
A MORTE, O JUÍZO, O CÉU E O INFERNO
Aos 22 anos, formado em Direito Civil e Canônico e um dos mais
promissores advogados de Nápoles, tudo abandonou, após um lapso
involuntário na defesa de uma causa judicial, para entregar-se às
pregações populares. Fundou a Congregação do Santíssimo Redentor
e escreveu inúmeras obras. É de sua famosa Preparação para a
Morte que extraímos estes trechos.
Santo Afonso Maria de Ligório,
Doutor da Igreja e grande moralista.
"Imaginai que estais vendo uma pessoa que acaba de exalar o último
suspiro; considerai esse cadáver deitado ainda no leito, com a cabeça
pendida sobre o peito, os cabelos em desalinho banhados ainda nos
suores da morte, os olhos encovados, as faces descarnadas, o rosto
acizentado, a língua e os lábios cor de ferro... o corpo frio e pesado.
Empalidece e treme quem quer que o vê. Quantas pessoas, à vista de
um parente ou de um amigo morto, não mudaram de vida e não
deixaram o mundo!
"Mais horrível ainda é o cadáver quando principia a corromper-se.
Há apenas 24 horas que esse moço morreu, e já o mau cheiro se
começa a sentir. É preciso abrir as janelas e queimar incenso; é
preciso quanto antes enviar esse corpo à igreja e entregá-lo à terra,
com receio de que venha a infeccionar toda a casa. ....
"No que se tornou esse orgulhoso, esse dissoluto! Ainda há pouco
acolhido e desejado nas sociedades, agora objeto de horror e de
desgosto para quem o vê! .... Há bem poucos instantes ainda, não se
falava senão do seu espírito, da sua polidez, das suas belas maneiras,
dos seus bons ditos; mas apenas está morto, já se perdeu a
lembrança de tudo isto. ....
"Pensai bem que, assim como vós fizestes na morte dos vossos
amigos, assim os outros agirão convosco. Os vivos entram para
aparecer por sua vez na cena, ocupando os bens e os lugares dos
mortos, e destes já não se faz ou quase não se faz caso ou menção. ...
"Na morte é preciso deixar tudo. O irmão de Tomás de Kempis, esse
grande servo de Deus, felicitava-se por ter construído uma casa
magnífica. Houve porém um amigo que lhe notou um defeito. 'Onde
está?' - perguntou ele. Respondeu-lhe o amigo: 'O defeito que lhe
acho é terdes vós mandado construir nela uma porta'. 'O quê! Uma
porta? Pois isso é defeito?'. 'Sim - acrescentou o amigo - porque um
dia, por essa porta, devereis sair sem vida, e assim deixar a casa e
tudo o mais'.
O Juízo. Para
isto reproduzimos o texto abaixo, de Santo Afonso Maria de Ligório,
sobre o juízo da alma culpada, na sua admirável obra Preparação
para a morte.
Do Juízo Particular
A alma culpada diante do Juiz
O Divino Redentor virá, em pessoa, julgar a alma, após a morte, no
Juízo ParticularÉ sentimento comum entre os teólogos que o Juízo
particular se faz logo que o homem expira, e que no próprio lugar
onde a alma se separa do corpo, aí é julgada por Jesus Cristo, que
não manda ninguém em seu lugar, mas vem Ele mesmo para este fim.
A sua vinda, diz Santo Agostinho, é motivo de alegria para o fiel e de
terror para o ímpio. Qual não será o espanto daquele que, vendo pela
primeira vez o seu Redentor, o vir indignado! Esta idéia causava tal
estremecimento ao Padre Luís Dupont, que fazia tremer consigo a
cela. O venerável Padre Juvenal Aucina, ouvindo cantar o Dies Irae
(Dia da Ira), pensou no terror que se lhe havia de apoderar da alma
quando se apresentasse no dia do Juízo, e resolveu deixar o mundo,
o que efetivamente fez. O aspecto do Juiz indignado será o anúncio
da condenação. Segundo São Bernardo, será então mais duro
sofrimento para a alma ver Jesus Cristo indignado do que estar no inferno.
Têm-se visto criminosos banhados em copioso suor frio na presença
de um juiz terrestre. Pison, comparecendo no senado com as insígnias
da sua culpa, sentiu tamanha confusão, que a si próprio deu a morte.
