, as mais
importantes estão no Oriente Médio, Rússia e repúblicas do Cáucaso, Estados
Unidos, América Central e na região setentrional da América do Sul.
· História: Na antigüidade,
era usado para fins medicinais ou para lubrificação e era conhecido com os
nomes de óleo de pedra, óleo mineral e óleo de nafta. Atribuíam-se ao petróleo
propriedades laxantes, cicatrizantes e anti-sépticas. Era considerado eficaz
também no tratamento da surdez e na cura de tosse, bronquite, congestão
pulmonar, gota, reumatismo e mau-olhado. Das pirâmides do Egito à Arca de Noé,
são muitas as referências à presença do petróleo na vida dos povos da antigüidade.
Sacerdotes hebreus, por exemplo, usavam o petróleo nos sacrifícios, para
acender fogueiras nos altares, e as chamas que irrompiam eram consideradas
manifestações divinas. Conta a Bíblia que Deus, desgostoso com a raça que
criara, ordenou a Noé a construção de uma arca e sua calafetação com
betume, antes de inundar o mundo com o dilúvio. E o termo betume representava,
possivelmente, resíduo de petróleo obtido na superfície. O betume, uma forma
pastosa de petróleo encontrada a céu aberto, teria sido o cimento aplicado na
construção da Torre de Babel, nas Pirâmides do Egito, no templo de Salomão
ou nos famosos Jardins Suspensos de
Nabucodonosor. Milênios antes de Cristo, o petróleo, já era um valorizado
produto comercial, usado também para embalsamar corpos, iluminar,
impermeabilizar moradias e palácios, pavimentar estradas ou construir embarcações.
Para Gregos e Romanos, a principal aplicação era bélica: lanças incendiárias
embebidas em betume eram uma de suas armas mais eficazes.
Ao longo de vários séculos, o petróleo foi recolhido na superfície.
A primeira mineração só aconteceu em 1742,
na Alsácia
(
limite da França com a Alemanha ). Em Baku, capital do Azerbaijão, na ex-União
Soviética, no início do século XIX, os russos cavavam com a mão os primeiros
poços, que atingiam profundidades de até 30 metros. Os métodos eram bastante
primitivos, mas mesmo assim a utilização do petróleo ampliava-se. Passou a
ser usado como medicamento, curando cálculos renais, escorbuto, cãibras e
gota, além de tônico para o coração e remédio contra reumatismo.
Só na Segunda metade do século passado os métodos primitivos, de pouquíssimo
rendimento, deram lugar à ousada idéia de perfurar poços mais profundos. Foi
um ex-maquinista de trem, o americano Edwin drake, quem passou à História como
autor da façanha. Perfurado em 1859 na Pensilvânia, Estados unidos, o poço
aberto pôr Drake com um equipamento que funcionava como um bate-estaca, pelo
sistema de percussão, produziu 19 barris pôr dia, encorajando muitas outras
tentativas.
Cinco anos depois da descoberta de drake, funcionavam nos Estados unidos
543 companhias dedicadas ao novo ramo de atividade. O petróleo passou então a
ser utilizado em larga escala, substituindo os combustíveis disponíveis,
principalmente o carvão, na indústria, e os óleos de rício e de baleia, na
iluminação. Com a invenção dos motores a explosão, no final do século,
começou-se a empregar frações até então desprezadas do petróleo, e suas
aplicações multiplicaram-se rapidamente. No final do século XIX, dez países
já extraiam petróleo de seus subsolos.
· Extração: Nos dias de hoje
a extração do petróleo varia de acordo com a quantidade de gás
acumulado na jazida. Se a quantidade de gás for grande
o suficiente, sua pressão pode expulsar pôr si mesma o óleo, bastando
uma tubulação que comunique o poço com o exterior. Se a pressão for fraca ou nula, será
preciso ajuda de bombas de extração.
· O Refino: O petróleo bruto, tal como sai do poço, não tem aplicação direta.
Para utilizá-lo, é preciso fracioná-lo em seus diversos componentes, processo
que é chamado de refino ou destilação fracionada. Para isso aproveitam-se os
diferentes pontos de ebulição das substâncias que compõem o óleo,
separando-as para que sejam convertidas em produtos finais.
Subprodutos
mais importantes : O gás, uma das frações mais importantes obtidas na
destilação, é composto das subst6ancias com ponto de ebulição entre 165 0C
e 30 0C, como o metano, o etano, o propano e o butano. O éter de
petróleo tem ponto de ebulição entre 30 0C e 90 0C e é
formados pôr cadeias de cinco a sete carbonos. A gasolina, um dos subprodutos
mais conhecidos, tem ponto de ebulição entre 30 0C e 200 0C,
é formada de uma mistura de hidrocarbonetos que possuem de cinco a 12 átomos
de carbono. Para obter querosene, o ponto de ebulição fica entre 175 0C
e 275 0C. Íleos mais pesados, com cadeias carbonadas de 15 a 18
carbonos, apresentam uma temperatura de ebulição entre 175 0C e 400
0C. As ceras, sólidas na temperatura ambiente, entram em ebulição
em torno de 350 0C. no final do processo, resta o alcatrão, o resíduo
sólido.
O processo
de refino: O processo começa pela dessalinização do petróleo bruto
em que são eliminados os sais minerais.
Depois, o óleo é aquecido a 320 0C em fornos de fogo
direto e passa para as unidades de fracionamento, onde podem ocorrer até três
etapas diferentes. A etapa principal é realizada na coluna atmosférica: o petróleo
aquecido é introduzido na parte inferior da coluna junto com vapor de água
para facilitar a destilação. Desta coluna surgem as frações ou extrações
laterais, que ainda terão de ser transformadas (5) para obter os produtos
finais desejados.
Começava
assim um grande negócio e mais um capítulo da história daquela que se
tornaria a principal matéria prima do século XX, capaz de transformar as relações
econômicas do mundo, dando impulso à industrialização e ao progresso tecnológico,
diminuindo distâncias e aumentando o conforto das pessoas. O petróleo é um
elemento básico para a moderna sociedade industrial. Além de fornecer o
combustível usado em usinas termelétricas, constituindo portanto uma fonte de
energia elétrica, com ele se fabricam vários combustíveis (gasolina,
querosene, óleo) usados na indústria e nos veículos automotores. Além disso,
constitui matéria prima importante para inúmeros tipos de indústrias químicas,
como a de plásticos, de asfalto, de borracha sintética centenas de produtos químicos
e farmacêuticos, e várias outras
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Os
Maiores Produtores Mundiais De
Petróleo ( 1989 ) |
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PAÍS |
Produção
Anual (
Milhares de toneladas ) |
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Ex.- União
Soviética Estados
unidos Arábia
Saudita ( * ) México (
* ) China ( *
) Irã ( *
) Iraque (
* ) Venezuela
( * ) Canadá Nigéria
( * ) Emirados
Árabes Unidos ( * ) Kuwait (
* ) |
625 000 460 000 225 000 145 000 135 000 120 000 105 000 100 000 88 000 80 000 60 000 56 000 |
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Fonte:
Tabela elaborada a partir do Monthy Bulletin of
Statistics, da ONU, março de 1991. |
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Nota:
Os Estados Unidos, além de segundo produtor mundial, são o
principal país importador de petróleo, sendo assim o maior consumidor.
