OF FREAKS & FIENDS

AN ESSAY ON GOTHIC LITERATURE, IT'S ORIGIN AND IT'S DEVELOPMENT UP TO TODAY

Por

Hugo Renato Freitas Xavier




Pre�mbulo


Se considerarmos que todo o discurso n�o mais � que uma elabora��o individual e, portanto, subjectiva, teremos que aceitar o ensaio como uma das melhores categorias da fic��o.
Com efeito o ensaio n�o mais � que uma elabora��o de conhecimentos subjectivos de forma a convir uma interpreta��o tamb�m ela subjectiva, porque pessoal, e que se pretende escudar por detr�s de uma apar�ncia de um qualquer rigor cient�fico que nunca poder� ser totalmente verdadeiro...

* * *

Na medida do que foi anteriormente estipulado teremos que concordar que o mais que um ensaio pode aspirar ser� o ter v�rias opini�es coincidentes com a que expressa. S� assim o ensaio poder� estar pr�ximo de universalidade que deseja.


Hugo Renato Freitas Xavier




Introdu��o

O objectivo do presente estudo reside numa tentativa de discutir, primeiramente, se estamos perante uma individualidade que delimite como g�nero o g�tico. Numa segunda fase discutir-se-� da influ�ncia do g�tico na g�nese dos g�neros mais comuns da dita literatura popular.
Como ponto de partida para a nossa discuss�o estar� sempre a um n�vel subliminar a Hist�ria das ideias, nessa perspectiva tenhamos presente a evolu��o da ideia de Natureza que seguiremos a partir da obra de Robert Lenoble .
A nossa pesquisa centra-se essencialmente na literatura anglo-americana num per�odo que abrange aproximadamente desde a segunda metade do s�culo XVIII at� � �poca edwardiana.
Escusado ser� dizer que sempre que seja necess�rio o campo de estudos estender-se-� a outros espa�os (frequentemente a Fran�a) para demonstrar rela��es intra e intergen�ricas; por sua vez o mesmo campo alargar-se-� sempre que vi�vel ao espa�o portugu�s � sobre as liga��es g�tico-literatura portuguesa debru�ar-se-� um dos ap�ndices do estudo. 


Os conceitos com os quais trabalharemos em estreita liga��o s�o desde j� explicados numa primeira abordagem:

�  - MARAVILHOSO:

O maravilhoso ou meta-emp�rico estende as suas ra�zes ao imagin�rio mediterr�neo, tem rela��es muito profundas com o humor. �, na sua actualiza��o, no mundo moderno, frequentes vezes associado ao mundo infantil. Tendo sofrido a forte influ�ncia do catolicismo dominante o maravilhoso liga-se igualmente ao mundo angelical. As tem�ticas do maravilhoso t�m por efeito essencial o espanto e nunca o medo.
Festa: o carnaval.
 
�  - FANT�STICO

O fant�stico de base correlato ao imagin�rio germ�nico; como o maravilhoso se liga ao humor o fant�stico liga-se ao er�tico. As mitologias do norte-europeu ligadas ao �mundo adulto� versam geralmente temas como o amor e a morte (entenda-se por morte a morte das mortes, i.e., a perda da alma ). Sob influ�ncia do protestantismo o fant�stico relaciona-se directamente com o demon�aco.
Festa: o �Halloween�.
 
�  - SURREAL

O surreal conjuga o maravilhoso e o fant�stico, bem como os seus �companheiros� humor e erotismo, trabalha antecipando (falamos � �bvio do primeiro surrealismo � Laut�amont) o trabalho de Jung, debru�ando-se como tal sobre todas as facetas do sobrenatural � o inconsciente individual e colectivo.

�  - SOBRENATURAL:

Por sobrenatural (no liter�rio) entenderemos � seguindo Jung � todas as estruturas m�ticas que constituem a forma de organiza��o do nosso entendimento do real. Sendo que, a n�vel liter�rio, as organiza��es do individual est�o estreitamente ligadas ao s�mbolismo.

Quer�amos ainda fazer notar que o imagin�rio do per�odo vitoriano trabalha sobre uma apar�ncia maravilhosa um conte�do fant�stico � veja-se a poesia de Christina Rossetti ou o imagin�rio pr�-rafaelita...
Usar-se-� uma denomina��o geral para todos os tipos de literatura que surgem � segundo a nossa opini�o � a partir do g�tico na era Vitoriana: literatura escapista.
Salienta-se desde j� que as defini��es apresentadas correspondem a uma interpreta��o individual e, como tal, perfeitamente discut�vel.
 


