A Ilha de Danté
Gabrielle Goldsby
Tradução de Fernanda
r[email protected]

 

 
-Disclamers: Os personagens deste relato "uber" podem parecer-se fisicamente aos personagens de propriedade de Renaissance Pictures. O parecido termina aí. Para bem ou para mau, estas garotas são minhas e vou fazer com elas o que queira com elas.
Aviso de violência: Há um pouco de violência ao princípio desta história, mas nada muito gráfico.
Aviso de subtexto: Considerai-vos advertidos de que esta história contém sexo explícito e gráfico entre duas mulheres adultas com consentimento mútuo. Se é menor de 18 anos... deveríeis terminar a coleção completa dos mistérios de Nancy Drew e Trixie Beldon antes de ler está história.
Aviso de primeira vez: Vale, sim, há um pouco disso, mas ao que me refiro é a que esta é a primeira história que escrevi em minha vida. Ainda que agora já tenho outras publicadas na rede.
Se quiserem me escrever. Estou em: [email protected] 
Título original: Danté's Island.
 
1.
Era como se os deuses tivessem feito que o dia fosse perfeito especialmente para nós. Ia ser o primeiro dia de uma travessia pelo oceano que nos levaria da Europa a América. O céu não poderia estar mais azul mesmo que eu o tivesse pintado . Eu estava emocionadísima, minha irmã pequena Lilly não podia parar quieta e minha mãe não deixava de dar ar de nervosa com o leque. Meu Pai parecia falar mais alto do normal. Os demais passageiros pareciam estar reagindo também à eletricidade que tinha no ar.
 
Chamo-me Gabrielle,   esta ia ser minha primeira viagem ao estrangeiro. Era o ano 1929. O barco era o Statendam III.
 
-Gabby, fecha a boca, menina, e vêem aqui  gritou a minha mãe quando fiquei contemplando boquiabierta o imenso barco.
 
Fechei a boca rapidamente e corri para me juntar ao resto de minha família. Mamãe sempre  estava dizendo que eu  fechasse a boca. Não sei por que, mas creio que respiro melhor com a boca aberta. Mamãe dizia se continuasse assim, ia-me  levar ao médico. Dizia que parecia vulgar com a boca sempre aberta e que continuasse com isso, nenhum jovem ia querer cortejar-me. Se achava que isso me preocupava, estava muito enganada.
 
Mamãe e papai nos conduziram pela passarela até o barco. Uma vez a bordo, os passageiros eram divididos em grupos segundo seus sobrenomes. Nosso sobrenome é Archer, de maneira que fomos um dos primeiros a ser guiados até nossos camarotes.  Lilly e  eu  dividimos o mesmo quarto..
 
-Que cama prefere, Gabby? -perguntou Lilly, dando pulos  numa das camas.
 
-Evidentemente, essa daqui, pois vc já pulou em cima da outra.
 
Lilly começou a rir e pulou  com mais força.
 
-Gabby, vc acha  que a mãe e o pai nos deixarão nadar na piscina? -perguntou Lilly pela quinta vez naquele  dia.
 
-Não  sei, Lilly, mas venha aqui e me ajude a desfazer a bagagem se quer sair  para saudar as pessoas quando barco zarpar.
 
Com um último pulo, Lilly se aproximou para ajudar-me a tirar  nossas coisas das malas. Enquanto desfaziamos a bagagem, deixei que minha mente repassasse tudo o que deixamos na Inglaterra. Minha melhor amiga, Elizabeth, era o que mais ocupava meus pensamentos. Recordei como tinha chorado com  Elizabeth  quando nos despedimos.
 
-Me promete que me escreverás, Gabby? -disse chorando.
 
-Eu prometo, Lizbeth. Vou escrever em meu caderno todos os dias e quando estiver cheio te enviarei. Será como se estivesses ali comigo, Lizbeth.
 
-Já está tudo pronto, Gabby, podemos ir ? -exclamou Lilly com seu habitual entusiasmo.
 
-Por que não vai ao quarto ao lado para ver se a mãe e o pai já estão prontos?
 
Lilly saiu voando pela porta, deixando-a aberta ao correr para o camarote de nossos pais. Soou um forte apito. Segundo as poucas instruções que recebemos ao subir a bordo, o apito era para comunicar a todos que faltavam quinze minutos para que zarpasse o barco. Fechei a porta e terminei bem rapido de desfazer minha bagagem.
 
Quando terminei de arrumar  minha roupa, abri as gavetas de Lilly e arrumei as dela. Ao levantar-me do chão, vi-me no espelho. Olhei-me com espírito crítico. Disseram-me que tenho os olhos bonitos... são verde escuro e turvo, como os de minha mãe. Tenho o cabelo loiro herdados de meu pai, mas o seu é liso, enquanto o meu é ondulado e me custa  mantê-lo penteado. Tenho a pele muito branca e me queimo ao  mínimo indício de sol. Olhei com mais atenção. Creio que tenho o nariz bonito, ainda que mamãe diz que os buracos são pequenos. Suspirei ao afastar me  do espelho. Quase todo mundo acreditava  que eu tinha doze anos, quando na  realidade tinha dezesseis. Era humilhante ser tão baixa. Nem minha  mãe nem meu pai eram muito altos, assim que não era provável que eu fosse crescer  mais.
 
Abri a porta de nosso camarote a tempo de ver passar  minha irmã de seis anos vestida com um vestido  branco.
 
-Gabby, vamos -gritou Lilly enquanto corria pelo corredor para a  proa.
 
-Lilly -gritou mamãe-. Faz o favor de não correr -Lilly voltou correndo até mãe.
 
-Oh, mãe, por favor, depressa,  quero  dizer adeus para todo mundo.
 
Segui atrás de minha família. Creio que era a única que não estava tão contente com nossa viagem. Perguntava-me que estaria fazendo agora Lizbeth. Quando caminhava, rara vez me fixava por onde ia. Por falta de atenção e, isto me tinha causado vários tropeções e quedas. Plaf! Ai, por Deus, não pensei enquanto caía no chão, como já vinha sendo habitual.
 
Sacudi a cabeça para despertar, dei-me conta de que  tinha me chocado com uma pessoa e não com um objeto inanimado.
 
-Está bem? -perguntou uma voz com um forte sotaque estrangeiro acima de mim.
 
Ergui  devagar a cabeça , tratando de olhar à pessoa  da qual acabava de fazer o ridículo de trombar. Seguí arqueando a cabeça cada vez mais para atrás até do que por fim cheguei a um par de olhos azuis muito sério mas cheios de diversão.
 
-Perguntei  se está bem.
 
-Estooo... sim.  estou bem -respondi enfim, dando-me conta de que estava sendo grosseira.
 
Depois de um esforço para me por em pé, apresentei-me.
 
-Sou Gabrielle Archer.
 
Fiquei ali como uma idiota, olhando-a. Era a mulher mais alta que tinha visto em minha vida, claramente mais alta do que meu pai, de longo cabelo escuro e os olhos mais azuis que nunca havia visto na minha vida. Era, numa palavra, bela. Não soube que dizer a seguir. Notei que minha boca traidora se tinha aberto enquanto a olhava e a fechei inesperadamente com um estalo bem audível.
 
-Danté -soltou ela.
 
-Eh? -disse como uma idiota.
 
-Meu nome... é Danté Courtier.
 
-Ah... mmm, encantada de conhecer-te, Danté.
 
-Não deverias ir? -me perguntou, ladeando ligeiramente a cabeça-. Sua familia vai ficar preocupada com vci?
 
-Aaah, sim, vai-. Tu não vai la em cima para despedir-te?
 
-Não -declarou-.  não há ninguém de quem deva despedir-me, minha mãe e meus irmãos estão a bordo, assim que não vejo a necessidade de estar ali. Estava regressando a meu camarote quando trombaste comigo.
 
Indignei-me.
 
-Que eu... trombei em vc? Mais foi vc que trombou em mim...
 
-Tu era a que não olhava por onde ia. Estava olhando os sapatos  antes de que nos chocássemos. O que foi?  comprou sapatos novos para a viagem? -perguntou com sarcasmo.
 
-Que? Não -menti-. Olha, vamos esquecer. Se acredita que foi culpa minha, me desculparei.
 
Danté sorriu zombando.
 
-Bem, e por que não  faz?
 
-Por que não faço que?
 
-Por que não te desculpas?
 
-Como... mas se acabo...
 
-Não, não fez. Disse que se desculparias, mas ainda não o fez.
 
Danté sorria agora amplamente e eu me  irritando com seu jeito.
 
-Muito bem, senhorita Courtier,  se empenha numa desculpa mais formal, -soltei indignada-. Senhorita Courtier, me agradaria desculpar-me formalmente por chocar-me com você -agora já estava furiosa, o qual pareceu causar-lhe ainda mais diversão.
 
-Aceito suas desculpas -disse com altivez, como se imitasse meu tom-. Mas... - se inclinou para mim e me deu umas palmadinhas na cabeça, como se fosse uma menina pequena-. Tenha cuidado para que não volte a trombar  em ninguem -com um sorriso  e malicioso, deu a volta e se afastou.
 
Fiquei olhando-a, com a boca aberta pela segunda vez em outros tantos minutos. Voltei a fechá-la inesperadamente.
 
-Mas como... - dei a volta furiosa  ao ouvir à multidão que se despedia a gritos-. Oh, bom -suspirei e segui até a proa  para procurar a minha família.
 
Dadas as massas de gente, foi pura sorte que pudesse encontrar sequer a minha família.
 
-Aqui, Gabby -gritou Lilly, que estava em cima dos ombros de meu pai para poder ver de cima toda a gente. Apertei o passo até minha família enquanto o barco se afastava  devagar do porto. Tínhamos zarpado.
 
-Onde estavas, Gabby? Estávamos começando a preocupar com vc -perguntou mãe.
 
-Desculpa, mãe. Voltei ao meu quarto para procurar meu binóculo e não pude encontrá-los. Por isso demorei.
 
Não sabia por que tinha mentido; não costumava mentir a meus pais e menos a minha mãe, que geralmente percebia uma mentira de longe.
 
