Sob a Luz de seu Olhar
Soninha
2009
Capítulo 1:
Para quem aprecia desafios, é interessante o audaz aprendizado da vida. Esta sim é carregada de surpresas inesperadas, e nem sempre agradáveis.
- Chris, dona Carmem quer falar contigo. Posso passar a ligação?
O gesto afirmativo desenhou um sorriso nos lábios de Meiriene. Sabia que a amiga não atendia ninguém quando concentrada, a não ser os pais e dona Carmem.
- Alô!
- Chris! Oi minha filha - a voz terna soou.
- Dona Carmem, que surpresa boa! Está tudo bem com a senhora?
- Tudo bem, mas estou ligando pra dar uma notícia nada agradável.
- A senhora está me assustando. Trata-se do que?
- Não tem uma forma melhor pra dizer, então, vou ser direta. Seus pais Chris, eles sofreram um acidente de carro.
O silêncio e a respiração descompassada foram suficientes para preocupar a bondosa senhora.
- Chris, você está me ouvindo minha filha? Fala comigo, por favor.
- Estou aqui, dona Carmem. Mas como sofreram um acidente, se estavam em casa? A não ser que...
- Eles queriam te fazer uma surpresa, por isso não falaram nada pra você.
- Eles estão bem, não é dona Carmem? Diz pra mim que estão bem - choramingou.
- Filha minha, eu sinceramente não sei dizer. É melhor que você vá ao Pronto Socorro onde estão sendo atendidos todos os feridos no acidente.
- E onde fica este hospital?
- Em sua cidade mesmo, e com a ajuda do céu, é exatamente onde minha sobrinha, Fernanda, trabalha. Foi ela quem pediu pra que eu avisasse você. Vá até lá e a procure.
- Tudo bem. Vou agora mesmo.
- Estarei aí o mais rápido possível. Não vou te deixar sozinha minha filha.
- Obrigada dona Carmem - o agradecimento foi lacônico.
Após colocar o fone no gancho, os soluços enfim encontraram vazão. �Só pode ser um pesadelo!�, sugestionou esperançosa.
Meiriene se assustou ao ver o estado da amiga que estava paralisada, enquanto as lágrimas percorriam seu rosto livremente. - Chris, o que aconteceu mulher? Você está transparente, vem cá, senta aqui um pouco. - Obrigada Mei, realmente não estou nada bem, mas não posso me dar ao luxo de sentar agora. - Se quiser dizer o que houve, ou mesmo se eu puder ajudar de alguma forma - prontificou-se. - Agradeço sua preocupação. Dona Carmem disse que meus pais sofreram um acidente. Tenho que ir ao hospital para saber o que aconteceu. - Então eu vou com você, não posso deixá-la sair assim. - Obrigada Mei, vou aceitar sim. Tenho medo de não conseguir me manter firme. Eles são meus tesouros mais preciosos, e se algo acontecer, nem sei o que farei. - Não diga isso Chris, vai ficar tudo bem. Tenha esperança. - É tudo o que posso ter agora, esperança. - Então vamos. Rapidamente deixaram o escritório. Em pouco tempo estavam na portaria do hospital. - Sou Christyene Rossi, preciso falar com a Doutora Fernanda. - Claro. Só um segundo Senhora - o recepcionista falou ao telefone e pediu que as duas entrassem, pois a médica estava à espera.
- Por favor, Fernanda, o que houve com meus pais? � Chris indagou apreensiva. - Sente-se Chris, nossa conversa não será nada agradável. Você também Meiriene - a médica indicou as cadeiras. Christyene estava extremamente envolvida com o que ia ouvir, que nem sequer percebeu o tratamento pessoal da doutora para com sua amiga, menos ainda, o agradecimento e a troca de olhares entre as duas. - Bom Chris, como tia Carmem deve ter adiantado, seus pais sofreram um grave acidente próximo daqui. Um caminhão levava placas de ferro e estava em uma subida. Uma das placas se desprendeu atingindo um ônibus. O motorista e os passageiros atingidos morreram na hora, e os sobreviventes acordaram com o barulho da lataria sendo cortada. O ônibus ficou sem controle, atravessou a pista no sentido em que seus pais estavam e bateram de frente. Nem a proteção do carro conseguiu amenizar o impacto da colisão, que foi muito violenta - Fernanda media cada palavra, pois sabia que a pequena mulher à sua frente, nutria verdadeira adoração pelos pais. - Doutora Fernanda, não faça rodeios, eu imploro! - Está certo Chris - suspirou profundamente e prosseguiu. � Seu pai teve traumatismo craniano, perfuração no pulmão. Sua mãe também sofreu politraumatismo. Ambos ficaram presos às ferragens, e quando os bombeiros conseguiram retirá-los, já estavam sem vida. Chris não conteve o desespero que se apossou de seu coração e as lágrimas jorraram profusas. Estaria sendo castigada por alguma razão que desconhecia? Isso só podia ser um terrível pesadelo, e logo acordaria, ligaria para os pais e teria o prazer de ouvir a voz de cada um, o sorriso. Tudo se tornou escuro de repente, como se estivesse anestesiada. Ao abrir os olhos, estava em um lindo