Ferrari 360 Spider

É de virar a cabeça
Feito medida para inflar o ego de quem está ao volante, a 360 Spider é a Ferrari conversível mais espetacular já produzida pela fábrica de Maranello

Vagner Ambrósio
Fotos: Marco de Bari de Mônaco

Estou em Montecarlo ao lado de um monte de italianos que falam feito metralhadora. Vim para dirigir a 360 Spider. E essa nem é minha primeira Ferrari, embora seja o conversível mais potente da casa de Maranello. São 400 cavalos num motor V8 que ronca forte e afinado. Antes de botar as mãos na novíssima macchina, os técnicos deram algumas dicas sobre o trajeto que nós, jornalistas de todas as partes do mundo, iríamos percorrer. Obviamente foi difícil controlar a ansiedade. O blablablá durou apenas meia hora, mas parecia uma eternidade. Ao fim do papo, já sabia qual a Spider que me caberia: uma amarela, cor símbolo da cidade de Módena, terra natal do comendatore Enzo Ferrari, o fundador da marca. Ao lado da rossa (vermelha), é a cor preferida dos ferraristas.

Do lado de fora do Hotel de Paris, o mais luxuoso do principado de Mônaco, pelo menos uma dezena dessas italianas fogosas estavam enfileiradas, estalando de novinhas, todas com a capota arriada. Em torno delas, uma multidão de turistas trocava cotoveladas para tirar fotografias ­ é mesmo difícil ficar impassível diante das linhas esculturais da Spider, sonho lapidado no estúdio italiano Pininfarina. Ao subir no carro, virei celebridade, com gente querendo tirar foto ao meu lado. Mas vamos lá. Por dentro a Spider é muito semelhante à versão cupê, embora bem mais ensolarada. O painel é o mesmo. O câmbio é o de Fórmula 1, duas borboletas presas atrás do volante. Com um leve toque, a da direita aumenta as marchas. A da esquerda reduz. Ao virar a chave, o ronco do motor soou como o urro de fera conhecida ­ afinal, é o mesmo da F360 Modena. Mas ainda mais vigoroso, graças à ausência da capota. Música para os ouvidos de quem gosta de carro.

Fera no circuito de Mônaco

Pelo retrovisor da Spider nota-se de imediato uma diferença em relação à F360 Modena: você não enxerga o motorzão fumegando atrás do banco. No conversível, ele também fica numa vitrine, sob a cobertura de plástico transparente. Mas só pelo lado de fora é possível vê-lo. A Spider aposenta a F355 e é muito mais espetacular. Para começar, é feita de alumínio. Seu coeficiente aerodinâmico, que mede a resistência do ar ao veículo é de 0,36. Muito próximo do da versão cupê, que é de 0,33. "Não foi fácil chegar a esse número", diz o engenheiro alemão Harald Wester. "Afinal, a turbulência num conversível é muito maior." Essa diferença aerodinâmica custou 5 km/h na velocidade final. Enquanto o cupê chega aos 295 km/h, a Spider fica nos 290 km/h. Os reforços estruturais significaram um aumento no peso do carro, mas pouco alteraram o desempenho do modelo. A Spider é apenas 0,1 segundo mais lenta que a Modena para ir de 0 a 100 km/h.

Não foi por acaso que a Ferrari escolheu Mônaco para a estréia da Spider, vigésimo conversível na história da marca. O minúsculo principado, entre Itália e França, abriga a cidade de Montecarlo e tem tudo a ver com conversíveis de luxo. À beira-mar, um convite ao desfile de modelos sem capota, o lugar reúne milionários do mundo todo. Gente que, obviamente, pode pagar alto para ter uma Ferrari na garagem. Mônaco também é palco de uma das jornadas mais emocionantes da F1. Por esse motivo, foi apresentado um vídeo com o piloto Michael Schumacher esbanjando habilidade nas ruas estreitas do principado durante a prova deste ano. Era o mesmo trajeto que iríamos percorrer a bordo da Spider. Primeira engatada, é hora da largada. Sempre com muito cuidado, contorno a curva de Saint-Dévote para mais tarde entrar no túnel ­ neste ponto, Schumacher deu 305 km/h.

Oba! Uma loira pede carona

Em poucos minutos Montecarlo fica para trás. Na auto-estrada, percebe-se o poder desta Ferrari. O ponteiro do conta-giros sobe rapidamente (a 8 500 rpm o motor atinge a potência máxima); junto com ele, a velocidade. Um a um, os carros vão ficando para trás. A 200 km/h você praticamente está só ­ e ainda em quarta marcha. O único problema é com a lei. Por isso, tirar o pé é prudente nesse momento. Ao chegar à cidade francesa de Nice, na badalada Côte d'Azûr, a Spider logo vira atração. O primeiro a se aproximar é um pedinte. O motivo é claro. Disse que não tinha dinheiro e ele ficou indignado: "E esse carrão?!", perguntou, apontando para a máquina que, no Brasil, vai custar US$ 390 000.

A vida é surpreendentemente boa para quem está numa Ferrari conversível. Mais adiante, no semáforo, foi a vez de uma loira se encantar com a macchina. Ao ver o banco do passageiro vazio, disparou à queima-roupa: "Posso ir com você?" De fato, o espaço interno é suficiente para acomodar com conforto duas pessoas e atrás dos bancos há ainda um pequeno espaço para bolsas. Até a polícia francesa trata diferente quem está a bordo do bólido. Ao ver a placa de QUATRO RODAS escondendo a original, dois policiais de moto fizeram sinal para encostar. Depois das explicações, mostraram-se mais interessados em saber potência, velocidade máxima e preço do que em multar os "infratores". Ao final, ainda abriram caminho para a passagem do bólido amarelo, como os batedores fazem com as autoridades.

Melhor foi sentir a Spider nos trechos sinuosos do caminho de volta para Montecarlo. Com toda a parafernália eletrônica, como controle de tração, o carro parece grudar no asfalto. Nem sequer canta pneu quando se entra mais forte nas curvas. É segurança à prova de barbeiragem. Difícil, apenas a marcha a ré. A visibilidade é ruim e exige ajuda de alguém do lado de fora. Depois de um dia inteiro a bordo desta máquina do prazer, chegou a hora de devolvê-la ­ muito a contragosto, é claro. Fim do sonho, que ficou evidente quando desci da Spider e andei pelas ruas do principado, agora distante dos olhares de admiração ou de inveja.


Arisca, ela chega aos 290 km/h e vai de 0 a 100 km/h em apenas 4,6 segundos

A elevação atrás dos bancos da Spider foi inspirada nos modelos da marca na década de 50

A paleta entre os bancos evita que o vento crie o chamado efeito redemoinho a bordo da Spider

Mesmo em Mônaco, quem vai a bordo deste conversível chama a atenção

A Spider estréia no Brasil em outubro, no Salão do Automóvel de São Paulo

O conversível custa cerca 11% mais que a versão fechada. Com câmbio de F1, bate nos US$ 390000

painel

Por dentro o mesmo acabamento da versão cupê. No centro do console fica a alavanca da marcha a ré

Os bancos são baixos e o volante, tipicamente esportivo


motor

Aberta, a tampa do motor V8 com 400 cavalos lembra uma enorme asa

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