A Ilha de Danté

Gabrielle Goldsby

Tradução de Fernanda
r[email protected]

 

 

PARTE 2

 

Não podíamos passar , encontramos uma árvore que parecia ter seu próprio critério sobre como queria crescer. Em vez de vertical, queria crescer em diagonal com respeito ao solo.
 
-Bom, aqui está bom. Poderei me virar muito bem apoiando-me nesta árvore -comecei a protestar, mas me deteve com uma expressão severa-. Sai, Gabrielle vou ficar bem  -pronunciou meu nome como se tivesse três sílabas bem diferenciadas, Ga-bri-elle-. Não vou permitir que fique aí enquanto a natureza me chama. Agradeço o cuidado que está me dando, mas não sou uma menina, vai para outro lugar enquanto faço isto. Estarei bem.
 
Fiquei olhando-a com a boca aberta. Foi o maior número de palavras que tinha ouvido ela dizer desde ocorrido. Saí de meu transe quando um dedo quente empurrou suavemente o meu queixo para fechar minha boca.
 
-Agora vá eu me reunirei contigo quando tenha terminado, me virou e  com um ligeiro empurrão nas costas, pôs-me para andar.
 
Sentei-me numa grande rocha meio enterrada na areia branca e pensei entristecida: Bom, se temos que nos ficar aqui sei lá quantos dias, ao menos o lugar é bonito. Danté saiu de entre as árvores nesse momento me levantei para ajudá-la.
 
-Estás muito pálida, estásbem? -lhe perguntei.
 
-Sim -afirmou-. Mas acho que exagerei um pouco. Preciso descansar sua voz, normalmente forte, soava fraca e estava palidísima. Coloquei seu braço ao redor dos meus ombros e meio que a arrastei, e levei de volta ao bote.
 
-Danté, vc não está bem. Não sei o que fazer lhe disse preocupada enquanto ajudava ela entrar no bote.
 
-Shh, não vai acontecer nada -me consolou-. Só preciso descansar. Acredito que é por ter perdido muito sangue e faz dias que não como.
 
-Danté, Encontrei bananas, mamões papaya e cocos, -lhe disse animadamente-. E também caranguejos. Acha que consegue comer um pouco?
 
-Consigo sim, eh? -sorriu zombando-. estava me escondendo, eh? E eu que pensava que nos estávamos morrendo de fome e tu saíu para fazer compra -caçoou-. Me guardou alguma coisa? No barco me dei conta de que tudo que comes é teu.
 
-¡Escuta! -exclamei, já me irritando-. Vc não estava acordada, não podia comer. A não ser que quisesse que eu tivesse  enfiado à força pela garganta enquanto estava inconsciente. me custou bastante fazer-te tomar um pouco de leite de coco -estava a ponto de ter um autêntico ataque de raiva quando notei que seu sorriso zombador de sempre começava a desaparecer.
 
-Me deste de comer? -perguntou cansada-. Quando estava desmaiada? Como o fizeste?
 
-Eu... mm... rubeci muito e ela me olhou com a sobrancelha arqueada, claramente confusa por minha reação-. ... mm... molhei um pouco nos dedos e tu... mm...
 
-Era vc? -perguntou-. Achei que fosse um sonho.
- Estava certa de que não estava acordada e não podia ter visto minhas reações quando me chupava os dedos.
 
-Mm... Danté, acha que conseguiria comer algo mais sólido? -perguntei.
 
-Não sei. agora não porque estou muito cansada. Preferiria irar uma sesta primeiro, se não se importa.
 
-Claro, que não disse-. Quero dar uma olhada pelos arredores para ver se encontro algo ou a alguém que nos ajude. Se precisar de mim, grita. Não irei muito longe, tá?
 
-Mmm -murmurou, fechando os olhos. Tampei o bote em cima de sua cabeça com a grande folha para impedir que se queimasse com o sol.
 
Fui para os lados das árvores, disposta a encontrar ajuda. Atravessar a densa vegetação não foi tão difícil como pensava. Tinha renunciado chamar alguém pedindo ajuda e simplesmente segui caminhando. Depois de cruzar a barreira inicial que separava a praia da selva, quase era fácil de andar. A exceção de umas raízes que estavam acima do solo, e do lugar não ter nada.
 
Praticamente não tinha mais fauna só as aves e os caranguejos .. Nem sequer tinha visto um esquilo ou outro tipo de animal do bosque e pensei que isso não era muito nomal. Mas cheguei à conclusão de que não estava entendendo.
 
As árvores não eram muito grandes, mas eram exuberante. Podia ver enormes flores de vivas cores como num quadro muito vulgar que tinha visto uma vez. O fato de que eram reais e tinham um aroma extraordinário eliminava a vulgaridade e me enchia de alegria.
 
Continuei minha exploração sem fixar-me muito por onde ia (como era habitual em mim) e tropecei com uma raiz . Antes de poder evitá-la, saí voando pelo caminho que tinha estado seguindo. Tive um momento de pânico total e depois fiquei sem ar pela tompo e com uma forte dor de cabeça, cai entre água e terra.
 
O primeira coisa que notei quando recuperei a conciencia foi a dor de cabeça que tinha e a água que me acariciava a coxa. Sentei-me toda trémula e contemplei o que me rodeava. Tinha caido num pequeno lago quase escondido pela densa vegetação. O lago estava rodeado por uma parede de rochas quase tão altas como as espessa e verde vegetação caí emcima das rochas. Poderia ter passado ao lado sem vê-lo se não tivesse tropeçado e caído dentro.
 
Enquanto absorvia a beleza do lugar, observei dois pássaros alegres e coloridos que baixaram voando e posaram justo a meu lado. Os dois me olharam com curiosidade, ladeando a cabeça como dizendo, Quem é vc? Depois se puseram a beber água. OLHEI-OS fascinada enquanto tratava de esquecer-me que estava com a garganta seca. Terminaram de beber , e me deram outra olhada desconfiada e saíram voando para as árvores acima.
 
Saí de meu sonho, me aproximei mais da água e me inclinei para beber.
 
-Bebi um pouco de água. Estava fresca e limpa: foi a melhor que tinha bebido em minha vida. Prescindi dos bons modos (afinal de contas, não tinha ninguém que pudesse ver-me) e meti toda a cabeça no água para poder beber-. Que maravilha -murmurei quando fiquei saciada. Nunca tinha apreciado os méritos do água, de fato, costumava desprezá-la a favor do chá ou o leite, mas isto era pura ambrosía.
 
Depois de olhar rapidamente a meu redor e assegurar-me de que estava só, tirei a combinação e entrei devagar na água fresca.
 
-Oh -suspirei em voz alta ao submergir-me na água até o pescoço. Lavei meu cabelo e me lavei o melhor que pude. Pensei em Danté jogada no bote na praia, acelerei meu banho. Ao sair do lago, a idéia de pôr-me a suja combinação me deu tanto asco que decidi lavá-la junto com minha roupa interior. Fazia tanto calor que estava segura de que teria a roupa quase seca antes de voltar à praia. Encontrei um grande pau de cana caído e oco por dentro graças aos insetos e o enchi de água.
 
Danté estava acordada e sentada no bote quando voltei. Sorriu ao ver meu cabelo molhado jogado para atrás e minha combinação úmida.
 
- parece que tomou banho.
 
Sorri-lhe, tentando me controlar por ver seu sorrisinho provocante.
 
-Sim. Encontrei um lago de água doce na selva e trouxe água para que bebas -lhe passei o pau, que pegou agradecida. Parou e olhou dentro do pau que lhe tinha dado-.Pode beber, vi uns pássaros bebendo primeiro e depois bebi eu. A água está boa, não te fará mal a tranqüilizei.
 
-Não, não é isso -disse e me olhou com a sobrancelha arqueada-. Pegou a água antes ou depois de lavar sua calcinha nesse lago? -perguntou.
 
Notei que minha mandíbula traicionera se abria e fiquei olhando-a sem acreditar no que havia escutado..
 
-Mas que mal agradecida...
 
Levantou as mãos como para proteger-se de meus golpes verbais e me lançou um sorriso autêntico, não o de zombaria de sempre.
 
-Desculpa, é que não consigo evitar , de deixar de te provocar tão facilmente -disse rindo. Depois levou o pau aos lábios e bebeu um bom trago.
 
Sorri enquanto engulia até a última gota de água. Quando terminou, esbocei meu próprio sorriso zombador, cheguei bem perto dela, olhei-a diretamente nos olhos e sussurrei:
 
-Peguei a água depois de lavar minha calcinha -lhe dei  um tapinha na cabeça e saí correndo pela praia, perseguida pelos insultos que Danté me dizia em francês.
 
Danté me deu uma trégua enquanto eu preparava o nosso jantar. Tinha pegado vários caranguejos azuis e depois de acender um novo fogo (desta vez só precisei de dois fósforos), tinha-os colocado sobre umas pedras quentes torrando-se ao fogo. Também tinha recolhido , mamões papaya e bananas. E para beber água de coco, era uma comida bastante suculenta.
 
-Escuta, Danté -. Já me desculpou? Não pensei até que já tinha me banhado e lavado minhas coisas. alem disso era um lago bastante grande.
 
Danté se reclinou no bote, com aspecto cansado.
 
-Ga...bri...elle, quero que saiba: curo-me muito depressa e quando estiver melhor, é melhor estar preparada porque vou fazer-te pagar por isso.
 
O sorriso que Danté tinha no rosto era malévolo e pela primeira vez lamentei minha decisão de dizer-lhe sobre a água. Tinha me metido em confusão e o pior era que eu sabia!
 
-Danté, quanto tempo mais demorarão para encontrar-nos?
 
-Não sei. A verdade, é que estou um pouco preocupada que não nos tenham encontrado ainda.
 
Fazia já três dias que tínhamos desembarcado nesta praia. A saúde de Danté estava melhorando e parecia estar recuperando a cor.
 
-Acha que hoje poderias caminhar um pouco depois do chamado da natureza?
 
Meus dias tinham consistido em acompanhar a Danté ao bosque para que fizesse suas necessidades e em encontrar comida e água. Era uma tarefa durísima que me deixava exausta ao final do dia. No entanto, impedia que me preocupasse pelo fato de que a estas alturas Danté e eu fazia mais de uma semana que tínhamos desaparecido e ainda não nos tinham encontrado. Eu tinha deixado de chamar pedindo ajuda enquanto procurava comida. Tinha chegado à conclusão de que estávamos sós naquela praia. Curiosamente, em lugar de assustar-me, isto me reconfortava. Não tinha nada que pudesse fazer-nos mal e no fundo estava convencida de que não demorariam em encontrar-nos.
 
Danté se virou para que lhe examinasse a ferida. Surpreendentemente, Danté me deixou que a examinasse sem protestar de dor. Olhei a ferida com assombro.
 
-Acredito realmente que se curas depressa -lhe disse por enésima vez.
 
Riu como sempre e a ajudei a sentar-se apoiada num dos bancos do bote.
 
-Escuta -exclamei,me ocorreu uma idéia-. Que acha de irmos até lago? Poderias beber toda a água que quisesses e não terias que depender de que eu te traga a água nesses paus. Além do mais -adicionei em tom de brincadeira-, não cairia mal se tomasse um banho -enruguei o nariz de propósito e tentei parecer modesta.
 
-Tá, vamos, já entendi. Ajuda-me a levantar, menina.
 
Pôra Danté de pé já não era tão difícil como no princípio. Uns dias de repouso com comida e água no estômago tinham ajudado a recuperar as forças. AJUDEI ela sair do bote, observei que desta vez só fez uma ligeira careta de dor, e a levei até as árvores devagar. O trajeto, que normalmente era de uns quinze minutos, hoje demoramos meia hora com um par de paragens para descansar. Danté suava abundantemente quando chegamos ao lago. Eu começava a lamentar minha idéia de traze-la até aqui teve que caminhar muito até chegarmos no lago.
 
