Além de Timor

 

Acordei com um grande estrondo. Vindos nao sei de onde cinco homens entraram pelo meu quarto a dentro, armados com paus e matracas. Depois de empurrarem a minha a mulher, desfeita em lagrimas, contra o canto do quarto, agarraram-me e arrastaram-me pelas escadas abaixo ate a rua. So conseguia ouvir a minha mulher gritar o meu nome - “Ahmed! Ahmed!”. Meus pais deram-me nome muculmano, uma maneira discreta de uma familia catolica se integrar numa sociedade maioritariamete muculmana como a Indonesia. Infelizmente de nada serviu.

Ca fora outros grupos de meia-duzia de homens traziam alguns vizinhos meus arrastados violentamente. Depois de brincarem um bocado connosco atirando-nos uns contra os outros, umas vezes batendo com as nossas cabecas umas nas outras, outras vezes pontapeando-nos nas canelas, atiraram-nos todos para o chao ao monte, num molho de corpos, e comecaram a bater-nos violentamente com tudo o que tinham a mao: paus, pedras, barras de ferro.

Entre o ruido das gargalhadas sarcasticas e palavroes ainda consegui ouvir as sirenes da policia e do exercito a aproximar-se. De repente uma pancada seca e fortissima acompanhada simultaneamente por uma dor aguda, fez acabar com todo o meu sofrimento. O ceu escureceu e uma nebulosidade branca intensa invadiu o meu olhar. Depois tudo acabou.

Sinto neste momento a minha alma a largar o meu corpo, que esta agora alinhado juntamente com os meus vizinhos no meio da praca. E estranho, estou totalmente separado do meu corpo, consigo ver tudo pelo lado de fora, mas nao e bem visao. Tenho consciencia de tudo o que se passa a minha volta, uma especie de campo de percepcao de 360 graus. Vejo agora um dos homens aos saltos em cima do meu corpo, e a saltar para o dos outros, numa especie de “jogo da macaca” em que os nossos corpos sao os quadrados riscados no chao.  Se ainda pudesse, estaria a sentir as costelas a quebrar e espetar-se nos orgaos internos do tronco, tal e o barulho que se houve sair de dentro dos cadaveres.

A policia comeca agora a aproximar-se com macas. Com um cumpliciade explicita amontoam dois a dois os corpos nas macas e levam-nos sem esconder um sorriso de gozo e sadismo, enquanto trocam palmadas nas costas com os nossos atacantes. Nunca vou esquecer a imagem da minha mulher de joelhos no chao, a chorar em estado de choque e ainda a gritar pelo meu nome sem parar.

Nao sei se daqui vou para o Ceu ou para o Inferno, mas irei concerteza sem compreender o que leva homens de religioes diferentes a tratar-se assim, com uma crueldade que nao se usaria contra um rato, quanto mais contra um semelhante.

 

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·         baseado numa noticia veridica transmitida num telejornal, passada domingo, dia 22 de Novembro de 1998, em Jacarta, revelando uma Indonesia onde os massacres e atentados a vida humana vao muito alem do territorio de Timor-Leste.

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