GAROTA  DE  PROGRAMA

 

Leth Cross

 

Parte 4

 

 

Jade a fitou séria, querendo parecer calma e indiferente. Mas por dentro, tremia, olhando aquele rosto belo aberto em um sorriso . Geri estava linda, com uma blusa de algodão branca, de mangas compridas e calça jeans desbotada, com um par de tênis . Uma roupa aparentemente simples, mas a blusa era Ralf Laurent e a calça, Gucci, comprada nas melhores lojas da Rodeo Drive.


Ela estendeu a mão e Jade a segurou, trêmula de emoção.

 

-Venha, sente-se comigo... você fica muito bem em jeans, Jade. E acho que fica bem mais bonita sem muita pintura - Comentou - fica bem mais jovem e simples.


Jade enrubesceu, retirando a mão da de Geri. Sentou ao lado dela no sofá de tecido com estamparia de folhas verdes sobre fundo creme. Aquela sala era com típica decoração mexicana, com chão de cerâmica vermelha, com vasos enormes decorando,
junto com cerâmicas de figuras astecas e móveis de madeira rústica envernizada.Uma decoração alegre, o que surpreendeu Jade. Geri era mesmo um enigma.


-Não sabia que me achava bonita - Disse..


Geri ergueu as sobrancelhas, sorrindo.


-Não? Mas achava que já havia dito isso à você!


-Geri, não foram bem elogios que tenho oouvido de você. Foram mais palavras que me ofenderam e magoaram.


Geri ficou séria e a fitou com certo remorso e culpa visível.


-Tem razão, Jade. Eu tenho muito a me deesculpar com você.

 

Ela respirou fundo e sorriu para Jade.


-Mas prometo que hije nossa relação vai mudar. Para mim, você não será mais uma garota de programa, mas sim Jade, uma mulher de fibra e personalidade.


Chiquita trouxe uma bandeja com uma jarra de suco com copos e depositou numa mesinha diante do sofá e se retirou silenciosamente. Geri pegou o jarro e encheu os dois copos, estendendo um para Jade.

 

-Tome. Está nuito calor, isso a refrescará.


Jade pegou o copo, fitando-a nos olhos.

 

-É suco de que?


-Abacaxi, uma fruta tropical. Prove.


Jade levou o copo aos lábios e tomou um gole. Era delicioso.


Geri tomou um gole também e a encarou.


-Quer almoçar agora?

 

-Não, ainda é cedo para mim. Mas eu a acompanho à mesa, se quiser.


-Não, está bem para mim, não estou com ccom fome.


Geri respirou fundo e falou, num arroubo de sinceridade:


-Bem, sei o que deve estar pensando: quee pedi que viesse aqui para ficar falando idiotices, mas é que estou nervosa, Jade, Não sei por onde começar para lhe pedir que perdoe minhas palavras e ações. Eu sou uma lésbica, e como você, seria marginalizada, se não vivesse em um meio de pessoas de mente aberta como o que vivo. E devia ter precebido que se sua profissão a torna marginalizada pela sociedade, minha predileção sexual também me faz o mesmo. Felizmente, não preciso esconder o que sou, na minha profissão. Porque convivo com pessoas de mente aberta.


-Sorte sua, Geri. Não precisa temer que as pessoas descubram o que é.


-Você sente esse medo?
>


-Em certos ambientes, sim. Ser garota dee programa não é algo que eu possa me orgulhar.

 

Geri a fitou com entendimento.


-Somos ambas marginalizadas pela sociedaade, Jade.


-Mas não disse que é aceita como é?>


-No meio em que vivo. Mas não nos meios mais conservadores da sociedade. E por ser também marginalizada pela sociedade, jamais deveria tê-la insultado com minhas palavras e atitudes. Depois que você se foi, entendi isso. Pode perdoar-me? Pela segunda vez? Mas prometo que será a última vez, por que não farei mais isso.


Jade suspirou.


-Está perdoada, Geri. Mas quero saber umma coisa.


-Pergunte.


-Você tem nojo de tocar-me? Por isso ficcou tão furiosa por eu a ter beijado?


Geri enrubesceu, baixando os olhos, visivelmente constrangida, escolhendo as palavras:


-Jade... não sei se vai entender... não é nojo o que sinto.


-O que é, então?


Ela a encarou, erguendo os olhos.


-Medo. Medo de pegar uma aids, medo de aapaixonar-me outra vez, medo de romper uma promessa que fiz a Chelsea.


Jade a fitou magoada, pensando: aqui vamos nós novamente! Mas conteve-se e falou:


-Vamos por partes, Geri. Até entendo seuu medo de pegar aids, mas garanto a você que não faço sexo sem segurança, não uso drogas e não tenho doença venérea.

 

Geri a fitou com descrença.


