A desenfreada busca do prazer entorpece os sentidos
das criaturas que se arrojam aos despenhadeiros da aflição.
Jamais houve tantas gloriosas conquistas do conhecimento
e da razão, como sucede na atualidade, sem que se manifestem
correspondentes vitórias sobre as paixões primevas, que permanecem em predomínio, atormentando aqueles que lhes tombam
nas armadilhas bem urdidas.
O ser conquistador dos espaços siderais ainda não logrou autoconquistar-se, libertando-se das amarras vigorosas dos vícios e
dos instintos agressivos.
Sonhando e viajando no rumo do infinito, aturde-se e perde-se
nas mesquinharias do cotidiano a que valoriza excessivamente. Em razão disso, há grandezas no seu comportamento e pequenezes
nas aspirações, raramente superando os limites do imediatismo
atormentador.
O andarilho das estrelas perde-se no matagal sombrio da convivência familiar, no trabalho, na sociedade, acumulando amarguras e ansiedades que ressumam continuamente, entre receios
injustificáveis efugas espetaculares em direção ao consumismo e
às angústias que não tem sabido diluir.
Ambicionando sempre a aquisição da cornucópia da fortuna
material para atender às ansiedades que oatormentam, desejando
saciedade, não se satisfaz quando a possui, anelando sempre por
mais, nem se harmoniza quando em carência do supérfluo, que o
libera da carga aflitiva dos valores sem valor, mas aos quais atribui
significados.
Dois mil anos de cristianismo, infelizmente deturpado na sua
essência, transformado em culto social e em projeção humana,
oferecem uma lamentável história de insucessos espirituais e de
tragédias defluentes do poder econômico, da situação religiosa,
dos destaques comunitários.
Os exemplos de Francisco de Assis, de Teresa D'Ávila,de João da
Cruz, ou mais recentes de Madre Teresa de Calcutá e de Francisco
Cândido Xavier, dentre outros admiráveis missionários de Jesus,
abrilhantam as história da fé, mas não se transformam em motivos para que sejam repetidos com o mesmo sentido de dedicação
e de renúncia pelas coisas e opção pela verdade.
As disputas pelas posições transitórias e as intrigas contínuas
que distraem os frívolos e perturbam a marcha do progresso espiritual sucedem-se calamitosas, agora ampliadas pelos extraordinários recursos do YouTube, do Orkut, do Twitter e do Facebook,
assim como de outros programas que deveriam servir de campo
de edificação de vidas, desmoralizando pessoas que desagradam,
trabalhadores que são fiéis ao compromisso, transformando-se em
técnicas de destruição dos valores nobres.
A onda de materialismo sem disfarce, expressando-se pelo erotismo e pelo deboche, pela nudez que passou a ser recurso para
chamar a atenção e exaltar a degradação da criatura, contrapõe-se
à ética do bem proceder e da dignidade, que perdem o significado
ante o volume de perversão que toma conta da sociedade.
Quanto maior e mais comentado o escândalo, mais promovido
se torna aquele que o promove, atingindo culminâncias entre os
coetâneos, sendo, logo depois, aplaudido e reconduzido aos postos
dos quais é expulso por corrupção e vulgaridade. Nada obstante,
todos esses que assim se comportam não conseguem evadir-se dos
conflitos internos que os atormentam e disfarçam, consumindo-lhes as energias e empurrando-os para os anestésicos do alcoolismo, da drogadíção, do sexo sem significado.
...E tombam nas depressões profundas, nos suicídios discretos
ou espetaculares, na transferência psicológica para os demais,
dando lugar à violência, ao terrorismo, ao crime, às guerras no lar,
nas ruas, no trabalho, em toda parte.
Fala-se muito sobre Jesus, que permanece o grande desconhecido da cultura e da civilização modernas.
Mito para uns, Deus para outros, homem comum e depravado
como alguns o biografam autorretratando-se, é usado para debates e comentários, autopromoções e agressões fanáticas, sem que
a sua mensagem tenha lugar nas mentes ou nos corações.
Para diminuir a situação desastrosa em que se encontram as
criaturas terrestres, o espiritismo veio iluminar a senda a percorrer,
penetrar o cerne dos sentimentos e libertar a razão das heranças
perversas do passado, não encontrando ainda osolo fértil para alcançar a meta a que se destina.
