Página da Família Arbex

(Última Atualização 19/08/2002)

ﺩﻭﺮﺑﺎﻴ ﻦﻣ ﺶﺑﺮﻋ

 

Entre o final do século XIX e primeira metade do século XX chegaram ao Brasil numerosos imigrantes sírios, oriundos da cidade de Iabrud. Vários  destes eram membros da família que no Brasil teve seu nome transliterado para as formas: ARBEX, ARBES, ARBS, ARBACHE, ARBACH e até mesmo  ALVES. Encontramos também os nomes ARBIX e ABACHI porém desconhecemos ainda suas origens.

Para entender-se o motivo das variadas grafias apresentadas por este nome em português houvemos de analisar a sua grafia em árabe.  Em sua forma original este nome é composto de quatro consoantes:

"ain"    vocalizado com fatha  que soaria em um forte A; 
 "ra"     em sukun" que soaria  como a letra R na palavra PARTE:
" ba"    vocalizado com fatha  que soaria como a sílaba BA na palavra BATATA;
"chin"  em sukun que soaria como o CH 
(fatha corresponde ao som da vogal A e sukun indica a não vocalização da consoante)

Por não possuir vogais esta palavra terá acentuação proparóxitona.

Diante destes esclarecimentos linguísticos diríamos que a mais adequada transliteração para o nome seria ÁRBACH , não obstante, a forma mais tradicional tenha sido  o ARBEX. 
Quanto ao significado do nome em árabe, não conseguimos encontra-lo pelos diversos dicionários consultados, porém as raizes da palavra sempre nos levam para ações como ESCALAR, GALGAR, TREPAR, SUBIR...

No  " Dicionário das Famílias Brasileiras de Cunha Bueno e Carlos Barata", Abrahão Antônio Arbex, estabelecido em Juiz de Fora haveria sido precurssor dos imigrantes desta família, aqui chegando em fins do século XIX. Já em " Os Sírios em Juiz de Fora" de Wilson de Lima Bastos, são indicados entre os primeiros ARBEX aqui chegados, Salim Simão Arbex, Hanna Moussa Arbex, Hanna Moussa Coury Arbex e Hanna Jabour Arbex todos em 1892 e Abrahão Antônio Arbex em 1895.

Em nossas pesquisas por variadas fontes primárias disponíveis no Arquivo Nacional no Rio de Janeiro, a referência mais antiga ao desembarque de um ARBEX no Porto do Rio de Janeiro leva-nos a JOÃO ARBEX, avô materno do autor desta página, em 15 de novembro de 1899. Nestas pesquisas no Arquivo Nacional levantamos mais de 130 ARBEX , homens, mulheres e crianças aqui chegados. Por vezes uma família completa, de outras apenas um jovem solitário e esperançoso de uma melhor vida, ou de um pai que lá deixava a famíia, e após estabeleceido mandava busca-la. Também era comum os solteiros, também após estabelecidos, retornarem à Síria para casarem-se e retornarem ao Brasil com a jovem esposa.

Os que por aqui casavam, normalmente faziam-no dentro da própria família ou da colônia síria.

Estabeleceram-se no início no Rio de Janeiro, Barra Mansa, Barra do Pirai, Rezende, Vassouras, Valença, Teresóplis; Minas Gerais em  Três Corações,Luminárias, Lavras, Carrancas, Juiz de Fora, e em São Paulo em Piraju, Manduri, Araçatuba e Pompeia. Hoje seus descendentes são encontrados praticamente em todos os pontos do Brasil não obstante diversos não mais sejam portadores do sobrenome por serem sucessores de linhagens femininas. 

 

A HISTÓRIA DE JOÃO ARBEX

ﺶﺑﺮﻋ ﺲﻻﻮﻖﻧ ﺐﻴﺒﻋ

Habib Niculas Arbach, que no Brasil assinava João Arbex, nasceu na cidade de Iabrud na Síria a 25 de junho de 1878 sendo ali batizado a 15 de agosto do mesmo ano. Foi um dos tantos filhos de Abdalmassih Niculas Arbach e Mariam Soleiman Nabasete.

Em sua juventude na terra natal trabalhava na agricultura dedicando-se à plantação de cebolas; contava ele que as refeições e este tempo, durante as jornadas de trabalho no campo, constituíam-se desta erva bulbosa acompanhada de pão. Já no inverno alterava-se a rotina da família: tendo de ficar retidos em casa por causa das condições crimatológicas punham-se todos a tecer tapetes recebendo também as crianças a instrução primária e religiosa ministrada pelo sacerdote local.

Possivelmente devido as dificuldades econômicas e perseguições de natureza política e religiosa seguiu o mesmo caminho que outros patrícios já haviam tomado e imigrou para o Brasil. A 15 de novembro de 1899 desembarcou no porto da cidade do Rio de Janeiro.