-¡Oh, que ótimo! -exclamou ao olhar o lugar teriamos que descer um metro e meio . Como vou descer até lá?
 
-¡Ooh, que desgraça! -exclamei e depois me pus como um tomate quando Danté me olhou com uma sobrancelha arqueada. Sempre ouvi meu pai dizer isso e via minha mãe chamando sua atenção por amaldiçoar diante de nós. Não tinha se dado conta que Danté estava ferida. Eu sempre descia deslizando-me pela rocha quando vinha aqui para beber e banhar-me.
 
-Desculpa, Danté, não pensei, só pensei que te agradaria tomar um banho. Não me ocorreu que teríamos que descer até lá.
 
-Como encontrou este lugar? -perguntou Danté-. Eu nunca o teria encontrado mesmo que estivesse procurando.
 
-Pois... mm... tropecei com ele , tentando não dizer que na realidade tinha encontrado o lago ao cair de onde estamos agora,
-Mm-mm, deixa ver se eu adivinho. Encontrou este lugar do mesmo modo que nos conhecemos , não é ?
 
-Mm, sim . Vamos, acho que podemos descer por aqui.
 
Fiz Danté andar mais uns duzentos metros . O terreno tinha começado a baixar e por fim, com muito pouco esforço, consegui levar Danté até a água.
 
SENTEI-A na pequena faixa de areia que rodeava o lago e nós duas nos despimos a toda pressa. Estava tão emocionada que nem pensei que ia estar nua diante de minha amiga, de fato, quando já estava só de calcinha, me virei para ajudar Danté e vi que ela tinha feito o mesmo.
 
Meu Deus , que linda , gritou minha mente com tanta força que fiquei com medo de ter dito em voz alta, mas Danté não me olhou, então não disse nada. Danté tinha  soltado o cabelo e agora estava sentada só de calcinha com o longo cabelo negro ondeando ao vento. Ainda que Danté estivesse muito pálida e frágil pela ferida, dei-me conta de que era uma mulher muito forte. Os braços que rodeavam suas pernas dobradas pareciam muito fortes. Observei o movimentos dos músculos de seu estômago ao respirar.
 
-Gabby? -disse bruscamente. Vi que tinha a sobrancelha arqueada e me perguntei se alguma vez tinha me chamado assim. Estou pronta?
 
-Ah, sim, estou indo. Deixei que utilizasse meu ombro como apoio enquanto entrávamos na água.
 
-Ooh -suspirou ao entrar na água. A água estava um pouco fria no inicio. Mas logo nosso corpo se acostumou com a temperatura da água.
 
Quando estávamos no meio do lago, a água mal lhe chegava ao peito, mas a mim já me roçava o queixo.
 
-Se tivéssemos sabão -disse enquanto tentávamos banhar-nos o melhor que podíamos-. Venha, lavo-te o cabelo se vc lavar o meu . Sem esperar resposta, deu-me as costas, afundou o longo cabelo na água e voltou a tira-lo. Como não tínhamos sabão, limitei-me a passar as mãos pelo sedoso cabelo de Danté para desenbaraça-lo e tirar-lhe o suor.
 
Adorei lavar o cabelo de Danté. Não era só o tato de seu cabelo que me encantava, eram também os ruídos que fazia enquanto lhe massageava o couro cabeludo.
 
-Gostou? -lhe perguntei ao final de cinco minutos de massagem.
 
-Mmm-mmmm -foi o única coisa que me respondeu,
 
Esforcei-me para me controlar enquanto passava os dedos pelo cabelo de Danté. Senti um friozinho no estômago a primeira vez que ouvi os gemidos de prazer mal audíveis que emitia Danté. De repente, me deu uma vontade de beijá-la... beijar-lhe os ombros... beijar-lhe o corpo... beija-la toda.
 
Respirei fundo. Mas que demônios estou pensando...? Danté não sente isso por mim e eu não deveria sentir isso por ela... Continuei massajeando o cabelo de Danté enquanto deixava vagar meus pensamento repassando as circunstâncias que nos tinham levado a nossa atual situação. Recordei minha reação quando conheci Danté no barco e só de pensar nela começava a arder de raiva... ou era outra coisa que confundi com raiva? Perguntei-me como vou sobreviver quando ela lavar meu cabelo.
 
A ferida de Danté foi cicatrizando rapidamente, já andava sem necessidade de minha ajuda. Teve a idéia de fazer uma marca no bote por cada dia que estamos na ilha. Quando ia completar quase dois meses na ilha, Danté decidiu que devíamos ir para outro lugar mais para o interior da ilha. Danté tinha se dedicado a explorar a ilha enquanto eu escrevia em meus cadernos no bote. Foi ela na verdade que determinou que estávamos numa ilha, tava explicado por que não tínhamos visto ninguém desde que desembarcamos aqui.
 
Danté também tinha descoberto a nascente de onde vinha a água do lago que nos banhávamos. Danté estava entusiasmada com a nascente porque tinha essa mania de não se banhar na mesma água que bebia. Eu também estava entusiasmada por dentro com o ribeiro, mas não disse nada.
 
Tinha começado a fazer um calor insuportável na ilha. Danté me explicou que as árvores protegiam as zonas próximas da água dos raios de sol. De maneira que ali era bem mais fresco. Achou que devíamos ficar mais próximas da água e construir uma cabana.
 
-Mas Danté, e se aparecer um barco não vamos ver...? -inclusive depois de dois meses, eu ainda acreditava que nos encontrariam. Sabia que minha família não deixaria de procurar-me até que tivesse provas concludentes de que estávamos mortas.
 
-Já pensei nisso -.Vou colocar uma grande pilha de lenha ali, em cima daquelas rochas, e se virmos um barco, podemos acendê-la. E pensei em colocarmos o bote de pé na areia e colocamos um pedaço de meu vestido num pau, isso alertará alguém que nos esteja procurando, que acha de minha idéia?
 
Depois de pensar por um momento, concordei. Começava a fazer muito calor para ficar na praia sem proteção contra o sol. Além do mais, seria agradável não ter que caminhar quinze minutos só para tomar banho e beber água fresca.
 
-Bom, e onde vamos dormir? -perguntei com irritação. Não sei por que esta me propondo tantas dificuldades, mas eu estava de mau humor.
 
-Teremos que construir uma cabana. Há muitas árvores e coisas que poderíamos usar .
 
Danté enterrou quase toda a proa do bote na areia até que esteve segura de que o bote não ia cair com o vento. Fez o mesmo com o pau. Amarrou um pedaço grande de seu vestido no extremo do pau e logo me fez um gesto para que fossemos embora.
 
Eu ia a vários passos a trás de Dante, como sempre que íamos de excursão para procurar comida. Era a melhor forma que tinha de observá-la sem que ela me observasse . Ao que parece, Danté tinha uma veia pudica, enquanto eu a muito tempo tinha prescindido de meu vestido e passava os dias de combinação. Danté vestia o que restava de seu vestido como uma menina pequena que não largava de sua mantinha. Ainda mais curioso era o fato de que não se importava em tirar o vestido para nadar, mas quando terminava, voltava a pôr ele. Eu fingia cochilar nas rochas para poder observar Danté nadando nua na água.
 
Nossos corpos tinham sofrido certas mudanças desde que chegamos na ilha. Para recolher comida tinhamos que fazer muita força. Ela sempre foi mais forte, mas dava a impressão de que seu corpo ganhou mais músculos pelas coisas que tínhamos que fazer para sobreviver até que nos resgatassem. Provavelmente no princípio nossas famílias não nos reconheceriam. Danté e eu estávamos três vezes mais morenas que antes de chegar à ilha. Eu tinha emagrecido bastante e meu corpo se definiu  já não parecia tão menininha e o sol tinha clareou mais o meu cabelo, tinha o dobro de loiro que antes. Danté tinha o cabelo da mesma cor , mas o levava solto pelas costas ou numa longa trança que lhe chegava à cintura. Nenhuma das duas tínhamos que prender o cabelo desde que estamos na ilha, afinal de contas ali não tinha ninguém que pudesse escandalizar-se de ver nós duas. E pra mim me encantava ver Danté com o cabelo solto. As vezes pegava uma pequena flor silvestre e punha no cabelo ou fazia uma guirlanda para colocar na cabeça. Ela sorria e me olhava para ver o que eu achava, sabia que eu achava engraçado e ficava com as flores na cabeça até na hora de dormir. No entanto, sempre a advertia que estava fazendo muito calor na ilha, e ela seguia negando a tirar seu velho vestido.
 
Danté me levou até um lugar onde ficava poucos passos do ribeiro.
 
-Estava pensando -me mostrou um terreno bastante plano ao dos lados tinham duas árvores emormes-. é perto do ribeiro e do lago e não teremos problemas para ir a qualquer um dos dois -me olhou como se estivéssemos contemplando uma propriedade de primeira qualidade. Encolhi meus de ombros e disse:
 
-Pra mim está bom
 
-Muito bom -disse em tom apagado-. Vou procurar coisas para construir. Por que não vai escrever... ou desenhar ou algo? Voltarei logo..
 
-Não , quer que  eu vá  contigo? -perguntei-. Eu também posso trazer coisas.
 
-Não -se apressou a responder-. Não, não precisa. Volto logo e saiu   antes de que eu pudesse dizer mais alguma coisa.
 
Sentei-me à sombra da árvore mais próxima e peguei meus cadernos para escrever. Fiquei um momento olhando para a folha diante de mim, pensando nos meses que estavamos na ilha. Danté não tinha falado comigo do resgate nem uma só vez. De fato, se eu mencionava algo ao respeito, ela contestava o mais depressa possível e mudava de assunto. Ficava curiosa com o costume que tinha adquirido de adentrar-se só na selva. Não é que tivesse muito o que temer, mas quando regressava parecia mais calma e eu não conseguia imaginar por que precisava afastar-se desse modo.
 
Danté voltou uma hora mais tarde e como já tinha percebido, estava bem mais calma que antes. Trazia umas árvores pequenas para construir a estrutura de nossa cabana. Levantei-me num salto para ajudá-la e recebi um leve sorriso de alívio, que aceitei como agradecimento. Demoramos quase uma semana, mas por fim tínhamos uma cabana bastante resistente que agüentaria as rajadas de vento que as vezes açoitavam a ilha. Danté dizia que, a julgar pela riqueza da vegetação, não lhe surpreenderia que chovesse muito nos meses de inverno.
 
Não pensei que íamos ficar tanto tempo aqui. Danté me olhou e disse claro que não, mas não parecia convicta. Voltou à tarefa de enrolar as fortes lianas que tinha cortado de umas árvores.
 
Depois de cinco meses e meio de estadia na ilha já tínhamos uma rotina bem estabelecida. Acordávamos pela manhã e nadávamos no lago, lavando a pouca roupa que tinha restado. Danté saia a procura de fruta pela selva, coisa que fazia bem melhor do que a mim. Recordo que a primeira vez que a vi trepar numa árvore fiquei pedrificada. Simplesmente saltou na árvore o mais alto que pôde, depois colocou uma perna ao redor da árvore e usou a força para subir o resto. Deixava cair dois ou três cocos e depois descia mais depressa do que ao subir. Era assombroso, mas como sempre, para ela era algo normal.
 
Danté nunca deixava de me surpreender. Uma das muitas coisas que sabia fazer era pescar. Tinha conseguido fabricar uma rede de cipós que tinha aos montes pindurados pelo bosque. E quase todas as noites trazia um grande peixe ou uma lagosta. As vezes, trazia uma coisa especial, mergulhava para pegar algumas das grandes ostras que viviam no fundo do mar. Sempre se assegurava de que tivéssemos varias coisas para comermos e eu a agradecia. Foi depois de uma destas expedições de pesca que Danté voltou vestida diferente.
 
