A Ilha de Danté
Gabrielle Goldsby
PARTE 2
- Não podíamos
passar , encontramos uma árvore que parecia ter seu próprio
critério sobre como queria crescer. Em vez de vertical, queria crescer
em diagonal com respeito ao solo.
-
- -Bom, aqui está
bom. Poderei me virar muito bem apoiando-me nesta árvore -comecei
a protestar, mas me deteve com uma expressão severa-. Sai, Gabrielle
vou ficar bem -pronunciou meu nome como se tivesse três sílabas
bem diferenciadas, Ga-bri-elle-. Não vou permitir que fique aí
enquanto a natureza me chama. Agradeço o cuidado que está
me dando, mas não sou uma menina, vai para outro lugar enquanto faço
isto. Estarei bem.
-
- Fiquei olhando-a com
a boca aberta. Foi o maior número de palavras que tinha ouvido ela
dizer desde ocorrido. Saí de meu transe quando um dedo quente empurrou
suavemente o meu queixo para fechar minha boca.
-
- -Agora vá eu
me reunirei contigo quando tenha terminado, me virou e com um ligeiro
empurrão nas costas, pôs-me para andar.
-
- Sentei-me numa grande
rocha meio enterrada na areia branca e pensei entristecida: Bom, se temos
que nos ficar aqui sei lá quantos dias, ao menos o lugar é
bonito. Danté saiu de entre as árvores nesse momento me levantei
para ajudá-la.
-
- -Estás muito
pálida, estásbem? -lhe perguntei.
-
- -Sim -afirmou-. Mas
acho que exagerei um pouco. Preciso descansar sua voz, normalmente forte,
soava fraca e estava palidísima. Coloquei seu braço ao redor
dos meus ombros e meio que a arrastei, e levei de volta ao bote.
-
- -Danté, vc não
está bem. Não sei o que fazer lhe disse preocupada enquanto
ajudava ela entrar no bote.
-
- -Shh, não vai
acontecer nada -me consolou-. Só preciso descansar. Acredito que
é por ter perdido muito sangue e faz dias que não como.
-
- -Danté, Encontrei
bananas, mamões papaya e cocos, -lhe disse animadamente-. E também
caranguejos. Acha que consegue comer um pouco?
-
- -Consigo sim, eh? -sorriu
zombando-. estava me escondendo, eh? E eu que pensava que nos estávamos
morrendo de fome e tu saíu para fazer compra -caçoou-. Me
guardou alguma coisa? No barco me dei conta de que tudo que comes é
teu.
-
- -¡Escuta! -exclamei,
já me irritando-. Vc não estava acordada, não podia
comer. A não ser que quisesse que eu tivesse enfiado à
força pela garganta enquanto estava inconsciente. me custou bastante
fazer-te tomar um pouco de leite de coco -estava a ponto de ter um autêntico
ataque de raiva quando notei que seu sorriso zombador de sempre começava
a desaparecer.
-
- -Me deste de comer?
-perguntou cansada-. Quando estava desmaiada? Como o fizeste?
-
- -Eu... mm... rubeci
muito e ela me olhou com a sobrancelha arqueada, claramente confusa por
minha reação-. ... mm... molhei um pouco nos dedos e tu...
mm...
-
- -Era vc? -perguntou-.
Achei que fosse um sonho.
- - Estava certa de que
não estava acordada e não podia ter visto minhas reações
quando me chupava os dedos.
-
- -Mm... Danté,
acha que conseguiria comer algo mais sólido? -perguntei.
-
- -Não sei. agora
não porque estou muito cansada. Preferiria irar uma sesta primeiro,
se não se importa.
-
- -Claro, que não
disse-. Quero dar uma olhada pelos arredores para ver se encontro algo ou
a alguém que nos ajude. Se precisar de mim, grita. Não irei
muito longe, tá?
-
- -Mmm -murmurou, fechando
os olhos. Tampei o bote em cima de sua cabeça com a grande folha
para impedir que se queimasse com o sol.
