Viajante

 

Já tinha passado muitos anos desde a minha última viagem, o tempo e o hábito tinha-me fixado num pequeno canto do Universo. Vivia bem, era feliz com as mesmas pessoas de sempre, sentia-me bem no meu pequeno cantinho. Uma mulher amada e uma filha, mais adorada do que a própria vida, prendia-me com correntes de felicidade. Já não existia mundo para além do meu, nada mais existia.

 

Um dia um acaso obrigou-me a uma viagem, as correntes de felicidade iriam ter que esticar de forma a que eu pudesse aguentar uma ausência, que sem ser prolongada, seria no mínimo dolorosa a nível sentimental.

 

Foi então que aconteceu algo de inesperado, o meu mundo ia muito para além do meu cantinho! Os sítios por onde passei também faziam parte dele. Lá havia pessoas que também eram minhas. Rios, casas,  jardins e paisagens que eram dos meus olhos. Mulheres e homens por quem eu também sentia, corpos e almas, que sem serem meus, a mim me pertenciam por instantes fugazes. Passei por uma vida que sem ser a minha, a mim me pertencia. Mas as correntes trouxeram-me de volta e digo isto com uma alegre e feliz mágoa.

 

Quando um dia se esquecerem que há mais mundo do que o vosso, viagem. A vossa vida também está noutros lugares e com outras pessoas.

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