“Sangue e Solidão”

Escrita por Alê

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Declaração de Direitos Autorais:

Os personagens Xena, Gabrielle e Ares são marcas registradas da MCA/Universal e Renaissance. Elas são usadas aqui sem a intenção de lucros ou de infringir as leis da Copyright. O resto da história pertence a Alê e nenhum aspecto original desta poderá ser utilizada ou alterada em putro lugar sem prévio consentimento por escrito da autora.

 

 

“Sangue e Solidão”

 

Cap I

O som das espadas singrando o ar era intermitente em seus ouvidos. O cheiro de fumaça não saia de suas narinas e a visão de seus amados mortos consumia-lhe a mente e o espírito .

-"Morra cretino!!" Assim, Caillean falara com mais uma de suas vítimas do campo de batalhas... Mais um Bárbaro que caía perante sua espada. O infeliz havia se atirado em cima dela, tentando surpreendê-la, mas a mulher virou-se agilmente, esquivando-se do golpe da espada do inimigo, que cortou o vazio. O contragolpe foi letal! A lâmina rodopiara-lhe na mão, parando em um movimento de ataque que rasgou seu oponente do ombro até a altura da virilha. O grande homem, coberto de peles, tombava assim, pesadamente, no chão. Ao vencer seu inimigo, Caillean observa o cenário ao seu redor. O céu está azul... como poucas vezes se vira na Britânia. O Sol forte tinha seus raios refletidos nas espadas e escudos espalhados pelo chão. Caillean notara, exaurida, que era a única de pé ali. Os pastos, os pastos de seu Reino, outrora verdes e vivos, estavam queimados e cobertos pelo sangue das intensas batalhas, das quais havia sido testemunha. Uma infindável fileira de corpos, de amigos e de inimigos, cobria espaços antes ocupados por árvores, flores e animais...

Há quanto tempo lutava? Ela já não mais lembrava... Dias, meses, anos... Sua mente parecia estacionada na madrugada em que seu castelo e seu Reino começara a ser atacado por Romanos... e mais tarde por Bárbaros! A sede de conquista dos governantes desses povos punha à baixo toda a sua vida! Seu Castelo, que fora belo e imponente diante de todas as demais construções do local, agora não passava de um amontoado de pedras queimadas no alto de uma colina. Os soldados lutaram bravamente, mas não conseguiram resistir. Os aldeões que sobreviveram aos ataques, haviam fugido para reinos vizinhos. Nada mais restava ali, apenas ela. Caillean sentia- se vazia...

Com a espada ainda em suas mãos, com o corpo dolorido, as roupas maltrapilhas que em nenhum momento faziam lembrar a Rainha que um dia fora, ou tentara ser... Exausta, enfim, Caillean se deixa levar pelos seus pensamentos pela dor de suas próprias memórias... Lembrava-se das histórias que seu pai lhe contava, dos doces que sua Tia Marion não mais faria, da cumplicidade de seu Tio Arqueon, que não mais estaria lá para encobrir suas peraltices... Lembrava-se da primeira vez que montara num cavalo... da primeira vez que pegara numa espada... das primeiras aulas que Xena lhe dera. Xena!? onde estaria ela agora? A pergunta, que a corroia por dentro, consumira seus últimos sentimentos. A resposta era uma só: Xena não estava ali... Não veio... Mesmo sabendo que agora ela tinha responsabilidades com aquelas terras. Caillean havia mandado um mensageiro informar à Princesa Guerreira sobre a situação de seu Reino... Entretanto, Caillean não sabia que Xena jamais recebera tal mensagem. Contudo, os fatos estavam ali... E a jovem só conhecia os fatos: Xena não estava !!!

Uma leve brisa toca seu rosto, queimado pela constante exposição ao sol, e ela percebe que havia tentado chorar... Chorar por todos... Chorar por tudo... Chorar por ela... Mas, ali, de pé, naquele mesmo lugar onde vira crianças correndo, pessoas trabalhando, e a vida acontecendo... Só havia morte!!! Morte que nos últimos anos a estava perseguindo como sombra! Seu Pai, Lao Ma, seus tios... Seus amigos, seus pertences!!! E, como uma praga, alguma força a mantinha viva, para contemplar sua própria insignificância diante da ida daqueles que amava... Não, não havia como chorar... se nada mais existia dentro dela. Na verdade, Caillean se sentia morta...

Como se, de repente, o cansaço de todos os dias de batalha tivessem lhe atingido como um raio, Caillean se deixa cair de joelhos e sua espada finca no solo acinzentado. Curvada, apoiada em sua arma, fraca, suja, perdida, sozinha, alheia... Ela não percebe que alguém se aproxima. Alguém, que poderá mudar sua vida para sempre!!!


-"Vamos logo Bárbaro, faça o que deve ser feito..." Disse Caillean, curvada ainda, encarando o chão, ao perceber que uma sombra bloqueava o sol. "Ande... Não é momento para ter piedade... Meu reino foi derrotado, mas a Britânia é grande... Há outros reinos.... poderemos lutar durante uma eternidade... mas, há de chegar o tempo em que nem Bárbaros, nem Romanos triunfarão sobre este solo." Profetizou a jovem, sentindo próxima a hora da morte.

-"Não me ofenda, me chamando de Bárbaro..." Disse a sombra contornando o corpo curvado. -"Sei que nunca fomos oficialmente apresentados, embora tenha observado você por muito tempo!"

Aos poucos, Caillean ergue a cabeça, um pouco pesada e dolorida por causa das últimas batalhas. Embora seus olhos demorassem a se acostumar com a claridade, já que havia permanecido por um bom tempo com eles cerrados, na tentativa de apagar o presente de sua memória, ela pôde vislumbrar a figura morena, forte e imponente a sua frente. Era diferente, mas, de fato, não se tratava de um bárbaro. "Quem é você?" Pergunta, sem muito interesse na resposta .

-"Sou alguém que veio responder suas perguntas... Sou a cura para sua dor!!!"

-"Não há dor, Homem, só há vazio!" Retrucou Caillean ainda ajoelhada.

-"Pois então, aqui estou eu para preencher este espaço!" Informou o homem, com um sorriso nos lábios .

* "Pare de rodeios... Diga logo quem é!!!!"- Impacientou-se a jovem .

* "Meu nome é Ares... sou conhecido também como o Deus da Guerra. Você já deve ter ouvido falar de mim!"

* "Por certo que já!" Rosnou Caillean, se lembrando das histórias de Xena, e, por fim ficando de pé para melhor encarar o Deus. "Não há nada em você que me interesse... nem tão pouco que vá preencher algum vazio em mim! Vá perturbar os que temem a você... E lhe afirmo, que não está diante de alguém que cultive tais sentimentos por você!"

* "Mas, sei disso..." Continuou Ares, sem se intimidar; "Não há medo em você e eu gosto disso!!! Eu quero a raiva que está em você! Quero esse ódio que está consumindo suas entranhas... É isso que eu quero!!"

Caillean se sentia confusa... Conforme Ares falava, sentia sua cabeça pesar mais e mais... se sentia tonta... Como aquele homem, que mal conhecera, podia saber que havia ódio nela... Ele era Um Deus, mas não um deus dela... Tentou, então, mudar o rumo da conversa, na tentativa de afastar aquela figura dali, para que ela pudesse, enfim, definhar sozinha com a própria amargura.

* "Como já lhe falei, Deus, não há nada em mim... muito menos ódio!"

* "Não foi isso que eu ouvi!!!" Insistiu Ares

Ouviu?... ouviu o que!? Ah, sim... Caillean concluíra finalmente, então ela não havia apenas pensado... havia praguejado e lamentado sua sorte em voz alta... estava tão surda em sua própria dor, que nem percebera que a externava, acreditando que apenas aqueles corpos inertes e ensangüentados eram suas testemunhas! Não adiantava fugir de si mesma... Sua cabeça continuava doendo, acompanhada agora de todo o seu corpo. Apenas ela sabia o esforço sobre humano que fazia para ainda estar de pé!