-
- Fui para os lados das
árvores, disposta a encontrar ajuda. Atravessar a densa vegetação
não foi tão difícil como pensava. Tinha renunciado
chamar alguém pedindo ajuda e simplesmente segui caminhando. Depois
de cruzar a barreira inicial que separava a praia da selva, quase era fácil
de andar. A exceção de umas raízes que estavam acima
do solo, e do lugar não ter nada.
-
- Praticamente não
tinha mais fauna só as aves e os caranguejos .. Nem sequer tinha
visto um esquilo ou outro tipo de animal do bosque e pensei que isso não
era muito nomal. Mas cheguei à conclusão de que não
estava entendendo.
-
- As árvores não
eram muito grandes, mas eram exuberante. Podia ver enormes flores de vivas
cores como num quadro muito vulgar que tinha visto uma vez. O fato de que
eram reais e tinham um aroma extraordinário eliminava a vulgaridade
e me enchia de alegria.
-
- Continuei minha exploração
sem fixar-me muito por onde ia (como era habitual em mim) e tropecei com
uma raiz . Antes de poder evitá-la, saí voando pelo caminho
que tinha estado seguindo. Tive um momento de pânico total e depois
fiquei sem ar pela tompo e com uma forte dor de cabeça, cai entre
água e terra.
-
- O primeira coisa que
notei quando recuperei a conciencia foi a dor de cabeça que tinha
e a água que me acariciava a coxa. Sentei-me toda trémula
e contemplei o que me rodeava. Tinha caido num pequeno lago quase escondido
pela densa vegetação. O lago estava rodeado por uma parede
de rochas quase tão altas como as espessa e verde vegetação
caí emcima das rochas. Poderia ter passado ao lado sem vê-lo
se não tivesse tropeçado e caído dentro.
-
- Enquanto absorvia a
beleza do lugar, observei dois pássaros alegres e coloridos que baixaram
voando e posaram justo a meu lado. Os dois me olharam com curiosidade, ladeando
a cabeça como dizendo, Quem é vc? Depois se puseram a beber
água. OLHEI-OS fascinada enquanto tratava de esquecer-me que estava
com a garganta seca. Terminaram de beber , e me deram outra olhada desconfiada
e saíram voando para as árvores acima.
-
- Saí de meu sonho,
me aproximei mais da água e me inclinei para beber.
-
- -Bebi um pouco de água.
Estava fresca e limpa: foi a melhor que tinha bebido em minha vida. Prescindi
dos bons modos (afinal de contas, não tinha ninguém que pudesse
ver-me) e meti toda a cabeça no água para poder beber-. Que
maravilha -murmurei quando fiquei saciada. Nunca tinha apreciado os méritos
do água, de fato, costumava desprezá-la a favor do chá
ou o leite, mas isto era pura ambrosía.
-
- Depois de olhar rapidamente
a meu redor e assegurar-me de que estava só, tirei a combinação
e entrei devagar na água fresca.
-
- -Oh -suspirei em voz
alta ao submergir-me na água até o pescoço. Lavei meu
cabelo e me lavei o melhor que pude. Pensei em Danté jogada no bote
na praia, acelerei meu banho. Ao sair do lago, a idéia de pôr-me
a suja combinação me deu tanto asco que decidi lavá-la
junto com minha roupa interior. Fazia tanto calor que estava segura de que
teria a roupa quase seca antes de voltar à praia. Encontrei um grande
pau de cana caído e oco por dentro graças aos insetos e o
enchi de água.
-
- Danté estava
acordada e sentada no bote quando voltei. Sorriu ao ver meu cabelo molhado
jogado para atrás e minha combinação úmida.
-
- - parece que tomou
banho.
-
- Sorri-lhe, tentando
me controlar por ver seu sorrisinho provocante.
-
- -Sim. Encontrei um
lago de água doce na selva e trouxe água para que bebas -lhe
passei o pau, que pegou agradecida. Parou e olhou dentro do pau que lhe
tinha dado-.Pode beber, vi uns pássaros bebendo primeiro e depois
bebi eu. A água está boa, não te fará mal a
tranqüilizei.