Do Rio de Janeiro tomou o rumo da atual cidade de Luminárias no Sul de Minas Gerais, então um pequeno povoado encravado nas serras daquela região. Lá recebeu o apoio do patrício Miguel Farah Serur iniciando suas atividades de mascate tendo por companheiro Chukri Farah, sobrinho de Miguel. Deste tempo guardam-se dois acontecimento. O primeiro quando João, carregando suas mercadorias às costas por um caminho solitário entre as fazendas da região, foi assaltado por um homem negro e por ele ferido; abandonado assim à própria sorte logrou ser socorrido por um fazendeiro local que o recolheu a sua casa dando-lhe assistência e após sua recuperação, penalizado presenteou-lhe com um burro para que carregasse sua mercadorias; João sempre contava este episódio e manteve marcas de gratidão para com este benfeitor. O outro fato desta época foi um tiro de arma de fogo que acidentalmente recebeu na perna, disparado por Miguel ou Chukri Farah, e que devido a falta de recursos no povoado fizeram com que fosse colocado em um carro de bois e o transportado para Três Corações a fim de receber o tratamento adequado; este acidente deixou suas seqüelas fazendo com que João até o fim de sua vida andasse apoiado por uma bengala.

Tempos depois Miguel Farah decidiu transferir-se para a cidade de Lavras e João adquiriu o estabelecimento comercial de seu patrício. A esta época veio a conhecer Belmira Dinamarco, filha de Antônio Cândido Dinamarco e Genoveva Etelvina Ferreira, de quem se enamorou. A união, contudo, apenas se deu após o noivo tornar-se proprietário de um imóvel pois as famílias tradicionais como as da noiva eram preconceituosas com relação aos sírios por considera-los de caráter nômade; ao contrário, a aquisição de uma casa era demonstrativo do interesse em fixar residência no local. Casaram-se em Luminárias a 25 de outubro de 1906 sendo celebrantes no religioso o padre José Carnevale e no civil o Juiz da Paz Olympio Ferreira Leite.

Vieram-lhe os filhos: Moacyr (1907), Cyro (1909), Maria Helena (1910), João (1912), Antônio ( 1913), Nelson (1914), Nair (1915), Hilda (1917) e Marta (1918) e a medida que estes cresciam João se apercebeu que em Luminárias não lhes poderia propiciar nível de instrução adequado. Dispondo então de um patrimônio de duzentos contos de reis resolveu transferir-se, por volta de 1919, para a vizinha Lavras. Adquiriu um terreno na Rua Francisco Sales, principal artéria da cidade, esquina do caminho do Passa Vinte (atual Rua Chagas Dória) e ali construiu o solar de sua família e os prédios de seu comércio. Com o capital disponível ainda pode sortir suas lojas e adquirir um vagão ferroviário carregado de sal e outro de arame farpado.

Estabeleceu o comércio de nome CASA NOVA cujo lema era "Vendas sem Competidor - Ver para Crer", voltado para o ramo de secos e molhados no atacado e varejo. Com o advento do automóvel em Lavras foi o pioneiro na distribuição de combustíveis, pneumáticos, automóveis e caminhões. Data de 12 de agosto de 1928 a inauguração de agência General Motors de João Arbex em Lavras, escolhido que foi por aquele fabricante devido ao elevado conceito comercial que gozava na praça.

Foi em Lavras que nasceram os filhos José(1921), Paulo(1924), Luiz(1925) e Nilza (1928). Sempre voltado para dotar os filhos de boa educação, mesmo não havendo freqüentado escolas no Brasil, pois havia aprendido ler e escrever português com Belmira, estava sempre a exigir das crianças o cumprimento das obrigações escolares, inclusive tomando-lhes as lições diariamente. Como resultado conseguiu graduar dois em medicina e quatro em odontologia.

Tendo vivido cerca de 50 anos em Lavras foi sempre merecedor do apreço não só da comunidade árabe como da cidade em geral. Era comum ser chamado para resolver problemas envolvendo outros patrícios pelo que chegou a ser conhecido como "advogado dos turcos". Politicamente, situava-se junto ao partido dos "Rolinhas" de natureza liberal, cujo líder local, Dr. Paulo Menecucci, opunha-se aos conservadores do partido dos "Gaviões".

Um homem sempre bem apresentado, de terno, com seu chapéu e bengala, católico praticante, e tinha o hábito de cuidar com esmero da horta no quintal da casa, cujas hortaliças eram de excelente qualidade; sempre cedo estava lá ele tratando de suas plantinhas, cuidadosamente tirando-lhes os pequenos caramujos os quais juntava em uma lata para após incinera-los. Também era um apaixonado pelo jogo de truco de cujas rodas participou ao longo de toda sua vida.