-"Pois é isto mesmo!" Admitiu, por fim, querendo na verdade encerrar o assunto; "Tenho raiva... Ódio... Mas, de nada me servem agora... Olhe ao seu redor..." Disse, enquanto fazia um amplo e dolorido movimento com os braços, como se estivesse apresentado para um convidado o cenário ao seu redor. "O que me trouxeram o ódio e a raiva? Destruição!!! ódio e raiva de pessoas que nem conhecia!! Você quer minha alma, Ares... pois mate-me e pode levá-la para o inferno se quiser... pois já tenho vivido nele!!!"

-"Matar você?" Debocha Ares, enquanto fala rodopiando em torno de Caillean, deixando-a ainda mais tonta. E conclui, aproximando-se de seu ouvido; "De quê me adiantaria você morta? Não tenho nenhuma intenção de dar mais um súdito à Hades... Você não vai morrer... pelo menos não ainda... Como disse antes, Caillean, posso aliviar sua dor e preencher seu vazio... Não essa dor da batalha... da perda de um reino... Posso aliviar uma dor muito maior... a da Traição!"

-"Do que você está falando...?" Pergunta Caillean, sentindo que sabia a resposta. Suas dores aumentavam mais e mais...

-"Xena, Caillean! É dela que estou falando...Sobre a pessoa contra quem você praguejou instantes atrás... Ela não está aqui, como deveria!!! Eu sei o que você sente... O esquecimento é a pior dor de todas... Eu a sinto quando meus seguidores não fazem suas oferendas... ou não cumprem seus votos..." Divagava Ares.

-"Não ouse comprar sua Vaidade, com a minha dor!!!"

* "Vaidade? Criança, eu sou um Deus, vivo para a vaidade... Mas, não vim aqui discutir esse assunto com você..."

* "Para que veio então?" Pergunta Caillean, sem ter a exata noção se aquilo já não era um sonho.

* "Vim oferecer vingança... Vingança contra quem mudou a sua vida. Contou-lhe sobre a delicadeza da espada, mas esqueceu de avisá-la sobre o peso do golpe." Propõe o Deus da Guerra.

* "Lutar contra Xena?" - Se pergunta Caillean, sentindo subitamente seu estômago doer e sua mão apertar a espada." Ares, a vingança marcou a minha vida... não creio que queira mais isso." disse a jovem já sem muita certeza de suas palavras.

* "Vamos, Caillean... Admita seus sentimentos, pare de lutar contra eles... Sua vida está vazia por que você tem negado sua natureza... E Eu posso dar sentido à ela novamente... Você não tem mais nada, só esse desejo que arde... Deixe que ele queime, deixe-o incendiar você, e ele consumirá a sua dor. Ela não veio, não atendeu ao seu chamado... esqueceu seu pacto... abriu mão de suas obrigações. Por melhor guerreira que você seja Caillean, você sabe, e Xena também sabia que uma guerra como essa não se vence sozinha..." e Ares continuou seu discurso, fazendo Caillean relembrar, como se estivesse em transe, todos os momentos felizes que se foram. Entretanto, apesar da riqueza da narrativa do Deus da Guerra, esquecera  ele, de mencionar o mais importante... seu mensageiro não havia encontrado Xena, por que antes encontrara Ares em seu caminho... "Faça Xena sentir a mesma dor que você sente! Venha comigo!"

* "Dor!!? Xena, sentir dor!?" Repetia Caillean, como se estivesse hipnotizada diante daquela possibilidade. Ares estava certo. Ou não? Pouco importava. Nada tinha a perder! Se o ódio fosse aliviar a sua dor, que assim fosse! Quem sabe desse modo, não encontrasse logo o derradeiro instante que vinha procurando desde a morte de seus entes queridos! Se o ódio era a resposta, então, já não havia mais pergunta! "Eu vou com você, Ares!" Rende-se por fim.


-"Xena, O que você acha que aconteceu?!" Perguntou Gabriele aflita, enquanto Xena tentava aceder uma fogueira. Há dias tinham começado a viajem, de volta a Britânia. Viajem que começara por acaso. Ambas estavam num vilarejo, voltando de Atenas, quando resolveram passear em uma feira. Como se o destino tivesse se manifestado, Xena e Gabriele encontraram uma milícia Romana... Os soldados conversavam animadamente. Sempre desconfiada, a Princesa Guerreira resolve prestar atenção a conversa, quando ouve incrédula, que os soldados gabavam-se dos últimos ataques de seus exércitos à Britânia. Ao ouvir o nome do lugar, Xena investira contra o soldados, aplicando, em um deles, seu já lendário golpe na garganta. Assim, ela ficou sabendo que as terras de sua amiga estavam em guerra. Xena só não entendia por que Caillean não a havia mandado chamar.

-"Não sei Gabriele!" Respondeu, quando, por fim, conseguira acender o fogo. "Você sabe... se ela estivesse precisando de ajuda  nos chamaria, como fez antes... E, de acordo com o soldado Romano, as terras de Caillean sofreram os primeiros ataques..."

-"Você acha que ela conseguiu detê-los?"

* "Durante algum tempo, tenho certeza que ela conseguiria se sair bem. E rezo para que tenha conseguido até agora!" Concluiu uma preocupada Xena. "Vamos dormir Gabriele... Se tudo correr como espero, amanhã chegaremos as terras de Caillean."

Então, Xena e Gabriele tentam conciliar o sono, buscando ânimo e esperança para a jornada do outro dia! Contudo, como num aviso, nenhuma das duas encontra paz em seus sonhos, apenas encaram a angústia de seus próprios pesadelos!

Cap II

Xena mal conseguia acreditar no que seus olhos estavam vendo: lugares pelos quais já havia passado antes e onde já havia visto a vida se manifestando no seu sentido mais sublime, agora se mostravam destruídos, queimados... abandonados. Vilarejos que se localizavam ao redor do Castelo de sua jovem amiga... Vilarejos que já indicavam a situação agonizante passada naquelas terras naqueles últimos meses. Tão pouco Gabriele podia acreditar no cenário de horror que seus olhos viam, e ambas começaram a temer, mais profundamente, pelo destino da amiga .

-"Xena... !!!" Foi o máximo que Gabriele conseguiu dizer quando elas entraram em campo aberto e se depararam com um verdadeiro mar de corpos. E, o temor de Xena pelo pior se intensificou no momento em que a Princesa Guerreira olhou para o alto e viu um amontoado de pedras, onde, há não muito tempo, estava o belo Castelo de Caillean .

* "Por Zeus!!!!" Xena finalmente falou, depois de olhar cuidadosamente ao seu redor, como se procurasse por algum sinal de Caillean. Mas, entre os rostos sem vida, não estava o da rainha. Quando Xena começava a se sentir mais confiante pela sorte de Caillean, uma sensação desconfortável e bastante familiar, percorreu todo seu corpo, e o convidado sempre indesejável dava o ar de sua graça...

* "Xena, minha cara, acho que você chegou tarde... a festa já acabou há muito tempo... " Disse Ares, se materializando ao lado de Gabriele. Esta, ao sentir o Deus da Guerra ao seu lado, pulara imediatamente para o lado de Xena, enquanto Ares ria, divertido... "Você está procurando alguém em particular? De repente eu posso ajudar..."

* "Ares... Eu espero que você não tenha nada a ver com isso !!" Acusou Xena .

* "Não Xena... não tenho... O ser humano é cruel e ganancioso o suficiente para não precisar do Deus da Guerra o tempo todo. Certas batalhas e certas necessidades mesquinhas são obras dos próprios mortais... mas, não vou negar a você que isso me agrada bastante ."

* "Então , o que você faz aqui ?" Questiona Gabriele , segurando firme seu cajado .

* "Vim apreciar uma boa luta... "- Comenta Ares andando entre os corpos. - "Tenho que tirar o chapéu para você Xena... Caillean é ótima!"

* "Você a viu? O que você fez com ela, Ares?" Rosnou Xena, sentindo ao mesmo tempo alívio e tensão, pois de certo modo as palavras de Ares confirmavam que Caillean ainda estava viva, entretanto a dúvida era, sob que condições .

* "Ora Xena, pra que apontar a espada para mim?" Disse o Deus da Guerra, segurando a ponta da lâmina. "Como podemos conversar assim? Aliás, Princesa Guerreira, eu não fiz nada a Caillean, ou melhor, nada que você não tenha feito antes!!!" E, ao terminar a frase, Ares desaparece tão inesperadamente como antes aparecera, deixando Xena e Gabriele perdidas em suas dúvidas...