-
- -Não, não
é isso -disse e me olhou com a sobrancelha arqueada-. Pegou a água
antes ou depois de lavar sua calcinha nesse lago? -perguntou.
-
- Notei que minha mandíbula
traicionera se abria e fiquei olhando-a sem acreditar no que havia escutado..
-
- -Mas que mal agradecida...
-
- Levantou as mãos
como para proteger-se de meus golpes verbais e me lançou um sorriso
autêntico, não o de zombaria de sempre.
-
- -Desculpa, é
que não consigo evitar , de deixar de te provocar tão facilmente
-disse rindo. Depois levou o pau aos lábios e bebeu um bom trago.
-
- Sorri enquanto engulia
até a última gota de água. Quando terminou, esbocei
meu próprio sorriso zombador, cheguei bem perto dela, olhei-a diretamente
nos olhos e sussurrei:
-
- -Peguei a água
depois de lavar minha calcinha -lhe dei um tapinha na cabeça
e saí correndo pela praia, perseguida pelos insultos que Danté
me dizia em francês.
-
- Danté me deu
uma trégua enquanto eu preparava o nosso jantar. Tinha pegado vários
caranguejos azuis e depois de acender um novo fogo (desta vez só
precisei de dois fósforos), tinha-os colocado sobre umas pedras quentes
torrando-se ao fogo. Também tinha recolhido , mamões papaya
e bananas. E para beber água de coco, era uma comida bastante suculenta.
-
- -Escuta, Danté
-. Já me desculpou? Não pensei até que já tinha
me banhado e lavado minhas coisas. alem disso era um lago bastante grande.
-
- Danté se reclinou
no bote, com aspecto cansado.
-
- -Ga...bri...elle, quero
que saiba: curo-me muito depressa e quando estiver melhor, é melhor
estar preparada porque vou fazer-te pagar por isso.
-
- O sorriso que Danté tinha no rosto era malévolo
e pela primeira vez lamentei minha decisão de dizer-lhe sobre a água.
Tinha me metido em confusão e o pior era que eu sabia!
-
- -Danté, quanto
tempo mais demorarão para encontrar-nos?
-
- -Não sei. A
verdade, é que estou um pouco preocupada que não nos tenham
encontrado ainda.
-
- Fazia já três
dias que tínhamos desembarcado nesta praia. A saúde de Danté
estava melhorando e parecia estar recuperando a cor.
-
- -Acha que hoje poderias
caminhar um pouco depois do chamado da natureza?
-
- Meus dias tinham consistido
em acompanhar a Danté ao bosque para que fizesse suas necessidades
e em encontrar comida e água. Era uma tarefa durísima que
me deixava exausta ao final do dia. No entanto, impedia que me preocupasse
pelo fato de que a estas alturas Danté e eu fazia mais de uma semana
que tínhamos desaparecido e ainda não nos tinham encontrado.
Eu tinha deixado de chamar pedindo ajuda enquanto procurava comida. Tinha
chegado à conclusão de que estávamos sós naquela
praia. Curiosamente, em lugar de assustar-me, isto me reconfortava. Não
tinha nada que pudesse fazer-nos mal e no fundo estava convencida de que
não demorariam em encontrar-nos.
-
- Danté se virou
para que lhe examinasse a ferida. Surpreendentemente, Danté me deixou
que a examinasse sem protestar de dor. Olhei a ferida com assombro.
-
- -Acredito realmente
que se curas depressa -lhe disse por enésima vez.
-
- Riu como sempre e a
ajudei a sentar-se apoiada num dos bancos do bote.
-
- -Escuta -exclamei,me
ocorreu uma idéia-. Que acha de irmos até lago? Poderias beber
toda a água que quisesses e não terias que depender de que
eu te traga a água nesses paus. Além do mais -adicionei em
tom de brincadeira-, não cairia mal se tomasse um banho -enruguei
o nariz de propósito e tentei parecer modesta.
