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A um espectador não conhecedor, o estilo de Karate praticado por este ou
por aquele clube dá a sensação de não fazer diferença nem apresentar uma
especial particularidade. Porém, para os praticantes dos diversos
estilos, as diferenças de concepção de técnica e mesmo das bases
fundamentais, são bem distintas e muitas vezes, infelizmente,
irredutíveis. Cada um julga estar na posse da verdadeira ciência e do
verdadeiro segredo, caminhando, pois, na via do Karate que considera
melhor. Esses pontos de vista assemelham-se muitas vezes ao fanatismo
das religiões e desembocam como essas religiões, no mesmo fim. Há uma
grande multiplicidade de "escolas" com diferentes estilos de Karate. No
Japão podemos contar 15 ou 20 diferentes. Estas serão as mais válidas,
pois estão mais codificadas, estabelecendo o programa de ensino através
dos Katas e indicando ainda os Katas necessários a uma progressão de
graduação. Dessas escolas, só falarei das cinco mais importantes e
conhecidas na Europa.
Energia Dinâmica
Todas as técnicas do Karate devem, depois de assimiladas, ser executadas
a fundo, quase ferozmente, no sentido de libertar e acordar a energia
latente. Esse é o meio de obter a explosão de força concentrada ao mais
alto grau. Aqui, à vontade de cada um joga um papel mais importante do
que a simples força muscular, pois são canalizadas sobre um fim
especifico todas as reservas musculares e nervosas, sendo a tensão e a
contração do tipo isométrico a base de obtenção de um poder, que cada um
possui latente, mas que raramente é posto em execução.
O potencial atlético é realmente importante em Karate? - A resposta é
não. O importante é a tensão posta no final da execução da técnica e ao
mesmo tempo a coordenação de cada movimento. Aprendemos assim a bater
com o punho ou com o pé na zona onde a concentração é máxima. O fator
precisão na ação entra então em jogo.
Descontração
A tensão que cito acima atravessa, porém períodos relâmpagos de
descontração. Pode parecer um paradoxo, mas na realidade é possível
atingir uma tensão em descontração, que consiste num estado de espírito
em que certos músculos e nervos se encontram instantaneamente prontos a
intervir à mínima solicitação do "sentido",. E aqui digo sentido, pois
não é o pensamento que intervém neste caso, nem mesmo o consciente. Esta
é uma noção difícil de exprimir por escrito, pois é tão sutilmente
intuitiva, que só quem a sente a pode compreender inteiramente. Com
efeito, todos sabem a importância da "ligação" do bloco, da ação em
bloco, e as "nuances" atravessadas, por exemplo, no recuo veloz do
Kokutsu acompanhado da blocagem e a contração e descontração atravessada
pelos membros inferiores e superiores ao passar ao contra ataque em
força.
Respiração
As fases de força e fraqueza que o corpo atravessa são devidas à
respiração. Quando expiramos, encontramo-nos vulneráveis a qualquer
ataque. Dai o conselho de concentrar sempre a respiração no ataque e
contrair a respiração abdominal no momento do impacto. Nunca, em Karate,
se deve agir de maneira desordenada. Uma perfeita coordenação e um
perfeito equilíbrio são absolutamente necessários no que respeita à
inspiração e expirarão. Daí ser por vezes monótono, para os iniciados, o
tipo de treino inicial na posição zazen, onde se aprende, durante longo
tempo, a respirar. Em combate de Karate a respiração não deve
transparecer ao adversário. A respiração deve ser discreta, exceto, é
claro, no caso das respirações ventrais sonoras. Para o iniciado, o ler
que a respiração pode ser executada com o ventre, pode parecer estranho.
Aí entramos no campo do Karate, pois a respiração pode exteriorizar-se
por um grito gutural e breve, destinado mais a contribuir para a
explosão de energia do que a assustar ou desorientar o adversário. Esse
grito chama-se o "Kiai", que não é mais do que o estado de tensão
interna que preside à execução do grito.