* "Xena, o que Ares quis dizer com aquilo ? Significa alguma coisa para você?" Perguntou Gabriele à Xena, quando as duas estavam num barco voltando para a Grécia, após se convencerem que Caillean não estava mais na Britânia .

* "Acho que sim, Gabriele..." Disse uma preocupada Xena, enquanto fitava o mar. Na verdade, a cabeça da mulher guerreira recuava aos dias em que reencontraram Caillean, na Grécia . Naquela oportunidade, Ares havia elogiado Caillean e dito alguma coisa sobre mudar de alvo. O mesmo interesse em sua amiga havia sido manifestado por ele durante o atentado que a jovem tinha sofrido. Ares queria Caillean. Xena já havia desconfiado disso, mas não conseguia compreender como ele conseguiria usá-la. Ao terminar de expor seus temores a sua amiga, Xena ouve a pergunta que ela mesma se fazia:

* "Mesmo assim, Xena... ele disse alguma coisa sobre não ter feito nada que você não tenha feito antes ... Isto faz algum sentido ?" Insistiu a moça .

* " Gabby, acho que nós só vamos saber disso, quando encontrarmos Caillean!" Disse, por fim Xena, sem também estar convencida de suas palavras. Alguma coisa a fazia acreditar que Caillean mudara, e por sua causa. Seus temores aumentaram mais ainda, quando o vento trouxera até seus ouvidos a conversa de dois homens que faziam parte da tripulação do barco. Os homens falavam de uma mulher, com uma bela espada, que também havia rumado para a Grécia dias antes . Pela descrição que pudera ouvir, as características e as roupas encaixavam com as de sua amiga, entretanto, as atitudes que os homens narravam, não pareciam se adequar. Contavam eles, muito impressionados que a Guerreira havia cortado a garganta de um homem, só por que este estava se intrometendo em seu caminho. Um outro homem, que também parecia ter testemunhado a cena, contou, com detalhes, a expressão de satisfação que se postou no rosto da mulher ao final do assassinato e completou, revelando que ela estava a procura de homens para formar um exército... Xena conhecia aquilo... aqueles métodos lhe eram familiares... Intimidar, mostrar força, para ter respeito e seguidores. Se aquela mulher era mesmo Caillean, então, estava agindo como um dia ela mesma agira. Mas, para que Caillean formaria um exército, se ela já não tinha mais reino? Sua cabeça fervilhava de perguntas sem respostas, quando a visão de terra firme a tirou de seus pensamentos... contudo, não antes que ela pudesse formular uma nova questão: o que estaria Caillean fazendo na Grécia?


-"Era uma mulher sim!!! Estava vestida de negro e carregava uma grande espada, com uma lua entalhada no cabo . Ela e uns vinte homens fizeram isso... roubaram nossa colheita... por pouco não mataram nossos filhos e maridos... por favor moça nos ajude..." Disse uma senhora, que tentava reconstruir sua cabana. Aquela era a terceira vila pela qual passavam e a história se repetia. A mesma mulher, a mesma espada ... os mesmos crimes. A diferença era que o exército estava crescendo. A cada novo relato, Xena se convencia que aquela era mesmo Caillean, pois, em todos os detalhes, seus ataques, saques e métodos, eram os mesmos um dia usados por ela .

-"É ela mesma, não é, Xena ?"- Perguntou uma desolada e confusa Gabriele .

-"Já não duvido mais! Ela está agindo como eu!" Concluiu uma triste Xena. "O que será que Ares disse à ela? Eu não entendo... "

* "Como você mesma disse antes, só saberemos quando a encontrarmos, e temos que fazer isso logo ." Disse Gabriele, olhando por cima dos ombros a vila destruída que deixavam para trás . "Xena, se ela está agindo como você, então você deve saber o que ela pretende . Tem idéia de para onde ela está indo?" Questiona Gabriele, sem desconfiar que se surpreenderia com a resposta .

* "Tenho. Amphipolis !" Diz Xena, secamente .


* "Ela está vindo atrás de você." Informou Ares, enquanto servia um copo de vinho à Caillean . A jovem estava sentada numa cadeira baixa coberta de peles, dentro da tenda do acampamento feito pelo seu exército, que não parava de crescer. Cada vez mais mercenários e assassinos vinham se juntar à ela. Ares parecia vibrar a cada momento em que um novo ataque era feito. Já Caillean portava-se como um zumbi... apenas executando partes de um plano previamente traçado. Por isso, ao saber que Xena vinha em seu encalço, ela apenas deu de ombros .

* "Que assim seja, então!" Disse, com o olhar perdido em algum lugar. De fato, ela fitava o nada, pois olhava para si mesma. Em alguns momentos daquela loucura, sua consciência vinha lhe perturbar, mas a lembrança de seus parentes sofrendo, de seu povo morrendo e de seu reino destruído, renovavam-lhe a certeza de que Xena deveria sofrer. Ela havia se comprometido com um pacto e não cumprira sua palavra, deixando a Jovem Rainha, abandonda a própria sorte e a vontade dos Deuses!!! Deuses?! Ela já começava a falar como os Gregos. Por falar neles, um estava diante dela, falando coisas sobre conquistas... sobre poder, sobre como ela estava parecendo Xena! Um leve sorriso se pôs em seus lábios após este pensamento. Ares era obcecado por ela! Caillean sabia que era usada apenas como um instrumento, mas não se importava . Aquele era o preço que teria que pagar!

Entretanto, ainda havia um lado seu que queria convencê-la do contrário, e ela tentava se fazer surda a esses pensamentos. Não havia como desculpar Xena... ela não podia... não podia assumir seu fracasso como rainha, como guerreira... e Ares continuava falando!! Sempre que isso acontecia, a cabeça de Caillean rodava, rodava... e ela se sentia tonta e confusa. A tenda começava a girar ao seu redor. Numa tentativa de recuperar o controle, a jovem cerrou os olhos... em vão, a sensação era interna!!! O ar começava a lhe faltar .

Cambaleante, a jovem se levantou e saiu pela tenda, buscando a sanidade perdida no ar frio da noite. Os homens que ainda estavam acordados em volta das várias fogueiras não se incomodaram com o estado de Caillean, pensando que aquilo era apenas o efeito de um bela bebedeira. Ares, por sua vez, apenas observava os passos incertos da jovem que se afasta em direção as árvores da floresta. Um sorriso satânico de satisfação apareceu em seus lábios. Caillean estava enlouquecendo! As várias marcas em seu destino, os dias perdidos em batalhas contra Romanos e Bárbaros, a visão de seus parentes mortos, a suposta traição de Xena, as mortes e assassinatos desnecessários e proximidade de um confronto mortal com sua mentora, além da constante sensação de fracasso que se apoderava da jovem, por pensar que falhara na condução de seu reino... tudo pesava sobre ela. Fato era, e Ares sabia, que se as batalhas não tivessem acontecido, Caillean teria sido uma grande rainha, pois seu reino estava prosperando. Mas, Ares, habilmente, usara a própria falta de confiança da jovem para jogá-la contra Xena. O Deus da Guerra ansiava por este confronto. Se Caillean vencesse, provavelmente ficaria louca e teria a punição de sua consciência para a vida toda. Se Xena vencesse, também ficaria emocionalmente perturbada e frágil, dando uma brecha para que Ares pudesse atraí-la novamente. Tudo, enfim, caminhava como Ele havia previsto .

Cap III

O ar frio da noite a trouxera de volta a sua dura realidade. Em breve, estaria frente a frente com Xena! Alguém que um dia tanto amara, e que agora odiava profundamente!!! Odiava? Não, talvez essa não fosse e palavra, nem o sentimento adequado para descrever o que Caillean sentia. No fundo, Caillean sabia que era Mágoa!!! Mas, por certo, uma mágoa que não podia ser perdoada, pois lhe tirara a família, os amigos, os sonhos... Se Xena se importasse tanto quando a fizera crer em outras situações,  teria vindo .