-Espero  que não estavas em algum lado fantasiando? -perguntou minha mãe.
 
Era uma discussão habitual e eu não estava disposta a tê-la neste momento.
 
-Não, mãe, não estava fantasiando...
 
Minha família e eu decidimos dar um passeio pelo grande barco antes de tomar o chá. O barco era verdadeiramente uma magnífica obra de engenharia, segundo meu pai. Deixei que a palestra de minha família se perdesse como ruído de fundo enquanto pensava em meu encontro com Danté Courtier. Perguntei-me por que  tinha deixado provocar até pôr-me tão furiosa. Normalmente sou calma. Tem que me encher muito para eu me  irritar.. bom, normalmente é assim. Esta garota tinha algo que me irritava.
 
-Gabby chamou minha mãe -. Ouviu uma só palavra do que eu disse?
 
-Não, mãe, perdoa-me, não te ouvi. O Que disse?
 
A Mãe mexeu a cabeça e disse:
 
-Filha, um destes dias essa imaginação que tens vai causar-te muitos problemas, ouça o que te digo.
 
Sorri e concordei como costumava fazê-lo quando mamãe soltava esta conhecida afirmação.
 
-Sim, mãe.
 
Sorri a minha mãe com impertinencia, como sempre, e ela me devolveu o sorriso, como sempre. Minha avó me disse a muito tempoatras que eu era igual a minha mãe aos dezesseis anos e que quando tinha minha idade, tinha pegado ela muitas vezes fantasiando.
 
-Perguntei se quer tomar o chá ou não. Há um salão onde vão-no servir dentro de uns minutos.
 
-Sim, mãe, eu quero tomar o chá.
 
Seguí a minha família até ao interior do salão e me dei conta, não pela primeira vez, dos pomposos grupos de jovens, em sua maioria da Inglaterra, como minha família e eu. Sentia curiosidade pelo sotaque de Danté, estava claro que tinha um pouco de francês. Mmm, de onde será?
 
Permiti-me fantasiar sobre Danté, inventando histórias românticas sobre ela e um lindo príncipe... afinal de contas, era um personagem claramente interessante e bem podia ser uma princesa ou uma rica herdeira. Os garçons colocaram na mesa bandejas douradas cheias de pequenos biscoitos, além do chá. Ouvi rugir a meu estômago, o qual me recordou o quanto faminta que estava. Toda a conversa cessou enquanto minha família devorava a singela mas elegante comida. Enquanto comia, senti um arrepio na nuca. Virei a tempo de ver a Danté, com uma mulher de mais idade e a dois jovens entrando no salão. A mulher mais velha tinha o mesmo aspecto que Danté. Decidi que tinha que ser sua mãe. Perguntei-me quem são esses garotos. Sei que disse que tinha irmãos, mas me pergunto se um deles a está cortejando. É tão linda que certamente ela não teria problemas para encontrar marido, pensei. Por algum motivo, sentia-me decepcionada e não sabia por que.
 
Virei-me de novo para minha família quando Danté e sua mãe e as garotos  encaminharam-se até a mesa que estava justo ao lado da nossa. Danté me sussurrou ao ouvido ao se sentar justo atrás de mim.
 
-Não te disseram que olhar para as pessoas é má educação, garotinha?
 
Tomei ar e me virei para fulminá-la com meu olhar, mas ela já se tinha se virado para sua família e dizer alguma coisa chamaria atenção para mim mesma. De maneira que decisti ainda furiosa.
 
-Quem é tua amiga, filha? -perguntou meu pai com os olhos curiosos..
 
Senti meu rosto pegar fogo e disse, e respondi  um pouco mais alto :
 
-Se chama Danté Courtier e não é... minha amiga -soltei.
 
Ouvi a Danté rir e foi evidente que tinha escutado. Meu Pai sorriu e voltou a conversar com mamãe. Virei ligeiramente para poder ver a mesa de Danté. Percebi que a mãe de Danté batia um papo animadamente com os garotos, mas que Danté não participava realmente da conversa. Aproveitei a oportunidade para inclinar-me para atrás e dizer baixinho:
 
-Nunca te disseram que escutar as conversas alheias é má educação?
 
Danté se jogou para atrás em sua cadeira e disse:
 
-Não estava escutando, é que falas tão alto que não pude evitar ouvir-te disse em tom de gozação.
 
-Eu... Tu... -Voltei a ficar nervosa e Danté parecia desfrutar de cada momento.
 
-Te passa algo, meu amor? -perguntou meu pai.
 
-Não, pai -disse a duras penas-. Creio que algo não está me fazendo bem.
 
Ouvi a Danté sufocar outro riso ao ouvir isto jurei que de algum modo iria vingar-me.
 
Seguí a minha família ao sair do salão, com muito cuidado para não dirigir uma olhada sequer a Danté. Regressamos a nossos camarotes para tirar uma sesta muito necessária. Enquanto tirava o vestido e ajudava a Lilly a tirar-se o seu, dei-me conta de que estava esgotada. Ao deitar, meu último pensamento foram uns maliciosos olhos azuis e minha incapacidade de pensar claramente quando os olhava.
 
Quase duas horas mais tarde, chamaram à porta.
 
-Quem é? -gritei.
 
-Seu pai, e sua mãe vamos dar um passeio , querem ir?
 
-SIm! Esperai-me, pai -exclamou Lilly, saltando da cama e pondo o vestido de qualquer jeito. Eu também me vesti, mas devagar.
 
Abri a porta a nosso pai quando estivemos vestidas.
 
-Vou ficar aqui e escrever em meu caderno, pai.
 
-Muito bem, Gabby, voltaremos para o jantar dentro de umas horas.
 
-Está bem, pai.
 
Observei a minha irmã sair correndo do quarto para pegar a mão do meu pai e, falando a cem por hora. Sentei-me ante o pequena mesa que tinha em nosso quarto e peguei meus cadernos. Por mais que tentasse, não conseguia pôr sobre o papel o que sentia sobre esta viagem. Em princípio, não estava muito contente com o traslado a América. Mas depois da sesta, comecei a sentir uma sensação de apreensão e emoção. Sinto-me como se estivesse a ponto de descobrir algo que fará que meu mundo mude. Por fim renunciei a tentar colocar meus sentimentos em palavras e me limitei a escrever sobre o barco e os passageiros. A propósito, omiti mencionar Danté em minha carta porque sabia se eu falasse a Lizbeth de Danté, ia querer saber mais. Depois de terminar a breve carta, devolvi o caderno a meu baú. Dentro do baú encontrei meu lápis e minha caixa de lápis de cores, além de cinco cadernos a mais do que meu pai me tinha me dado como presente antes de partir de Inglaterra.
 
Decidi subir a cobertura com meus cadernos e meus lápis para desenhar um pouco. Deixei um bilhete no camarote de meus pais se voltavam antes que eu. Dirigi-me à cobertura. Consegui encontrar um pilar e me encostei para começar a desenhar. Olhei a meu arredor a procura de um bom candidato para meu desenho. Ao não encontrar nenhum entre os pretenciosos passageiros, decidi fazer um pouco de memória. Devagar me pus a traçar as linhas que começaram a formar uma rosto. Quando fiquei satisfeita com a forma do rosto, peguei na bolsinha que usava para levar meus lápis de cor e peguei o azul mar. Depois de desenhar os olhos até ficar satisfeita, recheei os olhos com a cor. Pelo geral, esperava ter terminado o retrato antes de colorir . Mas por alguma razão me parecia que era importante fazer bem os olhos.
 
-Posso ver o que está desenhando? -perguntou um jovem com um acento que me resultava familiar.
 
-Desculpe? -perguntei como uma estúpida.
 
- perguntei   se me permite ver seu desenho -voltou a dizer com suavidade.
 
Em seu rosto se desenhou um agradável sorriso. Pela primeira vez olhei para seus formosos olhos. São exatamente iguais os de meu desenho... exatamente iguais os de Danté, pensei .
 
-Mmm, normalmente não mostro meus desenhos até que estejam prontos.
 
Ele sorriu de novo.
 
-Pois me agradaria vê-lo quando tiver acabado... isto é, se você não se importar em me mostrar.
 
-Não, não me importa. Eu te mostro quando tiver terminado.
 
-Bem. Escute, vai ir ao baile esta noite?
 
-Não sabia que iria ter um baile.
 
-Pois terá . Esta noite há uma festa e me perguntava se você poderia reservar-me algumas danças.
 
-Ah, pois sim, me agradaria dançar com você esta noite, senhor... Perdoe, nem sei como se chama .
 
-Courtier, Edward Courtier. Estupendo, então vai comigo. A verei lá então.
 
Edward se levantou rapidamente e se retirou a toda pressa, como se tivesse medo de que eu fosse mudar de idéia. Olhei-o com curiosidade: sua irmã e ele compartilhavam algumas características físicas, mas isso era tudo. Edward parece uma pessoa encantadora. Não como Danté, que parece gostar muito de me atormentar.
 
Olhei o desenho que tinha estado desenhando e as costas de Edward que se afastava. Tinha desenhado a Danté, por isso não queria que ele o visse. Não queria que ela tivesse mais motivos para zombar de mim.
 
-Pelos Deuses por que não paro de pensar nela -resmunguei enquanto regressava ao camarote para aguardar a minha família.
 
Lilly entrou com tudo correndo e anunciou que nossos pais tinham dito que podia ir nadar se eu estivesse disposta a levá-la. Imaginei que meus pais queriam passar alguns momento a sós, de maneira que concordei e a ajudei a pôr-se seu traje de banho. Disse-lhe que pegasse sua bóia e saimos e fomos até à sala de jogos infantis, onde se encontrava a piscina coberta.
 
Observei a Lilly nadar e brincar com os demais meninos e alguns adultos que também tinham decidido usar a formosa piscina coberta. Esta tinha uma grande estátua de uma sereia no centro. Lilly desfrutou muito gritando do outro lado da piscina que a sereia estava nua. A verdade é que se via muito pouca coisa. E o que olhei foi. Aparte do estômago muito plano, qualquer coisa de interesse estava tampada pelo cabelo da sereia de pedra.
 