Grande número daqueles que o abraçam, vinculados às amarras ancestrais das experiências vivenciadas, em vez de viverem a
humildade e o serviço, atiram-se na arena das competições mentirosas do mundo, gerando cismas e exibindo a falsa cultura de
que se dizem portadores, apontando erros, impondo seus pontos
de vista, distantes do compromisso com a consciência do dever
de amar e servir, de edificar o bem em toda a parte mediante os
recursos disponíveis.
É compreensível que essa conduta se expresse, porque a evolução é muito lenta, e ninguém consegue de um salto abandonar o
primarismo em que estagiou por longo período, a fim de alcançar
os patamares da razão e do sentimento nobre.
Nada, porém, impedirá a vitória d'O Consolador, e todos aqueles que se lhe oponham padecerão o efeito danoso da sua conduta
insensata, o que é inevitável.
É necessário amar e compreender a todos, procurando modificar as estruturas do pensamento e do comportamento doentios que vigem na sociedade aflita, oferecendo Jesus e sua doutrina com a pulcritude e beleza com que ele e os seus primeiros
discípulos e seguidores nos ofereceram, e de que Allan Kardec se
fez o ímpar mensageiro dos novos tempos.
O retorno à simplicidade do coração, à convivência com os infelizes que enxameiam em todos os segmentos da sociedade, à
bondade fraternal e à gentileza amorosa para com o próximo, no
lar, no trabalho, na rua, faz-se inadiável, e ninguém impedirá que
tal aconteça.
Reencarnam-se em massa os missionários da Nova Era, totalmente entregues a Deus, a fim de romperem com a escuridão que
domina o mundo e tornarem-se estrelas luminíferas apontando
os rumos da plenitude.
Conhecer o espiritismo é uma honra que nem todos valorizam,
porque, alguns, apressados em transformar o mundo sem a correspondente mudança interior, vilipendiam-no, combatem-no por
meio dos atos, embora dizendo-se vinculados à doutrina, o que
lamentarão mais tarde, quando realmente despertarem para a
imortalidade na qual se encontram situados.
Há, sem dúvida, muitas bênçãos e exemplos dignificadores que
se transformam em roteiros de vida para os que são sinceros e
seguem na retaguarda, confiantes na autossuperação moral e na
conquista da paz interior.
Que permaneçam irretocáveis os servidores de Jesus na luta
autoiluminativa, esparzindo a doutrina espírita em toda a parte
por intermédio do pensamento, das palavras e dos atos.
Poder-se-á perguntar:
- Mais um livro mediúnico, tendo-se em vista o número de
obras respeitáveis que são apresentadas ao público diariamente? Trará alguma novidade ou fornecerá temas relevantes em torno
da ciência, da filosofia, da ética, da beleza?.
A resposta, à primeira questão, é positiva, porque se torna indispensável repensar, repetir oque já é conhecido, fixar-se oque se
ouve e o que se vê no dia a dia das atividades humanas, especialmente no movimento espírita.
Ante a avalanche de obras de degradação humana, de vulgaridade e de banalização da vida e dos valores morais, torna-se necessário que se encontrem obras outras que possam diminuir o efeito
pernicioso daquelas que corrompem e ensandecem.
À segunda indagação, diremos que o nosso objetivo não é descortinar os horizontes da ciência e da filosofia, que pertencem aos
especialistas, nessa área, que se reencarnam com a missão específica para fazê-lo. Mas certamente tem como fim repetir a ética de
Jesus e a sua moral, a beleza da simplicidade e do amor, da caridade e da renúncia, quando prevalecem a soberba, o egotismo e a
indiferença pelo ser humano, pela natureza, pela vida.
Elegemos trinta temas para reflexões daqueles que nos concederem a honra de os ler, oferecendo a visão espírita e cristã em
torno deles.
Fazem parte do cotidiano de todas as criaturas que, muitas
vezes, ficam indecisas entre o que fazer e como conduzir-se, tal a
quantidade de desvios comportamentais que se lhes apresentam.
Iniciamos os nossos estudos analisando As bênçãos de Deus, e
concluímo-los com uma Carta aos cristãos modernos, numa evocação ao Apóstolo das Gentes, que enfrentou situações equivalentes
às que ora vivemos.
Rogando ao Senhor da Vida que nos abençoe e nos ilumine nas
decisões existenciais, desejamos aos nossos caros leitores muita
paz e alegria de viver.
Salvador, 14 de julho de 2010
Joanna de Ângelis