Olhando o céu profundamente limpo e estrelado, Caillean balançou a cabeça como se quisesse esquecer seus últimos pensamentos, e só então percebe que havia chorado, como há tempos não conseguia fazer . Talvez nada disso fizesse sentido! Talvez o desfecho para o seu destino, que ela tanto procurava desde a morte de seus entes queridos, estivesse em suas próprias mãos. Olhando a adaga presa em sua coxa, Caillean conclui que esteve andando em círculos e que ela mesma deveria acabar com seu sofrimento, tendo apenas as árvores, estrelas e animais como testemunha do desenlace de sua pouco honrosa vida. Então, de joelhos, Caillean apontou a lâmina para o próprio peito decidida a encerrar sua angústia .

Contudo, antes que pudesse desferir o derradeiro golpe, Ares aparecia e num soberano gesto retirava a adaga de suas mãos .

-"Você está louca!? O que acha que está fazendo agora!!!?" Interroga um enfurecido Ares, que apenas fora ali temendo que o estágio de loucura de sua aliada se adiantasse, como quase acontecera .

-"Me deixe em paz, Deus!" Berrou Caillean; "Já tem o que quer,  Xena está perto... "

-"Isso não é por mim, Criança!!! Lembre-se, é por você!!" E Ares começou a falar, falar, falar... e, de novo a cabeça de Caillean rodava, rodava. Ela se sentia cansada. "Você bebeu muito... não sabe o que está fazendo!!! Amanhã estaremos em Amphipolis, e você vai se sentir bem melhor! "- Concluiu, por fim, o Deus da Guerra .

-"É, pode ter sido o vinho..." Se rende Caillean, mesmo sabendo que nada havia bebido e  ao mesmo tempo, tentando compartilhar da ansiedade de Ares. De qualquer modo, poderia esperar um pouco mais. De um jeito ou de outro, no dia seguinte, tudo estaria resolvido!


Na cama improvisada, onde apenas uma grossa camada de peles separava seu corpo da terra fria do chão, Caillean tentava, sem sucesso, conseguir dormir. Sempre que tentava, os mesmos sonhos  ou melhor pesadelos, vinham roubar-lhe a paz. Por isso, algumas noites, Caillean simplesmente passava em claro, na tentativa de não ser assaltada por seus próprios fantasmas. Entretanto, depois do ocorrido, se sentia muito cansada, incapaz de manter os olhos abertos, sem, no entanto, conseguir mantê-los fechados por muito tempo. Quem a visse dormir, neste momento, pensaria que a jovem lutava... E, realmente, era isso que acontecia. Ela lutava contra si mesma. Imagens repetidas e confusas, intermitentemente, cruzavam sua mente. Tais sonhos a acompanhavam desde que Ela havia selado o acordo com Are , no Salão da Guerra. Na ocasião, o Deus da Guerra havia dado à ela, como uma prova do pacto, um cordão, com uma espada, tal qual o dele. Caillean pusera-o então, sob o que já usava. Entretanto, a espada de Ares sobrepunha-se a lua. Após selarem a união, a Jovem ria consigo mesma, pois havia feito a mesma coisa dando a Xena e a Gabriele o símbolo do seu reino .

A lua e a espada se revezavam, alucinadamente, em sua mente, acompanhada das imagens de seu pai, seus tios, ora com a face feliz do passado, ora com o rosto desfigurado pela dor, ou por queimaduras ou sangue. Xena e Gabriele também faziam parte desta montanha russa angustiante que dominava seus sonhos ultimamente. Às vezes, ela se via sendo morta por Xena, em outras via o sangue da Guerreira em suas mãos, tal qual de Gabriele. Logo em seguida se via investindo contra Ares e sentia, depois, seu coração ser vazado pelo pingente, em forma de espada, que carregava agora. Conforme seu sonho evoluía, o corpo de Caillean se contorcia, se alongava, virava para um lado e para o outro, como se quisesse se libertar de uma camisa de forças. Ares apenas observava o sono intranqüilo de sua aliada. Ele sabia que aquela fatigante noite, iria consumir o que, por ventura, tivesse sobrado da lucidez e sanidade da jovem. Era um desperdício!!! De certa forma ele lamentava... se pudesse fazer um exército com Xena e Caillean a frente, nem os Deuses do Olimpo seriam capazes de derrotá-los. "Mulheres idiotas!", o Deus pensou intimamente. Foram presenteadas com talentos ímpares e se limitavam pelo amor ao próximo, pela honra e pela amizade, em detrimento a conquistas inimagináveis!!! Mortais são tolos e sentimentais, Ares concluía, entretanto, ainda sim, não deixando de julgar o que considerava ser um desperdício!!!

O sol já estava por mostrar seus primeiros raios, trazendo com ele o início de mais um novo dia. Dia que seria especial e único. Um dia há muito ansiado pelo Deus da Guerra.


Xena e Gabriele não tinham parado para descansar um segundo sequer durante aquela noite. Embora o cansaço, às vezes, viesse mostrar sua face, ambas tinham consciência de que não podiam parar. Caillean e seu exército, como era estranho para Xena pensar assim, estavam com uma boa dianteira e, provavelmente, chegariam a Amphípolis pela manhã, que já se anunciava .

-"Eles pernoitaram aqui !" Observou Xena ao chegar ao local , de onde há poucos instantes , Caillean e seus homens haviam acabado de sair. "A fogueira ainda está com brasas e os rastros ainda estão frescos . Estamos mais perto deles agora, Gabriele." Informou, por fim, a Princesa Guerreira, ficando de pé depois de concluir sua análise das pistas .

* "Xena, pelo número de fogueiras aqui, parece que o exército cresceu... Não seria melhor procurarmos aliados?" Ponderou uma preocupada Gabriele.

* "Não é necessário, Gabriele ... Estes homens que estão com ela não estão seguindo código algum... estão lá como abutres, apenas para pegar as sobras dos ataques. Como número intimidam, mas não são um exército. Ares e Caillean sabem disso. O que querem, Gabriele, é me atrair. No final das contas, será uma luta individual..."

* "Você e Caillean ? Xena , você não pode lutar contra ela !" Desesperou-se Gabriele; "Vocês duas vão acabar se matando... Eu não agüentaria isso!" Revelou.

* "Eu sei, Gabriele." Disse Xena, enlaçando a amiga; "Eu também não quero lutar contra ela... mas, se for necessário, não poderei evitar!" Concluiu Xena, mudando depois o tom de sua voz e pegando Argo; "Vamos! Eles estão próximos e nós não temos mais tempo a perder!!"

Então, para ganharem tempo, Xena e Gabriele montam no cavalo, que inicia desabalada carreira através da floresta, rumo a cidade de Xena e ao encontro de Caillean.

Cap IV

Dois belos e imponentes cavalos entravam em Amphípolis. Tinham eles um belo e constante trote que lhes realçavam ainda mais a imponência. Em seus dorsos, estavam duas não menos altivas figuras, que conduziam seus animais de forma cadenciada e segura. Ares e Caillean tinham entrado sozinhos na vila. Seu exército os aguardava ao redor da mesma, em posição de ataque, esperando o menor sinal que os liberasse do fardo da espera. Entretanto, as duas principais figuras deste embate se punham a estudar o local e identificar seu objetivo: encontrar a mãe de Xena.

Caillean sentia-se mais agitada do que costumava nestes últimos dias. Apesar de manter seu auto- controle de uma forma inexorável, graças aos anos de aprendizado, por dentro milhões de sentimentos se chocavam e apenas ela era capaz de sentir a violência de seu impacto. Durante anos quisera saber mais da vida da ex-amiga... Conhecer o local de sua infância e mais ainda a mulher de deu a luz a maior Guerreira conhecida no mundo até então. Durante anos, Xena havia sido um ídolo... um molde... um espelho no qual ela tentava mirar-se... E, no entanto agora, se preparava para destruir o que quisera conhecer... De fato, Caillean pouco sabia sobre a mãe da Princesa Guerreira. Apenas algumas referências, algumas poucas histórias, entretanto, Ares a conhecia, e a conduzia, no momento, para a taberna da qual ela era proprietária. Para piorar seu estado, seu corpo se mostrava bastante dolorido e o elmo, usado por ela e por Ares - e que lhes escondia o rosto, deixava sua cabeça ainda mais pesada.

