- Rápido, está a sair a primeira previsão!
A sala da televisão de repente encheu-se de gente. Era o momento de alto de tantos meses de trabalho, destinados a eleger o próximo presidente dos Estados Unidos.
- Mónica, rápido! Afia-me aqui o bico ... do meu lápis, para tomar nota das previsões!...
Mónica tinha sido a grande arma que provocou a queda do anterior presidente, derrubado por um escândalo, que abalou a Casa Branca da cúpula do edifício até aos seus alicerces. Agora era a secretária do movimento de apoio da candidatura de Ken. Representava a competência
em pessoa, já que nada era impossível para ela, desde elaborar relatórios até grandes sessões de massagem ao candidato, tudo para que ele se apresente o mais relaxado possível.
- Mais depressa, mais depressa, mexe-me essas mãos!
Ken estava próximo do seu sonho de há muito tempo. Depois de tantos anos a investigar a vida do anterior presidente, tinha conseguido encontrar aquilo que queria: algo que os americanos não admitissem, algo que os fizesse esquecer os resultados da governação deste e atingisse o ponto frágil deste povo: a moralidade do seu presidente.
Tinha sido uma longa batalha, mesmo depois do 'impeachment'. Bill, o presidente deposto, tinha aquela rara qualidade que faz as pessoas gostarem dele e terem vontade de perdoar os seus erros como a uma criança pequena que faz beicinho. Ken, pelo contrário, não era uma
pessoa fácil de gostar, que só foi eleita pela sua persistência e dedicação ao seu objectivo.
- Toma! Apanha! - grita Mónica, da entrada da sala.
Ken apanha nervosamente o lápis e, a tremer, pega numa folha de papel e senta-se em frente do televisor, que transmite neste momento o soar de tambores, à semelhança de um circo antes de um trapezista se lançar no vazio, enquanto uma voz anuncia:
- Tenho informação de que podemos avançar de imediato com a primeira previsão da noite! O próximo presidente dos Estados Unidos da América será ...
Uma garrafa de champanhe estoira na sala da candidatura de Ken, ao aparecer o seu nome em letras gordas no ecran da televisão. A sala rejubilou de alegria, muitos abraços, muitos gritos e muitas taças a dançar na mão. Mónica é o alvo da alegria de todos (e de muitas mãos também). Ken sente lágrimas de comoção a querer despontar dos seus olhos.
O toque de um telefone junta-se ao coro da festa. Alguém atende e chama Ken:
- Ken, Ken! Atenção, é ele!
Fez-se silêncio total. Toda a gente tentava esquecer que nada disto tinha sido possível se não fosse o largo investimento feito por uma pessoa. Alguém que agora iria começar a cobrar...
Ken atende o telefone com alguma ansiedade:
- Sim, sim, obrigado, mas você sabe que não sou só eu, você também está de parabéns, claro... OK, amanhã às 10 aqui na sede de campanha... Sim, claro, a maior discrição possível!... Adeus, até amanhã.
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Do outro lado do fio, é desligado um telefone. Atrás da secretária está o homem que, mais do que Ken, tem razões para se sentir feliz. Há um ano atrás, era o homem mais poderoso do mundo a seguir ao presidente dos Estados Unidos. Nunca se tinha metido na política, uma vez que sempre concluiu que, não precisando de ser eleito, o seu poder não seria efémero.
Durante o percurso da sua vida tinha conseguido dominar o mundo ao tornar este dependente da sua empresa. Só o governo dos Estados Unidos não se tinha deixado dominar... até agora!
Agora, ao virar do milénio, pôde finalmente encostar-se no seu cadeirão a saborear a vitória. De seguida levantou-se, apagou a luz da sua secretária e saiu do gabinete. Em cima da mesa repousavam uns papéis com a sua assinatura: William Henry Gates III.