-Lilly, por que gritas tanto? -xinguei suavemente a minha irmãzinha Não lembro de ter sido tão precoce-. Bom, Lilly, tá na hora do jantar, saia já.
 
-Oooh, vamos, só mais um pouquinho? -além de falar a gritos, Lilly tinha aperfeiçoado a arte do choramingo.
 
-Não, Lilly, venha não devemos chegar tarde ao jantar.
 
Lilly resmungou meio baixo, ao que eu respondi:
 
-Desculpa, disseste algo, Lilly?
 
-Não -resmungou de novo e cruzou os bracinhos malhumorada enquanto se encaminhava ao camarote.
 
Ao final de uma hora estávamos sentados no refeitório esperando o jantar. O capitão tinha feito um discurso de boas vindas e agora falava monotonamente sobre as atividades de lazer que oferecia o barco. Deixei de escutá-lo quando explicava a forma de apostar no hipódromo eletrônico. Por fim soou um sino e começaram a servir o jantar. Desta vez me esforcei para não olhar pelo refeitório a procura de Danté e sua família. Negava-me a procurá-la. Mas durante a comida, em diferentes ocasiões, senti o familiar arrepio na nuca.
 
-Pai, mãe, esta noite haverá uma festa de boas vindas para os jovens. Me agradaria ir, se vocês deixarem.
 
Mamãe fez cara de preocupação.
 
-Oh, não sei, Gabrielle, não conhece ninguém e não me agradaria que fosse só.
 
-Mas não vou ir só -soltei-. conheço alguns dos que vão estar ali.
 
- quem? -perguntou mamãe com desconfiança.
 
-Pois essa garota, a Danté, e seus irmãos vão ir.
 
-Mas Gabby, não disse que não era sua amiga? -interveio Lilly muito oportunamente.
 
Joguei-lhe uma olhada fulminante e disse entre dentes:
 
-É minha amiga e agradeceria muito se não me interrompesse.
 
Lilly riu com dissimulo e seguiu jantando.
 
-É certo de que terá vigilância. Já quem organizou foi o capitão.
 
-Bom -suspirou o pai-. Seguro que não vai acontecer nada, Gisela, pode deixar a menina ir.
 
-Mas Jefferson, não conhecemos a ninguém.
 
-Por isso se organiza uma festa de boas vindas, Gisela, para que os jovens possam se conhecer
 
Mamãe não parecia muito convencida, mas ao final deu seu consentimento. Eu estava super feliz. O jantar terminou sem contratempos e todos regressamos a nossos camarotes. Decidiu-se que Lilly ficaria com a mãe e o pai, já que eu ia sair. Depois de prometer que chamaria-os quando voltasse da festa, empreendi o caminho.
 
Ao entrar no salão de baile, fiquei impressionada pelo ambiente. Como tinham retirado a maioria das mesas do refeitório, o lugar tinha um ar assombrosamente palacetico. Tinha sete aranhas imensas ao longo de toda a pista de baile. O solo era de mármore estavam polidos com a perfeição de um espelho e uma orquestra tocava suavemente ao fundo. Comecei a lamentar minha decisão de chegar com atraso. Quase todo mundo tinha formado já grupos e estava conversando. Fiquei ali sem saber que fazer, sentindo-me fora de lugar.
 
-Talvez não foi uma boa idéia -resmunguei
 
-¡Gabrielle! -chamou Edward saiu de um grupo de jovens colocado estrategicamente proximo do ponche e as mesas de aperitivos.
 
-Edward... oi -murmurei com entusiasmo.
 
Os olhos de Edward se aluminaram ao ouvir meu tom de voz. Mais tarde me contou que tinha passado toda a tarde falando da garota que tinha conhecido na cobertura. Edward tinha tido que suportar as zombarias de seus irmãos durante a última hora. Começava a temer que eu não fosse aparecer.
 
-Gabby, me agradaria apresentar-te a meu irmão Tomas e a minha irmã Danté.
 
Mal consegui reagir quando Edward me apresentou a Tomas e Danté. Esperei que Danté comentasse que já nos conhecíamos, mas não fez tal comentário. De maneira que a comprimentei cortesmente e dirigi a Edward um sorriso excessivamente animado. Era evidente que ele estava super feliz e começou a dar-me pena. Ainda que parecia um bom garoto, eu sabia que não me interessava em nada além da amizade.
 
-Gabby, quer um um pouco de ponche ou talvez bolo? -Edward me conduziu até a mesa do banquete.
 
-Me encantaria, Edward .
 
Saboriei meu ponche calmamente e Edward fez o mesmo. Meus olhos se viam arrastados como um imã para os claros olhos azuis de Danté Courtier, que agora era o centro das atenções da festa. Observei três jovens competindo amavelmente pela atenção de Danté. A minha grande surpresa, era que Danté parecia divertir-se com as tolices dos jovens. Seu sorriso era tão formoso e atraente que não podia tirar os olhos dela.
 
-Que linda é -murmurei sem dar-me conta.
 
- É sim  concordou Edward com franqueza-.Ela puxou o melhor de minha mãe e meu pai. Tomás e eu ficamos com as sobras.
 
Em brincadeira, dei uma palmada no braço de Edward.
 
-Oh, eu não diria isso, vc é bonitão.
 
Edward jogou a cabeça para atrás e começou a rir, com um grande sorriso muito parecido o de sua irmã e, no entanto, muito diferente.
 
-Vamos dançar Gabby? -perguntou Edward.
 
-Sim, Edward, me encantaria dançar contigo.
 
Soltei uma risadinha quando Edward se inclinou como um cavaleiro para me levar à pista de dança. Quando Edward começou a me levar para a pista de dança, senti que os meus pelinhos da nuca se punham de pé. Pois já estávamos dançando quase uma hora, levantei o olhar e vi que os três possíveis pretendientes de Danté seguiam tentando ter a atenção exclusiva dela. Involuntariamente, tomei ar com força quando os olhos azuis se encontraram com os meus. Não compreendia o que estava vendo, mas sabia com toda segurança que tinha que descobrir. O sorriso distraído que tinha Danté na cara quando a peguei olhando-me estava desaparecendo devagar, substituída por outra coisa. Uma coisa que não conseguia encaixar e que não compreendia. Era fome ou talvez outra coisa... não conseguia entender. Desapareceu tão depressa que comecei a crer que o tinha imaginado tudo.
 
-Gabby? -pelo tom de voz de Edward era evidente que tinha perdido algo.
 
-Perdão, Edward. Me dizias algo?
 
-Te perguntei se estavas passando bem -inquiriu de novo com um sorriso curioso.
 
-Oh, sim, Edward. Por que pergunta?
 
-É que parece muito distraída.
 
- estou passando muito bem, Edward. Suponho que estou um pouco cansada, com a viagem e tudo -sufoquei um bocejo.
 
- entendo, eu também estou um pouco cansado.
 
Ao terminar a música, Edward me conduziu de novo até o ponche.
 
-Mais ponche, Gabby? -perguntou Edward.
 
-Não, obrigado, Edward. Em realidade, se não te importa, me agradaria retirar-me. Encontro-me muito cansada.
 
-É claro, Gabby, sinto ter-te obrigado a ficar até tão tarde. Obrigado pelo baile, espero que possamos fazê-lo de novo alguma vez -disse Edward com timidez.
 
Sorri quando Edward beijou a minha mão suavemente. Era um bom garoto .
 
-Posso acompanhar-te até seu quarto Gabby? -perguntou Edward esperançoso.
 
Recordei a reação excessivamente entusiasta que tinha tido Edward comigo e decidi que talvez tinha permitido que isto fosse muito longe.
 
-Edward, por que não fica um pouco mais? Seguro que há alguma jovem agradável que poderás  oferecer seus infinitos encantos .
 
Os olhos de Edward mostraram sua desilusão.
 
-Gabby, não me importa acompanhar-te até teu quarto, eu mesmo estou um pouco cansado.
 
-Tolices, Edward, faço questão de que fiques e te divirtas. Me sentiria muito mau se não pudesses divertir-te por minha causa.
 
Sabia que não tinha forma de que Edward pudesse seguir insistindo depois disso, de maneira que me despedi dele agitando com a mão e me dirigi a meu quarto
Bati ligeiramente à porta de meus pais. AOS poucos segundos, mamãe abriu a porta, falamos um pouco sobre o baile, dei-lhe um beijo na bochecha e fui para meu quarto;
 
Uma vez ali, deixei-me cair na poltrona e suspirei. Não tinha dito a verdade a Edward. A verdade era que não estava tão cansada, só queria estar só. Sentia a necessidade de escrever em meu caderno e desenhar as imagens da maravilhosa que seguiam boiando por minha mente. Decidi rapidamente que iria até a cobertura e escreveria lá. Pensei na lua cheia, e na cobertura, teria luz mais do que suficiente para desenhar. Abri meu baú e peguei minha bolsinha, meus cadernos, os lápis e fósforos,peguei tudo e me dirigi à cobertura.
 
A noite estava linda. A lua estava tão cheia e brilhava tanto que a água reluzia como prata fundida no rastro do barco. Decidi que ia tentar desenhar esta bela imagem, com a esperança de poder fazer-lhe justiça. Depois de instalar-me numa cômoda cadeira , pus-me a desenhar. Já fazia uns vinte minutos que estava ali, ouvi uma voz grave mas suave que dizia em tom baixo:
 
-Por que está aqui sentada sozinha?
 
Senti um estremecimento ao me virar. Era Danté. Levava algo que parecia um chále sobre os ombros e parecia que estava desfrutando de um passeio pela cobertura e acabou encontrando comigo.
 
Levantei meus cadernos tontamente e expliquei:
 
-Queria desenhar um pouco.
 
Não compreendia por que esta mulher, ou melhor essa garota, punha-me tão nervosa, por que tinha algo que me resultava tão familiar.
 
-Me deixa ver? -perguntou Danté.
 
Sem dizer nada, passei-lhe o caderno para que olhasse.
 
