Revista Eletrônica INFORMATIVO G.R.D. ANO V - Edição 12 - JUL/DEZ - 2005
Rio de Janeiro, 07 de setembro de 2005

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RESUMO:

 

GINÁSTICA RÍTMICA,
O DESPORTO DA ARTE EXPRESSIVA DO CORPO

Prof.ª Dr.ª Daisy Barros
Árbitro Internacional de Ginástica Rítmica
Ex-Técnica da Seleção Brasileira de Ginástica Rítmica

A Ginástica Rítmica, sistema de atividades física e artística feminina, adaptada às condições psíquicas, físicas e morfológicas, apresenta conjunto sucessivo e variado de movimentos executados em sua globalidade com expressividade, ritmo e variações dinâmicas, com ou sem aparelhos manuais.

            Através dos exercícios individuais e de conjunto, a ginástica rítmica visa ao aprimoramento estético e à performance artística do movimento, sob um sentido dinâmico, refletindo unidade perfeita entre movimentos e música.

São aparelhos utilizados na Ginástica Rítmica: corda, arco, bola, maça e fita que integram a arte expressiva dos movimentos com as habilidades de manipulação.

Essa modalidade desportiva pode ser executada em qualquer faixa etária, não existindo uma idade pré-determinada para iniciar sua prática.

Os movimentos naturais e espontâneos da criança surgem no decorrer das etapas do desenvolvimento psicomotor e evoluem de acordo com os processos de maturação neurológica. 

Rolar, rastejar, engatinhar, equilibrar, lançar, correr, saltitar e saltar são atividades coordenadas com aparelhos e utilizadas na ginástica rítmica. Como objetivo visam a integração da locomoção, manipulação e do tônus corporal.

Os ensinamentos da Ginástica Rítmica são aplicados nas escolinhas de ginástica e em clubes desportivos, podendo alcançar o desenvolvimento de alto nível, chegando às competições estaduais, nacionais, internacionais e até mesmo aos jogos olímpicos.

No Estado do Rio de Janeiro a Federação de Ginástica – FGERJ – propicia cursos de capacitação de professores, técnicos, árbitros e ginastas atuantes na modalidade desportiva, objetivando as competições escolares e de clubes. Daí a razão pela qual o Estado do Rio foi o celeiro das melhores ginastas do Brasil durante muitos anos, liderando a prática da Ginástica Rítmica que integra a arte expressiva do movimento corporal com os aparelhos manuais.

Como desporto e arte interpretativa de gestos e movimentos, a Ginástica Rítmica, considerada a ginástica do futuro, é inter-relacionada com música e movimento, revelando criatividade, sentimento e emoção.

 

 

GINÁSTICA RÍTMICA, 
O DESPORTO DA ARTE EXPRESSIVA DO CORPO

Prof.ª Dra. Daisy Barros
Árbitro Internacional de Ginástica Rítmica
Ex-Técnica da Seleção Brasileira de Ginástica Rítmica

Introdução:

         A origem das atividades físicas entre as mulheres remonta aos povos africanos há 4.000 a.C., egípcios no Império de Tebas há 1.4000 a.C. e gregos desde os tempos de Homero.(ABÀDNÉ,1962:68).As legendárias guerreiras amazonas, montadas em seus fogosos corcéis, arremessando flechas de seus maleáveis arcos, podem ser as originárias do desporto feminino.

        No tempo dos Jogos de Delos as mulheres participavam de concursos atlético e musical. Organizavam os Jogos de Hera, em homenagem à deusa grega do casamento, quando somente as mulheres, de todas as idades, divididas por categorias, participavam de corridas a pé e de danças, utilizando as mãos ao expressarem a linguagem (quironomia). Os dedos eram utilizados nas cinco posições fundamentais. Desses gestos expressivos pode ter surgido à dança, a gênese da Ginástica Rítmica.

        Enquanto na Prússia, Friedrich Ludwig Jahn, no século XVIII, em busca da unidade nacional alemã tentava conscientizar a população alemã com o seu Turnen, Per Henrik Ling, na Suécia, desenvolveu um sistema de exercícios livres em que estimulava a ginástica estética expressa pela satisfação e emoção por meio de movimentos corporais sem aparelhos que se difundiu por toda a Europa Central.