Cap�tulo primeiro:

Instaura��o de um  g�nero?

Prima quaestio


Uma das quest�es que com maior frequ�ncia se nos depara ao tratar o G�tico � a de discernir se este faz de algum modo parte do Romantismo ou se, por outra, representa um g�nero � parte.
� uma falsa quest�o que sentimos precis�o de resolver de imediato: com efeito se olharmos para a primeira manifesta��o G�tica em Inglaterra depara-se-nos, primeiro, n�o uma obra em prosa e, segundo, n�o uma obra originalmente Inglesa. Estamos perante a tradu��o da balada de Lenore  de Gotfried August B�rger. E quem � B�rger? � simplesmente um dos fundadores da balada Rom�ntica Alem�.
A balada de Lenore foi traduzida sucessivamente por alguns dos nomes que haveriam de ser dos maiores cultores do G�tico: assim temos que foi traduzida por Walpole, Scott e Mathew �monk� Lewis. � ali�s a partir dessa tradu��o que Scott inicia a sua carreira como �recolector� de baladas medievais � muitas delas obviamente forjadas.
� pois interessante verificar que as ra�zes do G�tico est�o n�o na prosa mas na poesia, poesia essa que at� ent�o monopolizara quasi exclusivamente todo o elemento sobrenatural fosse ele fant�stico ou maravilhoso. E, se quisermos um exemplo de como essa fac��o do g�tico enquanto poesia teve influ�ncia a n�vel de todo o Romantismo Europeu, basta que confrontemos a escola dos denominados �Graveyard Poets� cujo expoente foi Edward Young com casos v�rios do Ultra-Romantismo (veja-se o noivado do sepulcro de Soares de Passos , t�o pr�ximo da tem�tica de Lenore).  
A conclus�o evidente � de que o G�tico funciona um pouco como pr�-Romantismo.

Secunda quaestio


A segunda quest�o sobre a qual quer�amos ponderar reside na g�nese tem�tica sobre que radica o G�tico.
Que movimentos e/ou g�neros antecedem, ent�o, o per�odo G�tico � uma vez que determin�mos considerar o G�tico como prel�dio do Romantismo, passaremos a dividir este movimento em per�odos.
Observemos o problema segundo este prisma: depois de um dom�nio completo do neoclassicismo e do rigor e ordem que caracterizam o paradigma racionalista do Iluminismo entramos numa fase de contra-resposta, geralmente denominada no meio Ingl�s como per�odo Sentimentalista � em honra � claro dessa obra prima do rid�culo liter�rio que � The Man of Feeling de Henry MacKensie.
Ora, sabendo n�s que ao longo da evolu��o liter�ria e intelectual da humanidade todas as correntes de pensamento se articulam entre racional e emocional, natural e artificial, perfei��o e imperfei��o... vimos a verificar que o sentimentalismo �, afinal, o primeiro momento de reac��o violenta ao neoclassicismo, � portanto, tamb�m, o primeiro momento de introdu��o de algo que se aproxima do Romantismo.
Consideremos pois o esquema seguinte, n�o esquecendo que a transi��o entre o neoclassicismo e o romantismo traz consigo a instaura��o do romance (novel), da prosa ficcional, como tipo dominante e dominador de toda a literatura:
N�o estamos igualmente a falar de tem�ticas como as que Punter  usa para caracterizar toda a individualidade do g�nero g�tico (essas funcionam numa percep��o do g�nero em si) mas de tem�ticas que funcionem face a movimentos outros.


      
    



