Espirito do Karate |
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Antes de o karate ser introduzido no Japão e transformar-se no karate atual pela assimilação das diretrizes da Butokukai, ele era até então uma arte civil de autodefesa desenvolvida em Okinawa, também praticada para manter a boa forma física e preservar a saúde. De fato, estes eram os principais motivos pelos quais os pais mandavam seus filhos treinarem com um mestre. Isto, porém, não se fazia abertamente, mas por amizade ou indicação, uma vez que o porte de arma e a prática de lutas eram proibidos, como medida de manter a ordem pública. De fato, como recordou Seikichi Hokama, vez por outra um jovem karateka, julgando-se perito na arte após dois ou três anos de treinamento, morria após um desafio. O Tode-jutsu era então uma arte de autodefesa civil, e não militar, sendo uma tradição cultural fortemente estabelecida em Okinawa. Como arte marcial, ele fazia parte do treinamento dos membros da guarda imperial, mas era também difundido entre os civis, particularmente aqueles da classe nobre e comerciante que podiam pagar para ter instruções particulares com mestres. Estes geralmente eram os "peichin", ou membros encarregados de manter a ordem pública e a lei no pequeno reino de Okinawa. Com a extinção da casa real de Okinawa e sua anexação ao Japão, uma crise de desemprego e pobreza tomou conta da ilha e alguns destes peichin começaram a ensinar publicamente Tode-jutsu como meio de ganhar algum dinheiro. A finalidade continuava sendo a mesma: autodefesa e saúde. Os chineses introduziram exercícios físicos como prática universal para o desenvolvimento da disciplina e da saúde. É parte da cultura chinesa que a melhor medicina para todos os males são os exercícios respiratórios e os movimentos, e que a causa de todas as doenças é a inatividade e o sedentarismo. Assim, os médicos chineses, desde a mais alta antigüidade já tinham observado o valor dos exercícios e da respiração. Também é parte desta cultura o fato de que a melhor forma de fazer exercícios físicos e respiratórios é através de danças e imitação de animais, e o tema mais comum das danças e dos movimentos dos animais são as batalhas e as lutas. Nasceu daí uma arte de imitação dos movimentos dos animais que servia também como adestramento do corpo para lutar e, mais que isso, uma motivação para praticar exercícios regularmente. Estes exercícios não eram vigorosos como o atletismo que estamos acostumados a ver e praticar e tomamos como sinônimo de exercício. Na verdade as verdadeiras artes marciais do oriente não era atletismo, assim como ainda também hoje não o é, e somente o karate japonês esportivo moderno transformou-se numa modalidade de atletismo. A prática tradicional é leve, ágil, do corpo participando da ação e concentrando toda energia no momento final da técnica, para relaxar em seguida e poder passar rapidamente para outra técnica. Esta era a forma do Tode-jutsu e das escolas e mestres que ainda hoje o ensinam na sua forma original.
A
prática deste antigo karate, conhecido então como Tode ou simplesmente
"Te", era inteiramente realizada através da aprendizagem de poucos
katas, passo a passo, técnica a técnica, adestramento das mãos e dos pés
em makiwara, e exercícios livres para desenvolver a resistência física.
Destes katas, nos informa ainda Motobu, Sanchin, Gojushiho, Seisan e Seiyunchin haviam sido recentemente introduzidos da China, enquanto os demais já eram praticados em Okinawa há pelo menos um século. Os kata mais praticados e mais conhecidos em toda Okinawa eram os Naifanchi, Passai e Kusanku. Os katas Rohai e Wanshu só eram conhecidos em Tomari até 1871, quando a geografia de Okinawa foi reorganizada. Até então, diz Motobu, nenhum mestre de Shuri ou Naha conhecia estes kata. Os grandes mestres desta época eram Matsumura Sokon, Aragaki Seisho, Kojo Taitei, Takemura "Peichin", Itosu Ankoh, Azato Ankoh, Higaonna Kanryo, e outros menos conhecidos. Itosu promoveu uma profunda reforma no Tode retirando todos os elementos agressivos e perigosos para transformá-lo num esporte recreativo e disciplinar. Itosu alinhava-se assim com os princípios da política educacional japonesa, que tinha na Butokukai o órgão regulamentador da educação desportiva dos jovens escolares. Este órgão reformara todas as artes marciais japonesas, agora desnecessárias dentro da nova arte militar mecanizada e científica, para transforma-las em prática recreativa com o objetivo de desenvolver nos jovens o espírito militar e patriótico, conservando o espírito heróico dos antigos guerreiros japoneses. Itosu convenceu seu amigo Higaonna a fazer o mesmo e assim este mestre transformou seu Kempo Chinês (Quan Fa), que ele denominava Shoreiji-ryu ("Arte Marcial do Templo Shaolin") ou Shorei-ryu, num método simples a partir do qual Miyagi criaria o seu método particular que chamou "Goju-ryu".
O
Budo, ou "caminho do guerreiro", a via pela qual a instituição
educacional japonesa pretendia transformar homens simples em heróis
unicamente pela prática metódica da arte marciais, já vinha sendo
edificada desde os séculos XVI-XVII no Japão. Este espírito pode ser
resumida nas palavras de Edwin O. Reischauer: É dentro deste espírito que o Karate irá se transformar em uma habilidade letal de matar ou mutilar um adversário com as mãos, para uma arte marcial disciplinadora da vontade e do espírito. As palavras do mestre e historiador do karate Akyo Kinjo falam melhor sobre este novo sentido que o karate tomou pelas mãos dos mestres: "É esplêndido que o Japão tenha alcançado um grande desenvolvimento econômico. Por outro lado, é lamentável que a mente humana tenha caído em desuso e haja uma tendência a negligenciar o aperfeiçoamento de si mesmo em detrimento da realização dos desejos materiais. É ainda muito triste quando ouvimos que os jovens de hoje são inativos, irresponsáveis, indiferentes e irrazoáveis. Eles buscam somente os prazeres do momento e não tem controle algum sobre suas angústias espirituais. Quando algo lhes são desfavoráveis ou contrário aos seus desejos, eles se reúnem em grupo assumindo um comportamento destrutivo. Os jovens que deixam de lado o individualismo e se dedicam entusiasticamente ao bem estar da sociedade são infelizmente muito poucos hoje em dia. "A História tanto do Oriente quanto do Ocidente nos ensina que, em todas as épocas, as sociedades que se tornam espiritualmente fracas invariavelmente entram em colapso. Assim, acredito que o aperfeiçoamento do espírito e o desenvolvimento de um corpo robusto são necessários ao jovens de hoje (...) O propósito do karate é disseminar três grandes objetivos: respeito aos fundadores, saúde e autodefesa, e o correto uso da energia. Aqueles dentre os meus discípulos que seguem zelosamente seus estudos por um mínimo de seis meses mudam seu comportamento, decoro e aparência pessoal, e têm uma disposição ativa e saudável". Vemos por estas palavras o espírito com que o karate atual foi estabelecido. Seria um bom proveito para toda a sociedade se os mestres de karate estivessem consciente deste espírito e exercessem seu papel lapidador do caráter dos jovens para melhorar a sociedade em que vivemos. Este texto foi escrito, por Kyoshi Fernando P. Câmara e Alaumir Manardes. Sensei Câmara ensina o Shorin ryu bem como o goju ryu da linha do Mestre Akamine.
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