Os países indicados pôr ( * ) são os grandes exportadores mundiais
desse produto. Alguns países como a China e o México aumentaram
recentemente a sua produção, pois até 1980 não figuravam entre os
maiores produtores mundiais. Já
o Irã e o Iraque, devido que
mantiveram de 1980 até 1988,
produzem na atualidade bem menos petróleo que na década de 70. A produção
de petróleo especialmente no Oriente Médio, região onde se encontram as
maiores reservas , é instável e dependente da situação
política internacional. Em agosto de 1990, pôr exemplo, o Iraque
invadiu o Kuwait. Nesse ano e anos seguintes, a produção de ambos os países
diminuiu, em razão do cerco econômico liberado pelos Estados Unidos e da
destruição de algumas instalações petrolíferas. Deve-se ressaltar
ainda que até 1991 existia a URSS e as estatísticas mundiais não
separavam a produção pelas ex-repúblicas (Rússia, Kasaquistão, Ucrânia,
etc.). |
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Para Ter uma
idéia melhor do que o petróleo representa para a nossa época, pensemos no
seguinte: acordamos de manhã, tomamos banho sob um chaveiro elétrico ( que
normalmente é de plástico, derivado do petróleo ), vestimos a roupa ( alguns
tecidos, como o náilon, são feitos a partir do petróleo ) calçamos os
sapatos ( seguramente as solas tiveram petróleo como matéria-prima ) e vamos
tomar café ( talvez as xícaras sejam de plástico, ou a manteigueira); saímos
à rua e olhamos passas os carros ( movidos a gasolina, com dezenas de
componentes fabricados a partir do petróleo ); resolvemos ouvir um pouco de música
e escolhemos um disco ( que não pode ser feito sem o petróleo ) e o colocamos
na aparelhagem de som ( na qual há muito plástico ).
Pôr esses exemplos, podemos perceber
como estamos mergulhados numa “civilização do petróleo como esse
recurso natural é importante atualmente.
Na realidade, a sociedade industrial foi construída com base na abundância
e nos baixos preços do petróleo. Quando se começou
a perceber que ele não é inesgotável e quando seus preços começaram
a subir ( a partir de 1973 ), configurou-se a famosa crise do petróleo ou crise
energética.
Quanto ao total das reservas mundiais conhecidas, há diferentes dados,
fornecidos pôr organizações diversas. De acordo com alguns desses dados, o
petróleo existente em nosso planeta seria suficiente apenas para os próximos
trinta anos; segundo outros, mesmo deixando de lado a possibilidade de encontrar
novas reservas, as atualmente conhecidas dariam para mais de cinqüenta anos de
consumo. Em todo caso, uma coisa é certa: o petróleo é uma riqueza natural
que existe em quantidades limitadas e que um dia se esgotará, seja daqui a
vinte, quarenta ou sessenta anos. É necessário, portanto, pesquisar novas
fontes de energia e novos substitutos para o petróleo como matéria-prima.
Bibliografia
· Sociedade e Espaço
J. William Visentini
Editora
Ática
· Help Sistema de Consulta Interativa
Ciência e tecnologia
Klick Editora – O Estado de São Paulo
Outrora utilizado somente para fazer argamassa,
para vedação ou por suas propriedades lubrificantes e medicinais, o petróleo
não era um importante produto industrial até meados do século XIX, quando seu
uso como combustível para iluminação justificou o investimento em pesquisa de
novas jazidas. Ao longo do século XX, porém, a importância do produto cresceu
tanto que sua participação no atendimento das necessidades mundiais de energia
passou de 3,7% em 1900 para cerca de cinqüenta por cento no fim do século.
Fonte de energia por excelência, mas também matéria-prima para o fabrico de
plásticos, tintas, tecidos sintéticos e detergentes, por exemplo, o petróleo
é hoje o mais importante produto de todo o comércio internacional.
Petróleo
é uma mistura complexa de hidrocarbonetos que, associada a pequenas quantidades
de nitrogênio, enxofre e oxigênio, se encontra sob forma gasosa, líquida ou sólida,
em poros e fraturas, em geral de rochas sedimentares. Nos depósitos
encontram-se também água salgada e uma mistura de gases responsáveis pela
pressão que provoca a ascensão do petróleo através de poços perfurados. O
petróleo líquido é também chamado óleo cru para distingui-lo do óleo
refinado, produto comercial mais importante. O gás de petróleo (gás natural)
é uma mistura de hidrocarbonetos leves, enquanto as formas semi-sólidas são
compostas de hidrocarbonetos pesados.
Embora
de pouca utilização em estado natural, o petróleo, quando refinado, fornece
combustíveis, lubrificantes, solventes, material de pavimentação e muitos
outros produtos. Os combustíveis derivados do petróleo respondem por mais da
metade do suprimento total de energia do mundo. Tanto pela combustão direta
quanto pela geração de eletricidade, o petróleo fornece iluminação para
muitos povos do mundo. Seus subprodutos são também utilizados para a fabricação
de tecidos sintéticos, borracha sintética, sabões, detergentes, tintas, plásticos,
medicamentos, inseticidas, fertilizantes etc. Por exigir vultosos investimentos
iniciais e contínuos reinvestimentos, apenas companhias de grande porte
asseguram o desenvolvimento da indústria petrolífera.
São
controvertidas as teorias sobre a origem do petróleo. Entre as principais
figuram a da origem estritamente inorgânica, defendida por Dmitri I. Mendeleiev,
Marcellin Berthelot e Henri Moissan, e a teoria orgânica, que postula a
participação animal e vegetal. De acordo com a primeira, o petróleo ter-se-ia
formado a partir de carburetos (de alumínio, cálcio e outros elementos) que,
decompostos por ação da água (hidrólise), deram origem a hidrocarbonetos
como metanos, alcenos etc., os quais, sob pressão, teriam sofrido polimerização
(união de moléculas idênticas para formar uma nova molécula mais pesada) e
condensação a fim de dar origem ao petróleo.
Contra
essa concepção, mais antiga, levanta-se a teoria orgânica, segundo a qual a
presença no petróleo de compostos nitrogenados, clorofilados, de hormônios
etc. pressupõe a participação de matéria orgânica de origem animal e
vegetal. Em sua grande maioria, os pesquisadores modernos tendem a reconhecer
como válida apenas a teoria orgânica, na qual destacam o papel representado
pelos microrganismos animais e vegetais que, sob a ação de bactérias,
formariam uma pasta orgânica no fundo dos mares. Misturada à argila e à
areia, essa pasta constituiria os sedimentos marinhos que, cobertos por novas e
sucessivas camadas de lama e areia, se transformariam em rochas consolidadas,
nas quais o gás e o petróleo seriam gerados e acumulados.
Aspectos
geológicos.
Grande parte das ocorrências de petróleo acham-se associadas a sedimentos
marinhos. Dá-se o nome de rochas geradoras (ou matrizes) àquelas onde o petróleo
se originou -- em geral folhelhos escuros com alguns calcários, siltitos e
arenitos finos. As rochas geradoras têm geralmente dois a dez por cento de matéria
orgânica.
Ao
longo do tempo geológico, ocorrem diastrofismos (deformações) na crosta
terrestre que provocam dobras (anticlinais) e falhamentos das camadas
sedimentares para onde migra e se acumula o óleo gerado na rocha matriz. Essas
deformações das camadas sedimentares constituem as "armadilhas"
(estruturas rochosas que aprisionam o óleo e o gás). Rochas ígneas não
poderiam gerar petróleo por falta de matéria orgânica. Da mesma forma, o óleo
e o gás não poderiam migrar ou se acumular nesse tipo de rocha, que se
caracteriza pela baixa porosidade.