-
- -Tá, vamos,
já entendi. Ajuda-me a levantar, menina.
-
- Pôra Danté
de pé já não era tão difícil como no
princípio. Uns dias de repouso com comida e água no estômago
tinham ajudado a recuperar as forças. AJUDEI ela sair do bote, observei
que desta vez só fez uma ligeira careta de dor, e a levei até
as árvores devagar. O trajeto, que normalmente era de uns quinze
minutos, hoje demoramos meia hora com um par de paragens para descansar.
Danté suava abundantemente quando chegamos ao lago. Eu começava
a lamentar minha idéia de traze-la até aqui teve que caminhar
muito até chegarmos no lago.
-
- -¡Oh, que ótimo!
-exclamou ao olhar o lugar teriamos que descer um metro e meio . Como vou descer
até lá?
-
- -¡Ooh, que desgraça!
-exclamei e depois me pus como um tomate quando Danté me olhou com
uma sobrancelha arqueada. Sempre ouvi meu pai dizer isso e via minha mãe
chamando sua atenção por amaldiçoar diante de nós.
Não tinha se dado conta que Danté estava ferida. Eu sempre
descia deslizando-me pela rocha quando vinha aqui para beber e banhar-me.
-
- -Desculpa, Danté,
não pensei, só pensei que te agradaria tomar um banho. Não
me ocorreu que teríamos que descer até lá.
-
- -Como encontrou este
lugar? -perguntou Danté-. Eu nunca o teria encontrado mesmo que estivesse
procurando.
-
- -Pois... mm... tropecei
com ele , tentando não dizer que na realidade tinha encontrado o
lago ao cair de onde estamos agora,
- -Mm-mm, deixa ver se
eu adivinho. Encontrou este lugar do mesmo modo que nos conhecemos , não
é ?
-
- -Mm, sim . Vamos, acho
que podemos descer por aqui.
-
- Fiz Danté andar
mais uns duzentos metros . O terreno tinha começado a baixar e por
fim, com muito pouco esforço, consegui levar Danté até
a água.
-
- SENTEI-A na pequena
faixa de areia que rodeava o lago e nós duas nos despimos a toda
pressa. Estava tão emocionada que nem pensei que ia estar nua diante
de minha amiga, de fato, quando já estava só de calcinha,
me virei para ajudar Danté e vi que ela tinha feito o mesmo.
-
- Meu Deus , que linda
, gritou minha mente com tanta força que fiquei com medo de ter dito
em voz alta, mas Danté não me olhou, então não
disse nada. Danté tinha soltado o cabelo e agora estava sentada
só de calcinha com o longo cabelo negro ondeando ao vento. Ainda
que Danté estivesse muito pálida e frágil pela ferida,
dei-me conta de que era uma mulher muito forte. Os braços que rodeavam
suas pernas dobradas pareciam muito fortes. Observei o movimentos dos músculos
de seu estômago ao respirar.
-
- -Gabby? -disse bruscamente.
Vi que tinha a sobrancelha arqueada e me perguntei se alguma vez tinha me
chamado assim. Estou pronta?
-
- -Ah, sim, estou indo.
Deixei que utilizasse meu ombro como apoio enquanto entrávamos na
água.
-
- -Ooh -suspirou ao entrar
na água. A água estava um pouco fria no inicio. Mas logo nosso
corpo se acostumou com a temperatura da água.
-
- Quando estávamos
no meio do lago, a água mal lhe chegava ao peito, mas a mim já
me roçava o queixo.
-
- -Se tivéssemos
sabão -disse enquanto tentávamos banhar-nos o melhor que podíamos-.
Venha, lavo-te o cabelo se vc lavar o meu . Sem esperar resposta, deu-me
as costas, afundou o longo cabelo na água e voltou a tira-lo. Como
não tínhamos sabão, limitei-me a passar as mãos
pelo sedoso cabelo de Danté para desenbaraça-lo e tirar-lhe
o suor.