        Desta síntese, surgiram na Alemanha, nos idos de 1920, as escolas de Rudolf Bode e Heinrich Medau com as designações de Ginástica Rítmica e Ginástica Moderna.

        Rudolf Bode criou um sistema de ginástica – Ginástica Rítmica – cujo estudo se baseava em exercícios com arco, corda, bola e à mão livre. Influenciado por Ling e Friedrich Jahn, Medau fundou em Berlim uma escola de Ginástica, denominada Escola de Ginástica Moderna (Medau Schule) com o objetivo de formar professores de Ginástica, a qual transferiu para um castelo em Coburg, durante a II Guerra Mundial.

        Em seus exercícios introduziu a bola, as maças, arco, tamborim (pandeiro grande sem os pratinhos) com variadas formas de movimentos corporais à mão livre, tais como impulsos, balanceamentos, circundunções e movimentos em oito.

        Medau e Bode foram os pioneiros do trabalho com arco e bola na GR. Ernest Idla, professor e médico na Suécia foi discípulo de ambas. Tiveram como seguidora a estoniana Elsa Jalkanin na Finlândia.

        Ao observar os jogadores de basquetebol no manipular a bola, com trabalho total do corpo, Idla procurou enfocar esses movimentos na ginástica, tornando-a uma atividade revolucionária, por meio de movimentos naturais e ondulantes do corpo, além das formas de locomoção de andar, correr e saltar. Considerava a bola o aparelho mais importante na locomoção, sem a realização de poses e movimentos artificiais e, sobretudo, sem a utilização do arco, por não apresentar benefícios aos movimentos corporais e sim, como forma de truques e malabarismo. (tricks).

        Também não se pode deixar de mencionar Georges Demeny, introdutor da ginástica sueca na França, além de criador da Calisthenia ou Somascética Natural; P.H. Clias estudou e fixou os movimentos da ginástica harmoniosa para as jovens e preconizava “exercícios com instrumentos” (aparelhos), tais como o bastão, o arco, a corda para saltos e o trapézio.

       

A GINÁSTICA RÍTMICA

 

Nasceu da síntese dos estudos rítmicos de múltiplos métodos, tais como a Eurítmica, do suíço Emile Jacques-Dalclroze, dos trabalhos de Demeny, do sistema de François Delsartes, que estabeleceu certa relação entre as emoções do corpo humano, seus gestos e mímica; das formas expressivas de Rudolf Bode e da criatividade de Medau; das atitudes revolucionárias de Isadora Duncan, que preconizava serem os gestos expressões diretas do estado da alma; da dança coreográfica da alemã Marie Wigman, do coreógrafo austríaco Rudolph von Laban que preconizava o espaço em detrimento da música; de Irene Popard, célebre pedagoga francesa, criadora de um método rítmico harmônico com efeitos estéticos que estimulavam movimentos de forma graciosa, arredondada, com máximo de amplitude e de perfeição, onde a música era o pretexto e inspiração da dança.

Na década de 30 L. Alexéeva tornou muito popular, na União Soviética. Seu sistema de Ginástica harmônica, com composições originais e improvisações integradas às danças de caráter desportivo. Com o nome de Khudozhestvennaya Gimnasticka, foi aceita como modalidade desportiva que enfatizava muito as técnicas corporais, incluindo as flexibilidades para trás e o balllet clássico. (ABÀDNÉ, op.cit.:68).

Cada país interpretava a Ginástica Rítmica com uma forma de expressão do sentimento nacional, cooptando da sua cultura e de seu folclore, gestos e movimentos adequados à essência de ritmos variados.

Assim, a Ginástica Rítmica como atividade desportiva nasceu, na Europa Central, na metade do século passado, com raízes na Ginástica Moderna.

Afirmava Abàdnè (idem) que as competições realizadas desde 1948 com o nome de “Rítmicas Artísticas”, eram praticadas como desporto internacional entre países ligados por laços político-ideológicos à União Soviética, tais como Tchecoslováquia, Bulgária, Romênia, Alemanha Oriental, Hungria e Polônia. As ginastas vencedoras eram premiadas, nessa “Semana Artística”, com obras de arte de artistas plásticos locais, como pinturas, cerâmicas e estatuetas de madeira, porcelana e outras formas de manifestação cultural.