jardim, com um gramado cuidadosamente aparado, flores de qualidades e belezas diversas, perdida em contemplação. - Oi meu amor! - Mãe? - virou-se rapidamente, buscando o abraço tão conhecido e amado. - Que saudade! - Também senti saudade filha minha, mas agora preciso que seja forte. - Porque está me dizendo isso mãe? Onde está o papai? - Estou aqui meu tesouro. - Papai, tive um sonho terrível, mas sei que agora vai ficar tudo bem. Estou aqui com vocês e não vou deixá-los. - Chris, às vezes é preciso que a gente passe por situações difíceis, sofrimentos intensos, e que nem sempre conseguimos entender, mas o tempo, aos poucos vai revelando que tudo faz parte de nosso crescimento e amadurecimento. Ainda que as aparências digam o contrário. - Onde quer chegar papai? - Que nosso tempo a seu lado chegou ao fim, e agora é tempo de você construir seu próprio caminho. - Mãe, pai, não vamos a lugar algum. Não sei por que diz isso. Olha como estamos? Eu estou bem e vocês também estão. - É preciso que seja assim minha filha, mas nunca se esqueça que estaremos sempre cuidando de você, onde quer que estejamos. Abraço apertado, beijo terno para uma despedida de corações que viveram a plenitude do amor em toda a sua essência. - Sua hora não é esta, meu Tesouro. Volte. Viva, ame e se deixe amar. Sentiu o vazio ocupando o lugar antes aquecido pelos braços de seus pais. O frio e a solidão trouxeram-lhe o pavor. Precisava sair daquele lugar que antes, era tão lindo, e que agora, tornara-se oco e sem graça. Começou a correr em qualquer direção, chamando por seus pais, mas nenhuma resposta se fazia ouvir. Ao longe percebeu uma luz, e aos poucos o som de vozes conhecidas foram preenchendo seus ouvidos. - Ela está acordando tia. - Calma Chris, vai ficar tudo bem minha filha! Ergueu-se sobressaltada ao ser chamada de filha. � Mãe, mãe... - chamou em vão. - Sou eu Chris, Carmem. Você desmaiou minha filha e nos deixou preocupados com a demora em acordar disse com apreensão na voz. - Estava com meus pais dona Carmem. Porque acordei? Devia ter ficado com eles - agarrou-se à querida senhora. � Porque não me deixaram ficar lá também? - Chore minha querida! Chore que vai se sentir melhor. O choro convulsivo que a dominou, também a fez relaxar e adormecer. O pouco tempo de cochilo ajudaria sem dúvida. Abriu os olhos sentindo-se amparada e um pouco mais tranqüila. Encontrou os olhos amáveis a encará-la. - Obrigada dona Carmem, a senhora sempre presente em todos os momentos da minha vida, não é - tentou esboçar um sorriso, enfraquecido pela tristeza em que estava imersa. - Não tem que agradecer Chris. Vi você crescer, e se tornar essa linda mulher. Conheço seu coração, sua alma, e sempre estarei a seu lado, pois você é como uma filha pra mim - depositou um beijo afetuoso na testa da filha, que a tempos adotara. - Onde está Meiriene? - indagou tentando olhar em volta. Mei enxugou rapidamente os olhos. � Estou aqui Chris - respondeu aproximando-se da amiga e a envolvendo em um abraço. Ficaram assim um tempo.
Dra Fernanda veio ao encontro delas, e disse que não adiantaria ficarem ali. O melhor era irem para casa tentar descansar um pouco, se alimentarem, e que assim que os corpos fossem liberados para o velório, ela mesma ligaria para avisar. Chris, mesmo não querendo, concordou com a médica, e acabou aceitando ir para casa. Precisava mesmo de um bom banho. Em momentos de tanta tensão, era uma das formas que encontrava para relaxar um pouco. Precisava falar com sua companheira. Foi quando percebeu que não tinha avisado Ana Lúcia. - Mei, você pode, por favor, cuidar de tudo pra mim? - Claro que sim minha amiga. Quer que eu faça mais alguma coisa por você? - Quero sim. Liga pra Ania e pergunta se ela pode vir me buscar. - Ta, Chris, eu ligo. Mas se quiser, posso te levar pra casa. - Se ela não puder, eu aceito sim. É que não lembrei de avisá-la. - Tudo bem. Fica aqui só um minuto que vou ligar pra ela. Meiriene tentou varias vezes. O celular estava na caixa postal, no trabalho disseram que Ana havia saído, e na casa delas ninguém atendia. - Chris, não consigo encontrar Ana Lúcia. - Ela deve estar no trabalho Mei. - Já liguei, mas disseram que ela saiu a uma hora atrás. - E o celular? - Está na caixa postal, e na sua casa também ninguém atende. - Certo Mei, tudo bem. Ela deve estar em alguma reunião importante e por isso não pode atender. Já estou acostumada. Vou aceitar sua carona até minha casa. - Tudo bem então. Saíram do hospital, e Mei foi observando a amiga. A conhecia muito bem, e sabia o quanto queria ter a companheira a seu lado. Não nutria afeição por Ana Lúcia, mas nesse momento, Chris precisava