Tinha pegado o que restou  de seu vestido e o partiu em dois grandes quadrados. Um enrolou ao redor da cintura estilo sarong, deixando as longas pernas livres. O outro pedaço enrolou ao redor do peito. E assim saiu do bosque com alguns peixes. ¡Deus! pensei e afastei meu olhar rapidamente. Não sabia onde olhar. Estava tão formosa. Sua pele, como a minha, tinha-se bronzeado pelos efeitos do sol tropical, fazendo que seus olhos azuis destacassem ainda mais com sua pele morena. Seu cabelo, ainda que normalmente o levava numa trança que lhe caía pelas costas para evitar enganchar-se nas folhagens ao andar, estava agora solto e lhe chegava quase à cintura. Tinha a barriga plana como se tivessem esculpido em pedra. Tive que olhar ela de novo . Tive que respirar fundo para me acalmar.
 
-Te deixo incomodada? -me perguntou tão baixinho que quase não a ouvi.
 
-Eh? -perguntei, olhando para aqueles profundos olhos azuis.
 
-Te perguntei se ficou incomodada de como estou vestida.
 
-Mm, não, por que pensou isso, Danté? eu tenho estado correndo por aí praticamente só com minha roupa interior desde o dia que chegamos.
 
-Sim, mas isso é porque usaste teu vestido para fazer bandagens e para levar-me até a orla.
 
Tinha contado a Danté o horror de ter que nadar até a orla numa noite durante o jantar. Ficou sentada ouvindo enquanto lhe contava como tinha conseguido burlar ao mar.
 
-É que assim é bem mais fácil de pescar -me explicou-. E , também não  restava muito do vestido.
 
-Não me incomoda em  nada, Danté -me aproximei dela, pus-lhe a mão no braço e tirei de imediato como se me tivesse queimado-. Acho que está muito linda -lhe disse e inclusive consegui sorrir-lhe ligeiramente. Ela me sorriu e se pôs a limpar os peixes para cozinhá-los. Danté sempre limpava e preparava o peixe antes de trazê-lo ao acampamento. Dizia que usava as entranhas como isca, mas acho que o fazia porque a primeira vez que limpei uma de suas pescas, acabei vomitando. Prometi que não voltaria a passar mal, mas creio que não queria correr o risco.
 
Danté pegou o pau afiado que usávamos para colocar o pescado sobre o fogo para cozinhá-lo. Era uma das coisas que mais me agradava ver-lhe fazer. Disse-me que quando menina tinha lido num livro como se fazia. A mim tudo aquilo me resultava em passar mal.
 
Não muito depois de chegar à ilha, comecei a ficar sem fósforos. Disse a Danté que só restava três quando disse que lhe tinha ocorrido uma idéia. Perguntou-me se ainda tinha a velha lata de fumo que tinha usado para recolher água da chuva. Por algum motivo, tinha decidido ficar com a lata e dei a ela. Soltou uma exclamação de alegria ao ver que tinha uma tampa no fundo.
 
-Que vai fazer com ela? -perguntei.
 
-Vamos fazer fogo com ela - respondeu com seu sorriso zombador-. Observe e pasme -disse como um animador de circo a um grupo de meninos. Pegou-me a bolsa e pegou os fósforos que ficavam, umas tiras de meu velho vestido, a lata e a faca. Olhei-a com desagrado e ela me disse que não me preocupasse, que ter esta faca era o que nos permitiria sobreviver.
 
OLHEI-A totalmente pasmada enquanto fazia um buraco na tampa da lata de fumo. Depois pegou as tiras e as cortou em oito quadrados iguais e colocou no fundo da lata e depois a fechou com a tampa. Depois me disse que poderia ser nossa última fogueira se o que estava planejando não funcionasse. Colocou a lata na beira do fogo até que ficasse muito quente. Quando achou que já estava bastante quente, tirou a lata do fogo com dois paus.
 
-Temos que esperar que saia fumaça por acima.
 
concordei distraída. Não sabia a que esperar de tudo isto, mas Danté   estava se divertindo em me ver prestar atenção. Quando a lata esfriou, Danté a abriu e olhou dentro. Declarou que estava perfeito para o que precisávamos.
 
-E o que precisamos? -lhe perguntei com impaciência.
 
-Ahh, paciência, pequena. Primeiro precisamos de umas coisas. Quero que recolhas toda a erva seca e raminhos que encontre. Já volto, preciso de uma coisa mais.
 
-HEi, espera, onde vai? -lhe perguntei exasperada. Odiava as surpresas e ela sabia, estava-me deixando louca.
 
-Já o verás quando eu voltar .
 
Resmungando, fui a procura de erva seca e raminhos, que não eram fáceis de encontrar numa ilha tropical. Sem deixar de resmungar quando voltei, vi que Danté já tinha regressado e estava ajoelhada junto ao buraco de nossa fogueira. o fogo que tinha feito com um fósforo tinha apagado e agora só nos ficavam dois fósforos.
 
-Maldita seja -gritei-. Eu Deveria ter jogado lenha no fogo antes de ir.
 
Danté sorriu e me disse para não me preocupar: se não se equivocava, não precisaríamos desses dois últimos fósforos.
 
Fez-me pôr a erva seca e os raminhos no buraco que usávamos para nossas fogueiras e depois adicionou ao monte de pano. Pegou o carvão. Limitei-me a me perguntei em segredo se tinha perdido a cabeça. Explicou-me que enquanto nos assegurássemos de fazer sempre carvão, tudo irias bem. Danté pegou algumas pedras que evidentemente tinha trazido do ribeiro. Então, com a faca na outra mão, começou a golpear a faca em ângulo e fiquei pasmada ao ver que saíam chispas. AOS poucos minutos tínhamos um pequeno fogo que alimentamos com palitos secos até que se converteu num bom fogo. Olhei a minha amiga com a boca aberta.
 
-Como fez isso?
 
Lançou-me um de seus característicos sorrisos e respondeu:
 
-Sei fazer muitas coisas.
 
Não me recordo quando comecei a me sentir mal, me sentia cansada o tempo todo. Danté começou a notar que eu demorava para levantar e ficava sem fôlego tão facilmente ao nadar. Dizia para mim que estava ficando velha e que tinha que começar a fazer exercício ou não ia agüentar fazer mais nada. Fingia que me dava beliscões. Mas não tinha nada o que beliscar. Nenhuma das duas tinha uma só grama de gordura devido a nossa dieta e ao grande esforço necessário para sobreviver.
 
Não sei o que disse a Danté quando começou a doer para valer o meu corpo. Não queria assustá-la. Estava certa de que tinha tinha pegado algum tipo de vírus. Havia vários dias que dormia mal por causa das dores e a moléstia estava começando a assustar-me para valer. Ficava sem alento sem fazer nada e tinha uma dor de cabeça constante. Uma noite fiquei acorda perguntando-me se devia acordar Danté para dizer-lhe que me doía tudo, mas descobri que não me podia mover. Fechando os olhos, boiei entre os sonhos que me tinham atormentado desde que estávamos na ilha. Sonhos sobre a cara preocupada de meus pais, os homens responsáveis por deixar-nos à deriva, o rosto de Danté enquanto estava inerte no bote.
 
Em certo momento acreditei que ouvi uma bonita voz que me falava, reconfortando-me e refrescando-me. Ouvi a voz de Danté que me falava, rogando-me que voltasse e não a deixasse. Quis dizer-lhe que não queria ir, mas não pude estava muito cansada.
 
Voltei a sonhar uma vez mais. Imaginei que devia estar sonhando porque ouvia a Danté falando comigo. Isto era raro , mas num momento senti que também estava chorando e desde que tínhamos naufragado não a tinha visto chorar nenhuma só vez. Acordei e a encontrei com a cabeça sobre meu estômago, com o cabelo estendido em cima de meu corpo. Consegui agarrar uma mecha de seu cabelo e dar-lhe um suave puxão. Ela se sobressaltou e alçou os olhos avermelhados para olhar-me.
 
-Não chora -disse com voz áspera antes de que o esgotamento me fizesse dormir novamente.
 
Pouco a pouco notei que voltava à realidade. Com os olhos ainda fechados, escutei enquanto ela me falava. Não entendia as palavras, mas soava tão triste que quis consolá-la. Quase gemi quando um trapo frio me acariciou primeiro a testa e o pescoço ardentes. Depois os ombros e ao redor dos peitos e por fim foi baixando para meu estômago plano onde se deteve um momento. Inclusive em meu estado de debilidade notei a tensão do corpo de Danté enquanto se propunha dar-me um banho mais completo.
 
Aturdida, perguntei-me se devia deixar-lhe saber que estava acordada. Devagar, o trapo baixou por meu estômago, acima dos quadris e parou. Ouvi a respiração entrecortada de Danté. Por fim, respirou fundo e colocou o trapo frio sobre meu sexo, limpando a zona com delicadeza. Os delicados atendimentos de Danté me chegaram diretas ao centro. Gemi inconscientemente. Uns soluços apagados foram os que por fim me devolveram por completo à realidade. Ao abrir os olhos, vi a expressão de sofrimento de Danté enquanto contemplava meu corpo nu. Com surpreendente clareza, dei-me conta de como estava incomodada . Abri a boca para falar, mas antes de poder fazê-lo, cobriu-me às cegas com o destroçado chal até os ombros. Sem saber ainda que estava acordada, levantou-se e saiu correndo da cabana; Quis chamá-la, dizer-lhe que estava bem. Mas tinha a voz demasiado rouca para que me ouvisse. Frustrada, senti que me enchiam os olhos de lágrimas e me afundei uma vez mais no sono curativo.
 
Quando voltei a acordar, Danté estava ali. Sorriu-me quando abri os olhos, pondo-me o pano frio na testa. DEsta vez, quando me limpou o suor do corpo, evitou por completo minhas zonas inferiores.
 
-o que me aconteceu? -perguntei roucamente.
 
-Shh, não fale -me repreendeu suavemente-. Pelo que pude deduzir, teve uma espécie de pneumonia. Não estou certa, mas creio que tenhamos complicado as coisas com nossa alimentação.
 
-Mas comemos bem -disse asperamente.
 
-Que te disse de falar, Gabrielle? -perguntou Danté com severidade. Seguiu secando meu suor de meu corpo nu enquanto me explicava o que pensava-. Tem razão, comemos coisas saudáveis, mas é possível que não comamos tudo o que precisamos para manter-nos fortes. Para começar, não temos carne. Enquanto estava doente, tive tempo de pensar no que poderia substituir algumas das coisas que nos faltam em nossa dieta. Encontrei uns tubérculos parecidos com batatas e umas verduras que poderiam ajudar-nos muito. Fervi as verduras com as batatas e fiz uma sopa. Tenho-te dado o caldo desde que caíste doente e creio que ajudou -Danté me mostrou as ricas verduras e os feios tubérculos laranjas que ela chamava batatas doce. Assombrou-me que a sopa de Danté não me tivesse matado e digamos que tivesse ajudado a recuperar-me.
 
Mas me recuperei e com as novas verduras e batatas em nossa alimentação tínhamos mais energia. Durante minha convalescença, Danté foi muito atenciosa comigo. No entanto, à medida que eu melhorava, mais distância parecia precisar ficar de mim. Perguntei-me se algumas das coisas que recordava do que tinha feito e dito enquanto eu estava enferma não eram mais do que alucinações desejosas de uma mente febril.
 
Os dias se converteram em semanas e as semanas em meses. Ocupávamos os dias na interminável busca de comida e um refúgio melhor. Danté era excelente na hora de fornecer o necessário. Nenhuma das duas carecia de nada que comer ou beber, sempre tinha comida fresca na cabana e ela tinha se aficionado a pescar. Danté sempre estava adicionando coisas novas a nossa pequena choupana. A verdade é que já não se a podia considerar pequena. Tinha dividido a cabana em três grandes habitações, dois dormitórios e um espaço de estar com um pequeno buraco para uma fogueira de interior, além de várias janelas que se podiam fechar quando chovia. Senti-me desiludida quando construiu nossas habitações porque até então dormíamos juntas para ter calor. Sei que me agradava a intimidade de poder escrever sem preocupar-me de que ela pudesse vê-lo, dado que a maior parte do que escrevia era sobre ela. Nem Danté nem eu falávamos já de um resgate: era muito deprimente. Estávamos nesta ilha a um ano e quatro meses e treze dias e não tinha tido o menor sinal de um resgate.
 