            Somente foi reconhecida pela F.I.G. - Federação Internacional de Ginástica em 1962 como desporto e tomou diversos nomes em vários períodos: (1962-1971) - GINÁSTICA MODERNA; (1973) - GINÁSTICA RÍTMICA MODERNA; (1975 – 1977) – GINÁSTICA RÍTMICA DESPORTIVA; (1979) – GINÁSTICA RÍTMICA MODERNA, novamente de ( 1981 – 1994) - GINÁSTICA RÍTMICA DESPORTIVA e, finalmente a partir de 1998 – GINÁSTICA RÍTMICA.

No ano de 1962 foi realizado o I. Campeonato Mundial de Ginástica Moderna, em Budapest, marcando o início da série de Campeonatos do Mundo e de outros eventos internacionais. Em 1967, o Brasil foi representado pela primeira vez no Campeonato do Mundo de Ginástica Moderna pela ginasta Daisy Barros, posteriormente técnica da seleção brasileira de conjunto que alcançou o 7.o lugar no Campeonato Mundial de Ginástica Rítmica Moderna em Madrid, em 1975.

            Em 1976, nos Jogos Olímpicos de Montreal, a Prof.ª. Evelyn Koop do Canadá, orientou a coreografia da Cerimônia de Abertura com a participação de todos os países que praticavam a Ginástica Rítmica, inclusive o Brasil, sob a direção da Professora Daisy Barros. Entretanto, somente em 1984, com o nome de Ginástica Rítmica Desportiva, foi incorporada aos Jogos Olímpicos de Los Angeles, sendo considerada finalmente, desporto olímpico. 

A Ginástica Rítmica atual é uma atividade física de expressão gímnica e artística, baseada em um conjunto de rede de inter-relações entre o corpo, os aparelhos manuais e a música. Ela é realizada em um espaço de dimensão predeterminada a fim de ser “vista, apreciada e julgada”.

Como expressão gímnica é uma atividade ginástico-artística determinada e controlada pelos regulamentos. Esta limitação estimula a reação do desenvolvimento de uma dimensão expressiva, onde a criatividade é controlada pelas exigências de ações de movimentos dos referidos regulamentos.

            Como rede de inter-relações, com base na teoria da informação, a ginasta pode ser considerada “emissora de ação” pela utilização do aparelho manual e da música; recebe as informações como “receptor” proveniente da manipulação variada do aparelho integrada de forma adequada ao compasso da música.

Pelas informações recebidas, a ginasta é o centro de uma rede ininterrupta de trocas de informações que afetam constantemente o seu comportamento.

            Como forma de ser “vista e apreciada” a G.R. é admirada pela harmonia e suavidade dos movimentos, elegância, expressividade e beleza das variações integradas dos movimentos com o ritmo e a música. E, para ser “julgada” obedece a critérios objetivos das penalidades, das dificuldades, das bonificações e outras exigências das regras do Código de Pontuação. Por outro lado, possibilita uma margem de apreciação subjetiva relacionada ao quadro de árbitros, referente à impressão geral, expressão, elegância e demais critérios.

            Assim sendo, a G.R. - Ginástica Rítmica é um sistema de atividades física e artística adaptada às condições psíquicas, físicas e morfológicas da mulher. Apresenta um conjunto sucessivo e variado de movimentos executados em sua globalidade com expressividade, ritmo e variações dinâmicas, com ou sem aparelhos manuais.

            Visa através dos exercícios individuais e de conjunto, o aprimoramento estético e a performance artística do movimento, sob um sentido dinâmico, refletindo a unidade perfeita entre os movimentos e a música.

A Ginástica Rítmica, através de sistemas vários de exercícios especialmente selecionados e métodos cientificamente elaborados, propõe-se a aperfeiçoar e estimular o virtuosismo das capacidades psicomotoras no ser humano, no processamento de seu desenvolvimento global.