Esperei nervosa enquanto olhava com olho crítico o desenho e , antes de que pudesse detê-la, pôs-se a olhar rapidamente outras folhas de meu caderno, parando por fim na única página que eu não queria que visse. Com a sobrancelha arqueada olhou para mim  e para o desenho inacabado. Qualquer idéia de que pudesse não se reconhecer desapareceu quando arqueou novamente a reveladora sobrancelha. Estou perdida, pensei lúgubremente.
 
Fechou o caderno e me devolveu. Se virou e dando-me as costas, pediu-me, não, melhor me ordenou:
 
-Venha passear comigo -e depois disse, -: Por favor?
 
Começou a andar com passos longos e decidido. Levantei-me rapidamente, meti o caderno e os lápis em minha bolsa e saí depressa atrás dela.
 
Não era a primeira vez, que amaldiçoei minha pequena estatura, já que quase tive que correr para igualar seus longos passos. Por fim consegui andar do seu lado a base de dar dois passos por cada um dos dela.
 
-Danté, porque tens que caminhar tão rápido? -perguntei já cansada-. Que sentido teve de me pedir para que passeie contigo se vai deixar-me para atrás?
 
-Oh... Eu... Perdão -a jovem normalmente estóica parecia preocupada com algo.
 
-Está tudo bem? Precisava falar comigo sobre alguma coisa?
 
-Sim -disse. Parou tão bruscamente e tão depressa que quase me choquei com suas costas.
 
-Quais são tuas intenções com Edward? -perguntou de repente.
 
-Mi... minhas... intenções com respeito a Edward? -perguntei sem dar crédito.
 
Ela assentiu movendo a cabeça com decisão.
 
é Claro, não enfrentei à situação devidamente. Deu-me um ataque de riso.
 
-Oh, oh, sinto muito, desculpa.
 
-A mim não me parece que tenha graça -disse ela, num tom tão grave que quase era um rosnado.
 
Meu riso cessou e fiquei olhando uma cara endurecida, mas que seguia sendo formosa.
 
Fiquei ali plantada com a boca aberta enquanto tentava decidir que devia fazer para retificar a situação.
 
Danté deu a volta e começou a andar, afastando-se rapidamente de mim.
 
-Danté... Danté, por favor, me perdoa, por favor, não vai embora. Perdoa-me -repeti, agarrando-a pelo braço e obrigando-a se virar-. Danté, por favor, sinto muitíssimo -notei que me caíam lágrimas pelas bochechas. Por alguma razão desconhecida, não queria que pensasse mau de mim.
 
Aproximou-se de mim e me olhou nos olhos. Eu olhei os sapatos e ela levantou a minha cabeça para ela.
 
-Por que choras? -seu sotaque  estava bem mais marcado ao fazer a pergunta.
 
-Não quero que fique brava comigo -respondi com franqueza-. É que nunca me perguntaram quais eram minhas intenções com um jovem. Normalmente é o contrário, não é?
 
-É -respondeu Danté com um sorriso forçado.
 
-Danté, gostei de teu irmão, parece um jovem agradável, mas só o conheço a um dia. E não estou disposta a comprometer-me com ninguém, especialmente depois de um só dia. Me compreendes? -perguntei suavemente, temerosa de que ainda estivesse chateada comigo.
 
Danté soltou um pequeno suspiro. Era alívio ou desengano?
 
-Sim, creio que sim.
 
-Bem, então o que aconteceu com o passeio que me prometeu?
 
-É claro -afirmou e me indicou que pegasse em seu braço enquanto continuávamos nosso passeio. Desta vez Danté fez o esforço de compassar seu passo ao meu. Também fez questão de que eu pusesse seu chále. Quando recusei, ela me disse rindo que não sabia por que o tinha pegado, porque nunca passava frio. Me enrolei no seu quente chále, aspirando inconscientemente o doce perfume de Danté. Continuamos agradavelmente uns minutos mais, até que me vi obrigada a dissimular um bocejo.
 
-Já é muito tarde -disse Danté baixinho-. Talvez deveríamos ir as duas para cama.
 
-Obrigado pelo passeio, foi muito refrescante -disse como uma idiota. Senti que me ardia a cara ao mesmo tempo em que a comissura da boca de Danté se alçava num sorriso. Inclinou-se para mim e disse:
 
-Bom, alegro-me de que estejas... refrescada.
 
-Eeeh... sim -disse nervosa-. É melhor eu ir.
 
-Boa noite, Ga...bri...elle.
 
Estremeci pela forma em que pronunciou meu nome enquanto regressava distraída ao meu quarto. Que é o que tem que me deixa tão inquieta? Mexi a cabeça quando meus pensamentos começaram a descontrolar-se. Perguntei-me que tinha oculto atrás da capa de indiferença que a cobria tão bem.
 
-Vá, oi. Nate, olha isto.
 
Saí bruscamente de meus pensamentos por causa de uns homens com aspectos desagradável que pararam na minha frente.
 
-Pois não sei, Jack, parece que temos a uma jovenzinha que veio brincar conosco.
 
Perguntei-me estúpidamente se era possível que alguém tivesse os olhos tão grandes. Porque o corpo deste homem era imenso.Ficou bem na minha frente, respirando com tanta dificuldade que temi que fora morrer diante de meus olhos.
 
-O que faz aqui, menina? -perguntou o gordo, acariciando-me o braço com seu dedo gordo.
 
-Estooo, não, obrigada. Estou muito cansada. Estava voltando para o meu quarto -comecei a me afastar daqueles dois.
 
O baixinho e sujo com cara de rato lambeu os lábios e começou a vir para o meu lado, esfregando as mãos sudorosas nas calças pela excitação.
 
Dei-me conta muito tarde de que tinha subestimado ao gordo, que se lançou rapidamente para mim e me agarrou os braços, e me puxou para cima dele. Seu hálito rançoso com cheiro de álcool bem na minha cara.
 
-Que acham que estão fazendo? -exclamei.
 
-Vamos, mocinha, só queremos nos divertir um pouco. Prometo que tu também vai se divertir.
 
Então, com total consternação por minha parte, colou sua boca nojenta à minha. Fiquei paralisada de nojo e asco. Reagi mordendo com toda a força que pude a gorda língua que tentava meter em minha boca. O gordo gritou enquanto eu seguia mordendo-lhe a sua língua suja. Seu amigo com cara de rato ficou pasmado e por fim conseguiu me afastar com um empurrão.
 
Comecei a correr na direção onde tinha ido Danté, mas minhas longas saias me impediam de correr mais depressa que podia. Quando acabei de dobrar uma esquina, empurraram-me por detrás. Meu perseguidor e eu caímos de bruços fazendo um estrondo. Bati de cheio a minha cabeça no chão e desmaiei.
 
Fiquei sem sentido uns poucos segundos porque quando voltei a mim, o homem com cara de rato estava sentado em cima de mim e tentava levantar-me as saias para chegar a minha calcinha. O gordo me segurava contra o solo pelos ombros. Estava totalmente indefesa diante estes dois que pretendiam me fazer mal.
 
-Oh, Deus, por favor -solucei-. Por favor, não façam isto -eu implorava enquanto me debatia contra as mãos que me segurava os ombros.
 
De repente, as mãos deixaram de me segurar e consegui tirar de cima de mim o homem com cara de rato. Levantei-me ainda zonza, com a cabeça dando voltas, e vi que o gordo lutava com uma figura alta e escura entre as sombras. Ouvi um grito sufocado e um barulho que soou como um osso quebrando. Observei a cena que se desenvolvia na minha frente como se eu fosse uma espectadora inocente que não estivesse envolvida em nada.
 
Doía-me a cabeça horrivelmente e me apoiei para não cair num bote salvavidas que estava pendurado . Levantei os olhos justo a tempo de ver o cara de ratu pegar algo reluzente do bolso traseiro das calças e se aproximar por detrás dos dois combatentes entre as sombras. Abri a boca para gritar quando o cara de rato me esfaqueou sem piedade nas costas da pessoa que estava tentando me ajudar com o objeto. Meu protetor cambaleou para frente. Ao fazê-lo, distingui sua cara ao luar.
 
-Danté -gemiu quando caiu de joelhos diante de mim, com olhos suplicantes.
 
-Vai... saia daqui-murmurou. Me olhou nos olhos e depois fechou os seus. Caiu de bruços sobre o solo.
 
-Danté -gemiu de novo enquanto tudo a meu arredor ia ficando escuro.
 
Recuperei o sentido acompanhada pelo ruído de meus dois atacantes discutindo.
 
-Não tinha por que matá-la, idiota.
 
-Não estava tentando matá-la, só queria tirar de cima de você. Você gritava como um bebê.
 
-É que ela quebrou o meu nariz.
 
-Que vamos fazer com sobre isto? O capitão vai nos matar quando descobrir.
 
-Não pode descobrir, ao menos até que tenhamos saido deste barco.
 
-Que fazemos? -perguntou o cara de rato-. É certo que as duas poderá nos identificar.
 
- se ninguém souber onde estão.
 
-Que queres dizer? -perguntou o cara de rato.
 
-Quero dizer que essa já está morta. E se atirarmos às duas no mar?
 
-Eu não vou matar ninguém, Nate.
 
-Pois tenho algo que te dizer, amigo, já o fizeste.
 
-Bom, isso foi um acidente, e eu estava tentando salvar-te a vida.
 
-Vamos ver o que o capitão vai achar de sua explicação.
 
-Bom, o que faremos? Não vou matar mais ninguém.
 
O gordo ficou pensando por um momento.
 
-E se as colocarmos nesse bote salvavidas e as deixamos à deriva? e passarão dias até que sintam falta o bote.
 
-¡Que boa idéia! -gritou o cara de rato.
 
-Vamos, ajuda-me resmungou o gordo e o cara de rato e ele levantaram a Danté bruscamente e a colocaram no bote salvavidas.
 
Mal consegui encolher-me quando notei que suas sujas mãos me levantavam e me depositavam ao lado de Danté.
 
-Toma, esta é a bolsa da baixinha.
 
Senti que os cadernos me golpeavam dolorosamente os joelhos quando minha bolsa caiu sobre o bote com Danté e eu.
 