Com este esquema pudemos observar como � que se estrutura a evolu��o da tematologia liter�ria na transi��o Neoclassicismo � Romantismo.
� importante referir que estas camadas de influ�ncia sob a prosa de fic��o n�o se substituem mas funcionam entre si, sendo que a �ltima � obviamente a dominante mas submetida sempre a um substrato ao qual presidem as influ�ncias anteriores.
Com isto verifica-se igualmente que, como j� se sabe, nem sempre a evolu��o de um topos para outro se faz directamente ou pelos caminhos esperados: com efeito os Rom�nticos �descobrem� a natureza s� depois de conhecerem o sobrenatural. Esta perspectiva que agora se nos abre permite eventualmente explicar porque motivo a natureza no Romantismo Ingl�s se reveste de um cariz artificial.
Porque a realidade � que, compreenda-se, para um rom�ntico � a natureza � � claramente um constructo a partir da imagina��o/mem�ria (vectores essenciais do pensamento rom�ntico), logo a partir da fantasia...
Percebe-se pois portanto de que forma � que o paradigma de Hist�ria Cl�ssica influenciado pela Fantasia, importada via G�tico do primeiro Romantismo Alem�o, pode resultar numa deturpa��o do rigor hist�rico que leva a que a Idade M�dia para os cultores do G�tico seja algo de culturalmente indefinido que se estende quase desde a antiguidade at� ao s�culo XVII.
Percebemos assim os versos medievalistas de Shaftsbury ou a farsa de Ossian perpetrada por James McPherson; entendemos da mesma forma como o Romantismo traz a g�nese do romance hist�rico por Scott � tradutor da balada Lenore � onde o sobrenatural est� quase sempre presente ( o melhor exemplo � Anne of Geierstein or the Maiden of the Mist � 1829 ).




Cap�tulo segundo:

Do G�tico � explos�o da literatura escapista do per�odo vitoriano


O per�odo de cis�o

Depois de um per�odo em que literatura de massas significou novidade e foi dignamente representada por aquilo a que se convencionou designar por Literatura de Cordel, entramos num per�odo vitoriano em que a popula��o parece crescentemente consciente da import�ncia da literatura e do seu papel social � relembramos o especial relevo que o folheto desempenhou na forma��o da opini�o p�blica aquando das grandes revolu��es (Francesa e Americana).
A literatura de massas ou popular como era � �poca nomeada vai ter por base, ent�o, a literatura de cordel que segue uma tradi��o cujas ra�zes assentam na literatura que denomin�mos de sentimentalista.
E � sobre esta literatura popular que v�o influir dois mecanismos diametralmente opostos: um apertado controlo pseudo-moralista caracter�stico do primeiro vitorianismo, e a no��o escapista libertin�ria que lhe vem por resposta, na fase decadente do per�odo.
Da primeira influ�ncia ficam os personagens tipo sem profundidade psicol�gica que representaram a um tempo um certo �espartilhamento� social, da segunda surgem as no��es escapistas e/ou an�rquicas que resultam num extremo no conceito da aventura, esse roaming que n�o mais � que um reaproveitamento do wandering rom�ntico (que o g�tico tamb�m j� desenvolvera), no outro extremo est� uma literatura de deturpa��o de todo e qualquer valor social imposto cujos exemplos s�o a mui prol�fica literatura er�tica vitoriana e folhetos de incita��o � revolu��o seja ela qual for porque motivos for...
Mas de que maneira � que passamos da literatura G�tica � literatura escapista vitoriana?