Em poucos trotes, os cavalos alcançaram o local e, enfim, Caillean estaria diante da Genitora de Xena.


Ao entrarem no estabelecimento, que não se encontrava cheio devido ao pouco avançado da hora, os dois guerreiros atraíram a atenção dos presentes. Ao perceber as duas figuras que se aproximavam, uma mulher com cabelos negros, olhos profundamente azuis e passos decididos se pôs ao encontro dos recém - chegados. Seus traços se fizeram familiares à Caillean... Seu olhar determinado, sua postura confiante... pelo leve sorriso de Ares, não havia como negar, ela enfim, estava diante de Sirene, a Mãe de Xena.

A mulher, apesar de marcada pelos anos de trabalho, conservava uma beleza jovial, que muito fazia lembrar Xena. De fato, mesmo que não estivesse acompanhada do Deus da Guerra, tinha a certeza de que reconheceria aquela mulher, entre todas como a mãe da princesa guerreira. A senhora, muito digna, se postou diante dos visitantes, e com um tom decidido disse:

-"Não sei quem são... não lhes reconheço as vestes... se procuram confusão vieram ao lugar errado, nossa vila é pacifica. Se vieram em busca de descanso e boa comida, então entrem em paz, que o melhor lhes será servido." Concluiu Sirene, dando as costas para os dois e retomando seu lugar no balcão.

Agora Caillean conseguia compreender de onde vinham todo o fogo e determinação de Xena. Ela tivera bem a quem puxar. Como se estivesse adivinhando seus pensamentos, Ares se voltou para Caillean, que mesmo sob o elmo, pode distinguir seu sorriso sarcástico. Os dois deram mais alguns passos e se colocaram no meio do salão, sendo acompanhados atentamente pelos três homens que também estavam no local. O elmo pesava a cabeça já torturada de Caillean, e como não era conhecida por aqueles lados, resolveu libertar-se daquele fardo, aparentemente tão desnecessário à ela. Assim que revelou sua face feminina, uma certa sensação de surpresa tomou conta do ambiente, e Sirene falou novamente.

-"Não pense que me intimido com mulheres guerreiras... Aliás, lhe informo, sou mãe de uma!" Concluiu, sem disfarçar o orgulho.

-"Pois, bem sei disso!! E me orgulho em conhecer pessoalmente a mãe de Xena, motivo aliás pelo qual estamos aqui!" Precipitou-se Caillean.

* "Então, conhece minha filha?" Perguntou Sirene curiosa. O diálogo travado pelas duas era atenta e silenciosamente acompanhado por Ares, que se divertia com o olhar de pavor estampado no olhar dos homens.

* " Conheço. Aliás, conheço-a muito bem!" Disse Caillean, se sentindo estranhamente perturbada e culpada pelo que iria fazer. - " Gostaria de falar-lhe em particular." Sugeriu a Jovem. Com um ligeiro movimento de cabeça, Sirene fez sinal para que os homens deixassem o recinto, ordem prontamente atendida, como se fosse um sinal há muito esperado. Era impressionante a confiança daquela Mulher. A essa altura, Ares figurava gigantesco, às costas de Caillean.

* "O que quer de mim? Quem é você? Não me lembro de seu rosto? Você não é daqui!" Começou Sirene, deixando passar um certo nervosismo.

* "Calma... " Começou Caillean, com uma frieza até então desconhecida dela mesma. "Todas as perguntas terão a sua resposta. Meu nome é Caillean. E tem razão, não sou daqui, sou da Britânia!"

* "O que quer com minha filha para vir de tão longe?"

* "Vim cobrar-lhe um compromisso!" Revelou a jovem;"Um compromisso ao qual ela jamais poderia ter faltado. Sua filha faltou-me a palavra... e eu vim cobrar sua dívida."

* "Ela não está aqui!" Disse Sirene, já visivelmente preocupada.

* "Sei disso... Aliás, ela está vindo para cá... E, eu vim convidá-la para encontrar-se com ela!" Disse Caillean, sob a aprovação de Ares... Ela estava se saindo muito bem...

* "Não preciso da intervenção de terceiros para ter com minha filha! Não irei com vocês a lugar nenhum..." Enfrentou Sirene .

* "Admiro sua coragem e encontro semelhanças com Xena!!! Mas, receio que a senhora não poderá declinar deste convite!"

* "Pois tente me forçar..."

* "Não preciso tentar... muito menos forçar-lhe a nada... "

* "E como me impedirá de lutar?" Perguntou a mulher descrente;"Por um caso além de guerreira é mágica também?!"

* "Não, por certo que não... " Sorriu Caillean já aborrecida pela conversa. Sua mente começava a trair-lhe de novo. Cada vez mais via Xena em Sirene e aquela voz que estava tentando calar desde que começara essa loucura vinha sussurrar-lhe novamente. -"Eu nada terei que fazer minha carra!" Anunciou por fim.

* "Pois, então, quem o fará?"

* "Eu!"- Interferiu Ares, se revelando finalmente, diante do olhar espantado de Sirene que o reconheceu imediatamente. Com um ligeiro movimento das mãos, Ares fez uso de seu poder e fez Sirene adormecer. A mulher tombou em seus braços, no exato instante que um barulho de agitação vinha do lado de fora. Os pacíficos fazendeiros de Amphípolis vinham defender sua camarada. Mas, tudo fazia parte do plano. Ares desapareceu com a mulher e Caillean saiu para enfrentar a multidão que a questionava sobre quem ela era, o que queria e o que fazia ali. Com sua imponência, Caillean não proferiu palavra, e nenhum dos aldeões se atreveu a aproximar-se dela, enquanto montava em seu cavalo. Assim que montou, o fez girar e contemplou o número de pessoas a sua volta... parecia que todos estavam ali. Caillean já deveria ter dado o sinal combinado, mas estava esperando... esperando algum sinal de Xena. Ela não queria que aquilo se tornasse um massacre... ainda havia um fio de consciência nela... Será que Xena não viria, nem para salvar os seus? Como se não pudesse mais esperar, Caillean golpeou violentamente o outro cavalo, antes ocupado por Ares. O animal disparou em direção as árvores... Pronto, estava dado o sinal. Lamentando pela sorte daquelas pessoas, Caillean apenas contemplou seu exército vindo de todas as direções tomarem de assalto a planície onde se situava o vilarejo. Os fazendeiros, em pânico, corriam sem direção e Caillean tomava o rumo de seu novo acampamento. Entretanto, ao longe pode ouvir um grito de guerra bastante familiar... Um grito que lhe impregnava a alma... ouviu também as vozes desesperadas de alguns homens que reconheceram seu recém-chegado oponente. Um sorriso que misturava satisfação e ansiedade se formou no rosto debilitado e impassível de Caillean... e ela constatava com uma certa alegria, enquanto galopava para longe dali, que Xena, dessa vez, havia vindo!!!

Cap V

Eram muitos, de fato... mas eram fracos. Não estavam ali por causa de um sentimento comum. Nem tão pouco se mostravam interessados em perder a vida por causa de um ataque a um vilarejo menor. Xena, Gabriele e alguns valentes aldeões conseguiram, com alguma dificuldade, identificar os possíveis pseudo líderes daquela empreitada. Vencendo-os, deixaram os outros homens perdidos e estes, sem saber como enfrentar a Princesa Guerreira, se espalharam abandonando a vila.

Cansada, Xena correu, seguida por Gabriele, em direção a taberna de sua mãe... lá chegando encontrou apenas o vazio e dois vizinhos que contaram à ela o ocorrido, momentos antes dela chegar ali. Caillean e Ares tinham pego sua mãe!

* " E, agora Xena? Vamos segui-los?" Perguntou Gabriele .

* "Vamos, Gabriele... Este é um convite ao qual eu não posso recusar!" Disse Xena, adotando seu tom grave e sua feição determinada. Em pouco tempo, Gabriele sentiu, estariam frente a frente com a Jovem Guerreira da Britânia.


Não era de espantar, até mesmo por que Xena já esperava por isso. Assim que ajudaram alguns aledões machucados, a Princesa Guerreira e sua companheira partiram atrás de Caillean. Os rastros estavam claros... Não havia a menor dificuldade de seguí-los. Xena não sabia ao certo o que sentir. Tentaria de todas as formas evitar um confronto com sua antiga aluna. Antes de mais nada, ela queria uma resposta a pergunta que fazia eco em sua cabeça: Por que?

