Alta Sociedade.

 

- Ateste, por favor.

 

Assim comecava mais uma noite em que saia de casa para tentar alguma coisa diferente. Andava  em busca de algo. Nao sabia o que. A sua vida comecava a tornar-se algo rotineira sem um objectivo que nao fosse o de um dia herdar o imperio de seu pai. Por enquanto ainda nao se encontrava preparado para assumir funcoes na empresa, ou melhor, o seu pai ainda nao queria que ele se inteirasse dos negocios. Talvez fosse muito novo para compreender algumas atitudes menos eticas desse mundo...

 

- Paga com cartao? Chegue aqui por favor. - Pede o homem da bomba de gasolina.

 

Enquanto se dirige para uma casinha acanhada do outro lado da area de servico, pensa como as vezes invejava uma vida simples como a deste homem, que pelo menos tinha um objectivo diario: sobreviver com o que ganhava a encher o deposito do carro dos outros, fora alguns pescatos.

 

- Verde, codigo, verde. Obrigado - Despede-se o homem.

 

E dai, talvez aquele tipo de vida nao fosse tao invejavel assim. Era algo que ele nao fazia a minima ideia do que era. Sempre tivera tudo, nunca precisou de lutar para o obter, nem as mulheres - bastava acenar-lhes com as chaves do descapotavel, ou abrir a carteira

deixando a vista o Visa Gold estrategicamente arrumado.

 

Arranca e mete-se pela estrada que o levava a cidade. Era capaz de encontrar alguns amigos no clube de Vela, do qual o seu pai era socio.

Enquanto acelerava no meio do pinhal deserto, sem iluminacao apaga as luzes do carro. Era uma sensacao unica de vaguear no espaco aberto, nao se via nada a nao ser a lua a acompanha-lo atravessando as copas das arvores.

 

De repente avista um par de luzes vermelhas ao fundo. Volta a acender os medios e aproxima-se do carro encostado a berma. Ao abrandar, sai uma mulher de dentro do carro a agitar os bracos. Contra todas as regras de seguranca, resolve encostar o seu carro uns metros a frente do outro, aguardando sem sair, pronto para arrancar de novo ao minimo

sinal de qualquer coisa que nao batesse certo.

 

Pelo retrovisor, apercebe-se no contra-luz dos farois do outro carro nas formas absolutamente perfeitas do corpo que se dirigia para ele.

Quando o rosto da mulher, que entretanto se debrucara na sua janela, fica iluminado pela luz interna do carro, reconhece-a. Ja a tinha encontrado por algumas vezes nas festas oferecidas pelos parceiros de negocios do pai. 25 anos muito bem cuidados e uma cara daquelas que

quanto mais simples melhor - algo que era raro aparecer nessas festas.

 

- Ainda bem que es tu, Fernando. O carro comecou a solucar e parou.

Estava a marcar o numero de casa no telemovel quando apareceste.

 

 

Algo na sua maneira de falar e no seu olhar impressionou-o profundamente.

 

- Das-me boleia ate a cidade? La posso ir ter com o meu irmao, para me ajudar a tratar do carro.

 

Nao poderia recusar. Algo nela o tinha enfeiticado de uma maneira que nunca sentiu antes. Quando ela entra e se senta a seu lado, repara no vestido justo branco-sujo e de como o seu corpo faz o movimento de puxar e prender o cinto de seguranca. Ao arrancar decide simular mais a frente uma avaria no carro... Nao! Seria demasiado vulgar. Ha que

ter calma.

 

Iniciaram o percurso com a conversa de circunstancia do costume, sobre o que se tem feito, quem se conheceu, compras que se fizeram, enfim...

banalidades. O seu cerebro estava bloqueado. Nao conseguia arranjar um tema que a conseguisse cativar algo mais. Esta era diferente, nao se deixava levar da mesma maneira que as outras.

 

E entao que ela toma a iniciativa:

 

- Sabes, nao sei porque e que te digo isto a ti, que mal conheco. Se calhar e por isso mesmo que e mais facil! Nunca tiveste uma fantasia no meio de um bosque, a noite?... Sei la, uma accao irreflectida, instintiva, apaixonada...

 

Nao se apercebeu do que aconteceu. Quando deu por si, sentia o calor humido de uns labios macios a percorrer-lhe o corpo. As suas maos deslizavam ao longo de uma pele de pessego, macia, macia... Tudo se extinguia a sua volta, parecia que o universo se concentrou ali, no

interior do carro.

 

Estava enganado. Um restolhar acordou-o desta sensacao. Umas luzes fortes surgiram por detras das arvores. Nao houve tempo para nada. A clareira onde tinha parado o carro viu-se de repente iluminada por tres homens que o tiram a forca de dentro do carro e o paralisam com uma coronhada na cabeca.

 

*****

 

Abriu os olhos.

 

Estava meio-sentado meio-deitado numa saca encostada a uma parede de madeira com as maos amarradas atras das costas. Os seus olhos habituam-se a escuridao apenas quebrada por uma frincha de luz que surge debaixo de uma porta ao fundo da sala. Tenta mexer-se mas sente os musculos todos doridos.

 

Olha para si: As suas calcas Malboro Classics tinham um rasgo nos joelhos, onde poderia ver uma manchazita de sangue. A sua camisa Burberrys toda suja, meio esfolada. Va la, os seus sapatos de vela Lacoste estvam mais ou menos intactos, apenas com alguma lama.

 

Deu para reparar que aos seus pes estava um pequeno monte de po branco, caido de um rasgao no saco onde estava sentado. Que seria? Farinha?

 

Por detras da porta ouviu ruidos de vozes que se aproximavam. Uma voz rouca diz, em tom irritado:

 

- Voces nao fazem nada de jeito! Nao tiveram coragem de o arrumar de vez como fizeram a miuda?

 

- Nao, patrao. Descobrimos algo nele que... E melhor o ser o patrao a ver...

 

Consegue distinguir sombras por debaixo da porta e e entao que esta abre-se. Os contornos de um vulto alto, vestido de fato e gravata surgem na claridade da porta aberta. Este volta-se para fora e berra, com a mesma voz rouca:

 

- Tragam-me uma candeia!

 

Quando a sala se ilumina, os olhos de Fernando piscam, ofuscados. O vulto aproxima-se e e entao que uma arrepio percorre a espinha de Fernando, que fica paralisado, gelado pelo terror do inesperado. Nao podia ser, nao queria acreditar...

 

O vulto era o seu pai!

 

TUUUUUUUUUUUU!      TUUUUUUUUUUUU!     TUUUUUUUUUUUU!

 

 

Bendito despertador! Nunca lhe agradar tanto aquele toque electronico roufenho! Olhou em sua volta pela claridade que entra pelos estores meio desconjuntados da janela. O seu corpo estava todo suado.

 

O seu olhar percorreu entao o seu quarto. As paredes escuras e manchadas nunca lhe pareceram tao acolhedoras. Ja nem ia ligar importancia a fila de espera que deveria estar a porta da casa de banho comum da pensao onde vivia.

 

Acordara para mais um dia de trabalho nas obras. O escopro e o martelo esperavam por si.

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