-Os homens aceitam essa exigência sua? ÉÉ difícil de acreditar!


-Geri, eles aceitam a exigência não paraa proteger-me, mas para se protegerem! A Aids está aí, matando. Já se foi o tempo que numa relação sexual uma pessoa pegava apenas uma doença venérea, que podia ser curada!Com o simples ato de se colocar um preservativo, podemos estar nos livrando da morte. Entendo seu medo, Geri. Se fosse somente por isso que não me toca, eu aceitaria fazer um teste de aids e um exame de denças venéreas, para provar que sou saudável.Mas sei que seu medo não é o único motivo que não a deixa tocar e ser tocada. O motivo é mais complexo e só mesmo um psicólogo poderia resolver.
Geri a fitou franzindo o cenho.


-Acha que sou uma...neurótica, uma parannóica?


-Não, Geri, apenas acho que você não esttá sabendo lidar com uma perda que teve.
Geri fechou a cara.


-Aposto que madame Lilith já encheu sua cabeça sobre mim. Como sabe da perda que tive? Ah,sei, vai dizer que leu em um lugar qualquer sobre minha vida particular. Eu sei. Hoje, no Google, você digita um nome e aparecem vários links falando tudo que saiu na mídia sobre essa pessoa. Eu devo estar em muitos links. Minha vida pode ser esmiuçada em detalhes - Disse, em tom amargo.


-Eu não fui rebuscar sua vida na interneet, Geri. Apenas ouvi alguém falar sobre o grande amor que você teve e perdeu.


Geri a fitou com dor no olhar.


-Você soube sobre Chelsea?


-Sim. Lamento sinceramente sua perda, Geeri.

 

Geri a fitou com um olhar desconfiado.


-Lamenta? Por que? Você não a conheceu! Não pode dizer que lamenta a morte de alguém que nunca viu.


-Eu lamento por você, Geri. Por ver comoo essa perda a devastou e continua a impedir que você seja feliz com alguém, novamente.


-Lamenta por mim? Você mal me conhece! PPor que lamenta?


Jade a fitou nos olhos e as palavras saíram de sua boca como se fosse inevitável as segurar por mais tempo:


-Geri...estou apaixonada por você.<


Geri ficou fitando-a em silêncio por alguns momentos. Depois, suspirou, entrelaçando os dedos das mãos e rodeando seu joelho direito, com as pernas cruzadas.


-Muito bem - Disse ela, cética - Disse eestar apaixonada por mim. E faria qualquer exame para provar que é saudável e eu não ter receio de tocá-la e ser tocada, não?


-Sim, Geri, por você, me submeteria a issso - Confirmou, deixando seu olhar por um momento mostrar a paixão que a dominava.


Geri sorriu com ironia.


-Por que tudo isso, Jade? Isso faz partee de um plano que arquitetou para conquistar uma mulher rica? O dinheiro que lhe pago é pouco para sua ambição?


Jade ergueu-se com lágrimas nos olhos.


-Desisto, Geri! Sabe, procure um psiquiaatra, que talvez ele possa ajudá-la!

 

Geri deu um pulo e a segurou pelo braço, fitando-a arrependida.


-Desculpe-me! Eu não devia ter falado issso, perdoe-me!


-Geri, solte meu braço. Quero ir embora.. Isso é uma mania sua, insulta e pede desculpas! Estou cheia disso!


-Calma, Jade! Você tem toda razão, sou uuma idiota neurótica! Mas, entenda! Eu uso essa arma como defesa, quando não sei o que pensar do que me dizem! Eu... eu tenho medo, Jade!


Jade a fitou confusa.


-Medo de que mais, além dos que já contoou-me?


Geri baixou os olhos.


-Medo de me envolver sentimentalmente coom alguém e voltar a ferir-me. E você... com sua profissão... como quer que eu acredite piamente no que diz? Outras mulheres também tentaram conquistar-me, Jade, depois da morte de Chelsea! Mulheres ricas, famosas, mas eu fiz a mesma coisa, eu as ofendi e elas se afastaram. Meu medo as afastou. Elas não entenderam que eu tenho muito medo de um novo envolvimento.


No olhar de Geri podia se ver a sinceridade das palavras dela. Jade então entendeu. Ela estava perdida em um turbilhão de sentimentos contraditórios, de querer ser amada, mas ter medo de sofrer, medo de estar sendo infiel a Chelsea, medo de enterrar o passado e ir em frente, em busca da felicidade perdida.


Sua raiva se esvaiu, mas ainda a fitou e disse magoada:


-Por que não procura um psiquiatra? Ele vai entendê-la melhor que eu. Você precisa de ajuda, mas não de mim.


Foi Geri quem a fitou agora magoada.


-Desculpe-me...sabia que não ia entenderr...pode ir embora, se quiser.


