(DE
UM POBRE MARINHEIRO DAS DESCOBERTAS QUE POR ACASO SABIA ESCREVER)
10
de Outubro de 1590
No
Cais de Alfama tudo está a postos para uma partida. Entra gente de toda a
espécie:
Desde padres e mosteireiros a mulheres de má vida, criminosos exilados e
ainda uma dúzia de cabras, sete patos e um cão.
A
nau range contra os troncos de protecção do cais, parece nervosa e ansiosa
por partir para mais uma Carreira das Índias.
1
de Novembro de 1590
Passamos
neste momento ao largo das canárias. Dentro da nau, com as cabras, os patos,
os padres e as putas todos juntos, a comida escorrega com o balanço do barco
e o vinho circula em abundância por todos. Esta nau mais parece um piquenique
do que a carreira das Índias. O cheiro é tão mau e o ambiente tão
pestilento, que todas as tarefas ao ar livre são bem-vindas. De resto, o
tempo está bom e a viagem corre sem história.
22
de Novembro de 1590
Ao
passar o Bojador, o mar começa a agitar e o vento a mostrar o seu poder. A
nau salta, pula, range, abana e os padres fazem rezas de juizo final. O cheiro
a vómito começa a fazer-se sentir presente a toda a hora e regista-se uma
morte devido a uma queda acidental ao mar. As ondas são assustadoras e a nau
começa a não aguentar a sua violência.
26
de Novembro de 1590
Após
três dias de temporal, registou-se súbita acalmia. Aproveitamos para repara
os danos as velas e na amurada e para contar o número de mortos. Ao fim de
dois dias de bom tempo, pode-se dizer que a nau parece quase nova. Até o ar lá
dentro parece mais respirável. Ontem chegamos mesmo a avistar a costa, o que
deu novo ânimo a todos.
10
de Dezembro de 1590
A
acalmia que se faz sentir há 3 semanas, tornou-se um inferno. Não há vento,
não sopra nem uma palha e estamos deixados à sorte. Relembro relatos de
velhos pilotos que contam que pior que certos temporais às vezes só certas
bonanças. A mando do capitão inventamos tarefas para ocupar esta gente toda
a bordo. Já fizemos uma procissão, com missa e novena cantada, e até
pescamos um tubarão. A animação foi enorme quando, depois de o cegar no
convés, com ele fizemos uma tourada.
Há
dois meses que estamos a bordo e começam a surgir os primeiros casos de
escorbuto.
15
de Dezembro de 1590
O
vento recomeçou de novo a soprar. Ouvem-se gritos de alegria por todo o lado,
o pessoal recomeça a ficar mais motivado e até as putas recomeçaram a sua
actividade. Dentro de dois dias deveremos avistar a costa de Angola e os padre
começam a organizar os preparativos para passar o Natal a bordo.
25
de Dezembro de 1590
Esta
noite, durante a missa do Galo organizada pelos nossos mosteireiros, recomeçaram
sinais de temporal. Todos nos preparamos para a pior parte da viagem: a
passagem no Cabo da Boa Espereaça.
2
de Janeiro de 1591
Um
novo ano começou ontem, mas o tempo continua a piorar. As cabras e os patos já
foram comidos e cão está neste momento a ser assado. Com o mau tempo não se
consegue pescar e a comida está a acabar. É impensável conseguirmos
aproximarmos da costa. Todos os dias morre gente, pois este barco tornou-se um
ninho de doenças várias.
8
de Janeiro de 1591
Dobramos
agora o Cabo da Boa Esperança. O velho Adamastor impõe a sua presença e
começa a desfazer peça por peça a nossa embacação. A comida acabou há
dias e os homens começam a tirar à sorte quem há-de morrer para que os
outros tenham o que comer. O tempo está tão mau que até os padres começam
a fazer autos de fé com as putas. O capitão começa a arder em febre e conta
que já surgiram dos céus três meninas loiras que o querem levar. Felizmente, no meio do seu
delírio, teve força na língua para as mandar ao diabo.
15
de Janeiro de 1591
Não
somos mais que um pedaço de lenho que sobrou da nau depois de atingida por um
raio. De 1012 inicialmente, estamos vivos 12. O tempo acalmou, mas estamos
completamente deixados à sorte, sem qualquer orientação nem maneira de
conduzir a nossa jangada. Passamos o tempo a pescar e a olhar o horizonte à
espera de uma hipótese de salvação.
30
de Janeiro de 1591
Estas
serão, concerteza, as últimas palavras que conseguirei escrever.
O
frio paralisa-me, mas a paisagem é divina de tão pálida que é.
Viemos
sempre a boiar para Sul até chegar ao grande País do Gelo. Será que é
isto o Céu? Os meus companheiros sucumbiram há muito e eu não conseguirei
resistir muito mais tempo. Mas não me importo... Depois de tudo o que
passei, não imagino sítio mais puro para ir ao encontro de Deus.