Armagedon

 

Os olhos dela...

Nunca me esquecerei dos olhos dela...

Aquele barco era apenas mais um carregador de vidas de um lado para o outro do rio, e o meu mundo acabava nele.

Estava a acabar o mundo, e os seus olhos tinham gravado o fatalismo do desespero.

Mas era o meu desespero e não o dela. Ela deixava apenas transparecer um solene sentimento de culpa...

Mas pior do que tudo o resto era a pena. Ela estava com pena de mim.

A pena dela, e o meu desespero...

E o mundo a acabar naquele rio...

As suas palavras eram pouco importantes: "a rotina em que tinhamos caído", "a paixão que se esfumara", "já nada era a mesma coisa", e por aí fora, num longo desenrolar de razões e desculpas, um discurso  que tinha todas as marcas de ter sido previamente preparado. Até isso...

Às tantas deixei de a ouvir. Só pensava numa coisa: "o que faz um homem quando o mundo acaba?" Uma vez tinha lido um poema que se chamava "Volta", onde um homem tinha ficado à espera que a sua amada lhe voltasse a cair nos braços. Mas essas merdas não eram para o meu feitio. Tinha que decidir o que ia fazer, e tinha que ser agora, neste momento, porque um homem sem mundo para viver tem que fazer qualquer coisa depressa. Não tem grande lógica continuar a trabalhar, e a ir para casa, e a comer e a ver televisão quando já não se tem um mundo.

O rio continuava a correr velozmente do outro lado da amurada. "Quanto tempo leva uma pessoa que não sabe nadar a afogar-se?", dei por mim a pensar ociosamente. Ela já tinha parado de falar, estava agora à espera de uma reacção minha, o seu cigarro nervosamente esmagado entre os dedos, como se estivesse à espera que eu lhe aliviasse o fardo da

sua decisão com palavras de compreensão e uma promessa de futura amizade:"Talvez possamos ser amigos...", esse tipo de coisas. Coitada, ainda não tinha percebido que o mundo tinha acabado.

Mas eu estava demasiado triste para falar, e sabia que tinha de fazer alguma coisa por causa da tal história de já não ter mundo:" É engraçado como as coisas deixam de ter importância quando o mundo acaba.", pensei olhando pensativamente para as águas poluídas do rio.

Então, soube de repente o que tinha de fazer...

Era tudo tão fácil: O mundo que ruíra, o rio a correr, o meu desespero...Esta foi a razão porque tudo aconteceu: a conjugação perfeita destes três factores. É este tipo de coisas que faz as pessoas fazerem este tipo de coisas.

Com um movimento brusco levantei-me, olhei para ela uma última vez, agarrei-a pelos ombros encostei-a à amurada e com um rápido empurrão, lancei-a pela borda fora.

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