-
- Adorei lavar o cabelo
de Danté. Não era só o tato de seu cabelo que me encantava,
eram também os ruídos que fazia enquanto lhe massageava o
couro cabeludo.
-
- -Gostou? -lhe perguntei
ao final de cinco minutos de massagem.
-
- -Mmm-mmmm -foi o única
coisa que me respondeu,
-
- Esforcei-me para me
controlar enquanto passava os dedos pelo cabelo de Danté. Senti um
friozinho no estômago a primeira vez que ouvi os gemidos de prazer
mal audíveis que emitia Danté. De repente, me deu uma vontade
de beijá-la... beijar-lhe os ombros... beijar-lhe o corpo... beija-la
toda.
-
- Respirei fundo. Mas
que demônios estou pensando...? Danté não sente isso
por mim e eu não deveria sentir isso por ela... Continuei massajeando
o cabelo de Danté enquanto deixava vagar meus pensamento repassando
as circunstâncias que nos tinham levado a nossa atual situação.
Recordei minha reação quando conheci Danté no barco
e só de pensar nela começava a arder de raiva... ou era outra
coisa que confundi com raiva? Perguntei-me como vou sobreviver quando ela
lavar meu cabelo.
-
- A ferida de Danté
foi cicatrizando rapidamente, já andava sem necessidade de minha
ajuda. Teve a idéia de fazer uma marca no bote por cada dia que estamos
na ilha. Quando ia completar quase dois meses na ilha, Danté decidiu
que devíamos ir para outro lugar mais para o interior da ilha. Danté
tinha se dedicado a explorar a ilha enquanto eu escrevia em meus cadernos
no bote. Foi ela na verdade que determinou que estávamos numa ilha,
tava explicado por que não tínhamos visto ninguém
desde que desembarcamos aqui.
-
- Danté também
tinha descoberto a nascente de onde vinha a água do lago que nos
banhávamos. Danté estava entusiasmada com a nascente porque
tinha essa mania de não se banhar na mesma água que bebia.
Eu também estava entusiasmada por dentro com o ribeiro, mas não
disse nada.
-
- Tinha começado
a fazer um calor insuportável na ilha. Danté me explicou que
as árvores protegiam as zonas próximas da água dos
raios de sol. De maneira que ali era bem mais fresco. Achou que devíamos
ficar mais próximas da água e construir uma cabana.
-
- -Mas Danté,
e se aparecer um barco não vamos ver...? -inclusive depois de dois
meses, eu ainda acreditava que nos encontrariam. Sabia que minha família
não deixaria de procurar-me até que tivesse provas concludentes
de que estávamos mortas.
-
- -Já pensei nisso
-.Vou colocar uma grande pilha de lenha ali, em cima daquelas rochas, e
se virmos um barco, podemos acendê-la. E pensei em colocarmos o bote
de pé na areia e colocamos um pedaço de meu vestido num pau,
isso alertará alguém que nos esteja procurando, que acha de
minha idéia?
-
- Depois de pensar por
um momento, concordei. Começava a fazer muito calor para ficar na
praia sem proteção contra o sol. Além do mais, seria
agradável não ter que caminhar quinze minutos só para
tomar banho e beber água fresca.
-
- -Bom, e onde vamos
dormir? -perguntei com irritação. Não sei por que esta
me propondo tantas dificuldades, mas eu estava de mau humor.
-
- -Teremos que construir
uma cabana. Há muitas árvores e coisas que poderíamos
usar .
-
- Danté enterrou
quase toda a proa do bote na areia até que esteve segura de que o
bote não ia cair com o vento. Fez o mesmo com o pau. Amarrou um pedaço
grande de seu vestido no extremo do pau e logo me fez um gesto para que
fossemos embora.
-
- Eu ia a vários
passos a trás de Dante, como sempre que íamos de excursão
para procurar comida. Era a melhor forma que tinha de observá-la
sem que ela me observasse . Ao que parece, Danté tinha uma veia pudica,
enquanto eu a muito tempo tinha prescindido de meu vestido e passava os
dias de combinação. Danté vestia o que restava de seu
vestido como uma menina pequena que não largava de sua mantinha.
