Relacionamentos Conflituosos: Mudar é possível

Zwínglio Christopher     zwcho@yahoo.com.br

Carlos e Jéssica se conheceram no colégio. Ele sempre fora bastante inteligente e seguro em suas decisões. Era um aluno modelo. Conhecera Jéssica durante uma festa do colégio. Jéssica é uma garota muito bonita, mas que se apresenta muito insegura e com necessidade de reconhecimento de outras pessoas. Jéssica se apaixonou por Carlos desde a primeira conversa que teve com ele. A atenção oferecida e a segurança de Carlos a cativaram. Já Carlos ficou fascinado pelo jeito envergonhado e cauteloso de Jéssica, o que despertava nele um sentimento de proteção. O amor entre os dois era conhecido por todos, eram tidos como o casal perfeito. Resolveram, então, após 4 anos, se casar. Durante dois anos o casamento foi maravilhoso, mas de repente Carlos e Jéssica não conversavam mais, as brigas eram mais constantes e as qualidades que cada um via no outro se transformaram em defeitos desprezíveis. A convivência se tornara insuportável.

As três possíveis alternativas para quando o relacionamento vai mal    Topo

A situação acima, apesar de fictícia acontece com freqüência nos relacionamentos amorosos, tanto em cônjuges como entre namorados. O desentendimento entre parceiros é tão comum quanto a necessidade de se encontrar alguém para se manter um relacionamento afetivo. Existem, pelo menos, três atitudes a serem tomadas quando um relacionamento vai mal.  A primeira seria a separação definitiva do casal. Essa é a solução mais utilizada pelos casais de namorados. Essa alternativa é mais fácil aos namorados já que, geralmente, não existem responsabilidades compartilhadas, tal como a união de bens e filhos. A separação definitiva é mais problemática nos casos dos casais em que ocorre um maior investimento mútuo de ambas as partes, como no caso daqueles que se casam formalmente ou que decidem morar juntos. Uma segunda atitude a ser tomada é a de se manter o relacionamento sob conflito, mesmo quando o carinho e afeto pela outra pessoa já não existem mais. Essa é a alternativa encontrada por certos casais em que um dos parceiros, ou até mesmo os dois, ganham mais mantendo o relacionamento conflituoso, é o caso em que se percebe a união como inadequada e a separação como sendo ainda pior. Por fim, quando um problema surge no relacionamento pode-se buscar manter a união e resolver os conflitos que tanto ameaçam o bem estar do casal e, em muitas situações, dos filhos.

Compreendendo o surgimento dos problemas          Topo

Defendemos a possibilidade de a separação ser a melhor alternativa em algumas situações, quando a união se apresenta como insustentável. Nesses casos uma avaliação mais aprofundada da situação é necessária para que não se corra o risco de se quebrar um relacionamento em que a felicidade seja possível. Porém, muitas das vezes, o clima conflituoso se origina em desentendimentos ocorridos devido a falhas na comunicação e interpretações errôneas dos comportamentos e atitudes do companheiro(a). Nestes casos a reconciliação se faz possível.

 Nem sempre a forma como um dos parceiros avalia o relacionamento é a mesma forma que o outro avalia. Isso faz com que uma simples conversa possa se transforma em uma tempestade de sentimentos conflituosos e desagradáveis. A postura básica assumida pelos profissionais da terapia cognitivo-comportamental é que o problema não está na situação em si mesma e sim na forma com se percebe essa situação. O dialogo a seguir entre Jéssica e Carlos exemplifica como a distorção da forma como se percebe uma situação pode gerar um conflito e tornar um acontecimento aparentemente banal em razão para criar sentimentos aversivos um em relação ao outro. A situação é a seguinte. Carlos médico em ascensão está em uma cidade distante participando de uma convenção médica. Resolve ligar para esposa:

CARLOS: [Jéssica vai ficar contente sabendo que estou me reunindo com tantas pessoas, aprendendo tanto e me saindo bem]. Está ótimo por aqui. Como está você?