Aspectos
químicos. O
óleo cru é formado basicamente de hidrocarbonetos -- compostos de carbono e
hidrogênio combinados em moléculas de disposição e tamanho diversos. As moléculas
menores, com um a quatro átomos de carbono, formam os gases; moléculas maiores
(de quatro a cerca de dez átomos de carbono) constituem a gasolina; moléculas
ainda maiores, de até cinqüenta átomos de carbono, são as dos combustíveis
leves e óleos lubrificantes; e moléculas gigantes, de até várias centenas de
átomos de carbono, compõem combustíveis pesados, ceras e asfaltos. Junto aos
hidrocarbonetos gasosos há apreciáveis quantidades (até 15%) de nitrogênio,
dióxido de carbono e ácido sulfídrico, além de pequena porção de hélio e
outros gases. Nos hidrocarbonetos líquidos em geral se encontram traços de
oxigênio, enxofre e nitrogênio, na forma elementar ou combinados com as moléculas
de hidrocarbonetos.
Os
átomos de carbono unem-se nas moléculas de hidrocarbonetos de duas maneiras
diferentes: para formar compostos em forma de anel (hidrocarboneto cíclico) ou
de cadeia (hidrocarboneto acíclico ou alifático). Além disso, cada átomo de
carbono pode ser completado de maneira total ou apenas parcial por átomos de
hidrogênio e assim formar, respectivamente, moléculas saturadas ou não-saturadas.
Os hidrocarbonetos saturados cíclicos chamam-se naftenos, e os acíclicos,
parafinas; os não-saturados cíclicos chamam-se aromáticos, e os acíclicos,
olefinas ou alcenos.
Aspectos
físicos. O
óleo cru contém milhares de compostos químicos, desde gases até materiais
semi-sólidos, como asfalto e parafina. Sob grande pressão no interior da
Terra, os gases estão dissolvidos nos componentes mais pesados, mas ao
atingirem a superfície podem vaporizar-se. Do mesmo modo, a parafina
encontra-se dissolvida no petróleo cru, do qual pode separar-se na superfície,
ao resfriar.
Fisicamente, o petróleo é uma mistura de
compostos de diferentes pontos de ebulição. Esses componentes dividem-se em
grupos, ou frações, delimitados por seu ponto de ebulição. Os intervalos de
temperatura e a composição de cada fração variam com o tipo de petróleo. As
frações cujo ponto de ebulição é inferior a 200o C, entre eles a gasolina,
costumam receber o nome genérico de benzinas. A partir do mais baixo ponto de
ebulição, de 20o C, até o mais alto, de 400o C, tem-se, pela ordem: éter de
petróleo, benzina, nafta ou ligroína, gasolina, querosene, gasóleo (óleo
diesel), óleos lubrificantes. Com os resíduos da destilação produz-se
asfalto, piche, coque, parafina e vaselina.
O
petróleo era conhecido já na antiguidade, devido a exsudações e afloramentos
freqüentes no Oriente Médio. No Antigo Testamento, é mencionado diversas
vezes, e estudos arqueológicos demonstram que foi utilizado há quase seis mil
anos. No início da era cristã, os árabes davam ao petróleo fins bélicos e
de iluminação. O petróleo de Baku, no Azerbaijão, já era produzido em
escala comercial, para os padrões da época, quando Marco Polo viajou pelo
norte da Pérsia, em 1271.
A
moderna indústria petrolífera data de meados do século XIX. Em 1850, na Escócia,
James Young descobriu que o petróleo podia ser extraído do carvão e do xisto
betuminoso, e criou processos de refinação. Em agosto de 1859 o americano
Edwin Laurentine Drake perfurou o primeiro poço para a procura do petróleo, na
Pensilvânia. O poço revelou-se produtor e a data passou a ser considerada a do
nascimento da moderna indústria petrolífera. A produção de óleo cru nos
Estados Unidos, de dois mil barris em 1859,
aumentou para aproximadamente três milhões em 1863, e para dez milhões
de barris em 1874.
Até
o final do século XIX, os Estados Unidos dominaram praticamente sozinhos o comércio
mundial de petróleo, devido em grande parte à atuação do empresário John D.
Rockefeller. A supremacia americana só era ameaçada, nas últimas décadas do
século XIX, pela produção de óleo nas jazidas do Cáucaso, exploradas pelo
grupo Nobel, com capital russo e sueco. Em 1901 uma área de poucos quilômetros
quadrados na península de Apsheron, junto ao mar Cáspio, produziu 11,7 milhões
de toneladas, no mesmo ano em que os Estados Unidos registravam uma produção
de 9,5 milhões de toneladas. O resto do mundo produziu, ao todo, 1,7 milhão de
toneladas.
Outra
empresa, a Royal Dutch-Shell Group, de capital anglo-holandês e apoiada pelo
governo britânico, expandiu-se rapidamente no início do século XX, e passou a
controlar a maior parte das reservas conhecidas do Oriente Médio. Mais tarde, a
empresa passou a investir na Califórnia e no México, e entrou na Venezuela.
Paralelamente, companhias européias realizaram intensas pesquisas em todo o
Oriente Médio, e a comprovação de que essa região dispunha de cerca de
setenta por cento das reservas mundiais provocou uma reviravolta em todos os
planos de exploração.
A
primeira guerra mundial pôs em evidência a importância estratégica do petróleo.
Pela primeira vez foi usado o submarino com motor diesel, e o avião surgiu como
nova arma. A transformação do petróleo em material de guerra e o uso
generalizado de seus derivados -- era a época em que a indústria automobilística
começava a ganhar corpo -- fizeram com que o controle do suprimento se tornasse
questão de interesse nacional. O governo americano passou a incentivar empresas
do país a operarem no exterior.
Período
entre guerras.
O desmembramento do império otomano facilitou a penetração de companhias
européias na região, especialmente nos territórios sob mandato e protetorado.
No fim da década de 1920, a descoberta de um imenso campo petrolífero no
Iraque transformou o país no segundo produtor do Oriente Médio. Em 1935,
inaugurou-se o primeiro dos grandes oleodutos entre o Oriente Médio e o
Mediterrâneo. A exploração daquelas áreas ampliou-se com o aumento crescente
do consumo mundial e a acirrada disputa entre as grandes empresas. Foram
descobertas enormes jazidas em Bahrein, na Arábia Saudita e no Kuwait.
Em
1928, a Venezuela passou a ocupar o segundo lugar entre os produtores de petróleo.
No México a produção aumentou muito de 1919 a 1921, a ponto de atingir 25% do
total mundial, mas depois caiu bruscamente. Em 1938, o governo mexicano
expropriou as empresas estrangeiras de petróleo.
Depois
de 1945.
Durante a segunda guerra mundial, a demanda de petróleo atingiu proporções
gigantescas, e no pós-guerra a procura pelo produto intensificou-se ainda mais.
O desenvolvimento mais notável ocorreu no Oriente Médio, mas também se alcançaram
resultados importantes no norte da África, no Canadá e na Nigéria.
Aproximadamente a partir de 1950 manifestou-se na maioria dos países produtores
uma acentuada tendência para a regulamentação rígida das concessões a
empresas estrangeiras. No Irã foi desapropriada a Anglo-Iranian em 1951 e
criada a National Iranian Oil Company, mas dois anos mais tarde se constituiu um
consórcio de capitais anglo-franco-americanos.