Acontecia algo com Danté. Havia tempo que lhe passa algo, mas agora parece que lhe afeta mais. Sempre foi bem solitária e sempre tentei respeitar sua necessidade de estar só quando surge. Num momento dado estávamos rindo e caçoando a uma da outra e no momento seguinte me dizia que ia dar um passeio e desaparecia . Admito que ao princípio me sentia ferida mas ao final de um tempo nem me importava mais, não era mais do que Danté com suas coisas. E sempre voltava final de uma hora ou duas com algo especial para mim, como uma flor bonita ou uma concha ou uma pedra interessante ou um pouco de mel. Nunca lhe perguntava onde ia e ela nunca me dava informação.
 
Nos últimos cinco ou seis meses as excursões de Danté tinham aumentado de freqüência e de duração. Danté também tinha começado a ficar cada vez mais calada. Nunca tinha sido a melhor conversadora do mundo, em realidade era eu que costumava dominar nossas conversas, mas estava mais calada inclusive do que de costume. Bom, sempre que tinha uma oportunidade de lavar seu cabelo eu me apresentava. Mas tinha algo diferente, parecia distraída. Eu tinha atribuído que sentia falta de sua casa , quando sua habitual excursão de uma vez por semana aumentou a duas e depois a três.
 
Cometi o erro quando perguntei a Danté onde ia quase todos os dias e me respondeu com uma fúria inexplicável. Disse que eu era muito pegajosa e falava demais e que precisasse descansar de mim de vez em quando. A explosão foi tão inesperada e tão imerecida que no mesmo instante me encheram os olhos de lágrimas. Não vou mentir e dizer que Danté e eu não tivéssemos discutido anteriormente. De fato, discutíamos com bastante regularidade, ainda que só para variar um pouco nossa vida. Mas Danté nunca tinha me atacado verbalmente como neste dia agora.
 
Concordei, e sai de perto dela e fui para a minha parte da cabana antes de que Danté me visse chorar.
 
-Ga...bri...elle,me perdoa. Por favor, deixa-me que te explique -me chamou enquanto eu acelerava o passo. Entrei no meu quarto e fechei a porta. Era feita de paus de bambu atados com lianas. Recordo quando via Danté construindo as portas. OBSERVAVA seus músculos de seus braços se moviam ao ajustar e atar as lianas, entrelaçando com o bambu para que a porta encaixasse bem. Ainda que as portas não impediriam que alguém entrasse se realmente quisesse, tínhamos privacidade quando a queríamos.
 
OUVI- dizer um palavrão em francês quando ficou atrás de minha porta fechada.
 
-Gabrielle, por favor, deixa eu falar contigo. Quero desculpar-me.
 
-Não. Por que não vai dar seu passeio? De fato -abri a porta e lhe disse com raiva-, se tanto deseja estar só, tudo bem vou embora construo minha própria cabana? Assim não terás que me ouvir falar todo tempo. Que acha? -lhe perguntei com sarcasmo enquanto andava pelo meu quarto recolhendo meus escassos pertences, o qual levou uns segundos. Estava pronta para ir-. Sai, por favor -ordenei furiosa.
 
-Não -disse cortantemente.
 
-Por que não? -lhe perguntei com raiva.
 
- não -respondeu de novo cortantemente.
 
Decidi se não saísse eu passaria por cima dela. Sem levar em conta que Danté tinha que tinha 15,4 centímetros a mais do que eu, mas nesse momento estava muito furiosa para me preocupar com isso. Tentei passar pelo lado, mas ficou plantada teimosamente na porta bloqueando-me a saída.
 
-¡Sai da minha frente! - gritei enfurecida, empurrando-a pelo ombro. Estava tão furiosa e o única  coisa que eu queria era que saísse do meu caminho. queria sair dali para poder chorar em paz. Escorreu-me uma lágrima pela bochecha e a sequei com raiva-. Escuta, sua imbecil, estou fazendo o que quer, então saia de meu caminho. Não quero ficar mais contigo -sabia que estava me comportando como uma menina desagradável, mas estava muito  furiosa para me importar com isso.
Estava a ponto de perder os nervos. Decidi que ia a ajudar a Danté com todas minhas forças. Cheguei inclusive a baixar o ombro como um polícia a ponto de derrubar uma porta. GOLPEEI-A com força no peito, mas mal se moveu. Rodeou-me o corpo com seus longos braços e me levantou. As duas nos estampamos contra o solo. Ela aterrizou em cima de mim com um golpe.
 
-¡SOLTA-ME! -gritei, a ponto de que me desse um ataque. Sabia que se não me marchava depressa, me poria em ridículo ao jogar-me a chorar.
 
-Não -disse suavemente contra meu cabelo e eu me vim abaixo enquanto ela me tinha prisioneira entre seus braços. Estava tão absolutamente furiosa com ela que quase me alegrava de que me tivesse sujeitos os braços. Queria estrangulá-la por fazer-me dano e por fazer que me humilhasse adiante dela chorando.
 
-Maldita sejas. Por que não deixas que me marche? -solucei em seu ombro. Mal ouvi sua resposta porque tinha a cara afundada em meu pescoço.
 
-Porque não posso -em sua voz tinha tanta tristeza e dor que me senti mal pelo que lhe tinha dito. Segui soluçando durante séculos até que me sumi num sonho esgotado e inquieto nos braços reconfortantes de Danté.
 
Quando voltei a abrir os olhos, pegajosos e pesados, já era de noite. A esteira que tinha a meu lado ainda estava quente porque Danté tinha estado tombada nela. Não devia de ter-se ido fazia muito. Levantei-me torpemente, tentando livrar-me da dor de cabeça que me tinha entrado de tanto chorar.
 
Joguei a andar na direção que pensei que tinha tomado e muito cedo dei com seu rasto. Dirigia-se a uma parte da ilha na que eu nunca tinha estado. Tinha-me dito que tinha outro charco como a que tínhamos perto, mas isso era tudo. SEGUI-A durante quase meia hora. Surpreendentemente, não parecia dar-se conta de que fora por trás dela.
 
Esta noite tinha a cabeça em outro lado. Vereis, é que Danté e eu nos entretínhamos com um jogo no que tentávamos acercar-nos furtivamente e em segredo a uma à outra. Era um jogo tonto, mas na ilha não tinha muito que fazer salvo jogar, comer e dormir. Eu nunca conseguia surpreender a Danté, ainda que ela me pilhava muito com freqüência e então me fazia cócegas até quase eu fazer xixi na roupa. Então eu a xingava  em francês ao sair correndo para o matinho  para fazer minhas necessidades. Ela ficava ali atirada no solo rindo de mim.
 
Esta noite era evidente que tinha a mente em outras coisas, porque me dei conta, pela posição de seus ombros, de que não sabia que estava por trás dela e quis manter assim a situação.
 
Em alguma parte se ouvia uma cascata. Observei assombrada quando Danté se tirou a tela que lhe tampava os peitos. Ao pouco caiu a que lhe tampava os quadris. Enquanto, Danté seguia caminhando e ia deixando cair a roupa ao solo pelo caminho. Vi que se acercava à beira do que parecia ser um alcantilado, ficou ali parada um momento e depois, ante meu total horror, atirou-se pelo borde.
 
Tomei ar e fiquei ali paragem, paralisada pelo horror, e demorei uns segundos em conseguir que se me movessem os pés.
 
-¡Oh, Deus, oh, Deus, Danté, não!
 
Saí disparada depois dela . Justo quando cheguei ao borde, a cabeça de Danté emergiu no charco de embaixo. Me a fiquei olhando pasmada enquanto ela se jogava o cabelo para atrás e voltava a submergir-se no água.
 
Apartei-me do borde do alcantilado. Não queria que soubesse que a tinha seguido. De maneira que me joguei de bruços e atisbé pelo borde enquanto Danté nadava e jogava no água. Tinha uma pequena cascata que caía no charco de embaixo. O forte ruído do água provavelmente tinha impedido que Danté me ouvisse gritar-lhe quando se atirou pelo alcantilado.
 
Aqui é onde vens, Danté? pensei. Mas por que, por que aqui? Não faz sentido: podes nadar no charco que há cerca da choupana. Por que tens que vir tão longe para nadar? Joguei-me para atrás sobre o alcantilado até que só meus olhos assomaram pelo borde. Danté parecia ter terminado de nadar. Observei enquanto se transladava a um extremo pouco profundo do charco. Não via o que estava fazendo mas deu uns passos com o água até a cintura e se deteve. Esteve ali parada durante muitíssimo momento, com a cabeça gacha, e por como se moviam seus ombros me dei conta de que estava ofegando ou chorando.
 
Perguntei-me se se tinha feito dano. De repente, jogou a cabeça para atrás e vi parte de seu corpo. Com a mão esquerda se apertava e esfregava o peito, enquanto a direita estava sob o água, ao que parece fazendo o mesmo com suas zonas inferiores. OLHEI-A boquiabierta enquanto se esfregava e retorcia os mamilos e se fazia Deus sabe que embaixo do água.
 
Agora bem, eu não era tão inocente como para não saber o que estava fazendo. Quase toda minha educação sexual procedia de minha avó, quem depois de uns quantos ponches quentes estava mais do que disposta a falar de vários temas inapropriados para uma menina de quatorze anos. Também me colaba no estudo de meu pai e lia alguns de seus livros de medicina sobre anatomia humana. Bueno, a verdade é que não os lia tanto como olhava os desenhos. Recordei que o que mais me agradava eram os desenhos dos peitos femininos. E que pela primeira vez em minha jovem vida não me importou tanto tê-los. Os peitos de Danté eram ainda melhores que os desenhos dos livros de meu pai. Eram o dobro de grandes que os meus, com mamilos marrons escuros. OBSERVEI-A enquanto se esfregava o peito e não pude evitar perguntar-me como seria tocá-la com minhas próprias mãos.
 
Fiquei petrificada pelo que estava vendo, sentindo e pensando. Estava olhando boquiabierta enquanto Danté Courtier, que para mim era a mulher mais bela do mundo, estava num charco e... bom... tocava-se. Minha avó dizia que isto era algo próprio das classes baixas. O sexo era algo que ocorria entre um homem e uma mulher que estivessem casados e só quando tentavam conceber filhos. Um nunca devia tocar-se suas partes íntimas dessa forma. Ao menos isso era o que me dizia minha avó. Também me disse que tinha gente que queria estar com pessoas do mesmo sexo que eles. Disse que eram enfermos e que ainda que não tinha que os odiar, tinha que os meter em hospitais onde se lhes pudesse ajudar. Minha mãe dizia que minha avó se estava pondo senil com a idade, mas eu não pude evitar perguntar-me se se me devia meter num hospital. Agora mesmo estava desejando com todas minhas vontades não só tocar-me a mim mesma, senão também a Danté Courtier.
 
Os movimentos de Danté se iam fazendo cada vez mais frenéticos. Vi que tinha os olhos fechados e que movia os lábios. Amaldiçoei à cascata que me impedia ouvir o que dizia.
 
Desde minha atalaia acima dela, vi que o corpo de Danté se estremecia e depois se jogava para diante. Ficou no água quase cinco minutos enquanto se lhe acalmava a respiração. Vi que se banhava devagar como se estivesse atontada antes de sair do água.
 
Movia-se como se caminhasse através de um nevoeiro, quase como se não se encontrasse muito bem. Dominei as vontades de ir com ela. Sabia que me acercar a ela agora seria um desastre. A Danté não lhe agradaria nada não só que a tivesse seguido, senão que ademais tivesse visto o que tinha estado fazendo.
 
