Meus Poemas

 

 

 


Soneto do Amor Total

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Vinícius de Morais

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Canção
 

Não te fies do tempo
nem da eternidade
Que as nuvens me puxam
pelos vestidos,
Que os ventos me arrastam
contra o meu desejo!
Apressa-te, amor,
que amanhã eu morro,
Que amanhã morro
e não te vejo!
 Não demores tão longe,
em lugar tão secreto,
Nácar de silêncio
que o mar comprime,
Ó lábio,
limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor,
que amanhã eu morro,
Que amanhã eu morro
e não te escuto!
Aparece-me agora,
que ainda reconheço
A anêmona aberta na tua face
E em redor dos muros
o vento inimigo...
Apressa-te, amor,
que amanha eu morro,
Que amanha morro
e não te digo...
 

Cecília Meireles

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Canção  da Plenitude
 

Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelos anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)

O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo a força - que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés - mesmo se fogem - retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços,
mas o sonho interminável das sereias.

 Lya Luft

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Canto integral do amor

 

Cegos os olhos, continuarias de qualquer forma, presente, 
surdos os ouvidos, e tua voz seria ainda a minha musica,
 
e eu surdo, ainda assim, seriam tuas as minhas palavras.
 
Sem pés, te alcançaria a arrastar-me como as águas.
Sem braços, te envolveria invisível, como a aragem,
 
Sem sentidos,te sentiria recolhida ao coração
 
como o rumor do oceano nas grutas e nas conchas.
 
Sem coração, circularias como a cor em meu sangue,
  e sem corpo, estarias nas formas do meu pensamento
  como o perfume  no ar. 
E eu morto, ainda assim por certo te encontrarias
 
no arbusto que tivesse suas raízes em meu ser,
 
-- e a flor que desabrochasse murmuraria teu nome.
 

J.G.de Araújo Jorge 

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 Confissão Inicial

 

Às vezes, tenho a impressão
de que não devia publicar estas  palavras
nascidas para viverem em surdina
ao teu ouvido.
Às vezes penso que deveria deixar no limbo
do coração
estas palavras de ti e para ti
e que tomaram imprevistamente a forma de canção.
Estas palavras que te colhem toda
e te deixam nua,
e me dão a impressão de que também
tenho nu o coração, em plena rua.

J.G.de Araújo Jorge

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Este Inferno de Amar

 

Este inferno de amar - como eu amo!
Quem mo pôs aqui n'alma...quem foi?
Esta chama que atenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói -
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há-de ela apagar?

 

Eu não sei, não lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho -
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?

 

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus
Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei...

Almeida Garett

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Mágoa
 

Eu que cheguei a ter essa alegria
de junto ao meu possuir teu coração!
Eu que julgava eterna a duração
do voluptuoso amor que nos unia,
 

sou - apagada a última ilusão,
morto o deslumbramento em que vivia,
- um cego que ao lembrar a luz do dia
sente mais negra ainda a escuridão.

 Tu me deste a ventura mais perfeita,
perdi-a e dei-te a chama insatisfeita
dessa imensa paixão com que te quis...

Hoje, o que eu sinto, inútil, revoltada,
não é mágoa de ser desgraçada,
- é pena de  ter sido tão feliz.

Virginia Victorino

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Pedra Filosofal

 

 

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel.
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Columbina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que o homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mão de uma criança.

António Gedeão

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Eu escrevi um poema triste

Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!

Mario Quintana

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Presença

 

Cheio da tua ausência,
Nem sinto a solidão.
Vida, mulher ou mãe,
Feminina saudade,
Enche-me a paz que tem
A morte, a viuvez e a orfandade.

Negativo do amor,
E sua face ainda,
O já  não ser amado
É uma pena suspensa
Que liga eternamente o condenado
Ao juiz da sentença.

Triste convívio, basta-me, contudo.
Todo de luto, mudo,
Cumpro os deveres humanos,
Limpo o suor da testa,E atravesso os anos
Fiel ao desespero que me resta.

Miguel Torga

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