Alguns países, como o Canadá e a Venezuela,
adotaram o sistema de concessões de áreas limitadas. Outros optaram por
permitir a exploração indiscriminada em troca do pagamento de royalties, de
montante variável de uma área para outra, às vezes somado a exigências como
construção de refinarias, utilização de mão-de-obra nacional etc. A política
de divisão dos lucros em partes iguais entre o governo e os concessionários,
aplicada na Venezuela a partir de 1943, logo foi adotada pela maioria dos países
em desenvolvimento. Na Ásia, tornaram-se produtores Indonésia, Bornéu e Nova
Guiné. Na América Latina, Brasil, Argentina, Colômbia, Peru e Bolívia começaram
a extrair óleo de suas jazidas.
Em
setembro de 1960, por iniciativa dos grandes produtores do Oriente Médio (Arábia
Saudita, Irã, Iraque e Kuwait) e da Venezuela, foi fundada a Organização dos
Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Em 1973, após a quarta guerra entre
árabes e israelenses, os países exportadores de petróleo decidiram tomar
algumas medidas -- como reduzir quotas de produção, embargar exportações
para os Estados Unidos e alguns países da Europa, triplicar os preços do óleo
cru -- o que causou uma crise mundial e mostrou claramente o quanto o Ocidente
dependia do petróleo dos países árabes. Desde então, os aumentos sucessivos
de preços determinados pela OPEP levaram os países importadores a uma revisão
de sua política energética, com controle rigoroso do consumo, utilização de
fontes de energia alternativa e, quando possível, como no caso do Brasil,
incremento da exploração de suas jazidas.
Em
meados da década de 1990, a OPEP contava com 12 membros. Além dos cinco
fundadores, filiaram-se ao organismo Indonésia, Líbia, Qatar, Argélia, Abu
Dhabi, Nigéria, Equador e Gabão, os quais, juntos, controlavam dois terços
das reservas mundiais. O comportamento dos preços do barril de petróleo voltou
a dominar o cenário internacional em 1990, principalmente em virtude da invasão
do Kuwait pelo Iraque. A incerteza gerada pelo conflito provocou uma tendência
de alta do barril -- que alcançou quarenta dólares -- e uma conseqüente elevação
da produção mundial. Nos anos seguintes a OPEP lutou sem sucesso para manter o
preço mínimo que fixara, de 21 dólares por barril, mas que baixou a até 15 dólares.
As
características físicas e químicas do óleo cru, juntamente com a localização
e a extensão das jazidas, são os principais fatores na determinação de seu
valor como matéria-prima. O petróleo jaz oculto no fundo da terra, e nenhuma
de suas propriedades físicas ou químicas permite detectá-lo com certeza da
superfície. Técnicas geológicas, geofísicas e geoquímicas desenvolvidas
para a exploração não fornecem prognósticos precisos sobre a existência de
petróleo em determinada área e, quando muito, dão uma indicação de boas
possibilidades de encontrá-lo.
Até
o início do século XX, a exploração consistiu em detectar indícios de petróleo
na superfície terrestre. Perfuravam-se então poços em locais de exsudações
e afloramentos, ou a sua volta. A prospecção científica desenvolveu-se no
começo do século XX, quando os geólogos começaram a mapear as características
terrestres indicadoras de sítios favoráveis à perfuração.
Particularmente
reveladores eram os afloramentos que indicavam a existência de rochas
sedimentares porosas e impermeáveis alternadas. A rocha porosa (arenitos, calcários
ou dolomitas) serve de reservatório para o petróleo, que nela pode migrar, sob
uma diferença de pressão, através de interstícios e fendas, até o ponto de
escapamento, ou seja, até o poço perfurado. As rochas impermeáveis (argila,
folhelho), impedem o óleo de migrar do reservatório. No início da década de
1920, começou a exploração de subsuperfície, acompanhada da análise de
sondagem (amostras retiradas do poço perfurado por sondas).
Prospecção.
A partir da década de 1950, a pesquisa do petróleo começou a ser feita com técnicas
geofísicas -- gravimétricas, magnetométricas e sísmicas -- que permitem
mapear as estruturas de subsuperfície. O gravímetro é um instrumento sensível
que mede as variações da força de gravidade provocadas, entre outros fatores,
pelas diferenças de densidade das rochas. Rochas densas, quando próximas da
superfície, aumentam a atração da gravidade, o que não ocorre com as rochas
sedimentares, que são porosas. A técnica magnetométrica utiliza as variações
do campo magnético da Terra, causadas pela existência de corpos magnéticos
sob a superfície. As rochas plutônicas, que em geral contêm mais magnetita,
aumentam as leituras do magnetômetro e, assim, pode-se verificar a profundidade
das rochas.
Embora
mais dispendiosos e complexos, os métodos sísmicos são mais precisos.
Baseiam-se no fato de que ondas de choque provocadas por fontes artificiais de
energia, descrevendo uma trajetória descendente, são refletidas ou refratadas
pelas superfícies de contato entre as camadas. Ao retornarem à superfície, as
ondas de choque são registradas por geofones (sensíveis aos ruídos subterrâneos),
localizados em diferentes pontos das linhas que irradiam da fonte de energia. De
acordo com o princípio de refração, as ondas de choque que atingem a superfície
de contato ("horizonte") com pequeno grau de inclinação podem ser
contidas e prosseguem ao longo da camada. Se a camada de rocha for
particularmente densa, as ondas não serão completamente amortecidas e poderão
ser observadas a vários quilômetros da fonte de energia.
A
reflexão é a técnica preferida na exploração sísmica. Requer fontes de
menor intensidade e menores distâncias para a instalação de geofones, pois as
ondas de choque que formam um grande ângulo de incidência com a camada de
rocha são refletidas para a superfície mais próxima da fonte. Tanto os meios
permeáveis quanto os densos refletem as ondas de choque e fornecem, além
disso, informações sobre os "horizontes" intermediários.
Métodos
geoquímicos de superfície são utilizados na tentativa de descobrir a presença
de acumulações de hidrocarbonetos em subsuperfície. Nesses métodos se usam
análises geoquímicas a fim de detectar a presença de anomalias de
hidrocarbonetos gasosos no solo, na água ou no ar. Também podem ser empregadas
análises do solo a fim de localizar concentrações de bactérias que se
alimentam de hidrocarbonetos gasosos provenientes das jazidas da profundidade.
Apesar
dessas modernas técnicas de exploração, o único meio de se ter certeza
absoluta da existência de petróleo ainda é a perfuração. Por economia de
tempo e de capital, costuma-se perfurar primeiro um poço para colher informações.
Análises de fragmentos das rochas colhidas revelam características físicas e
químicas e são examinados por paleontólogos, que estabelecem a correlação
entre os horizontes geológicos, mediante a análise de microfósseis. As
jazidas ocorrem de preferência em áreas de espessos depósitos sedimentares,
predominantemente de origem marinha, que sofreram deformações brandas. Nas áreas
pré-cambrianas, onde predominam rochas metamórficas e ígneas, é praticamente
impossível existir petróleo.
Tipos.
O petróleo consiste basicamente em compostos de apenas dois elementos que, no
entanto, formam grande variedade de complexas estruturas moleculares.
Independentemente das variações físicas ou químicas, quase todos os petróleos
variam de 82 a 87% de carbono em peso e 12 a 15% de hidrogênio. Os asfaltos
mais viscosos geralmente variam de 80 a 85% de carbono e de 8 a 15% de hidrogênio.
O
óleo cru pode ser agrupado em três séries químicas básicas: parafínicas,
naftênicas e aromáticas. A maioria dos óleos crus compõe-se de misturas
dessas três séries em proporções variáveis, e amostras de petróleo
retiradas de dois diferentes reservatórios não serão completamente idênticas.