- onde está essa faca, Jack?
 
Senti que o medo me fez pensar que talvez fora esfaquear-nos antes de baixar o bote, mas ouvi rosnar acima de nós enquanto tentava cortar os nós que seguravam o
nosso bote.
 
-Eh, espera. Não os cortes, baixa-as na água, assim não fará muito barulho.
 
O gordo assentiu com um rosnado e nos baixou no oceano.
 
-Eh, livra-te dessa faca disse o gordo ao cara de rato-. Está faca tem o sangue da altona.
 
Não pude evitar encolher-me quando ouvi o ruído da faca ao cair no bote a meu lado.
 
-Eh, ela se moveu, øuviu.
 
-E daí ? Já teremos ido antes de que essas duas tenham oportunidade de contar para alguém. Se é que vão sobreviver para contar alguma coisa.
 
Notei que o pequeno bote se movia rapidamente com a corrente. Atravessou-me uma apunhalada de medo ao pensar que íamos ficar à deriva. Pensei em gritar pedindo ajuda, mas depois me lembei que os homens estavam a ponto de acabar com Danté e eu a minutos atrás. Ouvia vagamente a música da banda que ia desvanecendo-se. A corrente se apoderou do pequeno bote e nos deixou à deriva bem rápido fomos ficando distante do navio.
 
Estou viva, pensei entusiasmada. Tratei de mover as mãos e senti um corpo macio a meu lado.
 
Danté, pensei. Tentei sentar-me, mas a minha cabeça estourava de dor. Caí para frente e acabei com a cabeça no ombro de Danté.
 
-Por favor, não me deixes -sussurrei ao afundar-me na escuridão que era a inconsciência.
 
A primeira coisa que me dei conta foi o ruído, ou melhor deveria dizer a falta de ruído, e o calor. Antes de abrir os olhos senti que tinha  o rosto e as mãos muito queimadas. Fiquei ali deitada por mais um momento, temendo abrir os olhos. Danté, pensei. Sem dúvida tinha que estar morta. Um leve gemido foi o único que consegui emitir. Sentia que não podia fazer outra coisa além de ficar ali deitada e deixar que o destino seguisse seu curso. Danté deveria ter deixado que me violentasse. Ao menos estaria viva.
 
Uma vozinha dentro de minha cabeça perguntou: E se não estiver morta, Gabby? Isto me fez abrir os olhos inesperadamente e desejei não o ter abrido de  fato. Uma luz tão brilhante bateu em meus olhos achei que tinha me deixado cega . Fechei as pálpebras inesperadamente e tampei os olhos com o braço. Fiquei ali sofrendo até que a ardência que sentia nos olhos cedeu o suficiente para que eu tentasse me sentar já que o bote que se movia suavemente. Voltei a abrir os olhos com cautela.
 
-Danté -chamei. Meus lábios protestaram pelo movimento rachando-se em vários pontos, mas não fiz caso. Danté não tinha bom aspecto. Se não estava morta, não demoraria em estar.
 
Notei que estava deitada em cima de seu próprio sangue que agora estava coagulando no bote embaixo de seu vestido.
 
Sua pele estava pálida e sem vida. Não sei se alguma vez tive tanto medo em minha vida do que nesse momento.
 
Aproximei de Danté o mais depressa que pude sem fazer que o bote balançasse demais.
 
Ainda não tinha a pele queimada, seus lábios, como os meus, estavam cortados. Pus-lhe a mão em cima da boca e solucei de alívio ao notar sua ligeira respiração. Rapidamente, arranquei uma longa tira de pano de meu vestido e molhei na água. Pus-lhe o pano feito uma bola por detrás do pescoço, com a esperança de esfriar-lhe a pele febril.
 
Pela primeira vez comecei a fixar-me no que nos rodeava. Só via água. Oceano até onde atingia a vista. Sufocando outro soluço, decidi concentrar-me em Danté. Nestes momentos não podia preocupar-me pela terra, ou a falta de terra. Tinha que ajudar a Danté ou não sobreviveria um dia mais. Ia fazer tudo o que pudesse para Danté e me pus a fazer tiras com a parte inferior de meu vestido. Pensei em tirar todo o meu vestido e ficar com minha roupa interior, mas algo me disse que precisava da roupa para proteger-me do sol, apesar que fazia um calor horrível.
 
Quando já tinha tiras suficientes , comecei a árdua tarefa de colocar a Danté de bruços. Ainda que Danté era uma garota de ossos delgados, era bem mais alta e eu não tinha muita força. Depois de muito rosnado e muito suor, consegui vira-la e pude ver melhor sua ferida.
 
-Oh, meu Deus . A ferida de Danté estava bem feia. Recordei vagamente que tinha ouvido meu pai dizer que era mais provável que uma pessoa morresse por perda de sangue que pela ferida mesma. Eu tinha que costurar a ferida. Mas sabia que não tinha como costurar a Danté, já que não tinha nem fio nem agulha para fazê-lo. Mas tinha que encontrar uma maneira de parar a hemorragia. De repente, recordei as imagens dos velhos livros de medicina de meu pai sobre feridas cauterizadas. Recordei que tinha fósforos na minha bolsa. Apressei-me para pegar minha bolsa e catei a caixa de metal onde estavam os fósforos. Decidi que tinha que limpar a faca que Nate tinha jogado e caio no bote para cauterizar a ferida de Danté, com isso poderia ter uma possibilidade de sobreviver. De maneira que molhei a faca no oceano e limpei todo o sangue que tinha nela. Prendi um pouco de tela de meu vestido e uns lápis e me pus a esquentar a folha da faca até que ficou incandescente à luz do amanhecer. Quando pensei que já estava bastante quente, arrastei-me até Danté e depois de sussurrar-lhe o muito que sentia, apertei a faca quente contra sua ferida. Fiz uma careta ao sentir o cheiro  da pele e o sangue de Danté queimadas pela faca.
 
Lembrei das tiras que tinha arrancado de meu vestido e pensei que talvez poderia vendar a ferida de Danté com tanta força que seu corpo poderia ter tempo de curar-se. Sabia que a coisa era incerta , mas se pudesse deter a hemorragia, Danté teria alguma chance.
 
Não sei quanto tempo demorei para colocar as nove tiras ao redor de Danté, mas deve ter passado algumas horas. Mantive a mente concentrada em minha tarefa. Sempre que sentia que o que estava fazendo era inútil, olhava para Danté e recordava que se encontrava nesta situação por minha causa. Sentia uma preocupação porque Danté não se queixou nem uma só vez enquanto me ocupava de sua ferida. Fazia-o com todo o cuidado possível, mas sabia que era muito doloroso. Depois de molhar uma vez mais o pano que tinha posto na nuca de Danté , joguei-me a seu lado para descansar.
 
O sol já estava se pondo e o ar tinha começado a esfriar notavelmente. Rodeei a Danté com os braços e me agarrei a ela . Seu corpo irradiava calor e fiquei preocupada que podia ter febre. Esgotada, dormi sem sonhar, com os braços frouxos ao redor de Danté e o corpo acurrucado por instinto contra seu calor.
 
Não sei quanto tempo dormi. Comecei a entrar o pânico quando me dei conta de que tinha os olhos abertos mas o única coisa que via era uma escuridão. Me esforcei para erguer a minha mão que tocou um corpo quente e recobrei inesperadamente a consciência da realidade. Estávamos no meio do oceano e ninguém sabia sequer que tínhamos desaparecido. Estava segura de que a estas alturas meus pais e a mãe de Danté já teriam sentido saudades, mas se dariam conta de que nos estavamos à deriva?
 
Uma lágrima caiu por minha bochecha queimada, deixando um rasto de fogo até o pescoço. Deixei que se me escapasse um soluço da garganta ao mesmo tempo em que colava meu corpo no de Danté para conservar o calor.
 
Danté emitiu um gemido ligeiramente e me ergui rapidamente, fazendo que o bote balançasse de um lado par o outro. Era o primeiro ruído que fazia desde que tinha desmaiado. Tive a esperança de que talvez se recuperasse.
 
Fazia muitíssimo frio e Danté era minha única fonte de calor, além do chale com que tinha me envolvido na cobertura. Cobri nós duas com ele e me acomodei para passar a noite. O bote salvavidas se movia suavemente na água, até que dormi de novo sem sonhar.
 
Desta vez as palavras de Danté interromperam meu sonho. Parecia ter menos febre, mas seguia muito quente. Recordei que Danté tinha dito durante nosso passeio que nunca sentia frio, assim tive a esperança de que isto fosse normal para ela.
 
-Não -resmungou Danté-. Não vou deixar que faça isso..
 
-Danté, sou eu, Gabby, não está acontecendo nada -lhe sussurrei ao ouvido.
 
-Ga... bri...elle -murmurou.
 
-Sim, sou eu -a tranqüilizei o melhor que pude-. Está ferida, Danté, tens que te ficar quieta ou se não vai sangrar a  sua ferida.  se eu tivesse água para dar-pra vc beber, mas por desgraça não tenho. Sei que tens sede, mas não creio que a água do mar fosse agradar-nos muito a nenhuma das duas -ao dar-me conta de que falar não era a atividade mais conveniente para minha boca ressecada e sedenta, decidi ficar calada por um momento.
 
Danté voltou a ficar inconsciente depois de minhas palavras. Aliviada, acomodei-me de novo a seu lado, notando que o sol não demoraria a sair e que provavelmente voltaria a fazer um calor insuportável. Danté respirou fundo uma vez e pareceu acalmar-se.Nós duas voltamos a dormir.
 
Acordei quando o sol batia de novo sobre mim. Peguei o chále de Danté, e o pus sobre seu rosto para protegê-la e comecei a tarefa de arrancar mais tiras de meu vestido para mudar as bandagens de Danté. Desta vez, quando coloquei Danté de bruços, queixou-se e achei que fosse um bom sinal, tentei ter mais cuidado.
 
-Eu sinto tanto, Danté. Creio que isto te fez bem, apesar do sangue ainda não ter parado de sair me dei conta de que o mais provável era que Danté não me ouvisse, mas o silêncio começava a tirar-me do sério.
 