JÉSSICA: [Ele está se divertindo enquanto estou com duas crianças doentes nas mãos.] O Marquinhos e a Joana estão doentes.

CARLOS: [Essa não! Ela vai inventar algo.] O que eles têm?

JÉSSICA: [Será que ele vai corresponder? Será que tem um pingo de responsabilidade?] Estão com catapora. Estão com muita febre.

CARLOS: [Catapora em geral não é grave. Ela está exagerando o problema.] Não se preocupe. Eles vão ficar bem.

JÉSSICA: [Por que ele não se oferece para voltar pra casa. É um irresponsável] Tudo bem.

CARLOS: [Espero tê-la tranqüilizado] Eu telefono amanhã.

JÉSSICA: [Ele nunca está por perto quando eu preciso dele] Faça isso! [sarcástica].

          Seria apenas mais uma conversa ao telefone se a percepção das atitudes de cada um não tivessem sido mutuamente distorcidas. No dia a dia, a cada momento, estamos em contato com o mundo e fazemos uma avaliação pessoal do que está acontecendo. Nem sempre a forma que vemos um evento aparentemente simples, como ter que andar por uma rua movimentada, é a mesma que todos vêem. Da mesma forma, a maneira que avaliamos as pessoas que conhecemos vai depender de como experienciamos relacionamentos passados. A partir de nossa história de vida com pessoas, especialmente com os pais e outros familiares, é que começamos a formar nossa percepção a cerca do que esperar de determinado tipos de pessoas.  No caso de Jéssica, o seu pai foi a pessoa que desde o inicio a protegeu em situações que ela se sentiu segura. Foi seu pai, por exemplo, que a levou pela primeira vez ao colégio quando criança e foi ele que a salvou de ser atacada por um cão que passava pela rua. Essa e outras situações associadas a certa insegurança que Jéssica já apresentava quando criança fez com que ela criasse, mesmo que não conscientemente, expectativas acerca do tipo de pessoa ideal para ela se envolver amorosamente, uma pessoa segura de si e que a protegessem. Isso a fez criar expectativas e regras a cerca do que esperar das pessoas. O contrário também ocorre. No caso de Carlos, o seu pai não era presente, vivia em festa e não apresentava responsabilidades com os filhos, nesse caso o modelo de pessoa foi construído numa perspectiva contrária. O sofrimento gerado pelo descaso do seu pai fez com que Carlos assumisse características de responsabilidade, ética e segurança, assim como procurar isso nos outros.

Expectativas e Regras          Topo

         Todos nós esperamos nos envolver com alguém que tenha boas qualidades. O problema surge quando se cria expectativa ocultas (expectativa que não é exposta para o outro) em forma de regra. Jéssica por exemplo achava que o marido deveria estar sempre presente assim que ela precisasse dele. A quebra dessa regra significava para ela falta de consideração e, também, que ele não gostava mais dela. Para Carlos essa regra não tinha a mesma validade que para Jéssica. O fato de ele saber que catapora não era tão grave e que ela poderia cuidar dos filhos o fez desconsiderar a possibilidade de voltar pra casa. Carlos por sua vez não conseguiu perceber a angústia de sua esposa e interpretou de forma errada a sua preocupação. Ele certamente voltaria imediatamente se houvesse algum tipo de urgência. Cada um viu a situação de forma completamente diferente, o que significa que de alguma forma o diálogo entre os dois está deficiente. A situação entre casais começa a se tornar preocupante a partir do momento em que cada um tenta adivinhar o que o outro está pensando ao invés de conversar diretamente. Considerar as expectativas ocultas e regras (por ex. ele não confia em mim) como uma verdade só faz aumentar os atritos e as brigas. Como resultado da forma distorcida de ver o comportamento do companheiro, o parceiro que se sente ofendido acaba por atacar verbal ou fisicamente o parceiro por achar que ele fez por merecer. Aquele que recebe a agressão sem saber ao certo a razão disso se sente traído e contra-ataca, também, de forma agressiva. Muitas vezes quando os casais procuram o psicólogo não conseguem identificar como o conflito começou. Apenas se lembram das atitudes “injustas e sem justificativa” tal como eles relatam. Mas na maior parte das vezes uma visão errada do parceiro, baseada nas expectativas e regras assumidas de como o outro deve agir acaba por gerar comportamentos ofensivos que por fim abalam o canal de comunicação entre os parceiros. Com a comunicação abalada o casamento começa a despencar como um carro desgovernado em uma ladeira.