As
séries parafínicas de hidrocarbonetos, também chamadas de série metano
(CH4), compreendem os hidrocarbonetos mais comuns entre os óleos crus. É uma série
saturada de cadeia aberta com a fórmula geral CnH2n+2, na qual C é o carbono,
H é o hidrogênio e n um número inteiro. As parafinas, líquidas a temperatura
normal e que entram em ebulição entre 40o e 200o C, são os constituintes
principais da gasolina. Os resíduos obtidos pelo refino de parafinas de baixa
densidade são ceras parafínicas plásticas e sólidas.
A
série naftênica, que tem fórmula geral CnH2n, é uma série cíclica
saturada. Constitui uma parte importante de todos os produtos líquidos de
refinaria, mas forma também a maioria dos resíduos complexos das faixas de
pontos de ebulição mais elevados. Por essa razão, a série é geralmente de
maior densidade. O resíduo do processo de refino é um asfalto, e os petróleos
nos quais essa série predomina são chamados óleos de base asfáltica.
A
série aromática, de fórmula geral CnH2n-6, é uma série cíclica não-saturada.
Seu membro mais comum, o benzeno (C6H6), está presente em todos os óleos crus,
mas como uma série os aromáticos geralmente constituem somente uma pequena
porcentagem da maioria dos óleos.
Além
desse número praticamente infinito de hidrocarbonetos que formam o óleo cru,
geralmente estão presentes enxofre, nitrogênio e oxigênio em quantidades
pequenas mas muito importantes. Muitos elementos metálicos são encontrados no
óleo cru, inclusive a maioria daqueles encontrados na água do mar, como vanádio
e níquel. O óleo cru pode também conter pequenas quantidades de restos de
material orgânico, como fragmentos de esqueletos silicosos, madeira, esporos,
resina, carvão e vários outros remanescentes de vida pretérita.
Perfuração.
Associado ao gás e à água nos poros da rocha, em geral o petróleo acha-se
submetido a grandes pressões, de modo que a perfuração de um poço faz com
que o óleo e o gás sejam impulsionados através do poço pela energia natural
do reservatório. Como o gás natural que geralmente acompanha o óleo está sob
forte compressão, freqüentemente fornece energia suficiente para mover o óleo
das camadas porosas até as paredes do poço e, por vezes, até a superfície.
Se as pressões forem insuficientes, é necessário o bombeamento para a produção
de óleo.
As perfurações mais modernas são feitas por
sondas rotativas, com brocas de aço de alta dureza e de diferentes tipos e diâmetros,
dependentes do diâmetro do poço e da natureza da rocha que devem penetrar.
Nesse processo, tem grande importância a injeção de um fluido especial,
composto de argila montmorilonítica e sulfato de bário. Injetada por bomba no
interior da haste rotativa de perfuração, ao retornar à superfície ela vem
misturada a detritos constituídos de fragmentos das rochas atravessadas pela
broca e que permitem sua análise. Além disso, esse fluido serve para
lubrificar e resfriar a broca, remover os detritos formados durante a perfuração
e impedir o escapamento intempestivo de gases ou óleo sob alta pressão, que
pode provocar incêndios.
Transporte.
Como a extração do petróleo ocorre muitas vezes em áreas distantes dos
centros de consumo, seu transporte para refinarias e mercados exige sistemas
complexos e especializados, como oleodutos, navios petroleiros, caminhões ou
vagões-tanques. Quando se trata de longas distâncias, o meio mais barato é o
navio petroleiro, cujo agigantamento tem contribuído para a redução dos
custos de transporte. No transporte por terra de grandes quantidades de petróleo,
os custos mais baixos se obtêm pelo uso de oleodutos, tubulações que,
mediante bombeamento, levam o produto às refinarias.
Refinação.
A função das refinarias consiste em dividir o óleo cru em frações (grupos)
delimitadas pelo ponto de ebulição de seus componentes, e em seguida reduzir
essas frações a seus diversos produtos. Quando possível, os processos de
refinação são adaptados à demanda dos consumidores. Assim é que no final do
século XIX, quando o querosene de iluminação era muito utilizado, as
refinarias dos Estados Unidos extraíam do óleo cru até setenta por cento de
querosene. Depois, quando a gasolina passou a ser o subproduto mais procurado,
começou a ser retirada do óleo cru nessa porcentagem. Mais tarde, o querosene
voltou a encontrar larga aplicação como combustível para aviões a jato. As
refinarias localizam-se muitas vezes junto às fontes produtoras, mas também
podem situar-se em pontos de transbordo ou perto dos mercados de consumo, que
oferecem a vantagem da redução de custo, pois é mais econômico transportar
petróleo bruto por oleodutos do que, por outros meios, quantidades menores de
seus derivados.
Na refinaria, o óleo cru e os produtos semifinais
e finais são continuamente aquecidos, resfriados, postos em contato com matérias
não-orgânicas, vaporizados, condensados, agitados, destilados sob pressão e
submetidos à polimerização (união de várias moléculas idênticas para
formar uma nova molécula mais pesada) sem intervenção humana. Os processos de
refino podem ser divididos em três classes: separação física, alteração química
e purificação.
Separação
física. A
destilação, a extração de solventes, a cristalização por resfriamento, a
filtração e a absorção estão compreendidas nos processos de separação física.
A destilação é realizada em estruturas altas e cilíndricas chamadas torres.
Depois de bombeado para os tubos de um alambique, onde é aquecido até
vaporizar-se (exceto em sua porção mais pesada), o óleo cru é dispersado
para uma coluna de destilação de um vaporizador localizado acima da base. Um
gradiente térmico é estabelecido através da torre, de tal modo que a
temperatura é mais alta na base e mais baixa no topo. Os vapores ascendentes
condensam-se à medida que sobem pela torre, e os líquidos condensados
juntam-se a espaços predeterminados, de onde são recolhidos. Os componentes
cujo ponto de ebulição é semelhante ao da gasolina condensam-se quase no topo
da torre; o querosene, logo abaixo; o óleo diesel, no meio da coluna; o resíduo,
na base. Cada um desses fluxos passa então a novo estágio de processamento.
Por redestilação a vácuo, o resíduo é dividido em óleos lubrificantes
leves ou pesados e em combustível residual ou material asfáltico.
Alteração
química. Os
processos dessa classe de refino podem ter um dos seguintes objetivos: decompor,
ou craquear (do inglês to crack, quebrar), grandes moléculas de
hidrocarbonetos em outras menores; polimerizar ou unir pequenas moléculas de
uma substância para formar outras maiores; e reorganizar a estrutura molecular.
O craqueamento do óleo cru é historicamente o mais importante. No século XIX
era utilizado para duplicar a quantidade de querosene que se extraía do petróleo.
Com o advento do automóvel, aumentou a demanda da gasolina, e o craqueamento
passou a ser usado como meio de elevar a produção desse combustível. Pelo
processo de Burton, aquece-se a matéria-prima a cerca de 500o C sob pressão e
obtém-se gasolina. Descobriu-se depois que a gasolina assim obtida era de
melhor qualidade. A seguir foi descoberto o craqueamento catalítico, pelo qual
catalisadores como a alumina, a bentonita e a sílica facilitam o rompimento das
moléculas.