A tarde começava a abrigar com seu manto vermelho-alaranjado o límpido céu da Grécia. Um leve e refrescante brisa movimentava o ar graciosamente. Os campos estavam muito verdes, e algumas aves voavam de árvore em árvore, transmitindo um som harmônico aos ouvidos. Entretanto, este cenário que poderia perfeitamente retratar os Campos Elísios, na verdade escondiam o Tártaros no seu âmago. Gabriele, que sempre gostava de caminhar em dias como aquele, sentia-se profundamente triste. Ela e Xena estavam sozinhas, entretanto Gabriele acreditava que a solidão da amiga era maior do que a dela... Por mais que tentasse se desvencilhar das marcas do seu passado, alguma coisa sempre vinha ao encontro de sua nova postura e a colocava novamente diante do seu maior dilema. Agora, tinha ela que lutar contra alguém que muito estimava e a dúvida pela incerteza dos motivos de Caillean perturbavam o já ferido coração de Xena . "Como gostaria de ser capaz de aliviar aquela dor!" pensou Gabriele, enquanto fitava a amiga que parecia estar distante, no entanto, ela sabia que, neste caso, apenas Caillean seria capaz de tal proeza.

Cap VI

O mesmo céu formoso e preguiçoso, que se elevava sobre Xena e Gabriele, se erguia também sobre o quase vazio acampamento do exército de Caillean. Uma pequena tenda se encontrava cercada por fogueiras semi apagadas e apenas alguns homens tinham voltado para lá, depois do ataque a Amphípolis. Isso não surpreendia aos aliados Ares e Caillean, que se ocupavam agora em olhar Sirene. A brava mulher estava sentada em uma pouco confortável cadeira, com as mãos levemente amarradas para trás. Ares estava radiante e Caillean olhava para a mãe de Xena. "Não, não teria coragem de levantar um dedo contra aquela mulher... se algo falhasse, estaria pronta a enfrentar Ares pela liberdade de Sirene." Caillean pensava, na verdade, tentando esquecer que um breve momento a separava do seu derradeiro encontro com Xena. Ares, muito agitado, comentou:

-"Xena já foi mais rápida... Será que os anos de constantes batalhas começam a lhe pesar às costas?" Disse o Deus da Guerra querendo provocar Sirene. Contudo, antes que a mãe da guerreira pudesse responder, Caillean se adiantou e mudou o alvo do comentário de Ares.

-"Se está querendo me convencer de que posso derrotá-la, pode parar! Nem um Deus como você pode adivinhar os movimentos de uma luta. Aliás, por falar nisso, já ouvi muito sobre a interferência dos Deuses Gregos nos combates de seus protegidos. Lembre-se Ares, não sou Grega... Não admito interferências! Aconteça o que acontecer, a luta é minha, só minha!!!" Avisou Caillean, passando pelas costas de Ares e indo se colocar perto da porta da tenda, sem no entanto, perder a mãe de Xena de vista.

-"Calma, guarde sua raiva para quem a merece... Não tenho intenção alguma de interferir... " Tranqüilizou, Ares; "Nós fizemos um acordo: Você atraiu Xena e eu lhe dei sua vingança... Seja lá o que acontecer depois, minha cara, já não é do seu interesse. A menos que você vença, é claro!!!"

Ares estava profundamente confiante que triunfaria fosse qual fosse o desfecho daquela história. Aquelas idéias sobre perdoar Xena voltavam a perturbar a mente de Caillean. Como ela queria uma explicação plausível para por um fim naquela loucura toda!!!! Mas, que explicação? O mensageiro havia lhe garantido que a mensagem havia sido dada!! Todavia, Caillean desconhecia que aquele mensageiro, não era o mesmo homem que ela enviara e sim um Deus da Guerra que lançava mão de suas artimanhas divinas. De repente, sons de luta invadiram a tenda e arrancaram a jovem de suas divagações. Um sorriso hipócrita se fez nos lábios de Ares que se pôs a caminho da saída. Sirene levantara a cabeça tentando identificar algo de familiar naqueles sons. Neste instante, seus olhos cruzaram, por um breve momento com os de Caillean. A Jovem entendeu que a dor que eles transmitiam era parecida com a que ela carregava no peito... Sem querer, procurou pela lua que trazia no pescoço, sempre que estava angustiada esfregava-a entre os dedos. No entanto, desta vez, ela encontrou a espada que Ares lhe dera. No exato instante em que seus dedos encontraram o amuleto, uma certeza a invadiu. Xena estava ali e precisava ser eliminada.

Cap VII

Poucos eram os mercenários que restavam no acampamento. Os que ainda estavam partiram para cima das intrusas que acabavam de entrar em seus domínios. O primeiro deles, que trazia um grande machado em suas mãos, correu na direção de Xena, grunindo palavras incompreensíveis. Ao se aproximar ergueu o machado e desferiu um golpe reto. Que ingenuidade, Xena pensou, enquanto com um movimento ligeiro se esquivava para o lado, e acertava seu oponente com uma leve estocada de sua espada. Um ladrão magro e franzino, que parecia não tomar banho há alguns dias, partiu para atacar Gabriele. Mais incomodada pelo cheiro que exalava do corpo do homem do que propriamente com seu ataque, a companheira de Xena desarmou o bandido com um golpe de seu cajado, para em seguida acertar-lhe um belo golpe na cabeça. Quando mais dois se aproximavam, Ares, entediado com aquela luta, que mais parecia um parque de diversões para Xena, interveio:

-"Parem!!!" Ordenou o Deus da Guerra. Imediatamente, os homens recuaram. Era bem verdade que nenhum dos dez homens que restavam ali, estava muito interessado em lutar contra Xena.

-"Ares, não sei o que você pretende!!! " Disse, Xena se aproximando de Ares, seguida por Gabriele. " Onde está minha mãe?"

-"Sua mãe está ótima Xena! Não podia deixá-la de fora desse encontro, afinal, ela é nossa convidada de honra!" Ao terminar de falar, Sirene despontou, na frente da tenda. Atrás dela estava um pessoa sombria, que nem de longe fazia Xena lembrar de Caillean. Horrorizada pela mulher abatida e consumida que via, Xena apertou os olhos para certificar-se de que não se enganara. Tão descrente quanto Xena, Gabriele comentou:

-"Por Zeus, Xena!!! Ela nem parece Caillean!! Olhe, ela está carregando uma espada como a de Ares!" Observou Gabriele, apontando para o cordão que Caillean ostentava.

Xena ainda estava incrédula. Como a vida não sorria para Caillean e ela trazia todas as marcas de sua dor estampadas no rosto! Tão pouca idade, tanto sofrimento! E, diante da visão perturbadora, a Princesa Guerreira apenas conseguiu murmurar:

-"Caillean...?" Disse em tom fúnebre.

-"Ora, vamos parar de sentimentalismo, Xena." Comentou Ares, enquanto Caillean se colocava ao seu lado, junto com a mãe de Xena. "Todos sabem o que você veio fazer aqui... então, deixemos de rodeios..." Continuou ele, agora, indo se colocar diante de Xena.

-"Não sei o que você pretende, Ares. Não sei o que fez para colocar Caillean nesse estado... Mas, seja lá o que for, vai acabar agora! Eu não vou lutar contra ela!"

-"Não!?" Surpreendeu-se Ares, olhando por cima dos ombros para onde Caillean e Sirene, aguardavam de pé. "Por que acha que sua mãe está aqui, Xena? Pensa que vou dar uma festa? Ela é a minha garantia..." - riu satisfeito o Deus da Guerra.

Entendendo o significado das palavras de Ares, Xena pode compreender seus objetivos. Gabriele, que em determinadas situações parecia ler os pensamentos da amiga, também soube traduzir as intenções do inimigo. O confronto entre ambas parecia inevitável!

* "Xena, não faça isso... Vamos encontrar outra maneira!" Pediu Gabriele, sem esperança de ser atendida.