Tirei as setes primeiras bandagens de Danté, estavam ensangüentadas, sujaram o assento do bote. Limpei ao redor da ferida o melhor que pude, mas tinha medo de que a água salgada lhe fizesse mal, de maneira que usei o menos possível, observei que a ferida já começava a curar-se. Danté parecia ter a sorte de contar com uma capacidade de recuperação assombrosa. Tirei primeiro as capas exteriores, ainda limpas, das bandagem anterior de Danté e depois fiz mais sete tiras novas de meu vestido. Depois peguei as iras ensangüentadas de Danté e as lavei pela parte de atrás do bote.
 
Fiquei preocupada pela quantidade de sangue que saía das bandagens. Danté tinha perdido muito sangue. Meu Pai dizia que o corpo precisa de alimento e água para sobreviver e curar-se, mas não tínhamos nada. Sacudi a cabeça para tirar-me os pensamentos que ameaçavam afundar-me numa depressão.
 
Distraída, notei que a corrente parecia acelerar e que nos movíamos mais depressa. Notei que também estava se formando nuvens no céu e me perguntei se seria uma tempestade. Chuva significa água, informou-me minha mente cansada. Pus-me a pesquisar o que tinha no bote. Minha bolsa estava embaixo de um dos assentos. PEGUEI-A e remexi nela a procura de algo para poder recolher a água. Ao não encontrar nada, olhei embaixo dos assentos da proa do bote.
 
Encontrei três coletes salvavidas, a faca e uma pequena lata. Saltei sobre a lata e me estremeci de asco quando descobri o que tinha dentro. Era evidente que um membro da tripulação tinha usado a lata para cuspir fumo, cujos restos estavam ao fundo. Peguei a lata e asqueada lavei seu conteúdo . LAVEI-A mais de cinco vezes até ficar satisfeita. Ainda cheirava ligeiramente a fumo, mas já não podia fazer mais nada.
 
Observei o céu que se ia nublando sem dúvida eram umas nuvens de tormenta das mais ferozes. Para passar o tempo, decidi escrever em meu caderno tudo o que tinha ocorrido até agora. Não pude evitar sorrir ao imaginar a Elizabeth lendo o caderno sem acreditar muito nisso que está acontecendo. Um forte trovão me tirou me assustou.
 
-Oh, meu Deus.
 
Dei um pulo e me encostei mais em Danté. Voltei a guardar meu caderno e minhas coisas de escrever na bolsa e a coloquei embaixo do banco . Depois pus a lata em cima do banco de forma que esperava que recolhesse água e não saísse voando. Deitei-me no fundo do bote e olhei o céu. Não sabia o que me dava mais medo: não ter água ou estar neste bote no meio do oceano durante uma tormenta. A água começou a agitar-se à medida que aumentava o vento. Lembrei de repente dos coletes salvavidas de cor laranja que estavam embaixo dos assentos. Coloquei rapidamente um pela cabeça . Depois pus outro em Danté com grande dificuldade, atando os cordéis com firmeza. Pus o outro colete embaixo de nossas cabeças e coloquei o chále em cima de nossas cabeças à espera da tormenta iminente.
 
Surpreendentemente, eu dormi, porque acordei ao ouvir outro forte trovão e ao notar que o bote ia violentamente para a direita. Tirei o chale dos rosto que nos cobria e olhei a meu redor assustada. O céu estava tão escuro que quase parecia de noite. Ia ser uma tormenta impressionante e nem Danté nem eu podíamos proteger-nos realmente da chuva. Quase como se os céus me tivesse ouvido, uma gota de chuva caiu sobre minha cabeça. Olhei assustada a meu redor procurando uma maneira, qualquer maneira de proteger a Danté da tempestade que estava chegando.
 
Dei-me conta de que o espaço onde antes estavam nossos coletes salvavidas estava vazio, só tinha a minha bolsa. O espaço era bastante grande para proteger-nos a cabeça da chuva. Por alguma razão, estava segura se conseguisse proteger a cabeça de Danté da chuva, ficaria bem. Retrocedi pelo bote, arrastando a Danté comigo centímetro a centímetro. Tinha que me assegurar de que não ia arrastar-lhe também o rosto no fundo do bote, e acabei demorando muito. Por fim coloquei a Danté de bruços com a cabeça e os ombros embaixo do banco, protegidos da chuva em sua maior parte.
 
A tormenta que chegava tinha aliviado um pouco o calor. Pois tinha feito um calor insuportável e agora tinha muita umidade e quietude.
 
Teve um forte trovão seguido imediatamente de um brilhante reflexo que atravessou o céu, aluminando a escuridão como uma bengala. A estas alturas, eu rezava ferventemente. Por que Danté e eu precisássemos o água, neste momento o que me preocupava mais do que o bote se conseguiriamos sobreviver à tempestade.
 
Quando a chuva caiu sobre nós, pensei que talvez devia aproveitar a ocasião para limpar a ferida de Danté. Rasguei-lhe um pouco mais o vestido para poder ver a ferida, se estava fechando.
 
-Se cura depressa, que bom, Danté?
 
Danté gemeu, já fora como resposta ou pela dor que lhe produzia a chuva torrencial ou da ferida. Observei enquanto o sangue corria pelo seu quadril e lhe sujava o vestido.
 
Quando a ferida ficou bastante limpa, peguei um bocado de tiras limpas que tinha arrancado de meu vestido e lavei um pouco mais a ferida. Agora que tinha a ferida bastante limpa, substituí as bandagens velhas por outras novas.
 
-Bom, Danté -disse, tratando de se manter o mais calma possível-. Vamos ficar aqui sentadas e ver se sobrevivemos a isto, de acordo, minha amiga ?
 
Joguei a cabeça para atrás e bebi toda a água da chuva que pude. Queria guardar pára Danté a maior parte da água recolhida pela pequena lata. Pus o chále molhado em cima de nós e me encostei em Danté.
 
Não sei se tentava consolá-la ou a mim mesma, mas ao final de uma hora ou duas fechei os olhos com força e rezei para que o bote não virasse, acabei dormindo profundamente . Ou talvez desmaiei, não sei, mas fosse o que fosse, foi definitivamente um alívio depois dobalanço mareante do bote, os trovões ensurdecedores e a chuva torrencial.
 
Durante a noite, sonhei que corria por um campo de flores silvestres. O sonho era tão real que até tinha o aroma das flores no ar. Acordei com um sorriso na cara, esperando estar dormindo nesse campo. Mas não estavamos salva senti o cheiro úmido do oceano e nossa roupa molhada . Era uma escuridão total à que enfrentariamos enquanto não tivesse lua no céu.
 
Pela primeira vez me permiti perguntar-me que ia fazer se não nos encontravam. E se Danté tinha perdido muito sangue e não conseguisse sobreviver até que nos resgatassem? Por alguma razão, a idéia de que Danté não sobrevivesse me dava mais medo do que a idéia de morrer as duas juntas.
 
Acomodei-me no bote ao lado de Danté e me encostei junto a ela.
 
-Conseguiremos sair desta, Danté, de algum modo conseguirei sair desta -lhe disse, tratando de dar toda a força e confiança que pude a esta afirmação. Fui- ficando com sono pouco a pouco enquanto a chuva, antes torrencial, diminuía até converter-se num toró quase relaxante.
 
Na manhã seguinte acordei sobressaltada. Tentei esquecer-me do vestido incômodo e que dava coceiras e fui me ocupar com Danté. Bom, vamos dar uma olhada a essa ferida.
 
Depois de tirar as bandagens, coloquei-as no banco em cima da cabeça de Danté e olhei com olho crítico a carne enrugada que rodeava a ferida de Danté.
 
-Vai, tem bom aspecto, Danté -lhe disse como se fosse mérito seu. Pus as tiras limpas de meu vestido sobre a ferida e pensei com pena: Este vestido está um trapo . Suspirando, fui à popa do bote para lavar as vendas ensangüentadas.
 
Enquanto esfregava as tiras contra a borda do bote, voltei a sentir o maravilhoso aroma das flores de meu sonho. Olhei para Danté: não podia ser ela. Enquanto processava esta informação, dei-me conta de outra coisa. Um ruído , soava quase como se alguém gritasse "ja... ja". Seguí o som com os olhos, dando um giro completo de 160 graus no bote. Então vi... a visão mais bela que jamais havia visto. Era terra e não estava nem a uma milha de distância.
 
-Oh, pelos deuses -suspirei-. Graças aos deuses.
 
A terra estava tão perto que o aroma das flores que tinha sonhado evidentemente vinham dali. Vi umas grandes aves marinhas que submergiam e voavam pela praia. Caçando, provavelmente, pensei distraída. Acho que estão pegando caranguejos ou peixes. Minha boca se encheu de água e me dei conta que estava dias sem comer. Tinha estado tão preocupada comr Danté que nem sequer tinha lembrado que tinha um estômago encolhido de fome.
 
Dei-me conta de que se queria chegar a terra ia ter que fazer algo mais que me ficar sentada esperando. Rapidamente tirei o vestido, ou o que tinha dele, e o atei a uma argola de metal que tinha na proa do bote. Coloquei o colete salvavidas laranja e depois de ver como estava Danté, entrei no mar.
 
Reboquei o bote até a orla foi uma tarefa quase impossível. Não tinha muita força e era como se o bote não se movesse. Mas abaixei a cabeça e segui bracejando e impulsionando-me com as pernas com todas minhas forças. Cometi o erro numa ocasião de levantar o olhar e quase comecei a chorar de frustração. Parecia que não tinha avançado nada em absoluto.
 
-Por favor -roguei a quem quer que estivesse escutando-. Estamos tão perto, me ajude.
 
Seguí nadando já muito cansada entre braçada e puxão, braçada e puxão, me pareceram horas. Já não podia mais, estava tão cansada que nem tinha forças para voltar a subir no bote e nem para continuar com minhas infrutuosas braçadas.
 