A
polimerização é o contrário do craqueamento. Consiste na combinação de moléculas
menores em moléculas de hidrocarbonetos mais pesados, visando sobretudo à
obtenção de gasolina. O primeiro processo de polimerização utilizava como
matérias-primas hidrocarbonetos gasosos não-saturados, principalmente o
propileno e o butileno. Outro processo de polimerização, a alquilação,
combina essas duas matérias-primas com o isobutano, hidrocarboneto gasoso
saturado. A alquilação contribuiu grandemente para a produção de gasolina
para aviação.
O
terceiro tipo de processo químico é aquele que altera a estrutura das moléculas
de hidrocarbonetos, a fim de aumentar o poder de combustão do produto. Em
meados do século XX, as pesquisas orientaram-se, principalmente nos Estados
Unidos, para apurar a qualidade da gasolina, o que foi conseguido não só com o
desenvolvimento de novos processos de refinação, mas também com a introdução
de um aditivo, o chumbo tetraetila. Mais tarde, porém, os compostos de chumbo
foram retirados da mistura em muitos países por serem altamente poluentes.
Purificação.
A terceira classe de processos de refinação compreende aqueles que purificam
os produtos. Há no óleo cru muitos elementos não hidrocarbonados,
principalmente enxofre, que lhe conferem propriedades indesejáveis. Vários
processos foram criados para neutralizá-los ou removê-los. Por meio da
hidrogenação -- processo desenvolvido por técnicos alemães para a transformação
do carvão em gasolina -- as frações do petróleo são submetidas a altas
pressões de hidrogênio e a temperaturas entre 26o e 538o C, em presença de
catalisadores.
Distribuição.
A maioria dos produtos derivados do petróleo é constituída de líquidos, na
maior parte das condições estáveis, que podem ser acondicionados em tanques e
bombeados de um lugar para outro. Os produtos que apresentam maiores
dificuldades de manuseio são os que se encontram nas extremidades da escala de
ponto de ebulição: gases, graxas, combustíveis pesados, parafinas e asfaltos.
O gás liquefeito de petróleo (GLP) tem de ser armazenado e transportado sob
pressão e normalmente distribuído ao consumidor em cilindros. Graxas e alguns
óleos lubrificantes são acondicionados em barris e latas. Combustíveis
pesados e asfaltos, que se solidificam à temperatura ambiente, têm de ser
armazenados e distribuídos em recipientes aquecidos ou isolados.
Reservas
mundiais.
Embora os derivados do petróleo sejam consumidos no mundo inteiro, o óleo cru
só é produzido comercialmente num número relativamente diminuto de lugares, e
muitas vezes em áreas de deserto, pântanos e plataformas submarinas. O volume
total de petróleo ainda não descoberto em terra e na plataforma continental é
desconhecido, mas a indústria petrolífera desenvolveu o conceito de
"reserva provada" para designar o volume de óleo e gás que se sabe
existir e cuja extração é compensadora, considerados os custos e os métodos
conhecidos. Conforme relatório das Nações Unidas (Ocean Oil Weekly Report, de
7 de fevereiro de 1994), que toma como base a produção média de 1991, o
estoque mundial de óleo estaria esgotado em 75 anos. Das reservas atuais, 65%
estão no Oriente Médio. Segundo o relatório, o volume de óleo remanescente
na Terra é de 1,65 trilhões de barris, constituídos de 976,5 bilhões de
barris de óleo de reserva provada e de 674 bilhões de barris de óleo. (O
barril, medida habitual dos óleos, contém 159 litros. A densidade do petróleo
é variável, com valor médio de 0,81, o que significa 129 quilos por barril.
Um metro cúbico contém 6,3 barris, e uma tonelada, 7,5 barris).
Presume-se que ainda existam por serem descobertos
cerca de 800 a 900 bilhões de barris de petróleo no mundo. No Oriente Médio,
a maior parte do óleo descoberto e por descobrir encontra-se sob a terra, mas
no restante do mundo o óleo potencial deverá ser encontrado na plataforma
continental. (A Petrobrás e a Shell são os líderes mundiais em exploração e
produção em águas profundas.) Atividades de exploração e produção estão
sendo desenvolvidas nas plataformas do Brasil, golfo do México, Noruega, Reino
Unido, Califórnia, Nigéria e, em menor escala, China, Filipinas e Índia. São
de especial interesse os mares semifechados marginais, como mar do Norte, golfo
Pérsico, mar da Irlanda, baía de Hudson, mar Negro, mar Cáspio, mar Vermelho
e mar Adriático, que apresentam cortes sedimentares adequados e lâminas d'água
relativamente pequenas.
A
primeira referência à pesquisa do petróleo no Brasil remonta ao final do século
XIX. Entre 1892 e 1896, Eugênio Ferreira de Camargo instalou por conta própria,
em Bofete SP, uma sonda junto ao afloramento de uma rocha betuminosa. O furo
atingiu mais de 400m, mas o poço encontrou apenas água sulfurosa. Foi somente
em janeiro de 1939 que se revelou a existência de petróleo no solo brasileiro,
no poço de Lobato BA, perfurado pelo Departamento Nacional de Produção
Mineral, órgão do governo federal. O poço de Lobato produziu 2.089 barris de
óleo em 1940.
Em
outubro de 1953 instituiu-se o monopólio estatal da pesquisa, lavra, refinação,
transporte e importação do óleo no Brasil, pela Petrobrás (Petróleo
Brasileiro S.A.), sob a orientação e a fiscalização do Conselho Nacional de
Petróleo (CNP). Na década de 1950 e começo da de 1960 descobriram-se novos
campos, especialmente no Recôncavo Baiano e na bacia de Sergipe/Alagoas. Também
se desenvolveram pesquisas nas bacias sedimentares do Amazonas e do Paraná.
Em
março de 1955, foi encontrado petróleo em Nova Olinda, no médio Amazonas. Em
seguida, as atividades de perfuração estenderam-se até a bacia do Acre. Como
as quantidades de petróleo obtidas não eram comerciais, após seis anos a
avaliação dos resultados aconselhou a redução da exploração. Em 1967, as
perfurações na bacia amazônica foram suspensas. Com os avanços tecnológicos,
a Petrobrás procedeu os levantamentos geofísicos nas bacias do Paraná e do
Amazonas. Alcançaram-se bons resultados, em particular descobertas de gás
natural na região do rio Juruá, no alto Amazonas, a partir de 1978.
Dez
anos antes, a empresa iniciara a exploração de petróleo na plataforma
continental, com a descoberta de óleo no litoral de Sergipe (campo de
Guaricema). Foi, porém, a crise do petróleo, iniciada em 1973, que viabilizou
a prospecção em áreas antes consideradas antieconômicas. Na década de 1970,
intensificou-se a exploração de bacias submersas. A identificação de petróleo
na bacia de Campos, litoral do Rio de Janeiro, duplicou as reservas brasileiras.
Mais de vinte campos de pequeno e médio portes foram encontrados mais tarde no
litoral do Rio Grande do Norte, Ceará, Bahia, Alagoas e Sergipe. Em 1981, pela
primeira vez, a produção dos campos submarinos ultrapassou a dos campos em
terra. No início da década de 1980, o Brasil era, depois dos Estados Unidos, o
país que mais perfurava no mar, mas, no final do século, ainda precisava
importar quase a metade do petróleo que consumia, apesar de suas reservas
provadas de aproximadamente 3,8 bilhões de barris (0,2% das reservas
internacionais).