-Não quero magoá-la, Geri. Mas por favorr, não duvide do que eu sinto. E não me ofenda mais.


Geri sorriu tristemente, tomando-a pela mão. Jade sentiu como se uma corrente elétrica a tivesse atravessado.


-Venha...vamos almoçar. Depois falaremoss mais.

 

A comida estava deliciosa, o vinho era da melhor qualidade. Mas Jade e Geri comeram pouco, ambas tensas pelo que viria. Jade finalmente cruzou os talheres e olhou para Geri, que passou um gardanapo delicadamente nos cantos da boca e a fitou com seriedade. Não haviam trocado uma palavra desde que se sentaram para comer. As duas estavam com receio de puxarem conversa e irritarem uma à outra.

 

-Jade... você largaria a vida que leva, se pudesse?

 

Jade a fitou surpresa.

 

-Por que essa pergunta?

 

-Responda. É importante, para o que estou pensando em lhe propor.

 

-Claro que sim, Geri...já disse a você que meu objetivo é esse.

 

Ela a fitou cismativa.

 

-Posso arranjar um emprego para você. Tenho uma amiga que possui uma agência de modelos. Você é bonita, tem um rosto de boa garota, uma bela postura, charme... só precisa ser um pouco treinada. O que acha?

 

Jade a fitou disfarçando a decepção. Estava já pensando que Geri iria dizer que havia resolvido ficar com ela, se deixasse sua vida de garota de programa. Vã ilusão!

 

-Geri, além de não ter altura para ser uma modelo, não tenho nenhuma experiência nisso, é algo que nunca passou pela minha cabeça!

 

Geri sorriu com ironia.

 

-Mas aposto que também nunca pensou em ser garota de programa, mas está sendo!

Jade enrubesceu, sentindo as palavras.

 

-Ok, pegou-me nessa...mas, está falando sério?

 

-Estou. Acho que devo isso à você. Está sendo muito paciente com minhas...neuroses.

 

-Geri, não estou sendo paciente para conseguir ajuda sua! Não quero  nada em troca, é que gosto de você!

 

Os olhos azuis a fitaram com um brilho frio.

 

-Jade, caso ainda não percebeu, tudo nessa vida é uma troca!Quem disser que não, está mentindo!Até no amor! Ninguém ama se não é retribuído. Pode até amar no início, mas se não conseguir o amor da pessoa desejada, desiste e parte para outro amor. Isso vem desde a família. Uma mãe ama o filho e cuida dele. Mas depois quer que ele a ame também e a obedeça.

 

-Está exagerando, Geri...

 

-Estou? Veja meu caso. Meus pais me amavam e faziam tudo por mim. Mas quando cresci, minha mãe vivia sonhando com meu casamento e netos. Ela queria que eu aceitasse casar-me com um amigo de meu irmão, que vivia me cortejando. E quando eu resolvi contar à meus pais que eu era gay, eles me mandaram sair de casa, pois eu era uma decepção para eles, que haviam me criado com cuidado para se orgulharem de mim e eu dar à eles netos. Entendeu? Eles me deram amor e cuidados, mas esperavam seu prêmio em retribuição, ter uma filha que pudessem se orgulhar e lhe dar netos! E você, diz que me ama, mas espera que eu a ame também e mate seus desejos.

 

Jade ficou vermelha.

 

-Não estou pedindo nada à você.

 

Geri sorriu, condescendente.

 

-Bem, vai aceitar minha ajuda para sair dessa vida?

 

Jade suspirou.

 

-Tudo bem, Geri, se com isso eu vou ganhar seu respeito e admiração, aceito.

 

-Ah, viu só? Espera algo em troca! Bem, vou telefonar para minha amiga, Lorraine Meltson.

 

Geri tirou seu celular da cintura e digitou um número. Lorraine Meltson, ou simplesmente, Lori, atendeu e Geri sorriu.

 

-Lori, é Geri. Como vai esse coração?

 

-Geri! Finalmente lembrou dessa velha amiga! Há quase um mês não a vejo! –Falou uma voz bem humorada.

 

-Excesso de trabalho, querida! Esse mês que passou tive trabalho até fora do país! Como estão as coisas?

 

-Terminei com Sandra, Geri. Bem que você não gostava dela! Aquela cadela não vale nada!

 

-Mesmo?! Que houve?

 

-Ela foi morar com um dirtor de cinema! Já devia estar me traindo há meses!

 

-Bem, você sabe como são algumas atrizes... as suas carreiras vem acima de tudo. E um diretor de cinema ajuda bastante elas conseguirem bons papéis.

 

-Eu sei, está claro que foi por interesse! Sandra é mais lésbica do que eu!