se sentir protegida e segura. Onde será que estava, e o que era tão importante para se desligar do mundo? Mas nada disse. Guardou seus questionamentos para si. Ao chegarem, Cris entregou a chave da porta para que a amiga abrisse. Estava com uma dor de cabeça intensa, e precisava tomar algum remédio para aliviá-la. - Mei, por favor, vá até meu quarto e pegue um remédio para dor de cabeça pra mim? É uma caixinha que guardo no armário do banheiro. - Certo, só um instante e já volto. Mei subiu o lance de escada que dava para o quarto de Chris. Ao se aproximar, ouviu sussurros e gemidos. Sentiu seu sangue gelar. Não, não seria possível... isso não podia acontecer com Chris, não agora. Encostou-se à parede sem saber o que fazer, ou para onde ir. Fechou os olhos por instantes. Ao abri-los, encontrou os olhos verdes de sua amiga a fitando. Acompanhou o movimento deles ao se fixarem na porta do quarto, como se não acreditasse nos barulhos distintos que seus ouvidos distinguiam. Enquanto Mei foi buscar a medicação, Chris foi à cozinha, e lá estavam dois copos sob a mesa. Isso era sinal que havia alguém mais na casa. Não esperou, subiu as escadas com rapidez, sentindo o coração aflito. Mei tentou dissuadir a amiga, afirmando no olhar que não valeria a pena ir além daquela porta. Posicionou-se entre sua amiga e a porta, mas sentiu as mãos de Cris a afastar da mesma. Chris sentiu seu coração despedaçar-se internamente, e ficou simplesmente paralisada. Surpresa e decepção eram os sentimentos que a invadiam naquele instante.
- Ana Lúcia, por quê? A ruiva ficou lívida ao ouvir a voz de sua mulher, e num salto se ergueu da cama, e foi logo tentando se justificar: - Amor, por favor, eu posso explicar... Christyene apenas olhava incrédula aquela cena, sem ao menos escutar o que a outra falava. Sentiu que naquele instante realmente estava sozinha. A única pessoa que achava fazer parte de sua vida, estava ali, na sua frente, traindo-a com outra, bem na cama onde por tantos anos se amaram, onde tantas vezes ouviu as juras de amor eterno, e sabe-se lá a quanto tempo. Sem contar a vergonha de ver Meiriene ao seu lado, presenciando aquela cena desagradável e constrangedora, sem saber o que fazer. Com calma, sem deixar transparecer sua dor e ira, apenas disse: - Aqui não há o que explicar Ana Lúcia. Já está tudo evidente e muito claro. Só peço que você tenha a decência de retirar tudo o que te pertence desta casa, e deixe a chave no escritório, pois quando eu voltar, não quero te encontrar aqui. E só mais uma coisa: nesse momento está nítido que nunca fui seu amor, apenas mais uma em sua vida. Christyene voltou o olhar suplicante para Mei: - Vamos? Meiriene a fitou e percebeu em seus olhos que estava preste a desabar novamente, e não queria fazer isso na presença daquela mulher. Entendeu o pedido, e se apressou em dizer: - Claro Chris. Vamos sim. Após saírem da casa, Chris permaneceu em um silencio sepulcral. Sem delongas, porém, Meiriene ouviu os soluços sentidos. Buscou um local mais calmo, estacionou o carro e a abraçou. Cris apenas deixou-se abraçar, e ali ficou a chorar toda sua dor. Quando se acalmou, olhou para Mei e conseguiu dizer: - Por favor, me leve pra sua casa? - Que isso Chris, não precisa nem pedir minha amiga! - Obrigada. Mei fez um pequeno afago no rosto de Chris, em seguida ligou o carro novamente e a levou para sua casa. Chris tomou um longo banho, onde a água se misturava às suas lagrimas constantes. Chorava pela perda de seus pais, por sua mulher, a quem dedicou anos de sua vida. A amava de paixão, e pensou que ela era a sua alma gêmea. Encontrá-la na sua cama, nos braços de outra, foi demais. Não queria vê-la mais na sua frente. Naquele momento, só queria chorar sua dor e nada mais. Saindo do banho encontrou algumas peças de roupas expostas sobre a cama. Escolheu uma mais leve. Antes mesmo de deixar o quarto, pode sentir um cheiro bom. Ainda que sem vontade alguma para comer, teria que fazer um esforço, pois com certeza Mei não aceitaria um não como resposta. - Oi, Chris! - Oi Mei, desculpa te dar esse trabalho, mas não tinha como ficar em casa depois de tudo o que presenciamos. - Você é minha amiga, e nunca dá trabalho algum. Entendo muito bem a sua posição, mas você não acha melhor avisar a Ana Lúcia sobre o falecimento de seus pais? - Não Mei, não quero voltar a falar com ela. Tenho você como companhia neste momento tão difícil pra mim, não preciso de mais ninguém, está bem. - Certo Chris. Você é quem sabe. Agora toma um pouco desta sopa que fiz. Você está sem se alimentar a muito tempo, e nesse instante, precisa cuidar de sua saúde. - Você tem razão.
Continua...
|