O
refino de petróleo no Brasil começou em 1932, ao ser instalada a Destilaria
Sul-Riograndense em Uruguaiana RS, com capacidade de 25m3. Em 1936
inauguraram-se duas outras refinarias: a de São Paulo, com capacidade de
oitenta metros cúbicos, e a de Rio Grande RS, capaz de produzir o dobro. Em
1959, o CNP instalou em Mataripe BA a Refinaria Nacional de Petróleo, mais
tarde denominada Refinaria Landulfo Alves.
Na
década de 1990 a Petrobrás contava com uma fábrica de asfalto, em Fortaleza
CE, e dez refinarias: Refinaria de Manaus (Reman); de Paulínia (Repkan);
Presidente Bernardes (RPBC); Henrique Lage (Revap); Presidente Getúlio Vargas
(Repar); Alberto Pasqualini (Refap); Duque de Caxias (Reduc); Gabriel Passos
(Regap); Landulfo Alves (RLAM); e Capuava (Recap). Em meados da década de 1990,
o Brasil produzia cerca de 750.000 barris de petróleo por dia, com a
possibilidade de aumento gradativo desse número, com a exploração de campos
gigantes da bacia de Campos.
Barsa.
Petrobrás
localiza bacia no Espírito Santo enquanto os estrangeiros não vêm
á
um clima misto de cautela e euforia na Petrobrás. Depois de uma década de
pesquisas, a empresa descobriu a pista de um provável depósito gigante de petróleo
e gás na costa sul do Espírito Santo em profundidade superior a 1.500 metros.
Resultados de testes sísmicos tridimensionais, apurados durante o mês de maio
passado, indicaram ser alta a probabilidade de ocorrência de uma área petrolífera
com capacidade produtiva acima de 600 bilhões de barris. Suas características
geológicas seriam similares às da Bacia de Campos, de onde sai 67% - 670 mil
barris diários - da produção nacional de petróleo. Com as ressalvas técnicas
habituais, a estatal já relatou ao Ministério das Minas e Energia, à Agência
Nacional de Petróleo e ao governo fluminense as perspectivas favoráveis à
prospecção no trecho de 150 quilômetros do subsolo marítimo, entre a
fronteira dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo e a Ilha de Vitória.
Aparentemente, trata-se de uma fração do conjunto de rochas armazenadoras de
óleo descoberto em meados dos anos 70 no litoral norte do Rio de Janeiro.
A
Petrobrás decidiu iniciar perfurações, o que não é um acontecimento
rotineiro devido aos custos elevados. Vai gastar cerca de US$ 5 milhões apenas
na primeira etapa de sondagem, marcada para o último trimestre. Ela tem uma
história de sucesso nesse tipo de operação, construída em duas décadas de
prospecções em Campos. Acertou quatro entre dez poços exploratórios que
decidiu perfurar, de profundidades superiores a 1 quilômetro. Abriu 628 poços
exploratórios e encontrou óleo em 263 deles - nível recorde de 42% em prospecção
marítima. Acertou, também, nove entre dez pontos da bacia que escolheu para
explorar comercialmente. Hoje, extrai óleo de 494 dos 537 poços que decidiu
desenvolver no litoral de Campos e concentra ali seus recursos operacionais.
Estacionou na região três dezenas de plataformas marítimas, interligadas por
uma teia de 1.300 quilômetros de dutos submersos, que é complementada por mais
2.500 quilômetros de linhas de transporte de óleo e gás.
Campos
é uma bacia de negócios estratégicos com reservas comprovadas acima de 10
bilhões de barris de óleo, além de 160 bilhões de metros cúbicos de gás
natural. Agora, será partilhada entre a Petrobrás e alguns dos maiores
conglomerados petrolíferos do planeta, associados a capitais privados
nacionais. E, por isso, tornou-se o centro de uma das maiores disputas
empresariais já ocorridas no país. O governo decidiu liberar a pesquisa e a
exploração em Campos como forma de garantir investimentos superiores a US$ 10
bilhões na região nos próximos cinco anos. A Agência Nacional de Petróleo
informa que daqui a três semanas anunciará as condições de partilha das áreas
entre a estatal e os grupos privados. No pacote devem estar os trechos ao norte
de Campos, que aparentam ser uma extensão da bacia e já foram confirmados como
promissores à prospecção e exploração. No esforço de garantir a dianteira
na escolha das melhores áreas, a Petrobrás programou uma gradual mobilização
de suas sondas de prospecção de Campos para Vitória, cerca de 200 quilômetros
mar acima.
Época
15/06/98
Dezesseis
anos depois da guerra, Argentina e Reino Unido voltam a se estranhar por causa
do petróleo encontrado no Atlântico Sul
A
Plataforma Borgny Dolphin achou petróleo no fundo do Oceano Atlântico a cerca
de 700 quilômetros da costa da Argentina. E o presidente argentino, Carlos
Menem, não gostou. A descoberta, feita no dia 21 de maio, trouxe de volta à
cena a disputa entre Argentina e Reino Unido pelas ilhas que, para os
argentinos, chamam-se Malvinas e são parte integrante do país e, para os britânicos,
chamam-se Falklands e são um de seus 13 territórios ultramarinos. Essa mesma
disputa levou os dois países à guerra em 1982. Quase mil homens morreram. O
chanceler argentino Guido Di Tella viu-se obrigado a fazer um protesto formal
contra o governo britânico por causa do petróleo. O mal-estar azeda a visita
de Menem a Londres no fim deste ano - a primeira de um presidente argentino
desde a guerra -, planejada para ser a festa da coroação de sua política
externa.
Os
argentinos prometem cobrar 3% de imposto das empresas que explorarem petróleo
nas Malvinas, se é que há petróleo em quantidade economicamente
significativa. E ameaçam punir as empresas que não pagarem. "Fomos
generosos", disse Di Tella a Época. "Quisemos permitir o
desenvolvimento da ilha. O normal, nesses casos, é deixar os bens econômicos
sem uso até que o problema de fundo tenha solução." O problema de fundo
é a soberania sobre as ilhas. A Argentina alega que o princípio da descolonização,
um dos pilares da ONU, obriga o governo britânico a ceder as ilhas, que ficam a
apenas 346 quilômetros do ponto mais próximo do território argentino. A solução
ainda não existe e, na opinião dos habitantes das ilhas, nem precisa existir,
já que, para eles, não há problema: o território pertence ao Reino Unido,
que, invocando outro princípio da ONU, alega a autodeterminação dos
habitantes do arquipélago para decidir quem manda neles. Mesmo que a escolha
seja Londres, a 14 mil quilômetros de distância, em outro continente, em outro
hemisfério.
A
decisão é mais ou menos previsível. A maioria dos cerca de 2.500 habitantes
descende dos ingleses que chegaram lá em 1833. Nos anos 30 imigraram muitos
escoceses. De tempos em tempos algum britânico se estabelece nas ilhas, em
busca de sossego. Fora isso, há uns tantos chilenos, alguns imigrantes de Santa
Helena, outra possessão britânica no Atlântico, e uns poucos indivíduos de
outras nacionalidades, inclusive duas brasileiras. Argentinos, desde a guerra, não
há mais.
Mais
de dois terços dos habitantes das ilhas vivem em Stanley, capital e única
cidade das Falklands. O resto vive na zona rural, chamada de camp, e não
country, influência dos sul-americanos que viviam lá quando os ingleses
chegaram. O camp guarda a maioria das marcas dessa influência. Há lugares com
nomes como Laguna Verde e Cerritos. Os pastores usam cavalos para lidar com os
rebanhos de carneiros, à maneira dos gôuchos, dizem os habitantes, certos de
que estão falando dos gaúchos. Currais de pedra, iguais aos da Patagônia, são
comuns nas ilhas. Ao lado do ovo de pingüim com manteiga e vinagre, a empanada
é tida como um dos pratos típicos da culinária kelper.