-Pensa, Gabby. Pensa e sussurrei tontamente. Observei que a água formava uma crista e depois voltava para mim. Por cada meio metro que conseguia avançar, a água nos fazia voltarr uns dois metros. Apoiei a cabeça no bote. Não tinha forma de conseguir
 
Com a cabeça apoiada no bote, vi uma onda depois da outra chegar até a resplandecente praia branca. Depois a onda parecia voltar correndo para mim como que dizendo: "Eu posso tocar a terra, mas tu não". Fiquei olhando a onda com raiva um momento até que notei algo raro. A onda só voltava uns três metros e meio e depois parava. E mal se movia. Com um sorriso estou segura de que resultava quase demente, comecei um curso paralelo à onda com renovado vigor. Vamos conseguir, Danté, vamos conseguir, continuava falando mentalmente.
 
Ir nadando e rebocando o bote foi tarefa lenta no melhor dos casos, mas por fim cheguei no ponto onde a crista da onda mal me atingia. Apoiei a cabeça no bote com cansaço. Estava tão emocionada que queria continuar, mas meu corpo já estava protestando pela falta de comida e água. Tinha que me assegurar de que não ia desmaiar. Ninguém poderia salvar-me nesse caso e não teria ninguém que cuidasse de Danté se eu morresse.
 
Tendo isso na cabeça, girei com determinação para a orla. Desta vez nada ia me impedir de atingir minha meta.
 
Ao cabo de uns trinta minutos, relaxei o corpo e baixei os pés com a intenção de descansar agarrada ao bote. Enquanto descansava, meu pé bateu em algo. Oh, Deus, alguém estava me escutando. Estiquei o pé para baixo tudo o que pude e consegui tocar foi um pouco do solo..
 
Pus-me a nadar de novo com renovado vigor. A poucos minutos, meus pés tocaram solidamente no solo. Rindo como uma histérica, segui levando o bote para a orla, dando graças a todos os deuses que recordava do livro de mitologia grega que lia meu pai pra mim quando pequena.
 
Por fim o bote se deslizou sobre a praia num golpe só e desabei de costas na areia molhada rindo histericamente. As gaivotas que davam voltas  em cima de mim se uniram na minha alegria. Continuei rindo até que acabei chorando.
 
- conseguimos, Danté -lhe sussurrei a minha amiga, que continuava inconsciente no fundo do bote-. Conseguimos. Oi, há alguém aqui? Oi, por favor, preciso de ajuda -gritei, mas só as aves se manifestaram a minha pergunta.
 
Fui ver como estava Danté uma vez mais para assegurar-me de que se encontrava bem. Depois de certificar de que seu estado não tinha mudado e seguia igual, decidi que ia tentar procurar ajuda. Coloquei várias pedras ao redor do bote. Não queria arriscar-me que Danté fosse arrastada para o mar. Vestida unicamente com minha combinação, comecei a explorar os arredores.
 
O lugar era lindo. A praia onde Danté e eu tínhamos desembarcado estava coberta de uma areia branca quase como a neve. A rica vegetação que rodeava a praia era tão espessa que não sabia se conseguiria atravessá-la para explorar.
 
-Oi -gritei outra vez. De novo, a única resposta que recebi foi a das aves.
 
Não queria estar longe de Danté muito tempo assim que dei a volta e regressei à praia. Danté não se mexeu desde que a deixei.
 
-Danté, vamos ficar bem. Eu acredito. Tenho que encontrar uma forma para tirar-te deste bote e levar-te a um lugar seguro. Depois vou procurar alguém que possa nos ajudar.
 
Olhei a meu redor a procura de algo que pudesse me ajudar a tirar minha alta amiga do bote. Decidi tira-la  do bote, depois provavelmente poderia arrastá-la pela praia.
 
Regressei ao denso bosque que rodeava a praia. A vegetação estava cheia de árvores frutíferas, algumas das quais reconheci. Meu estômago me comunicou que não estava contente comigo em absoluto e que precisava receber alimentos quanto antes. Procurei um pau bastante longo para derrubar umas bananas para comer. Peguei um longo de bambú do solo da selva, comecei a golpear a árvore com toda a força que pude.
 
Consegui fazer um puré de bananas mas nenhuma delas caiu no solo. Não fiz nem caso dos cocos dos pássaros que caia em mim que voavam pelas copas das árvores e olhei desesperada a meu redor procurando uma forma de atingir a apetitosa fruta madura. Um forte golpe a menos de um metro de distância a minha direita me fez soltar um grito. Quase como se respondesse a minha força de vontade, um grande coco verde tinha caído de uma árvore.
 
Apressei-me a pegá-lo e o levei de volta à praia. Golpeei-o várias vezes contra umas rochas negras até que consegui chegar à polpa comestível. Bebi um pouco do leite doce que saía de seu centro e me afastei das rochas rumo ao bote onde estava minha amiga inconsciente. Meti o dedo no leite do coco e lhe pus um pouco nos lábios para humedecer e ver se respondia.
 
Danté abriu a boca e consegui colocar um pouco de leite na boca seca. Seguímolhando o dedo na metade do coco e colocando depois na boca aberta de Danté. Tomei ar suavemente quando ao tirar os dedos de entre os lábios de Danté, pareceu-me notar uma ligeira pressão de sua língua.
 
-Danté?
 
É claro, não obtive resposta, mas voltei a molhar os dedos rapidamente no coco e transferi o néctar à boca úmida e quente de Danté. Desta vez os deixei metidos um momento na boca de Danté para ver se reagia.
 
Desta vez notei uma clara sucção quando os lábios de Danté se fecharam devagar ao redor de meus dedos e chuparam suavemente o leite do coco. Soltei um suspiro só eu sabia o que tinha estado agüentando e permiti que uma lágrima me escorregasse devagar pela bochecha.
 
-Obrigado -sussurrei a quem quisesse escutar.
 
Pensei se empilhava pedras ao redor do bote não teria que mover a Danté e que as pedras impediriam que o bote boiasse para o mar por acidente. Já tinha renunciado de tirar Danté do bote. Pesava muito para mim e não tinha como me ajudar até que estivesse melhor.
 
De maneira que me dediquei a levar umas enormes folhas de palmeira do bosque à praia. Quando me pareceu que tinha suficientes, coloquei as folhas da palmeira em cima do bote. Quando já tinha a metade do bote coberta, meti-me dentro com as duas metades do coco e nos cobri Danté e a mim mesma. As grandes e frondosas folhas tampavam eficazmente a maior parte do sol e fazia que o interior do bote parecesse uns vinte graus mais fresco,  e além de fazer sombra.
 
Danté se mexeu e agitou um pouco a cabeça.
 
-Shhh, carinho. Está bem, nós duas estamos bem.
 
Afastei o cabelo de Danté dos olhos e comecei acariciar sua cabeça. Isto pareceu tranqüilizá-la, respirou fundo e se acalmou.
 
Com o leite do coco enchendo-me o estômago e sabendo que nem Danté nem eu íamos morrer de fome, dormi um longo sono reparador.
 
O estridente grito dos pássaros  em cima do bote acabou acordando-me. Sentia-me como se tivesse dormindo vários dias. Enquanto dormia, em algum momento coloquei a cabeça no ombro de Danté e uma perna em cima das duas suas. Sentindo-me culpada, me afastei dela e rezei para não ter feito nada que a machucasse durante meu sono inquieto.
 
Comprovei seu estado e me tranqüilizei ao ver que parecia estar descansando comodamente.
 
Tirei as duas folhas de palmeira maiores de cima de nossas cabeças e saí do bote. Deii um grito quando algo me passou em cima do pé. Saltei de novo no bote olhando temerosa a meu redor para ver se via uma aranha. Surpreendi-me ao ver que em vez de aranhas tinha pequenos caranguejos azuis por toda a praia. As gaivotas que voavam em círculos em cima de nós eram a causa da confusão que me tinha acordado. Fiquei olhando enquanto milhares de pequenos caranguejos azuis saíam do mar rumo a um destino que só eles conheciam.
 
Recolhi rapidamente uns cinco destes pequenos animais num pedaço de pano do vestido e os deixei boiando num pequeno charco de água próximo do mar seguros com uma grande pedra. Peguei minha bolsa e remexi nela procurando desesperadamente a lata de fósforos que guardava ali para queimar meus carvãozinhos de desenho.
 
Soltei um grito de alegria quando meus dedos deram com a lata onde as tinha. Subi correndo pela praia e me pus a cavar com frenesi um buraco na areia. Percorri a praia a procura de toda lenha que pudesse encontrar. Usei 3 de meus preciosos fósforos, mas por fim consegui fazer uma pequena fogueira. Corri para pegar os caranguejos.
 
Abri o pano e sussurrando uma desculpa pelo que estava a ponto de fazer, atirei os pequenos crustáceos vivos ao fogo.
 
Quando estive segura de que estavam cozidos, os tirei do fogo com um pau e esperei com impaciência que esfriassem o suficiente para comê-los. Decidindo que uns minutos eram mais do que de sobra para que esfriassem, peguei uma das pequenas criaturas, arranquei-lhe as patas e chupei a carne suculenta da casca, surpreendentemente macia.
 
-Mmm -gemi pelo maravilhoso que lhe resultava o caranguejo a meu estômago faminto. Ainda que os animalzinhos não tinham muita carne, bastaram para enganar um pouco minha fome constante. Envolvi o caranguejo cozido num pedaço de pano e, lamentando, joguei areia em cima do fogo. Só me ficavam uns vinte fósforos. Teria que melhorar muito na hora de acender um fogo ou Danté e eu estaríamos a base de comida crua até que nos encontrassem.
 
Deixei o caranguejinho no bote para comer mais tarde e verifiquei como estava Danté. TAMPEI-A de novo com as grandes folhas e me adentrei no bosque para procurar mais cocos ou qualquer coisa que pudesse faze-la comer.
 
Até agora reconhecia bananas, mamões papaya, cocos, frutos do conde, nada mais. No entanto, dada a inconsciência de Danté, mal conseguia engulir a água do coco, de maneira que não poderia com algo mais sustancioso.
 