Ainda mais curioso era o fato de que não se importava em tirar o
vestido para nadar, mas quando terminava, voltava a pôr ele. Eu fingia
cochilar nas rochas para poder observar Danté nadando nua na água.
-
- Nossos corpos tinham
sofrido certas mudanças desde que chegamos na ilha. Para recolher
comida tinhamos que fazer muita força. Ela sempre foi mais forte,
mas dava a impressão de que seu corpo ganhou mais músculos
pelas coisas que tínhamos que fazer para sobreviver até que
nos resgatassem. Provavelmente no princípio nossas famílias
não nos reconheceriam. Danté e eu estávamos três
vezes mais morenas que antes de chegar à ilha. Eu tinha emagrecido
bastante e meu corpo se definiu já não parecia tão
menininha e o sol tinha clareou mais o meu cabelo, tinha o dobro de loiro
que antes. Danté tinha o cabelo da mesma cor , mas o levava solto
pelas costas ou numa longa trança que lhe chegava à cintura.
Nenhuma das duas tínhamos que prender o cabelo desde que estamos
na ilha, afinal de contas ali não tinha ninguém que pudesse
escandalizar-se de ver nós duas. E pra mim me encantava ver Danté
com o cabelo solto. As vezes pegava uma pequena flor silvestre e punha no
cabelo ou fazia uma guirlanda para colocar na cabeça. Ela sorria
e me olhava para ver o que eu achava, sabia que eu achava engraçado
e ficava com as flores na cabeça até na hora de dormir. No
entanto, sempre a advertia que estava fazendo muito calor na ilha, e ela
seguia negando a tirar seu velho vestido.
-
- Danté me levou
até um lugar onde ficava poucos passos do ribeiro.
-
- -Estava pensando -me
mostrou um terreno bastante plano ao dos lados tinham duas árvores
emormes-. é perto do ribeiro e do lago e não teremos problemas
para ir a qualquer um dos dois -me olhou como se estivéssemos contemplando
uma propriedade de primeira qualidade. Encolhi meus de ombros e disse:
-
- -Pra mim está
bom
-
- -Muito bom -disse em
tom apagado-. Vou procurar coisas para construir. Por que não vai
escrever... ou desenhar ou algo? Voltarei logo..
-
- -Não , quer
que eu vá contigo? -perguntei-. Eu também posso
trazer coisas.
-
- -Não -se apressou
a responder-. Não, não precisa. Volto logo e saiu
antes de que eu pudesse dizer mais alguma coisa.
-
- Sentei-me à
sombra da árvore mais próxima e peguei meus cadernos para
escrever. Fiquei um momento olhando para a folha diante de mim, pensando
nos meses que estavamos na ilha. Danté não tinha falado comigo
do resgate nem uma só vez. De fato, se eu mencionava algo ao respeito,
ela contestava o mais depressa possível e mudava de assunto. Ficava
curiosa com o costume que tinha adquirido de adentrar-se só na selva.
Não é que tivesse muito o que temer, mas quando regressava
parecia mais calma e eu não conseguia imaginar por que precisava
afastar-se desse modo.
-
- Danté voltou
uma hora mais tarde e como já tinha percebido, estava bem mais calma
que antes. Trazia umas árvores pequenas para construir a estrutura
de nossa cabana. Levantei-me num salto para ajudá-la e recebi um
leve sorriso de alívio, que aceitei como agradecimento. Demoramos
quase uma semana, mas por fim tínhamos uma cabana bastante resistente
que agüentaria as rajadas de vento que as vezes açoitavam a
ilha. Danté dizia que, a julgar pela riqueza da vegetação,
não lhe surpreenderia que chovesse muito nos meses de inverno.
-
- Não pensei que
íamos ficar tanto tempo aqui. Danté me olhou e disse claro
que não, mas não parecia convicta. Voltou à tarefa
de enrolar as fortes lianas que tinha cortado de umas árvores.