Sentou-se junto ao charco, contemplando o água com os braços ao redor das longas pernas. Era evidente que estava pensando seriamente em algo. Vi como esse rosto inexpresivo se estremecia de repente ante meus olhos. O corpo de Danté tremeu por um soluço que não consegui ouvir. Apoiou a cabeça nos joelhos, enquanto seu corpo se estremecia pela força de seus potentes soluços. Não me agradou nada ver chorar a Danté. Estava sofrendo muito e não me parecia que se devesse a nossa pequena discussão de antes. Morria-me de ir com ela, mas isso provavelmente destruiria a confiança que tínhamos conseguido. Tinha que confiar em que iria a mim se precisava falar. Apartei-me com cuidado do borde do alcantilado e regressei por onde tinha vindo.
 
Regressei à choupana sem problemas. Joguei-me, fechei os olhos e provei a fingir que estava dormida, assegurando-me de deixar aberta a porta com a esperança de que Danté voltasse para dormir a meu lado. Pus-me de custado e a esperei. Como uma hora mais tarde senti mais do que ouvi do que entrava na choupana. Deteve-se na porta de minha habitação e ficou olhando-me as costas uns minutos. Morria-me de falar com ela, mas queria dar-lhe espaço se o precisava. Ficou em minha porta durante o que me pareceram horas até que por fim se apartou e entrou em sua própria habitação. Danté, por que não podes falar comigo? perguntei-me.
 
Fiquei tombada, reflexionando durante horas sobre minha morena amiga e o que tinha visto. Fora o que fosse o que reconcomía a Danté, estava-lhe causando muita dor e a não ser que falasse comigo, eu não podia fazer nada para ajudá-la. Ouvi a respiração acompasada de Danté e eu também tentei dormir um pouco. No entanto, demorei muito em ficar-me dormida e quando por fim o consegui, tive sonhos incoerentes nos que Danté me rogava que a ajudasse.
 
À manhã seguinte me custou levantar-me. Bueno, reconheço que sempre me custava levantar-me, mas este dia foi pior do que de costume. Por fim consegui levantar-me de meu estera e peguei dois plátanos do racimo que evidentemente Danté tinha pendurado na parede da choça enquanto eu dormia. Sempre fazia coisas assim. Detive-me de repente, quando já me tinha comido a metade do segundo plátano. Caí então na conta de que nunca lhe tinha dado as graças por cuidar tão bem das duas. Não era só que sempre recolhia comida em abundância para as duas, senão que ademais tinha pequenos detalhes como procurar amêijoas e ovos de tartaruga como presentes especiais quando não me os esperava.
 
As vezes também se subia a uma árvore monstruosa para trazer-me mel de uma colmeia imensa que tinha ali como presente. Uma vez a vi preparar-se para trepar à árvore, assombrada de que fora a fazê-lo sequer. Danté se atou uma forte liana a um tornozelo e depois, depois de passá-la ao redor do tronco da árvore, se a atou ao outro tornozelo. Fez o mesmo com as mãos. Depois saltou e a base de pura força, foi arrastando o corpo árvore acima. Seus pés rodeavam a árvore com cada puxão e suas coxas não deixavam de aferrarse à áspera crosta. Inocentemente, pensei que devia de ter as coxas muito fortes e depois notei que me punha colorada de vergonha. O calor parecia acumular-se em minhas próprias coxas. Para quando consegui controlar-me, Danté tinha voltado com o bocado de colmeia. XINGUEI-A enquanto devorava minha guloseima por ser tão insensata.
 
-E se te cais? Ou se te picam as abelhas, Danté?
 
Como resposta, sorriu com suficiência e se encolheu de ombros. Por suposto, eu sempre lhe oferecia um pouco de mel. Ela sempre dizia que não, já que sabia que era o que mais me agradava.
 
Sempre tinha pensado que nesta ilha éramos iguais, ainda que Danté era agora a que mais se dedicava ao acopio de comida. Era mais porque lhe divertia do que por outro motivo. Durante nossas primeiras semanas na ilha meu trabalho tinha sido não só recolher alimentos, senão ademais cozinhar e ocupar-me da ferida de Danté. Quando Danté se pôs melhor, encantava-lhe explorar a ilha. Quando já levávamos ali seis meses, conhecia-se a ilha do direito e do revés. Era um lugar bastante pequeno: podia-se percorrer de um extremo ao outro em menos de três horas.
 
Fiquei sentada em meu estera fingindo escrever enquanto pensava no que ia dizer-lhe quando voltasse. Sabia que não podia pensar sequer em sacar o tema do que tinha visto. O que me preocupava era por que tinha estado chorando e se tinha algo, aparte de estar abandonadas nesta ilha, que a estivesse inquietando. De repente se me ocorreu que talvez eu estava fazendo algo que molestava a Danté. Talvez estava farta de estar comigo. Eu desfrutava muitíssimo com a companhia e a conversa de Danté, por escassa que fosse esta última, e tinha dado por suposto que ela sentia o mesmo com respeito a mim.
 
Estaria tirando-a do sério? Tinha dito que era demasiado pegajosa e tocona. Era verdadeiro? Pensei nos momentos em que falávamos. Não podia evitar pôr-lhe o braço na perna ou em seu próprio braço quando falava com ela. Isto é, era tão calada que queria assegurar-me de que estava prestando atendimento. Com freqüência lhe estava contando a Danté uma história ou falando-lhe disto ou o outro e me dava conta de que estava sentada muito rígida. Então continuava com o que estava dizendo, mas lhe esfregava as costas ou lhe dava uma massagem nos ombros.
 
Oh, deuses, pensei. Sim que sou tocona e pegajosa. Fiquei ali com a boca aberta tentando não me jogar a chorar. Já sabia que falava demasiado, mãe sempre dizia que essa era a razão de que estivesse sempre com a boca aberta. Se queria pôr-me a falar de algo, já partia com vantagem.
 
Deixei a um lado meu caderno. Apontar estes pensamentos em meus cadernos era doloroso como pouco. Saí da choupana pensando se devia ou não tentar encontrar a Danté. Algo me dizia que precisava estar só um momento.
 
Passei o resto do dia limpando nossa choupana e tecendo esteras novas para que Danté e eu pudéssemos dormir nelas. Para o anoitecer fui aos lugares onde mais lhe agradava pescar a Danté para atrapar o jantar. Peguei suficiente para as duas e também recolhi um pouco de fruta. Esperei a Danté, mas não regressou. Cozinhei o pescado e me o comi. Pus a fruta no rincão da choupana por se chegava mais tarde e fiquei dormida chorando.
 
À manhã seguinte seguia sem ter sinais de Danté. Não parecia que se tivesse acercado sequer à choupana. Pensei em voltar à cascata para assegurar-me de que estava bem, mas decidi que não, imaginando-me já o confronto. Comecei a enfadar-me com Danté por não vir a casa. Até agora sempre tínhamos sido capazes de perdoar-nos mutuamente. Como podíamos superar isto se se negava a falar comigo? O dia foi avançando e eu me ocupei de minhas tarefas, tratando de estar o mais perto possível do acampamento por se regressava Danté. Não o fez. À manhã seguinte, decidi construir um refúgio ao outro lado do ribeiro. Era justo que Danté ficasse com este, dado que esta choupana praticamente a tinha construído ela só.
 
Demorei todo o dia em construir uma pequena choupana num claro adequado ao outro lado do ribeiro longe de Danté. Se tínhamos cuidado, não teríamos que nos ver muito. A idéia de que Danté não quisesse ver-me nunca me fazia dano. Jogava muitíssimo de menos sua presença calada e forte e não estava enfadada com ela. Só desejava que me dissesse que tinha feito para molestá-la tanto que não queria voltar a casa.
 
Começava a escurecer na ilha e Danté não tinha regressado ainda. Por fim transladei todas minhas coisas a meu novo alojamento. Decidi ir à praia para ver se Danté estava ali. Queria dizer-lhe que o compreendia e que já podia voltar a casa, agora que me tinha ido. Também queria assegurar-me de que estava bem.
 
Divisei a Danté, totalmente nua, de costas a mim num grupo de rochas que avançavam pela praia até desaparecer no mar. Tinha as costas retas como um pau, com os olhos fincados no horizonte contemplando algo que eu não via. Decidi abandonar minha carreira de espiã de Danté e comunicar-lhe que estava ali.
 
-Danté?
 
Girou-se sobressaltada.
 
-Que fazes aqui? -tinha a voz mais grave do que de costume e rouca pela falta de uso. Se me encolheu o estômago ao dar-me conta de que tinha estado chorando outra vez.
 
-Procurar-te -lhe disse com sinceridade. Trepei à pequena formação de rochas e me sentei a seu lado. Imediatamente se atou à cintura o sarong sobre o que tinha estado sentada. Suponho que tinha decidido prescindir da parte de acima porque voltou a contemplar o oceano. Como a sereia que tinha a bordo do Statendam, o longo cabelo de Danté ocultava seus atributos a meus olhos curiosos. Tinha começado a chover ligeiramente; ela não parecia notá-lo sequer.
 
-Onde tens estado? -lhe perguntei vacilante.
 
-Nesta maldita ilha, onde demônios ia estar se não, Gabrielle?
 
Fiquei sentada com ela um momento, tratando de pensar numa forma para fazer que Danté falasse comigo sem que se enfadasse ainda mais. Seu longo cabelo escuro lhe tampava a cara e tinha as costas tesas como um pau.
 
-Por que estás aqui, Gabrielle? -voltou a perguntar cansada.
 
-Estava preocupada por ti, Danté. Queria assegurar-me de que estavas bem -por costume, pus a mão nas costas nuas de Danté para fincar pé no que dizia. O corpo de Danté colou uma chacoalhada como se lhe tivesse feito dano. Levantou-se de um salto.
 
-Não me toques -gritou-. Por que demônios não controlas essas malditas mãos?
 
Senti uma dor tangível no peito ante as palavras de Danté. Abri e fechei a boca várias vezes; não podia respirar.
 
-¡Muito bem! -lhe gritei a minha vez-. Só queria dizer-te que não posso viver assim. Já não me falas, não vieste a casa, tens-me estado gritando e dizendo coisas... -se me estavam enchendo os olhos de lágrimas-, ...me tens estado dizendo coisas muito dolorosas. Vou-me, Danté -lhe disse com resignação-. Construí um refúgio ao outro lado do ribeiro. Ultimamente tens estado muito mau e o pagaste comigo. Não quero estar contigo enquanto estejas assim... dói-me demasiado -terminei sinceramente.
 
Esperei a que dissesse algo, qualquer coisa, mas voltou a contemplar o mar. De maneira que me levantei das rochas, agradecendo que a chuva talvez estivesse conseguindo dismular as lágrimas que já não podia conter.
 
-Já nos veremos, Danté, vale? -disse suavemente, sem esperar resposta e sem recebê-la. Baixei de um salto das rochas e joguei a andar praia acima, decidida a não olhar atrás enquanto a cálida chuva tropical caía sobre minha cabeça.
 
Soltei o soluço que tinha ameaçado com irromper nas rochas. Sentia que se me tinha rompido o coração. Eu a queria tanto e era como se ela já não suportasse estar comigo. Sentia-me como se alguém me tivesse enchido o peito e a garganta de algodão; era insuportável.
 
Seguí caminhando pela praia em penumbra, com a esperança de que a suave chuva conseguisse levar-se esta dor.
 
-¡Ga...bri...elle! -o grito foi quase primitivo, exigindo que me desse a volta.
 
Ao que parece Danté me tinha seguido. Parecia uma força da natureza, com o cabelo ondeando ao redor de sua cabeça como se tivesse vida própria. Com tão só o sarong atado à cintura estava absolutamente... pavorosa.
 
Voltei-me e joguei a correr. Não sei se joguei a correr porque tinha medo de que me visse chorar ou porque tinha medo dessa mulher selvagem que tinha detrás. Só sabia que se me atingia não teria força suficiente para deixá-la. Também sabia que já era hora de que reconhecesse certas verdades, ainda que só fora ante mim mesma.
 