Enquanto caminhava por entre as árvores para ver se encontrava algo comestível, encontrei com uma bananeira inclinada. Se pudesse abaixar mais à copa da árvore, seguramente poderia fazer cair parte da fruta.
 
Deixei no chão o coco que tinha encontrado no bosque e procurei um pau de bambú longo. Quando encontrei um que me pareceu adequado, trepei na árvore. Sorri com ironia ao recordar as velhas reclamações de minha mãe, dizendo que subir em árvores não era próprio de uma jovenzinha. Pois veja, mãe, desta vez poderá salvar a minha vida.
 
Por fim, quando cheguei perto da copa conseguia atingir as bananas com o pau, inclinei-me tudo o que pude e comecei a empurrar a fruta. As bananas se negavam teimosamente a cair, mas ao final de uns quinze minutos de empurrões, caíram no solo do bosque. Desci o mais depressa que pude. Não tinha tido intenção de ficar tanto tempo longe de Danté.
 
Arrastei o cacho de bananas até o fim do bosque e fui correndo com o coco até o bote o mais depressa que me permitiu meu corpo debilitado. Aliviada, vi que as folhas seguiam intactas em cima do bote e que a garota ferida que tinha embaixo parecia seguir descansando tranquilamente. Rompi a casca verde externa do coco nas rochas próximas da praia e depois rompi a casca marrom interna com todo o cuidado possível, tentando conservar a água para Danté.
 
Voltei com as duas metades ao bote e me sentei com cuidado ao lado de Danté. Mplhei dois dedos na casca como a vez anterior e os coloquei na boca dela. Desta vez Danté chupou o leite com um pouco mais de força. Tomei ar ao sentir que sua língua lambia meus dedos que lhe oferecia.
 
 Eu corei muitíssimo quando Danté aumentou a pressão sobre meus dedos sem dar-se conta. A sucção estava me causando calor entre as pernas e depois uma dorzinha que me era desconhecida. Não era dolorosa, só incômoda.
 
Molhei os dedos na metade do coco e voltei a oferecer a Danté, quase temendo a pressão da sucção que estava segura que ia produzir. Como antes, tive que obrigar a Danté a tomar o alimento, mas quanto seu corpo começou a aceitar inconscientemente que estava sendo alimentado, a pressão se fez assombrosamente forte e firme.
 
Fechei os olhos para deixar de olhar os lábios cortados de Danté fechados ao redor de meus dedos. Sem dúvida devia de estar ficando louca por sentir algo assim. Ofeguei e levei a mão livre ao estômago enquanto Danté seguia chupando-me os dedos em procura do leite de coco, que já não tinha fazia um momento.
 
Abri os olhos e caí imediatamente no desorientado redemoinho azul que eram os olhos de Danté. Afastando meus dedos rapidamente como uma menina à que tivessem pegado com a mão metida na caixa de bolachas, inclinei-me para ela.
 
-Danté, está bem?
 
Olhou-me confusa por um momento antes de abrir a boca como quisesse falar.
 
-Gabrielle? Você está bem? -perguntou-. Te fizeram mal?
 
Não pude evitar as lágrimas.
 
-Não... não, não me fizeram mal, mas a ti sei que te fizeram disse, acariciando-lhe a cabeça com uma tira limpa.
 
-Quanto tempo? -disse com voz rouca. Dei-me conta de que queria dizer quanto tempo tinha estado desmaiada. Olhei o céu incandescente e contei a verdade.
 
-Não sei, Danté. Estava um pouco desorientada no princípio, mas parece que passaram uns quatro dias.
 
Seguiu olhando-me um momento e depois perguntou, em voz tão baixa que tive que me inclinar sobre ela para ouvir o que dizia.
 
-Que aconteceu, Gabby? Onde está tua roupa?
 
Pela primeira vez pensei no que devia estar parecendo. Notou minha pele ressecada causada pelo sol quente  , minha pele, meu rosto  meus ombros estam descascandos . Meu cabelo fazia tempo que tinha deixado de parecer minimamente organizado e meu vestido? Bom, tinha usado os restos que ficavam dele para usá-los como bandagem para Danté. Estava vermelha como um caranguejo e vestida só com minha combinação e minha roupa intima..
 
Comecei a rir. Ri tanto que tive que deitar junto ao corpo de Danté por não cair em cima dela. Meu riso não demorou em transformar-se em pranto e descobri que Danté estava me consolando dando-me palmadinhas nas costas para tentar parecer reconfortante. Ainda que eu apreciava o esforço que estava fazendo, a verdade era que lhe faltava a capacidade para consolar.
 
Depois de suspirar com um soluço, me ergui e a olhei.
 
-Perdão, é que se me veio tudo na cabeça inesperadamente. tinha medo de que não fosse sobreviver. Fiquei contentísima quando vi terra e depois, quando consegui trazer o bote até aqui, acreditava de que alguém poderia ajudar-te, mas quando não encontrei ninguém, voltei a sentir medo por ti.
 
-Não vai acontecer nada, sou durana disse com a voz rouca-. Onde estamos? -perguntou, tentando olhar a seu redor de onde estava deitada no fundo do bote. O única coisa que via era o céu azul à direita e à esquerda as copas das árvores onde eu procurava alimento.
 
-Não sei. Seja onde for,é muito isolado. Não vi nem ouvi ninguém desde que chegamos aqui. A verdade é que não tive coragem de sair para explorar, tinha medo de afastar-me muito de ti durante muito tempo disse com um sorriso inocente-. Consegui pegar algumas frutas e alguns caranguejos pequenos que pelo que vi tem muitos nesta praia, mas isso é tudo. Está com fome, Danté? lhe perguntei, recordando pela primeira vez que minha paciente não tinha comido a mais de quatro dias. Consegui que tomasse um pouco de leite de coco, mas tinha medo de que afogasse com algo mais sustancioso as imagens fugazes de Danté chupando meus dedos fizeram que eu voltasse a ruborizar.
 
-Está bem? -perguntou.
 
-Sim, estou bem, o sol fez estragos na  minha pele, mas logo voltará ao normal.
 
Tratei de mudar de assunto rapidamente, voltei a perguntar se queria comer algo. Danté disse que não sabia, mas que conseguiria agüentar o leite de coco. Decidi que não era uma boa idéia dar o leite a Danté como tinha feito quando estava inconsciente. Em mudança, sustentei-lhe a cabeça apoiada em minhas pernas cruzadas e lhe dei o resto do leite morno.
 
Ao final de uns poucos goles, Danté fez um gesto negativo com a cabeça e se afastou da cumbuca improvisada.
 
-Está bom, por agora, mas Danté, vai ter que tentar comer um pouco de fruta se quiser recuperar as forças.
 
Ela concordou cansada enquanto eu voltava a colocar sua cabeça sobre seu travesseiro/colete salvavidas.
 
-Danté,se importa que eu olhe a ferida antes que durmas? Porque logo vai escurecer e me agradaria limpá-la antes de que fique muito escuro.
 
Voltou a assentir com cansaço e eu tentei colocá-la de lado para poder chegar à ferida. Ao fazê-lo, expliquei que tinha sido obrigada a cauterizar a ferida e que tinha usado água da chuva para limpá-la o melhor que podia. Também lhe expliquei que suas bandagens procediam de meu vestido, o qual explicava meu atual estado de nudez. Depois de limpar o ferimento de Danté, ajudei a se virar. Ainda que não tinha dito nem uma palavra em todo este tempo, dei-me conta por sua respiração rápida e agitada de que lhe doía muito. Usei o restante da água da chuva para molhar outra tira limpa, que usava para humedecer-lhe os lábios e depois a testa.
 
-Está melhor? -perguntei baixinho.
 
-Sim -foi sua resposta gutural-. Fez bem -sussurrou antes de fechar os olhos e voltar a dormir . Deixei que me escapasse outra lágrima antes de acomodar-me a seu lado e contemplar o sol enquanto se afundava no mar.
 
À manhã seguinte me acordaram de novo os fortes gritos das gaivotas que voavam em cima de nós.
 
-Mas por que fazem tanto ruído? -perguntei sem dirigir-me a ninguém em concreto. Acordei de vez ao ouvir o riso grave de minha amiga de bote, que evidentemente estava acordada naquele momento.
 
- mas que resmungona fica pela manhã, garotinha.
 
Levantei-me inesperadamente e vi o conhecido e irritante sorriso zombador de Danté Courtier.
 
-¡Oh, meu Deus, Danté, está bem! -murmurei.
 
- sim . me respondeu com seu habitual tom de gozação-. É que não esperava? Pelo que me disseram, recebi os melhores cuidados possíveis.
 
Como sempre, fiquei vermelha com o modo que ela diz coisas as coisas pra mim.
 
-Pensei que ontem era um sonho ou uma alucinação minha. Mas não era, está bem mesmo.
 
-Sim, um pouco dolorida, mas viverei. Escuta, me ajuda a sentar-me? Estou um pouco cansada de ficar só deitada neste bote.
 
-Claro, Danté, mas acha que já pode? Não quero que volte abrir a ferida. Só passaram uns dias e tem sangrando muito.
 
-Me curo depressa, Gabrielle. Prometo que não vai acontecer nada. Além disso, tenho que me ocupar de uns assuntos a não ser que queira que eu faça onde dormimos, sugiro que me ajude a levantar-me.
 
Corei de novo e ajudei a Danté a sentar-se.
 
-Espera um pouco. Enquanto recuperava o folego , olhei pela praia a procura de um pau que pudesse usar como apoio. Ao encontrar o pau que tinha usado para derrubar a fruta, voltei com ele ao bote.
 
Ajudei Danté a pôr-se de pé e depois de um momento de pânico em que pensei que Danté e eu íamos cair no chão, Danté pareceu recuperar o equilíbrio.
 
-Uuuf -respirou ao ver o lugar pela primeira vez-. O banheiro das mulheres fica por ali?
 
Sorri.
 
-Sim, é por alí lhe passei o pau quando saiu do bote. Deixei que se apoiasse em mim por um lado enquanto usava o pau para sustentar-se pelo outro. Fomos devagar até à espessa selva de árvores que cobria a borda da praia.
Continua....
 
 
Parte 2

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