-
- Depois de cinco meses
e meio de estadia na ilha já tínhamos uma rotina bem estabelecida.
Acordávamos pela manhã e nadávamos no lago, lavando
a pouca roupa que tinha restado. Danté saia a procura de fruta pela
selva, coisa que fazia bem melhor do que a mim. Recordo que a primeira vez
que a vi trepar numa árvore fiquei pedrificada. Simplesmente saltou
na árvore o mais alto que pôde, depois colocou uma perna ao
redor da árvore e usou a força para subir o resto. Deixava
cair dois ou três cocos e depois descia mais depressa do que ao subir.
Era assombroso, mas como sempre, para ela era algo normal.
-
- Danté nunca
deixava de me surpreender. Uma das muitas coisas que sabia fazer era pescar.
Tinha conseguido fabricar uma rede de cipós que tinha aos montes
pindurados pelo bosque. E quase todas as noites trazia um grande peixe ou
uma lagosta. As vezes, trazia uma coisa especial, mergulhava para pegar
algumas das grandes ostras que viviam no fundo do mar. Sempre se assegurava
de que tivéssemos varias coisas para comermos e eu a agradecia. Foi
depois de uma destas expedições de pesca que Danté
voltou vestida diferente.
-
- Tinha pegado o que
restou de seu vestido e o partiu em dois grandes quadrados. Um enrolou
ao redor da cintura estilo sarong, deixando as longas pernas livres. O outro
pedaço enrolou ao redor do peito. E assim saiu do bosque com alguns
peixes. ¡Deus! pensei e afastei meu olhar rapidamente. Não
sabia onde olhar. Estava tão formosa. Sua pele, como a minha, tinha-se
bronzeado pelos efeitos do sol tropical, fazendo que seus olhos azuis destacassem
ainda mais com sua pele morena. Seu cabelo, ainda que normalmente o levava
numa trança que lhe caía pelas costas para evitar enganchar-se
nas folhagens ao andar, estava agora solto e lhe chegava quase à
cintura. Tinha a barriga plana como se tivessem esculpido em pedra. Tive
que olhar ela de novo . Tive que respirar fundo para me acalmar.
-
- -Te deixo incomodada?
-me perguntou tão baixinho que quase não a ouvi.
-
- -Eh? -perguntei, olhando
para aqueles profundos olhos azuis.
-
- -Te perguntei se ficou
incomodada de como estou vestida.
-
- -Mm, não, por
que pensou isso, Danté? eu tenho estado correndo por aí praticamente
só com minha roupa interior desde o dia que chegamos.
-
- -Sim, mas isso é
porque usaste teu vestido para fazer bandagens e para levar-me até
a orla.
-
- Tinha contado a Danté
o horror de ter que nadar até a orla numa noite durante o jantar.
Ficou sentada ouvindo enquanto lhe contava como tinha conseguido burlar
ao mar.
-
- -É que assim
é bem mais fácil de pescar -me explicou-. E , também
não restava muito do vestido.
-
- -Não me incomoda
em nada, Danté -me aproximei dela, pus-lhe a mão no
braço e tirei de imediato como se me tivesse queimado-. Acho que
está muito linda -lhe disse e inclusive consegui sorrir-lhe ligeiramente.
Ela me sorriu e se pôs a limpar os peixes para cozinhá-los.
Danté sempre limpava e preparava o peixe antes de trazê-lo
ao acampamento. Dizia que usava as entranhas como isca, mas acho que o fazia
porque a primeira vez que limpei uma de suas pescas, acabei vomitando. Prometi que
não voltaria a passar mal, mas creio que não queria correr
o risco.
-
- Danté pegou
o pau afiado que usávamos para colocar o pescado sobre o fogo para
cozinhá-lo. Era uma das coisas que mais me agradava ver-lhe fazer.
Disse-me que quando menina tinha lido num livro como se fazia. A mim tudo
aquilo me resultava em passar mal.