G�tico �Romantismo �Vitorianismo

O Romance inici�tico do G�tico The Castle of Otranto serve como base para estabelecermos as diferen�as essenciais dentro do pr�prio movimento, diferen�as essa que se prendem como usos feitos do elemento sobrenatural ou anatural � �[...] the Gothic writers appeared [...] to portray unnaturalness in all its most lurid colours.� .
� de facto o vector do sobrenatural que nos vai guiar, vector esse que, tamb�m segundo Punter, parece ser o que mais atra�a ou repelia os contempor�neos da literatura tida por G�tica.
The Castle of Otranto � o exemplo mais claramente sobrenatural de sobrenatural no G�tico chegando a raiar um certo non-sense pelo exagero  no retratar dessa terr�vel vingan�a dos �esp�ritos� contra o senhor do castelo. � tamb�m o romance que mais influ�ncia os escritores que o v�o seguir , mas ser� o romance que marca a fronteira m�xima do sobrenatural a usar na literatura, nunca da� em diante foi t�o longe qualquer romance g�tico ou de inspira��o g�tica. As diferen�as n�o se ficam contudo por aqui: de facto a n�o centralidade de uma figura feminina, a aus�ncia de um erotismo muito sui generis  ou a presen�a de um certo sentido de trag�dia cl�ssica � n�o se pode evitar o destino -, marcam este romance como impar.
O pr�prio Walpole n�o insistiu na formula, sabia que era apenas uma obra destinada a abalar as mentalidades e os gostos da �poca. N�o se pense, apesar do que foi dito, que esta linha se vai perder de alguma forma, antes pelo contr�rio, � a base da denominada �Ghost story� ou da literatura de terror, cujos cultores mais famosos foram (no mundo ingl�s porque � nele que nos centramos) LeFanu e M. R. James, mas a eles voltaremos adiante.
Mrs. Radcliffe foi uma das mais fervorosas admiradoras (e correspondentes) de Walpole e � a mais importante dos autores G�ticos em termos de influ�ncia futura. At� que ponto se estende a sua contribui��o?, a primeira inova��o de Mrs. Radcliffe foi a aproxima��o do seu romance � �est�tica-tem�tica� sentimentalista, em seguida, a introdu��o da figura central feminina que passou para a posteridade como ex-libirs da �poca liter�ria , por fim a explica��o do sobrenatural pelo racional � da� que as suas obras possam passar por expurga��o dos medos da mulher para o seu triunfo enquanto ser racional sobre o dom�nio sobrenatural em que o homem-vil�o as prende , ser�o ent�o as obras de Mrs. Radcliffe romances camufladamente a favor de uma emancipa��o da mulher como ser racional. Este �ltimo ponto � extremamente problem�tico porque a admitirmo-lo teremos que considerar que o prop�sito vai absolutamente contra a doutrina anti-racionalista de Walpole ou o cariz pr�- Rom�ntico que atribu�mos ao G�tico, mas apesar disso vai ser nestes moldes impostos por Mrs. Radcliffe que se vai estruturar todo o G�tico � essas mir�ades de romances, dramas de �faca e alguidar�, e poemas que enchem um per�odo muito curto que se estende de 1760 a 1820.
Mais que tudo isto Mrs. Radcliffe � a m�e do G�nero policial, a autora mais divulgada a n�vel europeu, plagiada ad infinitum por seguidores menores, � uma influ�ncia assumida em Collins e �nvia em Poe ou Conan Doyle; de facto Doyle presta-lhe culto nas raras figuras femininas que assumem preponder�ncia capital nos contos de Sherlock Holmes como Irene Adler , e ao sobrenatural em geral como em O Vampiro do Sussex.
Esta predisposi��o de Mrs. Radfcliffe para a explica��o do aparentemente sobrenatural pelo racional descambar� mais tarde em dois dos percursores daquilo que se convencionar� chamar fic��o-cient�fica; assim dois escritores que � primeira vista t�m relativamente pouco em comum est�o afinal muito pr�ximos, falamos de Verne e Wells.
Um Verne que se especializa em romances de antecipa��o cient�fica ou relatos aventurosos de viagens tem uma outra vertente menos explorada e talvez mais interessante que � a que visa responder a textos condicionados pelo sobrenatural, em A Esfinge dos Gelos continua a narrativa fant�stica de A. Gordon Pym, em O Segredo de Wilhelm Storitz que antecipa brilhantemente o The Invisible Man de Wells. O pr�prio Wells que foi um dos criadores desse g�nero t�o sempre na fronteira entre o sobrenatural e o racional, esse Wells que passou mais para o lado do terror em The Island of Dr. Moreau, mas t�o mais perto do racional cient�fico em The Time Machine e nos seus contos (temos que nos esquecer voluntariamente das inten��es filos�fico-pol�ticas de Wells), ele que se correspondeu com o americano Stockton e com o Irland�s naturalizado americano Fitzjames O�Brien, qualquer um deles tendo trabalhado a fic��o-cient�fica e um sobrenatural com tra�os fant�sticos mas valor maravilhoso � inclusiv� com humor como o pr�prio Wells em �The Man Who could Work Miracles�. � Jules Verne quem escreve em 1892 O Castelo dos C�rpatos obra onde se resolvem velhos mist�rios de um castelo transilvano explicados de forma cient�fica eventualmente bastante interessante de se ler em compara��o com Dracula .
Temos quase definida a primeira corrente evolutiva que partiu do G�tico, corrente que se pode caracterizar por usar de um sobrenatural explicado racionalmente. Esta corrente est� pois na base da literatura policial, na literatura de fic��o-cient�fica e � uma corrente claramente apegada � prosa (seja ela conto, novela ou romance).
A irregularidade com que os escritores G�ticos parecem tratar a Hist�ria, para se aproximarem da lenda foi mantida como j� dissemos por muitos rom�nticos foi tamb�m importada para uma Europa ansiosa de romances de Mrs. Radcliffe, uma Europa que aceita com alguma renit�ncia o The Monk de Lewis � sucesso �bvio na Europa protestante, proibido na cat�lica, mas que, no fim do G�tico se predisp�e a adorar Melmoth, The Wanderer que o pr�prio Charles Robert Maturin traduz para franc�s.