Mas
a vida está mudando nas Falklands e o lado sul-americano está ficando para trás,
como o próprio termo kelper. É esse o nome de quem nasceu nas ilhas, onde
abundam as algas kelp. Não é mais de bom-tom usá-lo desde que o Reino Unido
começou a prestar mais atenção às ilhas, depois da guerra. O termo acentua
demais a particularidade dos kelper em relação aos expats, abreviatura de
expatriados, que são os britânicos, principalmente os que vão trabalhar por
tempo determinado. O próprio governador das Falklands, Richard Ralph, o maior
dos expats, já que é membro do corpo diplomático britânico nomeado por
Londres, rejeita a idéia de uma identidade kelper essencialmente diferente da
dos britânicos. "Somos todos da mesma família", diz. Talvez agora,
depois da guerra. Antes de 1982 a parte kelper da família não tinha cidadania
britânica e precisava de visto para ir para a Inglaterra.
Mas
a maior atenção de Londres não é a única coisa que está mudando o modo de
vida nas Falklands. Há muito dinheiro lá desde 1986, quando as ilhas
decretaram uma faixa de 200 milhas de águas territoriais e começaram a vender
licenças para pesca. Mais da metade da receita do governo vem daí. São cerca
de US$ 25 milhões por ano. É a principal fonte de renda das Falklands. O resto
vem dos cerca de mil turistas que visitam o arquipélago por ano, em média, e
da mais tradicional das atividades das ilhas, a criação de carneiros, em declínio
por causa do baixo preço da lã no mercado mundial. O dinheiro está fazendo de
Stanley uma sociedade de consumo. Ninguém mais prepara o upland goose, um ganso
selvagem muito comum nas ilhas, para a ceia de Natal. Agora só se usam os perus
congelados trazidos da Inglaterra. O futebol, as corridas de cavalos e o golfe,
que é um esporte popular nas Falklands, disputam lugar com jet skis e jogos
eletrônicos.
O
petróleo pode garantir o futuro das ilhas. A pesca é um recurso vulnerável e,
embora as Falklands se orgulhem de ter um manejo sustentável dos mais
controlados do mundo, pesca-se cada vez menos nas águas das ilhas. O governo
acusa outros países pelo declínio. Eles controlariam menos a pesca das espécies
migratórias. Mas mesmo a lula loligo, que vive só nas águas das Falklands é
cada vez menos abundante. Ela é o principal alimento das aves marinhas da riquíssima
fauna local, que inclui cinco espécies de pingüim, a maior atração turística
das ilhas.
Se
o dinheiro e a ameaça ao equilíbrio ambiental da pesca preocupam, a
perspectiva de petróleo em abundância é apavorante. Em Stanley há um
sentimento dúbio. O dinheiro poderia melhorar a vida, mas os habitantes das
ilhas não querem perder sua tranqüilidade. Não querem novas cidades nem novos
imigrantes. E não querem que vazamentos de petróleo devastem as ilhas e seus
arredores. Tudo isso será, provavelmente, inevitável. Até a geopolítica das
ilhas será afetada. Diplomatas ouvidos por Época em Buenos Aires trabalham com
três cenários. Se não houver petróleo, o Reino Unido se desinteressará das
ilhas. Nesse caso, a tática de Di Tella de aproximação dos kelpers poderá
funcionar, e daqui a 50 ou 60 anos, quando as feridas da guerra cicatrizarem, as
ilhas poderão passar para a Argentina. Se houver só gás, o consumidor óbvio
será a Argentina, o que precipitará a aproximação e, eventualmente, a
transferência. Se houver muito petróleo, a Argentina poderá dar adeus às
ilhas.
A
posse das Malvinas é parte do projeto nacional argentino. Nenhum partido,
nenhuma corrente de opinião prevê a possibilidade de desistir das ilhas. A
oposição acusa Di Tella de ser muito brando na questão, mas ele confia em sua
capacidade de sedução. Depois de resolver 23 das 24 pendências territoriais
com o Chile, de conseguir estatuto de parceiro dos Estados Unidos extra-Otan,
todo o esforço da política externa do governo Menem está voltado para as
Malvinas. De certa forma, tudo o que foi feito antes visava convencer o mundo de
que a Argentina é uma parceira confiável do Ocidente, com que se pode negociar
civilizadamente. E o que há a negociar são as Malvinas.
Entrevista
Pela
discórdia
Chanceler
argentino quer começar a discutir
Guido
Di Tella, Chanceler Argentino
Época:
As Malvinas vão ser assunto abordado na visita de Menem a Londres?
Guido
Di Tella: Óbvio. Não podemos deixar de lado o que nos levou à guerra.
Queremos que os britânicos apliquem um princípio que criaram: "Let's
agree to disagree" (concordemos em discordar).
Época:
A relação direta com os ilhéus progrediu desde a guerra?
Di
Tella: Muito pouco, mas conseguimos mostrar que não somos ameaça.
Época:
Os kelpers dizem que não retomam contatos enquanto a Argentina não retirar sua
reivindicação.
Di
Tella: Chegar à solução como condição para começar a discutir é non
sense. Eu me encontro com os kelpers todos os anos no comitê de descolonização
da ONU. Eles não apertam a minha mão, não sei, parece que têm medo de se
contaminar. É ridículo.
Época:
E a bandeira argentina que o presidente Menem prometeu hastear nas ilhas até o
ano 2000?
Di
Tella: Bem, faltam dois anos, não é. Seria importante. É preciso uma presença
argentina pacífica, simpática. Um pouco da insegurança que os kelpers sentem
com essas coisas vem de eles saberem que os britânicos, antes da guerra,
estavam dispostos a entregá-los.
Época:
Eles dizem que não se pode confiar 100% nos britânicos.
Di
Tella: Está aí um ponto em que concordamos.
Sem
problema
Para
o governador, não há o que negociar
Richard
Ralph, governador das Ilhas Falklands
Época:
Como as Falklands vêem a viagem de Menem a Londres?
Richard
Ralph: Sem problemas. Foi garantido pelo governo britânico que as ilhas não vão
ser um dos assuntos.
Época:
A Argentina fez um protesto formal contra o início da prospecção de petróleo.
A tensão está descendo?
Ralph:
A Argentina está sendo coerente. Na medida em que não deixou de reclamar a
soberania sobre as ilhas, não poderia deixar de fazer um protesto. Nós teríamos
feito a mesma coisa.
Época:
A situação melhorou desde 1982?
Ralph:
As relações entre a Argentina e o Reino Unido melhoraram muitíssimo. Mesmo a
relação com as ilhas melhorou. Agora há uma guerra de palavras. Volta e meia
alguém na Argentina fala alguma coisa provocativa, como hastear uma bandeira
nas Falklands, mas não é uma discussão real sobre a soberania.
Época:
A Argentina poderia vir a ser um parceiro importante das Falklands?
Ralph:
Antes da Guerra, o único vôo para fora da ilha era para a Argentina. Os
habitantes das Falklands não gostariam de voltar a essa situação.
Época:
A ameaça militar acabou?
Ralph:
Ah, sim. Bem, não diria que acabou totalmente. Temos a força militar para
dissuadir a Argentina, mas, se ela diz que não fará nenhuma tentativa pela força,
eu acredito.
Época
08/06/98