-
- Não muito depois
de chegar à ilha, comecei a ficar sem fósforos. Disse a Danté
que só restava três quando disse que lhe tinha ocorrido uma
idéia. Perguntou-me se ainda tinha a velha lata de fumo que tinha
usado para recolher água da chuva. Por algum motivo, tinha decidido
ficar com a lata e dei a ela. Soltou uma exclamação de alegria
ao ver que tinha uma tampa no fundo.
-
- -Que vai fazer com
ela? -perguntei.
-
- -Vamos fazer fogo com
ela - respondeu com seu sorriso zombador-. Observe e pasme -disse como
um animador de circo a um grupo de meninos. Pegou-me a bolsa e pegou os
fósforos que ficavam, umas tiras de meu velho vestido, a lata e a
faca. Olhei-a com desagrado e ela me disse que não me preocupasse,
que ter esta faca era o que nos permitiria sobreviver.
-
- OLHEI-A totalmente
pasmada enquanto fazia um buraco na tampa da lata de fumo. Depois pegou
as tiras e as cortou em oito quadrados iguais e colocou no fundo da lata
e depois a fechou com a tampa. Depois me disse que poderia ser nossa última
fogueira se o que estava planejando não funcionasse. Colocou a lata
na beira do fogo até que ficasse muito quente. Quando achou que já
estava bastante quente, tirou a lata do fogo com dois paus.
-
- -Temos que esperar
que saia fumaça por acima.
-
- concordei distraída.
Não sabia a que esperar de tudo isto, mas Danté
estava se divertindo em me ver prestar atenção. Quando a lata
esfriou, Danté a abriu e olhou dentro. Declarou que estava perfeito
para o que precisávamos.
-
- -E o que precisamos?
-lhe perguntei com impaciência.
-
- -Ahh, paciência,
pequena. Primeiro precisamos de umas coisas. Quero que recolhas toda a erva
seca e raminhos que encontre. Já volto, preciso de uma coisa mais.
-
- -HEi, espera, onde
vai? -lhe perguntei exasperada. Odiava as surpresas e ela sabia, estava-me
deixando louca.
-
- -Já o verás
quando eu voltar .
-
- Resmungando, fui a
procura de erva seca e raminhos, que não eram fáceis de encontrar
numa ilha tropical. Sem deixar de resmungar quando voltei, vi que Danté
já tinha regressado e estava ajoelhada junto ao buraco de nossa fogueira.
o fogo que tinha feito com um fósforo tinha apagado e agora só
nos ficavam dois fósforos.
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- -Maldita seja -gritei-.
Eu Deveria ter jogado lenha no fogo antes de ir.
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- Danté sorriu
e me disse para não me preocupar: se não se equivocava, não
precisaríamos desses dois últimos fósforos.
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- Fez-me pôr a
erva seca e os raminhos no buraco que usávamos para nossas fogueiras
e depois adicionou ao monte de pano. Pegou o carvão. Limitei-me a
me perguntei em segredo se tinha perdido a cabeça. Explicou-me que
enquanto nos assegurássemos de fazer sempre carvão, tudo irias
bem. Danté pegou algumas pedras que evidentemente tinha trazido do
ribeiro. Então, com a faca na outra mão, começou a
golpear a faca em ângulo e fiquei pasmada ao ver que saíam
chispas. AOS poucos minutos tínhamos um pequeno fogo que alimentamos
com palitos secos até que se converteu num bom fogo. Olhei a minha
amiga com a boca aberta.
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- -Como fez isso?
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- Lançou-me um
de seus característicos sorrisos e respondeu:
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- -Sei fazer muitas coisas.
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- Não me recordo
quando comecei a me sentir mal, me sentia cansada o tempo todo. Danté
começou a notar que eu demorava para levantar e ficava sem fôlego
tão facilmente ao nadar. Dizia para mim que estava ficando velha
e que tinha que começar a fazer exercício ou não ia
agüentar fazer mais nada. Fingia que me dava beliscões. Mas
não tinha nada o que beliscar. Nenhuma das duas tinha uma só
grama de gordura devido a nossa dieta e ao grande esforço necessário
para sobreviver.
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