*  *  *

Por outro lado e misturando o gosto dos vitorianos pelo ex�tico William Beckford explora o maravilhoso �rabo-orientalista  seguindo o sucesso da tradu��o de Galland das Mil-e-uma noites, � com este elemento ex�tico que � arrastada toda uma carga er�tica, que se vai ligar a esta segunda corrente que poder�amos designar por linha pura do G�tico que se perp�tua no denominado �Ghost Story�.
Cham�mos a esta segunda linha �pura� porque � n�o s� tematicamente mais pr�xima da obra de Walpole como tamb�m a estruturalmente e psicologicamente mais chegada. Esta �Ghost Story� vai ter em LeFanu e em M. R. James dois dos seus melhores cultores mas vai tamb�m, sob influ�ncia de novo do Romantismo Alem�o sofrer uma nova cis�o: com efeito � sob a al�ada de Hoffmann com a sua mitologia germ�nica arcaica que surge boa parte da literatura infantil vitoriana cujo funcionamento j� explic�mos anteriormente.
N�o nos esquecemos daquele que foi o maior expoente desta variedade se bem que tenha estado igualmente ligado �s duas restantes correntes: Poe...
Esta corrente sofre ainda uma forte influ�ncia a partir dos trabalhos de Freud e mais tarde com Jung.
Esta �segunda via� � antecessora directa da actual literatura fant�stica � que, devemos diz�-lo, n�o anda t�o perto quanto isso do fant�stico como o definimos.
Contudo essa tend�ncia orientalista-ex�tica n�o � esquecida e segue por toda a literatura da �poca vitoriana quer em contos orientalistas quer nas fic��es ex�ticas de Rider Haggard. 

*  *  *

Uma terceira via chega � �poca vitoriana por meio daquilo que j� cham�mos de dramas de �faca e alguidar� cuja produ��o encheu centenas de salas em representa��es que se estenderam desde o surgimento do G�tico at� bem pr�ximo do s�culo XX, curiosamente essa via, que tem claras afinidades com o teatro de S�neca, s� na �poca vitoriana propriamente dita perpassa para a prosa pois at� a� vivera nos teatros e em poesia de fraca qualidade como a cultivada por Owen Meredith . Pelo seu pr�prio caracter essa corrente ser� designada como �Terr�fica� ou �Negra� , mais que qualquer das outras correntes esta fac��o da literatura derivada do G�tico trabalha com os afectos do leitor face a algo que j� Arist�teles definira como o �terror e a piedade�. S�o exemplos muito claros n�o s� o famos�ssimo Dracula, como o Frankenstein de Mary Shelley ou The Island of Dr. Moreau, alguns dos contos de Poe, algumas das novelas de LeFanu (que n�o os contos ou os romances), e, mais recentemente as obras de Lovecraft.
A grande diferen�a desta corrente para a �linha pura� reside n�o apenas na inten��o horr�fica da primeira mas, sobretudo,  no n�o trabalhar mitos ou lendas conhecidos e/ou pr�ximos, nem ex�ticos de base maravilhosa.
Os mitos ou lendas s�o ou distantes � estrangeiros -, como no caso dos vampiros, ou novos como nos monstros do Dr. Frankenstein e do Dr. Moreau e carregam uma tal carga negra que quando importados para a Fran�a do s�culo passado por Charles Nodier v�o estar na base de todos os escritos dos percursores do surrealismo: os decadentistas de ra�zes s�mbolistas como Lautr�amont ou Huysmans. Assim � curioso notar como uma influ�ncia de uma corrente que parecia condenada a ser a menos aceite num meio tido por culto v� ser o alicerce de um movimento central do pensamento Europeu n�o derivando, salvo exemplos de muito fraca qualidade, num qualquer tipo de literatura de massas. Talvez se deva a que, para infundir o terror nos seus leitores, os escritores desta corrente no seu original tenham tido que dar maior profundidade psicol�gica aos seus personagens para permitirem mais f�cil identifica��o como o leitor.
Quer na sua primeira manifesta��o enquanto literatura popular quer na sua realiza��o culta continental esta linha est� claramente ligada ao elemento fant�stico do qual nunca se separa.