         Uma pergunta que alguns podem estar se fazendo é “porque essa falha na comunicação e má interpretação das atitudes do companheiro não surgem no começo no relacionamento?”. O fogo inicial da paixão é responsável por bons momentos do casal, mas também influencia na avaliação que é feita do parceiro. Se durante a crise o casal vê um ao outro sob as piores perspectivas, durante a paixão são as qualidades que mais freqüentemente são observadas e valorizadas. Isso permite que a comunicação flua e que cada parceiro consiga sem esforço se colocar na posição do outro, sentir o que o outro sente, se preocupando com a felicidade do outro, favorecendo a união. Com o convívio e a diminuição da paixão os defeitos de cada um começam a serem percebidos. É nesse momento que os conflitos começam a surgir. Quando ambos aprendem a aceitar as diferenças de cada um e seus defeitos, sem perder de vista as qualidades, e aprendem a aceitar as expectativas apenas como expectativas e não como obrigação, o casal tende a se unir ainda mais nessa fase aumentando assim as intimidades, já que a partir desse momento cada um passa a ter a possibilidade de uma melhor compreensão de seu parceiro, tanto em relação aos seus defeitos como em relação aos aspectos positivos.

Melhorar é possível          Topo

A seguir proponho oferecer algumas dicas sobre o que fazer para melhorar um relacionamento amoroso em conflito. Deve-se ter em mente que cada situação é um caso particular. Não existem regras fixas que façam com que o casamento que vá mal melhore num passe de mágica, mas existem algumas atitudes e comportamentos que favorecem o relacionamento quando um dos companheiros ou ambos se esforçam para solucionar os empecilhos tanto  que ameaçam o casal. Compreender o funcionamento do relacionamento também é crucial para que a mudança seja possível.

A arte do diálogo          Topo

Como já foi comentado anteriormente, saber dominar a arte do diálogo é fundamental para que conflitos sejam evitados. Há algumas regras que podem tornar as conversas mais alegres e também mais eficazes. Seguindo essas sugestões você pode conseguir evitar fatores que bloqueiam muitas discussões.

Sintonizar no canal do parceiro. Para que uma conversa possa render é necessário que marido e esposa estejam sintonizados um no outro. Muitas vezes, um dos dois, ao tentar resolver os problemas do outro, só conseguem o contrário. Jéssica certa noite muito preocupada com problemas no trabalho falou com Carlos sobre o problema. Ela queria apoio, estímulo e simpatia. Mas Carlos, ao invés disso, fez uma análise da situação e despejou uma grande quantidade de instruções. Jéssica se sentiu rejeitada, achou que o marido não ligava para seus sentimentos. Ao conversar com seu parceiro atente para o que ele espera em determinada situação. Perceba com o outro reage ao apoio que você está oferecendo. Se a reação não for positiva mude a forma de apoio que está a oferecer, se está oferecendo um conselho prático e a pessoa não está satisfeita demonstre mais compreensão e empatia. Quando compreensão e empatia não funcionarem tente ser mais prático.

Dar sinais de que está ouvindo. Essa sugestão é particularmente importante para os homens. Muitas mulheres reclamam que quando conversa o marido não está escutando. O que acontece é que o marido mesmo escutando não se preocupa em dar sinal disto. Deve-se tentar sempre numa conversa dar sinal de que está a se escutar o outro. Sinais com “hunnn”, “hã-hã”, “to entendendo” são úteis nesse sentido.