Estava apaixonada dela. Tinha-o estado desde o dia do baile. Era parte do motivo de que sentisse que devia viver afastada dela: se chegava a averiguá-lo, me odiaria. Deus meu, talvez já o sabe. Talvez por isso se tem estado comportando assim.
 
De repente me atraparam por detrás e caí à areia.
 
-Por favor -disse Danté com a voz rouca.
 
Joguei-me a chorar. Esta vez não pude contê-lo e fiquei inerte entre os fortes braços de Danté que me tinham prisioneira por segunda vez em outros tantos dias. Soltou-me as pernas e tentei escabullirme para atrás. Precisava um pouco de espaço entre as duas. Danté deveu de pensar que tratava de escapar dela outra vez porque voltou a lançar-se, derrubando-me de costas.
 
Lutei com ela um momento, mas não demorou em dominar-me, sujeitando-me a mão com força acima de minha cabeça.
 
-Por favor -soluçou.
 
Fiquei paralisada. Danté estava tombada em cima de mim, com o cabelo pendurando a meu arredor. Notei que seu estômago musculoso estava colado ao meu e se movia entrecortadamente enquanto Danté soluçava e tentava recuperar o alento ao mesmo tempo. Notei que seu coração palpitava com força contra seu peito.
 
-O... sento... tanto... por favor -sussurrou. Seus olhos me rogavam que compreendesse o que não parecia capaz de dizer.
 
Fiquei embaixo dela, soluçando em silêncio.
 
-Não chores, sento-o tanto -sussurrou, apartando-me o cabelo da cara-. Sento tanto ter-te feito dano. Por favor, não me deixes -rogou agoniada e depois baixou a cabeça e me beijou desesperada mas suavemente nos lábios. O beijo foi tão suave que temi mover-me por medo a que desaparecesse. Fiquei ali embaixo dela, atônita. De repente, cobrei consciência de tudo... intensamente.
 
As longas e fortes pernas de Danté estavam entre as minhas. Minha deteriorada combinação não só se me tinha subido até a cintura senão que estava completamente empapada. A pelvis e os quadris de Danté estavam firmemente coladas a minhas partes mais íntimas. Era maravilhoso. Danté murmurava suavemente em francês. As únicas palavras que entendia eram meu nome e por favor. Ainda que contava com um extenso vocabulário malsonante em francês, até agora nunca tinha ouvido estas palavras sussurradas contra meu pescoço seguidas de dulcísimos beijos.
 
As mãos que um momento antes me tinham presa agora me acariciavam a boneca delicadamente. Por fim os lábios de Danté voltaram a cobrir minha boca com toda a suavidade do mundo, permitindo-me apartá-la se queria. Não quis. Não pude evitar o gemido que saiu de minha garganta enquanto Danté seguia beijando-me suavemente e acariciando-me a boneca com as mãos. Seu corpo se estremeceu sobre o meu e soltou minha boca com um ofego.
 
Danté se jogou para atrás o cabelo molhado e pela primeira vez lhe pude ver a cara. Parecia agoniada. Em seus olhos tinha a mesma expressão de anseio e fome que recordava do baile. Parecia ter ocorrido fazia uma vida.
 
Contemplei aqueles olhos famintos durante uma eternidade até que voltou a tomar minha boca com a sua. Esta vez me abriu a boca com a sua: sua língua fazia coisas maravilhosas com a minha. Não pude evitá-lo: voltei a gemer no mais profundo de minha garganta.
 
Isto causou a mesma reação em Danté que antes: seu corpo se estremeceu e ofegou em minha boca. As mãos que sujeitavam as minhas acima de minha cabeça me soltaram e baixaram suavemente por meu corpo, detendo-se para acariciar meus mamilos duros e eretos através da tela quase transparente de minha combinação de algodão. Estremeci-me de prazer quando seus dedos quentes roçaram delicadamente meus mamilos.
 
Suas mãos seguiram baixando por meu corpo até que chegou a meus quadris nus. Deteve-se ali, acariciando-me os quadris, instando-me delicadamente a que me apertasse mais contra ela. Cedi a meus próprios desejos e me apertei contra seu montículo impaciente. Deixou de beijar-me e ofegou em meu pescoço ao mesmo tempo em que um forte estremecimento voltava a sacudir-lhe o corpo. A mão que me acariciava e tocava o quadril esquerdo se acercou ao nodo que mantinha fechado seu sarong empapado pela chuva.
 
Fui ajudá-la com o nodo, cobrindo sua mão com a minha, o qual fez que se detivesse em seco tomando ar com força. Pensando que talvez tinha feito algo mau, eu também fiquei paralisada, deixando minha pequena mão sobre a sua, bem mais grande. Fechei os olhos, temerosa de ter cometido um erro sem sabê-lo. Ela estava suspendida em cima de mim, com um braço rígido junto a meu ombro, enquanto a outra mão agarrava o nodo do sarong. Ficou assim paralisada um momento e depois ouvi sua voz que me dizia:
 
-Por favor, Gabby... Por favor... -se lhe quebrou a voz e me dei conta de que não tinha entendido que eu tentava ajudá-la a tirar-se a roupa.
 
Apartei minha mão da sua e lhe acariciei um lado da cara e depois o sedoso e molhado cabelo negro. Atirei dela para mim para outro beijo que nos deixou às duas trémulas e sem alento. Danté apoiou a cabeça junto à minha sobre a areia compacta e molhada. Sua respiração jadeante me acariciava a orelha cálidamente.
 
-Por favor... -voltou a rogar sem vergonha.
 
O rogo foi tão suave que quase não o ouvi pelo ruído das ondas ao despedaçar-se e o delicado golpeteo da chuva sobre a areia compacta e endurecida.
 
Peguei-lhe a mano direita, apertei-a com suavidade e a coloquei sobre o nodo. Depois levantei a mão até suas costas, suave e empapada de chuva, e por fim até sua nuca, onde esfreguei delicadamente o músculo tenso e rígido que encontrei ali. Voltei a cabeça e lhe sussurrei ao ouvido:
 
-Está... está bem... está bem, amor.
 
Notei que Danté se ocupava do nodo frouxo que lhe sujeitava o sarong e depois se alçou para tirar rapidamente o pano de entre as duas. Deteve-se rigidamente acima de mim, olhando-me aos olhos. OLHEI-A aos olhos muito abertos e ligeiramente aturdidos e repeti:
 
-Está bem.
 
Vi que fechava os olhos e se situava entre minhas pernas. Danté subiu por meu corpo até que nossos sexos se apertaram intimamente o um contra o outro... Era maravilhoso... As duas soltamos um gemido simultâneo e ficamos quietas. Fiquei embaixo de Danté, rodeando seu corpo com os braços e as pernas e acercando-a tudo o possível a meu próprio corpo. Ela tremia sem parar como se tivesse frio. Alçou-se e meteu uma mão entre nossos corpos. Separou os lábios de seu sexo e voltou a jogar-se em cima de mim. Senti que seu clítoris se esfregava contra o meu.
 
Era totalmente consciente da cálida agitação da parte inferior de meu estômago, bem como da umidade sedosa que se deslizava entre nossos corpos.
 
Danté começou a mover os quadris devagar: nada existia salvo o prazer que me estava dando. Cada vez que se apertava contra mim, sentia que se lhe estremeciam os quadris e fechei os olhos com força. Não queria que esta sensação terminasse nunca. Era vagamente consciente de meus próprios gemidos e quejidos ásperos, mas não me importava. Não tinha ninguém mais do que pudesse ouvir-me e ademais, não teria podido evitá-lo ainda que tivesse querido.
 
Comecei a empurrar contra Danté ao mesmo tempo em que ela empurrava contra minha umidade. Notei que o cabelo que cobria nossos sexos se enredava e a sensação de pele contra pele ao abrir mais as pernas para do que pudesse atingir-me melhor. Gemeu em voz alta enquanto seus quadris seguiam tremendo antes de cada investida, quase como se tentasse controlar a quantidade de pressão à que me submetia. Minhas mãos, que lhe tinham estado acariciando as costas, começaram a baixar para seu traseiro. Agarrei as firmes nádegas de Danté com as mãos e se as apertei e acariciei enquanto ela seguia empurrando suavemente contra mim. Era maravilhoso mas me dei conta de que Danté se estava controlando. Não sabia se tinha medo por mim ou por ela mesma mas eu não estava disposta a isso. Tinha-me apaixonado da força calma e a paixão que eram Danté Courtier e isso era o que queria. Ofeguei ao sentir que me acercava à cume de uma cume que não sabia que tinha estado subindo. Por instinto apertei as nádegas de Danté com as mãos e com todas minhas forças atirei bruscamente dela para mim ao mesmo tempo em que me apertava bruscamente contra ela. Jogou a cabeça para atrás e gritou meu nome. As duas caímos juntas pelo precipício e nos submergimos num mundo de prazer palpitante. Fechei os olhos com a intenção de descansar um momento.
 
Acordei-me e fui tocar a Danté e descobri que a meu lado só estava meu estera de erva vazia. Acordei-me inesperadamente e olhei confusa a meu arredor. Estava jogada nua em minha parte da choupana... só: a porta privada estava fechada. Deixei cair a cabeça e as lágrimas me correram pela cara. Tinha sido um sonho? Parecia tão real. Ainda podia ouvir a Danté gritando meu nome, ao desaprumar-se em cima de mim depois do orgasmo. Parecia tão real.
 
-Ga...bri...elle, que te passa? Por que choras? Te fiz dano ontem à noite?
 
Estava tão desolada que não tinha notado que Danté tinha aberto a porta privada.
 
Olhei aos preocupados olhos azuis de minha bela amante quando se ajoelhou a meu lado. Danté trazia uma grande bandeja feita a mão cheia de todas as frutas que oferecia a ilha, além de três tipos diferentes de pescado. Os manjares estavam pulcramente colocados sobre um gordo bocado de crosta que Danté tinha limpado e alisado. Na outra mão levava três dessas grandes flores tropicais de bonitas cores cujo fragrante aroma tinha sido em parte responsável de que acabássemos nesta ilha.
 
-Eu... eu... -a olhei sem saber que dizer. Estava total, inescusável e gloriosamente nua. Era evidente que se tinha dado um banho, pois seu longo cabelo recém lavagem reluzia solto até sua cintura.
 
-Gabrielle, te fiz dano? -voltou a perguntar, deixando rapidamente a comida e as flores e inclinando-se sobre mim.
 
Disse que não com a cabeça.
 
-Como cheguei aqui? -lhe perguntei, ainda temerosa.
 
-Te trouxe eu. Ainda chovia quando me acordei e ainda que fazia calor, pensei que estaríamos mais cômodas em casa -sua voz seguia soando preocupada assim que pensei que lhe devia uma explicação.
 
-Ao acordar-me cri tinha sido um sonho -lhe disse vacilante.
 
Sorriu-me comprensivamente e depois olhou meu corpo nu com timidez e disse caçoando:
 
-Ao acordar-me esta manhã, eu também me perguntei se parte disto tinha sido um sonho, mas depois te cheirei em meu corpo e soube que era real.
 
Me sonrojé profundamente ante isto e apartei a mirada.
 
-Tens fome? -perguntou. Seguia sorrindo com timidez.
 
-Sim -lhe contestei, sorrindo levemente a minha vez-. Isto é precioso, Danté, não tinhas por que fazer tudo isto -lhe disse enquanto me incorporava, perdendo todo sentido do pudor ao ter a comida diante.
 
Os olhos de Danté se posaram ao instante em meus peitos, carraspeó e disse:
 
-Foi um prazer -em tom de apreço.
 
-Queres um pouco? -lhe perguntei provocativamente, pondo-lhe um pouco de fruta nos lábios.
 
-Mmm -o aceitou e depois mexeu a cabeça-. Mas come-te tu o resto, peguei-o para ti.
 