* "Você sabe que isso não é possível, Gabriele!" Disse Xena, com um tom pesado.- "Vamos então, Ares, acabar logo com isso!" Decidiu Xena, andando na direção de Caillean e estudando sua oponente. Ela estava debilitada, não tanto fisicamente, mas seus olhos continham um cansaço velado de uma luta particular, que ela mesma tanto conhecia. Xena começava a perceber que Ares não tinha dominado Caillean completamente. Se aproximando das duas, Xena, então falou:

* "Por que isso, Caillean ?" Tentou.

* "Não me pergunte algo que você deveria saber!" Disse Caillean, sem olhar nos olhos de Xena, percebendo que a outra olhava para a mãe.-"Quanto a sua mãe, não se preocupe, nada acontecerá à ela!" Falou então, olhando nos olhos da Princesa Guerreira, e vendo uma expressão de tristeza. O que estaria ela pensando? Entretanto, sem ter tempo de se dedicar mais ao seu pensamento, Caillean ouviu a inconfundível voz de Ares.

* "Pronto... " Disse Ares, pegando a mãe de Xena, deixando assim Caillean livre para lutar; "Como você mesma disse minha cara, vamos acabar logo com isso!"

Frente a frente, enfim estavam a discípula e a aluna. Como que evitando o começo do combate, nem Xena, nem Caillean sacaram suas espadas. O tempo continuava agradável, teria sido um ótimo dia para saborear a vida e não para enfrentar a morte, pensava Gabriele. Percebendo que nenhuma das duas tomaria a iniciativa, Ares aproximou sua espada da garganta de Sirene e deu um convidativo olhar para Xena. A Princesa Guerreira entendeu a mensagem e puxou sua lâmina. O gesto foi repetido por Caillean. Mas, as duas ficavam girando em círculos. Mais uma vez, Ares tomou a iniciativa, lembrando à Caillean todos os momentos de dor e todos os seus entes perdidos. Surpresa, Xena falou :

-"Seus tios morreram, Caillean?" Interrogou Xena, visivelmente triste.

* "Morreram, traidora... Meus tios, meus amigos, meu povo... Eu morri também Xena, e estou aqui apenas para libertar a minha alma... " Ao terminar seu breve discurso, Caillean se agitou, como se aquelas memórias atuassem como senha em seu ser. Um golpe rápido com a espada foi defendido e Xena contra atacou. A espada de Xena, esbarrou nas mãos de Caillean que interceptaram o golpe no ar, prendendo a mão da princesa guerreira. Aproveitando a ligeira vantagem, a jovem da Britânia aplicou uma joelhada em Xena, que sentiu de leve o golpe. Como num reflexo, Xena se desvencilhou das mãos da antiga aluna, saltando em seguida sobre ela, e chutando-lhe as costas. O golpe jogou Caillean para frente, que por pouco não deixou escapar a espada. Todo o seu corpo, já dolorido, sentiu a força de Xena. Gabriele gritou e Ares, começou novamente a falar, daquela maneira que confundia Caillean e deixava sua cabeça rodando. Sem muita noção, de certo e errado, Caillean se virou e mirou Xena. Suas espadas se bateram e os ataques se revezavam. As técnicas eram parecidas... e o embate parecia empatado. Num determinado momento, enquanto suas espada estavam presas uma na outra, Xena perguntou:

* "Caillean, o que eu fiz pra você?"

* "O que você fez?" Explodiu Caillean, desvencilhando o golpe; "Você me traiu, Xena... Quando eu mais precisava de você... Você me abandonou! Eu pedi socorro , e você não me atendeu!!! Por sua causa, minha vida acabou!!!" Disse, Caillean, girando no mesmo eixo e rodopiando a espada sobre sua cabeça, cortando, na descida, o ombro de Xena. O ódio, novamente, transbordava em seus olhos e Xena não entendia...

* "Não, Caillean, eu não sabia! Não até encontrar uma milícia romana em Atenas! " Falou Xena, começando a entender a situação. Ares deveria estar metido naquilo há muito mais tempo!

* "Não me confunda Xena! Mandei um mensageiro até você informando minha situação! Ele voltou e disse que você tinha coisas mais importantes para resolver!!! Você me TRAIU!!!!! " Gritou Caillean, tentando acertar Xena, que se limitava em se defender.

* "Não, Caillean, não estive com nenhum mensageiro seu!!! Você não percebe... Não, Caillean, não vou mais lutar com você!" Informou Xena, abaixando sua espada. Gabriele sorriu, com uma leve esperança. A noite começava a substituir o dia. Entretanto, o ódio cegava Caillean. A vingança fazia-lhe surda ao bom senso. Um chute veio certeiro no rosto de Xena. A gigante cambaleou. Ares riu e Gabriele gritou novamente. Outro chute. Xena não revidava.

* "Vamos, Xena..." Disse Caillean, com raiva;"Prove que eu não me enganei. Prove que a sua ajuda me faria salvar meu reino!"- Disse, aplicando outro golpe.

* "Caillean, você não entende... não recebi mensagem!!! Não sabia que você precisava de mim! Lamento se minha falta destruiu seus sonhos, Caillean... Quando cheguei lá, não havia mais nada! Sei que você está sofrendo! Eu sofri quando vi suas terras! Acredite..." Insistiu Xena sangrando no ombro direito.

As palavras de Xena pareceram confundir Caillean que parou por um instante. Ares percebeu e tomou a palavra:

* "Caillean, não acredite! Ela está fugindo a sua responsabilidade! Ela traiu você!"

* "Cale-se Ares!!!!" De repente, gritou Caillean; "Não interfira!!!"

Neste breve instante de indecisão, Xena, num movimento rápido arrancou de Caillean o amuleto que ela usava, pensando que desta forma conseguiria cortar o efeito de alguma possível magia que estivesse sob Caillean. Mas, para a sua surpresa, o estado de Caillean não se alterava. A jovem permaneceu parada. Imóvel! Neste momento ela lutava consigo mesma. Os criminosos que formavam seu bando, há muito já tinham desaparecido. Naquele descampado, apenas o Deus da Guerra, Sirene, Xena e Gabriele, além de Caillean, permaneciam.

-"Caillean, acredite ... Não houve mensagem!"

-"Como?! O mensageiro me garantiu que a encontrou!"

Gabriele interferiu:

Cap VIII

-"Caillean, os Deuses podem iludir as pessoas!"

-"O que você quer dizer com isso, Gabriele?"

Caillean parecia estar cedendo...

-"Nós não sabíamos... Confie em mim." Disse, Gabriele se aproximando de Xena; "Ares pode ter enganado você!"

E Ares, voltava a falar, naquele tom, daquele jeito que fazia Caillean perder o rumo. Aquelas palavras se repetiam... Família, perda, dor, fraqueza, traição. Aquelas palavras despertavam os demônios de Caillean. Antes de investir mais uma vez contra Xena, a jovem olhou a Princesa Guerreira nos olhos, como se lhe transmitisse uma mensagem. Usando o que lhe restava de força, desferiu o golpe. Desta vez, Xena reagiu. Esquivou-e da investida, e empunhando a espada com o lado não ferido do corpo, cortou Caillean lateralmente. A dor era intensa, e a jovem que já estava no limite de suas forças, tombou de joelhos, segurando com as mãos o lado esquerdo, que sangrava. Gabriele não entendeu a manobra. Num outro movimento, Xena lançou seu Chacaran que cortou a corda que prendia as mãos de sua mãe. Ao se sentir livre, a mulher correu para junto da filha, enquanto Gabriele ajoelhava-se ao lado do corpo de Caillean. Xena se aproximou de Ares:

-"Sabia que você ganharia, Xena!" Começou Ares - "É, ainda pode haver esperança para você, matar uma amiga!!! Você está recuperando a velha forma!!" Continuou Ares satisfeito, olhando para o corpo de Caillean estirado ao chão; "Este é mais um caso em que a criatura não superou o seu criador!"

-"Não me bajule, Ares!" Começou, Xena, olhando Ares daquele jeito duro e perturbador, que por si só já intimidavam os seus oponentes. -"Não me orgulho disso! Você queria despertar um lado meu, Ares? Ótimo... Conseguiu! Mas, não pense que algo mudou em mim... Há muito tempo aprendi a conviver com este lado negro que eu possuo! Seu plano infantil conseguiu iludir Caillean, por que ela estava cansada e confusa! Mas, o mesmo não se dará comigo!"