            Na criança a Educação Psicomotora, com fundamento nas estruturas psicomotoras manifestadas por meio das praxias pedagógicas, integra as formas de movimentos especializados em Ginástica Rítmica adequados aos níveis de seu desenvolvimento. Gestos e movimentos, adaptados aos processos de aprendizagem, estimulam o aprimoramento da qualidade de alta performance vivenciada pela criança, nela desenvolvendo capacidades de percepção, atenção, organização espaço-temporal, e estruturação do esquema corporal e da imagem do corpo. (BARROS & NADIALKOVA, 1999)

Os movimentos naturais e espontâneos da criança surgem no decorrer das etapas do desenvolvimento psicomotor e evoluem de acordo com os processos de maturação neurológica, com os movimentos de rolar, rastejar, engatinhar, equilibrar, lançar, andar/correr, girar, saltar, saltitar, trepar, pendurar. Estas atividades são formas concretas de ação das estruturas psicomotoras de locomoção, manipulação, tônus corporal, organização espaço-temporal, coordenação óculo-segmentar, equilíbrio, coordenação da dinâmica geral, ritmo e relaxamento, direcionados à Iniciação à Ginástica Rítmica, estimulam a criança a descobrir, explorar, fazer e sentir por meio de material variado que serve de mediador, onde os jogos, mais ou menos codificados, consolidam as atitudes pedagógicas.

Nas atividades com bola, o processo de sentir e aprender pode ser desenvolvido sob o enfoque de três ou mais alternativas, estreitamente inter-relacionadas:

          (i) aprendizagem pelo jogo – desenvolve a psicomotricidade específica das atividades de;




(ii) jogar para aprender: é proposto inicialmente um jogo, deixando-o desenvolver-se até que os recursos do jogo se tenham esgotado.

        Exemplo: jogo de pegar lançando a bola no companheiro. A criança atingida pela bola passará a ser a pegadora...

        Os movimentos naturais, quando utilizados sob forma de praxias, pedagógicas ou não, são formas concretas de ação das estruturas psicomotoras.

        Os ensinamentos da ginástica, nas melhores escolas européias de Ginástica Rítmica, Artística ou Acrobática são iniciados por meio de conscientização da criança, pela integração do esquema corporal com a imagem do corpo. Para tanto, são utilizados movimentos clássicos, básicos tradicionais e danças folclóricas.

        Dessa conscientização manifesta-se a expressividade e beleza dos gestos e movimentos introduzidos na Ginástica Rítmica. (BARROS & NADIALKOVA, op.cit.).

        Como a Ginástica Rítmica é uma das atividades físicas expressivas, está classificada como forma de arte desportiva, pois obedece às normas da estética corporal integrada com as habilidades nos aparelhos, impostas pelas organizações internacionais que regem as competições desportivas.

Considerada a ginástica do futuro, a Ginástica Rítmica, como desporto e arte interpretativa de gestos e movimentos, está estreitamente inter-relacionada com a obra musical expressa com criatividade, sentimento e emoção. Realizada como um jogo de relações e interações constantes entre o eu, os outros e os objetos, é uma das atividades fundamentais que interatuam no processo de desenvolvimento da criança, sendo muito difundida nos programas de ensino básico do mundo inteiro.

 

Desenhos de Darcymires do Rêgo Barros.

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

ABÀDNÉ, Hauzer Henriette. Ritmikus Sport-Gimnasztika: mozgás, zene, harmónia. Budapest. Sport.1974.

BARROS, Daisy e Nadialkova, Giurga. Os primeiros passos da Ginástica Rítmica. Rio de Janeiro. Grupo Palestra Sports Editora. 1999.

__________________________________. A. B. C. da Ginástica. Rio de Janeiro. Grupo Palestra Sports Editora. 2000.

BARROS, Daisy e BRAGA, Haroldo. Ginástica e Música. Rio de Janeiro. Livraria Rythmus Editora. 1983.

BARROS, Daisy. Didática dos Aparelhos. Cadernos de Didática. Rio de Janeiro. Livraria Rythmus Editora. 2003.

LANGLADE, Alberto. Recherche sur les Origines, l”intégration et l’actualité de la Gymnastique Moderne. Paris. F.F.G.E.G.V. Fédération Française de Gymnastique Éducative et de Gymnastique Volontaire.1965.

LISSIZKAJA, T.S. (org). Rhythmische Sportgymnastik. Berlin. Sportverlag Berlin.1982.

RIEHM, Gerda. Ein Weg zur Wettkampfgymnastik. 3100 Celle. Pohl-Verlag.1976.


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