Que pena não é para um filho ou um vassalo ver seu pai ou o seu
príncipe indignados! Que maior mágoa não deve sofrer uma alma à
vista de Jesus Cristo, a quem desprezou durante toda a vida! Esse
Cordeiro, que a alma via tão manso enquanto estava no mundo,
vê-Lo-á agora irritado, sem esperança de jamais O apaziguar. Então
pedirá às montanhas que a esmaguem e a furtem das iras do Cordeiro
indignado. ....
Considerai a Acusação e o Exame. Haverá dois livros: o Evangelho e
a Consciência. No Evangelho ler-se-á o que o culpado devia fazer;
na Consciência, o que tiver feito. Na balança da divina justiça não se
pesarão as riquezas, nem a dignidade, nem a nobreza das pessoas,
mas sim, somente as obras. Diz Daniel: "Fostes pesado e achado
demasiadamente leve". Vejamos o comentário do Padre Alvarez:
"Não é ouro nem o poder do rei que está na balança, mas unicamente
sua pessoa".
Virão então os acusadores, e em primeiro lugar o demônio, diz Santo
Agostinho. Representará as obrigações em que não nos empenhamos
e que deixamos de cumprir, denunciar-nos-á todas as faltas,
marcando o dia e o lugar em que as cometemos.
Cornélio a Lapide acrescenta que Deus porá novamente diante dos
olhos do pecador os exemplos dos santos, todas as luzes e
inspirações com que o favoreceu durante a vida e, além disso, todos
os anos que lhe foram concedidos para que os empregasse na prática
do bem. Tereis, pois, de dar conta até de cada olhar, diz Santo
Anselmo. Assim como se funde o ouro para o separar das escórias,
assim são examinadas as boas obras, as confissões, as comunhões etc.
Do Juízo Particular II
O justo experimenta, ao morrer, um prelibar da alegria celestial
"Com que alegria não recebe a morte o que se acha na graça de
Deus e cedo espera ver Jesus Cristo e ouvir-lhe dizer: 'Bom e fiel
servo, recebe hoje a tua recompensa; entra por toda a eternidade na
alegria do teu Senhor!' Que consolação não darão então as
penitências, as orações, o desprendimento dos bens terrestres e tudo
o que se tiver feito em nome de Deus! Gozará então, o que tiver
amado a Deus, o fruto de todas as suas obras.
Persuadido desta verdade, o padre Hipólito Durazzo, da
Companhia de Jesus, longe de chorar, mostrava-se alegre todas as
vezes que morria algum religioso seu amigo com sinais de salvação.
Que absurdo - diz São João Crisóstomo - seria não acreditar na
existência do paraíso eterno e chorar o que para ele se dirige.
Que consolação então nos dá especialmente a lembrança das
homenagens prestadas à Mãe de Deus! - tais como rosários, visitas,
jejuns do sábado e congregações freqüentadas em honra sua. Virgo
Fidelis se chama a Maria, e como Ela é fiel em consolar nos últimos
momentos os seus servos fiéis!
Conta o Pe. Binet que um piedoso servo da Santa Virgem
dizia ao morrer: 'Se soubésseis o contentamento que, próximo da
morte, sentimos na alma por termos procurado servir bem à
Santíssima Mãe de Deus durante a nossa vida, ficaríeis admirados e
consolados. Eu não posso significar a alegria do coração no momento
em que me estais vendo'.
Que alegria também para o que amou a Jesus Cristo, e muitas
vezes O visitou no Santíssimo Sacramento e O recebeu na Santa
Comunhão, ver entrar no quarto seu Senhor que vem em Viático,
para o acompanhar na passagem para a outra vida! Feliz então o que
lhe puder dizer como São Felipe Nery: 'Eis aqui o amor do meu
coração, eis aqui o meu amor; dai-me o meu amor!'.
Dirá todavia alguém com receio: 'Quem sabe a sorte que me
está reservada? Quem sabe se por fim terei má morte?' - A quem fala
desta maneira, faço apenas uma simples pergunta: O que é que torna
a morte má? O pecado, só o pecado. Logo, é preciso receá-lo
unicamente, e não a morte, diz Santo Ambrósio. Quereis não recear
a morte? Vivei bem.
O Pe. de la Colombière (Serm. 50) tinha por moralmente
impossível que pudesse padecer morte má o que foi fiel a Deus
durante a vida. É o que já tinha dito Santo Agostinho. O que está
preparado para morrer não receia a morte, qualquer que seja, ainda
que venha de improviso.
