Contam que um califa de Bagdá tinha um filho, já moço, muito acanhado e
tímido. Não saía à rua para que o não vissem e dessem tento do seu modo
de andar e o apontassem como sucessor do rei.

O pai, a quem muito mortificava a timidez do filho, um dia
chamou-o e
disse-lhe:

– Toma esta
taça de cristal. Hás de levá-la com água a transbordar, desde
este
palácio até a mesquita, sem, contudo entornares uma gota sequer.
È essa a minha ordem. Muito triste ficarei se me desobedeceres!

Pelas longas e tortuosas
ruas sai o moço a caminhar com imensa cautela,
completamente alheio ao rebuliço da massa popular, e indiferente aos
olhares dos curioso espectadores. Era preciso obedecer a seu pai.
E ele fez exatamente como lhe fora ordenado.
Tornando a casa,
perguntou-lhe o rei se havia notado a curiosidade dos transeuntes.

– Como me seria possível fazê-lo, respondeu, tendo na mão a taça a
transbordar?

Assim também, se tu, meu bom amigo, andasses pela vida preocupado com uma
taça a transbordar, afastarias de ti o despeito humano, e caminharias
pela estrada do dever com tranqüila confiança. Ora, essa taça mais frágil
que o vidro, mas que deve absorver os teus sentidos, é a tua alma de
cristão. E se possuis essa preciosa e delicada taça e desejas
transportá-la, por que emprestar tanta importância aos olhares e críticas
dos transeuntes que querem perturbar a tua jornada pela vida.

Lendas do Céu e da Terra, Malba Tahan

 

 

Zilá de Araújo

22/11/2006


 

 

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