-"É uma pena! Tinha tantos planos para você!!! Sabe, Xena, tudo isso me ocorreu quando vi o rapaz, o mensageiro, na Grécia. Foi tão fácil eliminá-lo!!! De uma forma ou de outra..." Continuava Ares, ficando as costas de Xena; "Sua amiga queria mesmo morrer. Teve o final que quis!"

-"Ainda não, Ares, lamento!" Falava Caillean ainda no chão, olhando para o rosto confuso de Gabriele. A dor lhe queimava, mas o encanto e a dominação de Ares sob ela, momentaneamente, havia terminado.

-"Não se admire!" Começou Xena -"Caillean estava sob um encanto, Gabriele. Ares a estava dominando com ele, se utilizando de seu momento vulnerável e cansado! Ao ferí-la, Gabriele, eu devolvi sua sanidade. A dor física a libertou da dor espiritual!"

-"Muito esperta, Xena! Mas, saiba que isso não acabou ainda. Pois tenho as senhas das angústias de Caillean!" Ao dizer isso, Ares desapareceu, mais uma vez derrotado. E, Xena correu para Caillean:

-"Ele disse bem, Xena e é verdade! Ele me dominou por que fui fraca. Seu encanto só se realizou pois efetivamente, praguejei contra você. E, de uma certa forma, ele possuiu minha alma." Falou Caillean com dificuldade.

-"Caillean, não se torture! Ele se aproveitou do momento para confundir você! Se eu soubesse, teria ido ao seu encontro mais cedo!" Disse à Caillean, com pesar.

-"Eu sei. Agora, sei e em nenhum momento deveria ter duvidado de você! Mas, ao perder tudo, perdi também meu controle!" Disse Caillean, ainda com muita dificuldade, amparada por Sirene. "Me desculpe! Você nunca deveria ter sido envolvida nisso!" Disse, novamente, encontrando conforto nos olhos da mãe de Xena.

-"De alguma forma, sabia que você não me faria mal! Via a angústia em seu olhar, criança, mas, de alguma forma tinha certeza de que nada me aconteceria!"- Tranqüilizou-a Sirene.

-"Mas, Xena, não entendo..." Disse Gabriele, enquanto tentava estancar o sangue que escorria de Caillean; "Como você sabia o que fazer?"

-"Não sabia ao certo! Mas, quando Caillean me olhou, percebi que aquelas palavras mexiam com seus reflexos. Imaginei que se conseguisse desviar sua mente daquelas palavras, conseguiria libertá-la... A dor física, geralmente faz isso!" Concluiu Xena, agachando para auxiliar Gabriele. Neste momento, Caillean desmaiou e deixou que toda a dor acumulada nos últimos tempos fluísse com liberdade dentro de seu corpo. Ares possuía uma importante chave do seu íntimo, era verdade, e de certa forma, ela sabia ainda ser um perigo para Xena. No entanto, sabia também, que por hora o Deus da Guerra não se aproximaria. Teria tempo para tentar livrar sua alma de amarguras mais profundas e de desarmar, assim, Ares. Agora, Caillean pensava, só queria descansar.

Xena, ainda que machucada nos ombros, conseguiu levantar Caillean e colocá-la sobre o cavalo, com delicadeza. o estado da jovem, involuntariamente, entorpecida, ajudaria no transporte até Amphípolis. Lá ela poderia ser melhor cuidada. Deixando pra trás o descampado, as quatro mulheres seguiram em direção a cidade, tendo a lua crescente como testemunha desta última batalha. Lua crescente, que voltava a pender, solitária e soberana, no pescoço de Caillean.


-"Você ainda não está recuperada. Poderia ficar quanto desejasse!" Insistiu Sirene. "Você está muito fraca, seu corpo está ansioso por um longo descanso. Não há corpo que resista a tantas cicatrizes!"

-"Estas cicatrizes não são nada, perto das que carrego na alma, Sirene! Agradeço sua hospitalidade e seus cuidados e mais uma vez peço seu perdão pelos atos que cometi, mas, tenho que me purificar, para novamente ficar entre aqueles que amo. E isso, só vou conseguir fazer, voltando para a minha casa e tentando reconstruir, pedra por pedra, meu mundo." Disse Caillean, abraçando Sirene e olhado Xena e Gabriele que se encontravam na porta do estabelecimento da mãe da Princesa Guerreira. Após o fraterno e agradecido abraço, Caillean pegou uma sacola, com algumas provisões, cuidadosamente preparadas por Sirene, que iam matar sua fome durante a viagem. A jovem olhou mais uma vez Sirene e se dirigiu às duas amigas que a esperavam.

-"Talvez minha mãe tenha razão, Caillean. Talvez seja cedo para você fazer tal viagem!" Ponderou Xena.

-"Xena, você me conhece, e eu conheço você. Se fosse diferente, você estaria agindo como eu. Ainda há repostas, que eu preciso encontrar e, talvez ainda possa ajudar algum reino da Britânia que esteja sendo invadido. Não posso ficar e esperar que minhas perguntas se respondam sozinhas. Além do que, Ares ainda me possui."

-"Não acho que você deveria se preocupar com ele, Caillean!" Falou Gabriele.

-"Por enquanto, concordo! Mas, preciso deste tempo para desenvolver defesas contra ele! Ares descobriu como usar meus defeitos contra mim mesma. E, por isso, o maior perigo para mim, continuo sendo eu!!!" Disse Caillean, abraçando Gabriele com muito carinho. A outra retribuiu o abraço com a mesma intensidade. E, virando-se para Xena, falou:

-"Perdão, Xena! Não devia ter desconfiado de você."

-"Já lhe disse, Caillean." Retrucou Xena com um sorriso carinhoso e encorajador nos lábios. Seus olhos azuis se mostravam absolutamente sinceros.- "Ares é habilidoso. Você não o conhecia bem. Não há nada a ser perdoado... só a lamentar pelos seus que se foram..." concluiu Xena, entristecida.

-"Voltarei e me redimirei com eles. Agora, estou em débito com você."

Colocando as mãos nos ombros da amiga e olhando-a profundamente em seus olhos, Xena falou:

-"Não há débito entre nós!" Encerrou o assunto.

Entendo o que Xena queria dizer, Caillean apenas assentiu com a cabeça. Recuperando a confiança, pediu:

-"Diga aos seus camaradas, que não era a minha intenção fazer o que fiz, estava perturbada. Quero voltar aqui, novamente, e ser recebida em paz!"

-"Eles vão compreender, Caillean. E você será sempre bem-vinda aqui." Xena garantiu, e abraçou Caillean com força, como se quisesse transmitir sua força para a amiga.

-"Obrigada!" Apenas murmurou Caillean, saindo da casa. O sol estava forte e uma brisa reacendeu nela a esperança de conseguir acertar seu caminho. Subindo com certa dificuldade no cavalo, Caillean sentiu seu ferimento e levou a mão até ele. Preocupadas, Gabriele e Xena se aproximaram:

* "Você está bem?" Questionou Gabriele.

* "Estou."- Garantiu Caillean; " Essas cicatrizes serão freqüentes lembranças dos meus erros e hão de ser inspiração para as vitórias do meu futuro!" Concluiu com convicção a jovem.-"Espero voltar a vê-las, em breve, e em diferente situação!" Desejou, acenando para as amigas e pondo o cavalo à caminho do porto. Durante um bom tempo, Xena e Gabriele permaneceram paradas, vendo o animal que transportava sua amiga perder-se nas curvas da estrada. Ambas desejavam que Caillean conseguisse encontrar as repostas para as perguntas que tanto lhe consumiam seu ser.


Seu cavalo trotava livre. Estava na Britânia novamente. Era um fato. Mas, para onde ir? Não pertencia mais a nenhum lugar, e na verdade, sentia que pertencia a todos. Assim, deixou que seu coração a guiasse por entre os caminhos de sua terra. E, seu coração a levou para novos caminhos, onde jamais ela havia ido. Caminhos que a fizeram se perder nas Brumas de um lugar desconhecido e nunca antes imaginado. Um lugar que poderia responder, enfim, todas as suas perguntas.

 

**** FIM ****

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