Com o transcorrer dos anos João foi arrefecendo seu negócios os quais foram sendo absorvidos pelos filhos João e Cyro pois os demais encontravam-se fora de Lavras exercendo suas profissões de médicos e dentistas. Foi o primeiro comerciante de Lavras a receber o benefício da aposentadoria que, complementada pelo aluguel da antiga loja e rendas de capital, propiciaram-lhe uma velhice, senão rica mas tranqüila.

Acontecimento marcante na vida da família foram as bodas de ouro celebradas em 29 de dezembro de 1956. Juntaram-se em Lavras 11 de seus filhos, genros, noras, netos e outros parentes para as comemorações que consistiram de uma missa celebrada na Matriz de Santana, tendo por oficiante o Pe. José de Souza Nobre. Com relação ao evento publicou a "Gazeta de Lavras" em 23/11/1956:

"No distante ano de 1906 , um jovem sírio chamado João Arbex e que nesta zona fazia o centro de suas atividades foi parar em Luminárias e ali ficou conhecendo a senhorinha Belmira Dinamarco, de quem se enamorou tão intensamente que não teve outro remédio senão pedir a mão da eleita ao Sr. Antônio Cândido Dinamarco e D. Genoveva Etelvina Ferreira, e eis que a 25 de outubro daquele ano, o jovem par estava diante do altar da igreja de Luminárias para jurar, diante do padre José Carnevale, que se uniria para sempre, através dos laços sagrados do matrimonio, prometendo ajudar-se.

De fato foi sólida a união, que está durando cinqüenta anos e a promessa de ajuda recíproca também foi cumprida, pois o jovem casal foi envelhecendo e ao peso dos anos veio juntar-se uma numerosa prole, que nunca foi para eles uma carga, pois, ao lado dos trabalhos e preocupações que lhes davam, os filhos foram para eles uma benção.

Mudando-se para Lavras, com os filhos que já contavam, o Sr. João Arbex e D. Belmira, não só cuidaram de criar os filhos já nascidos e os que vieram depois, mas trataram de educa-los e hoje podem orgulhar-se de haverem dado um titulo a todos os filhas varões, exclusive o Ciro e o Joãozinho, que preferiram abraçar a profissão do pai, para deixa-lo longe em mataria de prosperidade. ..."

Em 2 de janeiro de 1963 viria falecer Belmira mas mesmo assim João continuou vivendo na casa onde a quase meio século morava, ali permanecendo até seu falecimento no dia 24 de agosto de 1967. Encontram-se sepultados juntos, no cemitério de Lavras. Quando de seu falecimento mereceu o seguinte necrológio da Tribuna de Lavras:

"... registramos aqui, principalmente para aqueles que residem fora de nossa cidade e podem desconhecer o fato, o falecimento do Sr. João Arbex, ocorrido no dia 24 de agosto do corrente ano, aos 90 anos de idade. Era chefe de tradicional família de nossa comunidade e deixou uma enorme lacuna. Muitos podem saber mas muito desconhecem que o Sr. João Arbex foi o primeiro Agente da Chevrolet em Lavras e foi proprietário da primeira bomba de gasolina na nossa terra, revendendo naqueles bons tempos a gasolina Energina, hoje Shell. No comércio foi contemporâneo do saudoso Juca Procópio tendo sido comerciante durante 70 anos".

O nome de João acha-se eternizado não só na memória de seus descendentes como também na comunidade lavrense onde dá nome a uma das praças da cidade. Até mesmo no distante Distrito Federal, recebeu o seu nome um Jardim de Infância na localidade de Sobradinho.

Concluindo, merece aqui ficar transcrito parte do discurso feito por Moacyr Arbex Dinamarco, o primogênito de João, quando de sua visita oficial a Lavras, em agosto de 1968, na qualidade de Grão Mestre Geral da Maçonaria Brasileira:

"Meus pais para aqui vieram em busca de colégios, para dar instrução a seus filhos, porque diziam - não queremos que eles sofram e lutem como lutamos.

Aqui trabalharam exclusivamente para esse fim, falecendo pobres, mas com o dever cumprido - deixando além de numerosa prole um exemplo digno de ser imitado por todos, pelo trabalho honesto, pela honradez, pela retidão de caráter, pela humildade, e sobretudo, pela bondade de ambos.

E, se hoje somos alguma coisa tudo devemos àquele casal, que esta cidade aprendeu a estimar e respeitar.

As manifestações de carinho, de amizade e respeito que ora me honram, pertencem àqueles a quem tudo devo, àqueles a quem, me honro de ser chamado de filho.

João Arbex, pobre imigrante sírio, viveu nesta cidade 70 anos e foi querido de todos. D. Belmira, filha de um dos mais ilustres homens do princípio deste século, de tradicional família de São Paulo, Antônio Cândido Dinamarco, médico, farmacêutico, político, juiz, professor e agente postal gratuito. Esta senhora foi a caridade personificada, criando e alimentando um sem numero de meninas desamparadas."


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