Outra vez aquela montra.
Tinha demorado algum tempo até compreender como era insólita a sua situação. No início procurou ignorar aquele instinto paranoíco e desviante. Uma tara. Mais um caso para os psiquiatras estudarem e arrotarem postas de pescada sobre o seu comportamento.
Não interessava. Agora só existia um caminho.
["I will not fly away, so make it rain"]
Era estranho como aqueles olhos o observavam do fundo do plástico que os constituía.
Como a curva das suas ancas pedia a carícia das suas mãos!, como os seus seios imploravam a sua luxúria!
["Make the night roll magic"]
Cada minuto que passava aumentava o apelo daquela loucura. Era aquele tipo de coisas que nem aos amigos se conta. Um perfeito devaneio.
O pior é que do outro lado era a mesma coisa. O MANEQUIM QUERIA! Esta era a realidade. O desejo atravessava o vidro da montra, só para ele.
["Hold my hands up to your own"]
A cedência era inevitável. Àquela hora nem os morcegos se avistavam em lado nenhum. A sua entrada na loja até era simples. A besta da dona tinha uma janela para a cave com o fecho eternamente partido. É verdade, até nisso ele já pensara.
["I have wandered and I have found no reason that I can understand"]
Já dentro da loja, o chamamento tornava-se irresistível. Subiu as escadas partindo as unhas no corrimão, tal a força com que o segurava, a súbita ânsia da proximidade do momento a explodir-lhe no coração que batia desordenado.
["Sorrow won't lift our shame like these chains"]
Era agora. Agarrou-a com sofreguidão, sentiu as formas daquele corpo a agarrarem-se ao seu. O desejo tomou conta daquele momento, a sua saliva já pincelava o corpo plástico agora despido...
["So please break them, break them down"]
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Manhã seguinte:
"Ia jurar que a estúpida da boneca não era assim que mania tão estúpida mais a mais o que é que isso interessa a boneca é só para ter aqueles trapos nojentos vestidos és sempre a mesma coisa já cá faltava a boca sobre a colecção Outono/Inverno ainda bem que a loja não é tua pois é mas fui eu que a paguei para tu teres cá o cú sentado o dia inteiro a coscuvilhar olha o moralista fazias melhor era em emagreceres uns quilos pareces um porco sentado a ver televisão e a beber cerveja..."
A boneca assistia a tudo impávida e serena. Na rua passa um jovem casal. A rapariga olha para a montra:
- Este manequim é novo, o de ontem não tinha aquele sorriso...
Segundos depois continua, escondendo a cara por momentos:
- Quem me dera ter um sorriso tão bonito!...
O rapaz vira-se um pouco mais para ela, como que ganhando atenção ao que ela dizia:
- Mas eu às vezes consigo pôr-te um sorriso nos lábios igual àquele!...
Afastam-se rindo, um pouco mais aconchegados um ao outro. O manequim lá continua, estático, esperando talvez por colecções mais bonitas e graciosas. Ou por mais noites mágicas...
["Why all these boundaries, return to where I am..."]
["Chains", The Wolfgang Press in "Funky Little Demons", 1995, 4AD.]