Assenti e devorei toda contenta a bandeja inteira de comida enquanto ela olhava e me tomava o cabelo dizendo que esperava que fora suficiente. Disse-lhe com altivez que bastaria por agora. Ela se jogou a rir. Enquanto ríamos e nos tomávamos o cabelo mutuamente, fiquei maravillada ante o sorriso que não parava de aparecer na cara de Danté. Era como se fosse uma pessoa diferente. Tinha visto um pouco de esta Danté no barco. Era como se esta pessoa alegre e despreocupada tivesse desaparecido pouco a pouco quando naufragamos. Jurei-me perguntar-se em outro momento. Agora mesmo só queria desfrutar disso enquanto pudesse.
 
Depois de meter-me o último bocado de fruta na boca, joguei-me para diante e beijei suavemente a Danté nos lábios. Sussurrei timidamente:
 
-Graças por ser tão encantadora.
 
Sorriu-me e juro que se ruborizó, mas não estou segura porque tem a pele muito morena. Agachou a cabeça e seus dedos brincaram com os bocados soltos de cordel de meu estera.
 
-De nada -disse baixinho, com um ligeiro sorriso ainda nos lábios.
 
Decidi deixar de atormentá-la e me levantei para esticar-me.
 
-Vou lavar -olhei a minha amiga, que estava olhando meu corpo sem disimulos desde o solo-. Queres vir fazer-me companhia?
 
Assentiu e a ajudei a levantar-se. Não pela primeira vez amaldiçoei minhas curtas pernas quando atirei de Danté e ela me dominou com sua altura. Olhou-me acariciando-me os lados dos ombros e os braços musculosos.
 
-Não sabes o tormento que chegou a ser teu corpo no último ano -sussurrou, agarrando-me o queixo e levantando-me para beijar-me.
 
-Eu poderia dizer o mesmo de ti, carinho meu -a olhei devagar, pensando que me estava comportando como fresca lasciva e super feliz por isso-. Eu também notei teu corpo. Creio que viver aqui foi bom para nós.
 
Assentiu e se inclinou para dar-me outro beijo. Passaram uns minutos até que as duas tivemos que tomar ar.
 
-Oh, Deus, carinho, temos que parar. Preciso dar-me um banho.
 
Ela sorriu e me conduziu desde nossa casa até o charco. Meti-me no água fresca e ela se acomodou numa rocha para bater um papo comigo. Isto era algo que tínhamos fato muitas vezes desde que estávamos na ilha. Dei-me conta então de que sempre tinha sido eu a que estava nessa mesma rocha esforçando-me por não olhar a Danté enquanto se lavava o corpo. Falava-lhe de tudo o que se me ocorria e ela sempre me contestava com o menor número de palavras possível.
 
-Gabby.
 
Estava tão enfrascada falando que quase não a ouvi.
 
-Sim, Danté? -me voltei no água para olhá-la e adverti que tinha uma expressão muito séria.
 
-Eu... temos que falar -disse com seriedade.
 
Arrependeu-se, gritou meu cérebro.
 
-Vale, Danté, já quase terminei.
 
Saí do charco escorrendo-me o água do cabelo loiro que me chegava até a cintura. Na ilha sempre fazia calor, de maneira que Danté e eu quase sempre nos secávamos ao ar, sobretudo porque não tínhamos toalhas.
 
Olhou-me enquanto saía do água. Seus olhos absorviam meu corpo inteiro que chorreaba água. Deu-me um tombo o estômago quando apartou rapidamente a mirada ao acercar-me a ela.
 
-Danté ocorre algo? -lhe perguntei. Ouvi o medo em minha própria voz e ao que parece ela também porque se levantou rapidamente e me estreitou num cálido abraço.
 
-Não, carinho, tudo está perfeito, é só que se sigo olhando-te, não conseguirei soltar o que tenho que te dizer. És tão preciosa -me repetiu e me beijou suavemente na boca, sem deixar de apertar meu corpo contra o seu.
 
Foi um beijo tão acalorado que quando por fim nos separamos, eu estava sem alento.
 
-Mm... já vejo a que te referes -lhe disse.
 
Olhou-me um momento e depois jogou a cabeça para atrás e começou a rir-se. Encantava-me vê-la fazer isso. Essa era minha nova meta na vida: fazer chorar de riso a Danté Courtier pelo menos uma vez ao dia durante o resto de nossas vidas.
 
-Tomada, queres pôr-te isto enquanto se seca tua combinação? -perguntou. Deu-me o pano que normalmente levava enrolado ao redor do peito.
 
-Vá, Danté, assim que hoje vamos ir com o peito ao ar? -lhe perguntei desvergonzadamente.
 
E ela sorriu e me jogou uma mirada travessa.
 
-De todas formas isso é o que costumo fazer quando não estou no acampamento.
 
-Já sabia eu que me estava perdendo algo com essas excursões tuas.
 
Olhou-me com um sorriso e me sonrojé ao recordar o que tinha passado a única vez que decidi seguí-la. Ela me olhava com uma sonrisita curiosa.
 
-Vamos, deixa que te ate isto, pequena, e depois me agradaria que viesses comigo.
 
Decidi que me agradava a sensação da tela ao redor da cintura e a liberdade dos peitos. Danté e eu caminhamos devagar pelo bosque. Sentia-me encantada porque me levava pegada da mão. Antes era eu a que sempre tinha que iniciar o contato com ela. Agora parecia mais do que disposta a pegar-me da mão enquanto caminhávamos. Estava tão absorta neste singelo prazer que não me dei conta de onde me levava. Só quando ouvi o ruído da cascata, detive-me por fim.
 
-Danté, tenho que...
 
-Shhh, por favor. Quero compartilhar umas coisas contigo. Não sou muito faladora. Me agradaria dizer-te o que sento agora -sacudiu a cabeça e fechou os olhos-. O que quero dizer é que quero dizer-te o que estou sentindo. O que levo sentindo desde faz já tempo. Preciso explicar-te por que sou como sou.
 
-Danté, não tens que...
 
Voltou a fazer-me calar apertando um dedo sobre meus lábios.
 
-Por favor, pequena, me agradaria fazer isto a minha maneira -me olhou até que assenti para dizer-lhe que o compreendia e depois me levou à beira do alcantilado, onde as duas deixamos cair nossos sarongs-. Lista? -perguntou. Assenti e as duas saltamos pelo borde com um grito.
 
Saí à superfície ofegando.
 
-Aaaaaggggggg. Que fria está o água, Danté.
 
Danté me agarrou pela cintura e me levantou pelo ar. Tinha um enorme sorriso na cara. Nadamos durante uma hora. Sobretudo nos dedicamos a jogar a quem podia excitar mais rápido a quem, até que Danté pôs fim a esse jogo em concreto.
 
Conduziu-me fora do água e as duas nos desaprumamos no solo para descansar. Esta zona estava coberta de flores silvestres que davam um aroma maravilhoso. Devi de adormilarme um momento, porque quando me acordei vi que Danté estava agora sentada. O único que via era suas fortes costas, já que estava contemplando o água numa postura parecida a quando a encontrei na praia a noite antes. Alonguei a mão para tocá-la mas me detive. Ela tomou ar e começou a falar, como se notasse minha mão boiando em cima de suas costas.
 
-Não sou muito dada a falar, pequena, assim que isto me resulta difícil, mas há umas coisas que quero que saibas. Meu pai morreu quando eu tinha dezesseis anos. Era pintor, assim que nunca tivemos muito dinheiro, mas sempre fomos felizes. Quando morreu, seus pais lhe perguntaram a minha mãe sem queria levar-nos A Londres para viver com eles. Minha mãe tinha dois trabalhos e eu tinha que me ocupar de meus irmãos enquanto ela trabalhava. Preocupava-lhe que nos metêssemos em problemas, assim que aceitou e nos transladamos todos a Inglaterra, à herdade de meus avôs. Ainda que me agradava muito a beleza do campo, não demorei em aborrecer-me. De fato, a zona era tão rural que rara vez víamos a ninguém. Quando só levávamos ali uma semana mais ou menos, uma das criadas de acima, Callinda, perguntou-me se queria ir dar um passeio com ela. Meus irmãos pensavam que era muito guapa, assim que me senti afagada de que quisesse conhecer-me melhor. E vá se me conheceu. Não demorou em pegar-me da mão, beijar-me e dizer-me toda classe de piropos sobre o guapa que era.
 
Aqui a interrompi.
 
-Mas seguro que isso já o sabias, não?
 
-Não, não o sabia, Gabrielle. Era tão alta e desgarbada. Estava tão ocupada ajudando a minha mãe com meus irmãos que não tinha muita vida social. E Callinda o sabia. Um dia, num de nossos passeios, beijou-me com tal paixão que me deixou sem alento. Disse-me que me precisava e que estava apaixonada de mim. Assim que deixei que me tocasse e que me fizesse outras coisas. Sempre me agradava, mas me faltava algo. Não me deixava que a desflorara como... como ela... mmm... como ela me tinha desflorado a mim -Danté ficou calada e eu sufoquei uma exclamação. Olhei suas largas costas, horrorizada ao dar-me conta de como ia terminar a história antes de que me o dissesse sequer.
 
-Não demorei em ter suspeitas, de maneira que por fim, depois de um de nossos "passeios", se o perguntei e ela me disse que não podia porque uma criada pobre tinha que ser virgem se queria casar-se bem.
 
-Oh, Danté, quanto o sento -esta vez sim que lhe toquei as costas quentes e ela deu um pequeno respingo ao notar minha mão fria, mas seguiu com a história.
 
-Fui tão estúpida que a perdoei. Tentei compreendê-lo, inclusive me disse a mim mesma que tinha razão. Nesse momento nem sequer pensei que ela me tinha feito perder a virgindade sem propor-se sequer -Danté fez uma pausa e suspirou com resignação-. Duas semanas depois daquilo, surpreendi a Calli e a um dos caballerizos em plena sessão de sexo no celeiro.
 
Deixei que se me escapasse uma lágrima pela dor que deveu de sentir Danté ante esta traição.
 
-Me temo que lhes dei uma surra aos dois até que confessaram que tinham a intenção de fazer-me chantagem para que lhes desse dinheiro. Se não se o dava, lhes diriam a meus avôs e a minha mãe o que tinha estado fazendo com a pobre criada. Se o disse eu mesma antes de que Calli pudesse fincar-lhes as garras. Ao princípio se puseram furiosos, mas depois chegaram à conclusão de que ela tinha conseguido seduzir-me na contramão de minha vontade. Assim que meus avôs lhes deram uma grande soma de dinheiro e os jogaram da herdade. Tentaram voltar por mais aos poucos meses e quando meu avô se negou, começaram a fazer correr rumores sobre que eu era antinatural e que tinha forçado a Calli.
 
Incorporei-me de um salto, agarrei a Danté por detrás e a estreitei contra mim. Suas costas quentes se afundou em meu peito enquanto chorava amargamente. Esperei a que soltasse toda a dor que levava dentro desde fazia tanto tempo.
 
Quando se acalmou, continuou com sua história.
 
-Mãe me queria e sempre me quereria. Meus avôs encaixaram mal os rumores. Foi então quando minha mãe decidiu que íamos transladar a América. Não creio que meus irmãos chegassem a saber o que ocorria, mas ao cabo de um ano estávamos em caminho. Meus avôs lhe tinham dado a minha mãe dinheiro suficiente para viver bem se tínhamos cuidado. E aí é onde entras tu -disse suavemente. Voltou a cabeça para sorrir-me um pouco e seus formosos olhos enrojecidos se fincaram nos meus. Não pude evitar jogar-me para diante e dar-lhe um doce beijo. Sorriu-me e nesse momento jurei que seria a última vez que queria ver chorar a Danté.
 
Danté se voltou de novo para o água, apoiando-se mais em mim, e continuou com sua história.
 
-Me apaixonei de ti no momento em que te chocaste comigo.
 