Não interromper. É importante para que a conversa flua que cada um se expresse sem interrupções. Mesmo que as interrupções façam parte do estilo pessoal de conversar de uma pessoa pode passar a impressão de desacordo ou de egocentrismo.

Perguntar com habilidade. Saber fazer a pergunta de maneira correta certamente é fundamental para se iniciar e manter uma conversa, evitando assim o diálogo monossilábico. Perguntar especificamente sobre assuntos que estimula o outro pode facilitar o inicio de uma conversa. Para isso é importante que se conheça bem a outra pessoa e, também, saber o que de suas atividades mais a motiva.

Traduzir queixas em solicitações. Quando surgi algum problema, e o relacionamento não vai bem, o casal em crise tende a entrar num ciclo de brigas e acusações um em relação ao outro a dificuldade em perceber a perspectiva do outro impede de que se pense concretamente na solução dos problemas apresentados. Nessas situações é mais útil o casal atentar a solução do problema em particular. Uma alternativa para isso é se pensar sempre os problemas em termos de solicitações para a outra pessoa. Ao invés de chamar o outro de imprestável e irresponsável, deve-se pensar o que se quer que o parceiro faça para que deixe de ser visto dessa forma. A maneira como se faz as colocações são fundamentais para esse fim. Aconselha-se trocar frase ditas com o pronome “você” no começo por frases que contenham o pronome “eu”. Por exemplo, trocar frases como “Você sempre chega tarde em casa” por “Eu gostaria que você chegasse mais cedo em casa”.

A maneira como se fala algo pode fazer a diferença numa conversa e pode mudar de maneira considerável, tanto para bom como para ruim o andamento de um relacionamento. Quem domina a arte do diálogo certamente terá mais chances de ser feliz ao se envolver com alguém.

Regras para quem fala e para quem escuta          Topo

            A seguir se segue uma lista de diretrizes que foram utilizadas com êxito considerável por muitos terapeutas da abordagem cognitiva-comportamental. Essas regras se baseiam em princípios que precisam ser compreendidos para se possa obter algum efeito ao aplicá-las.

Regras Para Quem Fala: 1. Ser breve; 2. Ser específico; 3. Não insultar, xingar ou acusar; 4. Não rotular; 5. Não ser absoluto; 6. Afirmar de forma positiva; 7. Checar as inferências sobra as atitudes dos outros.

Regras Para Quem Escuta: 1. Ouvir com atenção; 2. Dar sinais de que está ouvindo; 3. Tentar compreender a questão central do que o outro diz; 4. Não ficar na defensiva e nem contra-atacar; 5. Se indicado, esclarecer os motivos para as atitudes, mas não dar desculpas; 6. Não analisar os motivos de quem fala; 7. Descobrir os pontos de acordo e desacordo; 8. Desculpar-se se de fato ofendeu ao outro; 9. Resumir em voz alta o que acha que o outro pensa.

         A proposta dessa discussão foi poder estar esclarecendo algumas questões que são mais discutidas entre profissionais adeptos da terapia cognitiva-comportamental (TCC), e que apresentam mais resultados, em  relação aos problemas apresentados entre casais. Cada casal que se encontra em dificuldades apresenta suas particularidades no problema pelo qual estão passando. O objetivo do artigo foi oferecer uma noção geral do que geralmente acontece e das possibilidades de resolução da situação. Algumas dicas aqui citadas podem fazer a diferença para que o relacionamento melhore, mas geralmente uma gama de outras questões estão relacionadas entre si, e necessitam de melhor compreensão, fazendo necessário a atuação de um profissional para que os problemas no relacionamento deixem de ser um problema. Os psicólogos da TCC se preocupam em estar trabalhando as habilidades de relacionamento do casal para que eles adquiram o potencial de, por conta própria, tornar suas vidas mais gratificantes, abrindo o caminho para que a fogueira  do amor possa ter sempre mais lenha a ser colocada.

Baseado em “Para além do Amor” de Aaron T.Beck.

 

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