E como só podemos gozar a Deus por meio da morte,
aconselha São Crisóstomo que de bom coração ofereçamos a Deus
este sacrifício necessário. Compreenda-se bem que aquele que
oferece a Deus a sua morte pratica para com Ele o ato de amor mais
perfeito possível, pois que, abraçando de bom coração esta morte
que agrada a Deus, no tempo e do modo que Deus quer, torna-se
semelhante aos Santos Mártires".
O Paraíso Celeste
Em seu livro Preparação para a Morte, Santo Afonso trata também
do último dos Novíssimos, isto é, do Paraíso Celeste, para onde vão
as almas dos justos após sua purificação no Purgatório, ou então
diretamente, pelo martírio ou por uma grandíssima santidade. A
existência do Céu é igualmente dogma de Fé. Dentre os vários
aspectos com que o Santo analisa o Paraíso, escolhemos para a
leitura de hoje o capítulo Felicidade do Céu, que, julgamos, será de
proveito espiritual para nossos leitores.
Felicidade do Céu
Depois de entrar na felicidade de Deus, a alma não terá mais nada a
sofrer. No paraíso não há doenças, nem pobreza, nem incômodos.
Deixam de existir as vicissitudes dos dias e das noites, do frio e do
calor; é um dia perpétuo, sempre sereno, primavera perpétua,
sempre deliciosa. Não há perseguições nem ciúmes; neste reino de
amor, todos os seus habitantes se amam mútua e ternamente, e cada
qual é tão feliz da ventura dos outros como da própria. Não há
receios, porque a alma, confirmada na graça, já não pode pecar nem
perder a Deus. Tudo é novo, tudo consola, tudo satisfaz.
Os olhos deslumbrar-se-ão com a vista desta cidade cuja beleza é
perfeita. Que maravilha não nos causaria a vista de uma cidade cujas
ruas fossem calçadas de cristal, e cujas casas fossem palácios de
prata ornados de cortinados de ouro e de grinaldas de flores de toda
espécie. Oh, quanto mais bela ainda é a cidade celeste!
Que delicioso não será ver todos os seus habitantes vestidos com
pompa real, porque todos efetivamente são reis, como lhes chama
Santo Agostinho: Quot cives, tot reges.
Que delicioso não será ver Maria, que parecerá mais bela que todo o
paraíso! Que delicioso não será ver o Cordeiro divino, Jesus, o
Esposo das almas!
Um dia Santa Teresa viu apenas uma das mãos de Cristo e ficou
cheia de admiração à vista de semelhante beleza.
Cheiros suavíssimos, perfumes incomparáveis regalarão o olfato. O
ouvido ouvirá arrebatado as harmonias celestes. Um Anjo deixou um
dia São Francisco ouvir um único som da música celeste, e o Santo
julgou morrer de felicidade. O que não será ouvir todos os Santos e
todos os Anjos cantarem em coro os louvores de Deus! O que não
será ouvir Maria celebrar as glórias do Altíssimo! A voz de Maria é
no Céu, diz São Francisco de Sales, o que é num bosque a do
rouxinol, que vence a de todas as outras aves.
Numa palavra, o paraíso é a reunião de todos os gozos que se
podem desejar.
Mas essas inefáveis delícias até aqui consideradas são apenas os
menores bens do paraíso. O bem, que faz o paraíso, é o Bem
supremo, que é Deus, diz Santo Agostinho. A recompensa que o
Senhor nos promete não consiste unicamente nas belezas, nas
harmonias, nos outros encantos da bem-aventurada cidade; a
recompensa principal é Deus, isto é, consiste em ver Deus face a face
a amá-Lo.
Assegura Santo Agostinho que, para os condenados, seria como
estar no paraíso se chegassem a ver Deus. E acrescenta que se fosse
dado a uma alma, ao sair desta vida, a escolha de ver a Deus ficando
nas penas do inferno, ou ser livre das penas do inferno e ao mesmo
tempo privada da vista de Deus, ela preferiria a primeira condição.
A felicidade de contemplar com amor a face de Deus, não a
podemos conceber neste mundo, mas procuremos avaliá-la, ainda
que não seja senão pela rama, segundo os efeitos que conhecemos.