*  *  *

Quando falamos destas divis�es temos que ter em conta que n�o h� sempre uma separa��o absolutamente n�tida entre as linhas que descrevemos, at� porque essa separa��o se dera ainda h� bem pouco. Um exemplo claro ser� o d�Os Cantos de Maldoror que inserimos na terceira linha mas que vai buscar, tematicamente, as suas funda��es ao Judeu Errante de Sue que por sua vez era considerado o Walter Scott Franc�s .
A indefini��o entre estas subdivis�es deve-se tamb�m muito a terem um p�blico alvo espec�fico � pela primeira vez na hist�ria muitas destas hist�rias s�o escritas tendo em vista um p�blico em geral jovem de classe m�dia-baixa, os rapazes que se destinavam a soldados do imp�rio. � essa inten��o moral e pol�tica da auto-propaganda da aventura que est� no mais profundo recanto da cis�o entre o G�tico e as correntes que dele prov�em, uma mudan�a de p�blico intencional e patrocinada por um sistema que defende e cria ainda um dos maiores conjuntos de bildung-romans destinados � juventude. �, por tudo isto, uma mudan�a condicionada socialmente, que, se bem que defendendo muitos dos prop�sitos do romantismo dele se afasta por recolocar o �nfase no intento social da aventura em contrapartida � express�o individual da aventura como propunha aquele movimento.
       





Conclus�es

Todos os pontos agora apresentados foram j�, de uma forma ou de outra, tratados ao longo do presente estudo.
A conclus�o mais importante a que cheg�mos foi a de o G�tico e as correntes da� derivadas acompanham o desenvolvimento de toda uma cultura��o de massas ocorrida desde a �poca das revolu��es e ao longo de todo o s�culo XIX. Tendo o G�tico feito a transi��o do elemento fant�stico da poesia para a prosa, � esse elemento que atrai as massas ledoras a este estilo de literatura e aos seus derivados.
� uma �rea da literatura que trabalha sobretudo a atmosfera (cria ambientes de suspense), que monopoliza os afectos do leitor; � portanto uma literatura ainda presa ao lado emocional por mais racional que aparente ser, assim � muito n�tido que lemos com a emo��o o policial � o que nos permite n�o detectarmos certos defeitos da pr�pria l�gica de racioc�nio que est� na base de muitos argumentos: as conclus�es a que Sherlock Holmes chega a partir de determinada observa��o s�o correctas mas a outras conclus�es se poderia chegar pela mesma observa��o. Mantemo-nos ainda muito perto da inten��o original de afastar as mentalidades da l�gica e �formalismo� neo-cl�ssico como queria o Romantismo, como queria Walpole ao apresentar uma hist�ria em que o sobrenatural � t�o forte que n�o permite sen�o uma interpreta��o emocional/espiritual dos eventos, esse jogo com uma no��o bem mais recente de �estranhamento�.
Se quisermos fazer um alargamento de conclus�o poderemos afirmar que toda a literatura de �massas�, desde o per�odo sentimentalista at� hoje, � uma literatura rom�ntica, quer tenha surgido do Sentimentalismo (ex. os romances de Barbara Cartland ou de Corin Tellado), quer sejam os derivados do G�tico (nas tr�s linhas j� referidas) ou algumas obras de fundo tipicamente Rom�ntico. � ent�o de certa forma estranho que o Romantismo tendo sido perpetuado por formas mais pr�ximas � sua g�nese que ao seu acme.
Estas ser�o quest�es a discutir num �mbito diferente. Por hora importa o termos estabelecido de que maneira o G�tico se integra no Romantismo, e at� que ponto; e de que modo a sua influ�ncia � hoje, mais que importante, dominante sobre boa parte da literatura que se produz, em especial nos pa�ses onde esse mesmo G�tico deixou mais fortemente marcada a sua impress�o.




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- Foram consultadas as obras completas de Conan Doyle na edi��o Penguin, de Edgar Wallace nas colec��es de C�rculo de Leitores e Companhia editora nacional de S�o paulo; e de Edgar Rice Borroughs na edi��o Portugal Press.


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1999 � Hugo Renato
Freitas Xavier
O sonho da raz�o produz monstros
GOYA � Los Caprichos

Fashion is that by which the fantastic becomes for a moment universal.
OSCAR WILDE
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