Sufoquei uma exclamação e ela colocou sua mão sobre a minha mas seguiu contando sua história.
 
-Pensei que eras tão preciosa e que tinhas tanto gênio. Encantava-me provocar-te para poder ver esses olhos teus soltando-me chispas. Fiquei de pedra quando Edward começou a falar-lhe de ti a mãe. Quando começou a dizer que queria falar com teu pai para cortejar-te, pensei que ia morrer. Já me tinha feito à idéia de que jamas poderia ter-te. Mas sabia que não poderia suportar ver-te com Edward se vos casáveis.
 
-Eu nem sequer o sabia, Danté. De todas formas, não teria aceitado.
 
-Edward disse... disse que tinhas feito um retrato dele em teu caderno. Eu também vi esse desenho -o disse vacilando tanto que demorei um momento em fazer a conexão.
 
-Oh, não -exclamei-. Não, Danté, o desenho era de ti -me olhou fazendo essa coisa típica com a sobrancelha-. Nem sequer estava terminado quando os dois o vistes. Ele deveu de dar por supostas as coisas pelos olhos e a forma da cara. Nem sequer tinha visto a Edward quando comecei a desenhá-lo. Terminei-o desde que estamos aqui. Podes vê-lo se queres. Tenho outros de ti e de mim que me encantaria que visses também.
 
Danté me estreitou entre seus braços e sussurrou:
 
-Me encantaria vê-los, Gabrielle.
 
Deu-se a volta de novo. Parecia resultar-lhe mais fácil falar se não tinha que me olhar. Não importava por agora: mais adiante teríamos do que trabalhar em suas habilidades comunicativas. ESTREITEI-A entre meus fortes braços e ela dobrou as pernas e deu a impressão de desfrutar simplesmente do contato durante um momento.
 
-Quando chegamos aqui, consegui deixar de lado quase todos meus sentimentos por ti. As duas tínhamos que nos concentrar em seguir com vida. Entre que eu estava ferida e que precisávamos encontrar comida e refúgio, consegui relegar os sentimentos ao fundo de minha mente. Mas isso só durou uns meses. Conhecia-me a ilha como a palma de minha mão. Já não custava tanto encontrar comida e a choupana estava praticamente finda. Já não me desmaiava quase de esgotamento e meus pensamentos começaram a descontrolar-se de novo.
 
Deteve-se e de repente se voltou para olhar-me.
 
-Alguma vez te disseram que és uma pessoa muito tocona? -perguntou com um sorriso na cara.
 
-Mm, sim. Creio que alguém o mencionou faz pouco -contestei com um sorriso igual de ampla e um beijinho nos lábios para que soubesse que o incidente já não me doía. Sorriu ainda mais e se deu a volta de novo.
 
-Bueeenoooo... -fez uma pausa-. Estava começando a afetar-me, assim que tentei manter-me afastada. Explorava a ilha para poder afastar-me de ti um momento quando o precisava. Pensava que acabarias dando-te conta e que me odiarias ou me terias medo, assim que tratei de ocultar o que sentia por ti. Numa dessas excursões encontrei este lugar. Mm... Gabby... vinha aqui e... mmm...
 
-Danté, tenho que te dizer algo -era o momento de confessar que a tinha seguido.
 
-Não, amor, deixa-me terminar, por favor. Desejava-te tanto que vinha aqui dois e três vezes por semana -disse. Dei-me conta de que lhe dava vergonha dizer-me ainda que não lhe via a cara. Acariciei-lhe as costas para demonstrar-lhe meu apoio-. Bueno, o dia que nos brigamos e depois te consolei... ou seja, quando dormi contigo... eu, tu... mm, te arrimas muito quando dormes, pequena, o sabias?
 
Disse que não com a cabeça e ela seguiu com seu relato.
 
-Pois sim, faze-lo. Eu... eu estava aí jogada contigo praticamente tombada em cima de mim com tuas mãos sobre meus peitos. Tinha que escapar, assim que me fui da choupana em silêncio e vim aqui o mais depressa possível. Me... aliviei-me e quando ia voltar à choupana, vi tuas impressões cerca de minha roupa.
 
Tomei ar.
 
-Veste...
 
-Sim -contestou sem que eu tivesse que continuar-. Entrou-me tanto medo, Ga...bri...elle. Pensei que sentirias asco, ou pior, medo de mim depois de ter visto aquilo. Assim que me afastei. Precisava pensar num plano para fazer-te entender. Acabava de dar com uma solução quando me encontraste.
 
-Qual era a solução? -lhe perguntei baixinho.
 
Voltou-se e se ajoelhou adiante de mim com a cabeça gacha e quando me olhou, em seus olhos tinha tanta alegria e esperança que soube que estaria com esta mulher durante o resto de minha vida.
 
-Te rogaria... -contestou com um sorriso trémula-. Te rogaria que não me deixasses e depois te rogaria que me permitisses estar contigo -vi que se esforçava por não se jogar a chorar de novo-. Não queria perder-te, Gabrielle, e faria o que fora para evitar que me recusasses. Sento tanto tudo o que passou. Queria contar-te toda a história porque queria que compreendesses que nunca tive intenção de fazer-te dano. Cria que te estava protegendo... de mim.
 
-Acabaste? -lhe perguntei-. Posso falar agora?
 
Ela assentiu devagar. Tive que lhe levantar o queixo para poder olhá-la aos olhos vulneráveis.
 
-Eu também te quero.
 
Se me ficou olhando um momento, à espera do resto, mas por uma vez isso era tudo o que tinha que dizer.
 
Olhou-me sem dar crédito enquanto eu lhe sorria zombadora. As duas nos demos conta ao mesmo tempo de que nossos papéis se tinham investido e nos jogamos a rir. Danté levava falando trinta minutos para dizer-me que me queria. Eu tinha demorado dois segundos em dizer-lhe o mesmo. Era justiça poética e por fim considerei paga a dívida de seus incessantes burlas.
 
-Vêem aqui.
 
Atirei dela até tê-la em cima de mim. Beijou-me nos lábios ao cobrir-me com seu corpo bem mais grande. Ficamos tombadas ao sol com o rugido da cascata e os trinos dos pássaros em cima de nós. Nossa respiração não demorou em duplicar sua velocidade. Ofeguei quando Danté traçou círculos ao redor de meus mamilos com a língua. Arqueé as costas, com o que ela chupou mais forte. Apertava a coxa contra mim enquanto beijava e lambia meus dois mamilos endurecidos. Em duas ocasiões estive a ponto de ter um orgasmo e em ambas ocasiones se deteve e me sussurrou ao ouvido em francês e inglês:
 
-Ainda não, carinho.
 
E deteve seus movimentos até que se nos acalmou o coração antes de seguir lambendo, chupando e apertando com suavidade. Estava-me voltando louca. Danté pegou meus peitos com as palmas das mãos e se pôs a olisquearme o pescoço e a orelha. Quando estava a ponto de gritar-lhe que seguisse adiante, notei que tinha posto a mão no nodo que levava no quadril. Deteve-se um momento. Pus-me a desfazer o nodo de seu sarong a toda pressa e ela fez o mesmo com o meu. Alçou seu corpo acima do meu para tirar-me o sarong e eu fiz o mesmo com o seu. Esta vez, em lugar de voltar a posar-se sobre mim, como eu desejava desesperadamente, ficou suspendida acima de mim como se fora a fazer flexões, com os músculos dos bíceps e os tríceps restallantes pelo esforço de sustentar-se acima de mim. Beijou-me nos lábios e depois passou a minha orelha.
 
-Se faço algo que não te agrada ou que te incomoda... por favor, promete-me que me o dirás.
 
-To prometo, Danté.
 
Passou a beijar cada centímetro da parte superior de meu corpo, beijinhos suaves que me voltavam louca. Quando chegou à zona por embaixo de minha obrigo, comecei a pôr-me um pouco nervosa. Quando estava a ponto de pará-la, disse as únicas palavras que iam ser minha ruína durante muitos anos.
 
-Por favor...
 
Essas palavras me aceleraram o coração. Permiti-lhe que continuasse beijando-me o umbigo e os quadris e por fim as coxas. Olhei a cabeça escura que tinha entre as pernas e quase me desmaiei da excitação. Gritei quando por fim me tocou com a língua. A primeira carícia foi muito delicada. Saboreou cada parte de mim, chupando e mordisqueando suavemente até que quase me joguei a chorar. Cada vez que pensava que ia cair pelo borde, ela me agarrava os quadris para impedir que me movesse e parava o que estava fazendo. Para então era eu a que lhe rogava. Alçou-se de entre minhas pernas e me beijou ferozmente na boca. Saboreei-me a mim mesma em seus lábios e gemi.
 
-Que é o que queres, Ga...bri...elle? -me perguntou roucamente, enquanto sua mão seguia atormentando-me devagar como o tinha feito sua língua um momento antes.
 
-Quero...
 
-Que queres, amor meu? -perguntou Danté quase com desespero. Compreendi que precisava que lhe dissesse o que desejava dela.
 
-Quero ser tua... Por favor.
 
Danté estava jogada a médias em cima de mim e a médias fora de mim. Notei que esfregava seu centro quente contra o músculo de minha coxa. Acelerou o ritmo e começou a beijar-me no pescoço e as orelhas, que tinha muito sensíveis.
 
-Oh... Deus, por favor, Danté... não posso... não posso agüentar bem mais... ¡por favor! -gritei e quando senti que começava a cair num abismo de prazer, Danté me meteu o dedo até o primeiro nudillo, detendo-se na barreira que era minha virgindade.
 
Como louca, tentei obrigá-la a penetrar mais tratando de metê-la à força dentro de mim, mas era demasiado forte e se negou a ver-se forçada a ir mais longe ou mais rápido.
 
Num momento de desespero, meti a mão entre suas pernas e encontrei o centro quente que se tinha estado esfregando contra mim. Estava tão a ponto que sabia que devia de doer-lhe. Abri seus lábios inchados e tracei círculos ao redor de seu nodulito excitado.
 
Seguiu entrando e saindo de mim suavemente e o prazer começava a ser excessivo. Fechei os olhos com força e tratei de concentrar-me em dar-lhe prazer. Seus quadris se moviam desesperadas contra minha mão. Coloquei dois dedos em sua abertura e empurrei com força para dentro. Gritou e saltou, o qual fez que empurrasse com força dentro de mim. Minha virgindade deixou de existir. Fechei os olhos enquanto me caíam lágrimas pela cara pela dor. Eu tinha deixado de empurrar quando me penetrou e as duas ficamos assim um momento para recuperar o alento. A dor começou a dissipar-se e voltei a mover-me contra o que me enchia por dentro. Também comecei a empurrar com força dentro dela. A dor tinha desaparecido, substituído pelo puro prazer. Senti que meu orgasmo começava devagar ao princípio enquanto meus músculos se apertavam em torno dos dedos que tinha dentro de mim. Quase como resposta, senti que as paredes do sexo de Danté se estremeciam. Fechou os olhos com força e aumentou as investidas. Quando por fim me chegou, senti que ficava inerte.
 
-Oh, oh, oh -era o único que podia dizer. Notei que Danté também estava a ponto e segui seu exemplo, sem parar de empurrar dentro dela enquanto sucumbia ao orgasmo.
 
Faz anos que tiramos o bote da praia e qualquer sinal evidente de que estivéssemos ali. Danté diz que  estamos aqui uns sete anos, mas não sabemos muito bem porque deixamos de contar no dia em que fizemos amor pela primeira vez. Decidimos que se não fosse por esta ilha, nunca nos encontrariamos Este pedacinho de terra verde se converteu em nosso mundo. Talvez no futuro o mundo seja capaz de aceitar relações como a nossa. Isso esperamos pelo bem de outras pessoas como nós. Vou passar o resto de minha vida amando e sendo amada pela guardiã de minha alma. Ela é minha ilha e eu sou a sua.

FIM

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