O Inferno
Já abordamos os temas da Morte, do Juízo e do Paraíso Celeste.
Trataremos hoje do terceiro dos Novíssimos, isto é, o Inferno. Há
vários ângulos sob os quais se pode analisar o Inferno. Escolhemos
uma penetrante análise desse lugar de tormento, para onde vão as
almas daqueles que morreram na inimizade de Deus, extraída da
renomada obra Preparação para a morte, de Santo Afonso Maria de Ligório.
Consideremos a pena dos sentidos. É de fé que existe o inferno. E
no centro da Terra se acha esta horrível prisão destinada a punir os
que se revoltaram contra Deus.
"O que é o inferno? Um lugar de tormentos (Lc 16, 28), como lhe
chama o mau rico que a ele foi condenado: lugar de tormentos, onde
todos os sentidos e todas as faculdades do condenado devem ter o
seu tormento próprio, e quanto mais se tiver ofendido a Deus com
algum dos sentidos, tanto mais terá a sofrer este mesmo sentido.
"A vista será atormentada pelas trevas. De quanta compaixão nos
possuiríamos se soubéssemos que existia um infeliz encerrado em
escuro cárcere por toda a vida, ou por quarenta ou cinqüenta anos!
O inferno é um abismo fechado de toda a parte, onde nunca
penetrará raio de sol ou de qualquer outra luz. Neste mundo o fogo
ilumina; no inferno, deixará de ser luminoso.
"Segundo São Basílio, o Senhor separará do fogo a luz, de tal sorte
que este fogo arderá sem iluminar, o que Alberto o Grande exprime
mais brevemente nestes termos: "Dividet a calore splendorem"
[separou do calor a luz]. O fumo que sair dessa fornalha formará o
dilúvio de trevas de que fala São Judas [Tadeu], e que afligirá os
olhos dos condenados. São Tomás diz que os condenados só terão a
luz suficiente para serem mais atormentados; a esta sinistra claridade,
verão o estado horrendo dos outros réprobos e dos demônios, que
tomarão diversas formas para lhes causarem mais horror.
"O olfato terá também o seu suplício. Quanto não sofreríamos se nos
metêssemos num quarto onde jazesse um cadáver em putrefação! O
condenado deve ficar no meio de milhões e milhões de condenados,
cheios de vida com relação às penas que sofrem, mas verdadeiros
cadáveres enquanto ao mau cheiro que exalam.
"Diz São Boaventura que o corpo de um condenado, se acaso fosse
atirado à Terra, bastaria com sua infecção para fazer morrer todos os
homens. E ainda há insensatos que se atrevem a dizer: 'Se for para o
inferno, não me hei de achar só!' Infelizes! Quantos mais lá
encontrarem, tanto mais sofrerão, como assegura São Tomás. Tanto
mais se sofrerá, digo eu, por causa da infecção, dos gritos e do
aperto, porque os réprobos estarão no inferno tão juntos uns dos
outros, como rebanho de ovelhas encerradas no curral durante a
tempestade; ou, para melhor dizer, serão como uvas esmagadas no
lagar da cólera de Deus.
"Daí nasce o suplício da imobilidade: Fiant immobiles quasi a lapis
(Exod. 15, 16). Pela maneira como o condenado cair no inferno no
último dia, dessa maneira viverá ali constrangidamente, sem nunca
mudar de situação, e sem nunca poder mexer pés nem mãos
enquanto Deus for Deus.
"O ouvido será continuamente atormentado pelos rugidos e queixas
desses infelizes desesperados. A este barulho contínuo acrescentarão
sem cessar os demônios ruídos pavorosos. Quando desejamos
dormir, é com o maior desespero que ouvimos o lastimar contínuo de
um doente, o ladrar de um cão ou o choro de uma criança. Qual não
será o tormento dos condenados obrigados a ouvir incessantemente,
durante toda a eternidade, esses ruídos e clamores insuportáveis!
"Pelo que diz respeito ao gosto, sofrer-se-á fome e sede. O
condenado sentirá uma fome devoradora, mas nunca terá nem uma
só migalha de pão. Além disso, será atormentado de tal sede que
nem todas as águas do mundo bastariam para lha apagar. Apesar
desta terrível sede, não terá uma só gota. O mau rico pediu-a, mas
nunca a obteve e não a obterá nunca, nunca!"
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