O Kiai
O Kiai pode ser sonoro ou silencioso e é um estado psicológico, mais do
que um simples berro gutural. Ele é a expressão violenta duma tensão
mental e física que atingiu o paroxismo, o apogeu. Esse grito é o
símbolo da explosão da dinâmica física e facilita a concentração total
na ação. O Kiai deve sair das profundezas dos abdominais e não
unicamente das cordas vocais. O que a maioria dos iniciados, e mesmo
certos cintos avançados, fazem julgando ser o Kiai é na maioria das
vezes um simples grito prolongado que é mais ridículo do que inibidor do
espírito adverso. O verdadeiro Kiai é usado com parcimônia e só nos
momentos exatos da ação total. Todavia é tão perigoso usá-lo
descuidadosamente como prescindir dele, principalmente nos Kata Heians e
Tekkis. O Karate é a procura da sensação e não da beleza e perfeição do
gesto. O próprio Kiai deve ser executado em sensação e não
mecanicamente, como meio de marcação do exercício executado. A um nível
mais avançado não é raro ver-se a paralisação do ataque oponente através
do Kiai. Certos mestres e instrutores conseguem mesmo o desmaio do
adversário, por meio do Kiai. O Kiai é, pois um meio de inibição e ao
mesmo tempo usado como reanimação por meio da aplicação da técnica do
Kuatsu, (técnica de recuperação e reanimação de desmaio provocado por
pancadas, luxações e projeções, etc.). Para chegar ao estado psicológico
necessário à explosão do Kiai é, pois necessária não só uma execução
intensa das técnicas, em potência, mas também uma disponibilidade de
espírito e contracção ventral que permita a explosão imediata da energia
a*****ulada num instante preciso. Procurar, sobretudo, que o som
provenha da parte baixa da região abdominal.
A
Concentração
Sem verdadeira, positiva e treinada concentração mental, não há karateca
válido, como atrás dissemos. Sem o espírito, a eficácia da técnica
arrisca-se a severas e decepcionastes desilusões. O que é afinal a
concentração em karate? Aqui abordo um outro fator importante: o domínio
pessoal, o chamado autodomínio. Ora um karateca deve, em todas as
circunstâncias, ficar calmo, tranqüilo, sem qualquer atitude ou gesto ou
contração visível que deixe adivinhar as suas intenções. Esse tipo de
concentração deve e pode ser usado no treino do "dojo", e na vida
quotidiana. Lembramos a máxima: aquele que está bem preparado, não o
parece. Esta é a atitude do karateca. A tensão é dissimulada numa
concentração disponível, sem a mínima excitação que deforme a realidade
e impeça a percepção exata, instintiva, do acontecimento que se produza.
Por outro lado parece um paradoxo entrar em ação com a energia explosiva
do Karate e manter o espírito lúcido e o sangue frio. Como conseguir
essa maravilhosa indiferença frente a situação desesperada? Como
conseguir esse vazio de espírito, esse desprendimento aparente, quando
toda a energia física é desencadeada? A resposta, só a podem os
iniciados encontrar através da prática real do Karate. A concentração
está em contradição aparente com a disponibilidade de espírito uma vez
que, frente ao adversário, o karateca não deve fixar nenhum ponto
preciso para assim se aperceber e registrar imediata e intuitivamente a
menor abertura na sua defesa. É certo que a maioria dos mestres e
instrutores são unânimes em aconselhar a concentração nos olhos do
adversário para assim aperceber as suas intenções, mas o verdadeiro
sistema, o ideal, é a concentração do olhar ao nível do meio dos olhos,
conservando o olhar vago ou tentando olhar através do rosto, mas sem
fixar as pupilas do oponente. Este método permite "sentir" o adversário
da cabeça aos pés.
Texto de autor desconhecido, retirado do site http://www.karateca.net |
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