 

-Lamento, Lori...mas você vai se recuperar rápido dessa desilusão. Tenho certeza que você logo achará outra melhor que ela.

 

-Por que, você já achou outra melhor que Chelsea? – Perguntou Lori, provocativamente.

Geri franziu o cenho.

 

-Ainda não, Lori, mas meu caso é diferente. Chelsea me amava e morreu, Sandra não a amava e a trocou por um homem!

 

Lori riu, sem se abalar. Eram amigas que podiam alfinetar uma à outra sem medo de perderem a amizade.

 

-Touchè...mas eu já estou com outra, você não!

 

-Lori, deixe de me provocar e me ouça: Quero propor um negócio a você.

 

-Negócio? Qual?

 

-Conheci uma garota e queria que você desse à ela uma chance como modelo em sua agência. É muito bonita e charmosa, rosto angelical, creio que será uma ótima aquisição para sua agência.

 

 

-Ela tem alguma experiência?
-Não. Mas acho isso um ponto positivo. ÉÉ um rosto novo na praça e o meu olho profissional vê nela grandes possibilidades de sucesso. Eu vou fazer o book dela e tenho certeza que você vai gostar.
-Você, fazer o book de uma novata?! Já vvi que essa garota deve ser mesmo especial! Tudo bem, prepare o book dela e a mande procurar-me aqui.
Geri sorriu, satisfeita.
-Sabia que ia se interessar, Lori. Devo aprontar o book em cinco dias. E ela irá até você.
-Uma pergunta: Ela está de romance com vvocê?
-Não. É apenas uma garota que quero ajuddar.
-Ah, tudo bem. Agora, dê-me o nome dela,, para eu anotar a entrevista em minha agenda particular.
Geri olhou para Jade.
-Como é seu nome completo?
-Jade Norton - Respondeu Jade, timidamennte.
Geri repetiu o nome.
-A entrevista está marcada para dia 12, às onze da manhã - Disse Lori - Avise à ela.
-Ok, Lori. Obrigada pela oportunidade quue está dando à Jade. Fico devendo à você uma retribuição.
-Não agradeça, se a garota for boa, vou ganhar dinheiro agenciando-a. Até a próxima, Geri, agora tenho que ir à uma reunião.

Geri desligou e voltou-se para Jade, sorrindo.
-Pronto! Agora, é só fazer o book e vocêê procurá-la! Tenho certeza que conseguirá a aprovação de Lori. Tem uma agenda aí com você?
Jade sorriu.
-Claro, é onde anoto meus compromissos ddiários.
Abriu a bolsa e tirou o seu Ipod.
-Fale o nome completo dela e endereço. Geri falou enquanto Jade digitava:
-Lorraine Meltson. Endereço: Park Avenuee, 337, décimo andar.
-Não tem número de sala?
-Não. A agência dela ocupa todo o andar.. Lá ela produz comerciais para tv e tem um estúdio completo de gravação, com todos os recursos. Ela comanda uma equipe de cinquenta pessoas.
-Oh... é uma grande agência, então... -Uma das melhores do ramo, Jade. Anote oo dia e hora da entrevista. Dia doze, às onze da manhã. Bem, amanhã esteja em meu estúdio bem cedo, por volta das oito da manhã, para começarmos a fazer suas fotos. Vou chamar maquiador, cabelereiro, figurinista e uma ajudante, para preparar você para as fotos.
Jade anotou a entrevista e quando acabou, recebeu um cartão de Geri com o endereço do seu estúdio. Olhou-a desiludida. Geri a estava tratando apenas como uma conhecida, sem nenhum interesse amoroso. Mesmo tendo recebido sua declaração de amor! Ela não a desejava!
Saiu dali triste, mesmo com a expectativa de mudar de vida.

 

A recepcionista da agência Focus a fitou com indiferença, quando deu seu nome, e mandou-a aguardar junto com as outras moças. Jade fitou as cinco moças que aguardavam ser chamadas, sentadas nos dois sofás de couro vermelho, e sua auto-confiança ficou abalada. Elas eram todas lindas e sofisticadas! Perto delas, Jade se sentiu como uma colegial ingênua e sem charme.
As moças a olharam de cima à baixo com sorrizinhos irônicos, o que não ajudou nada à sua auto-estima. Jade sentou no sofá e pensou se realmente teria uma chance, quando Lorraine Metson a visse.
Havia ido ali sem contar nada à madame Lilith, como também quando havia ido fotografar com Geri. Se não conseguisse nada com isso, seu emprego estava garantido com madame Lilith.
As fotos com Geri haviam sido feitas em um clima totalmente profissional. Agora entendia porque ela era considerada uma das melhores fotógrafas, requisitada por muitas pessoas famosas. Geri em seu trabalho se transformava numa pessoa sensível e persuasiva, que sabia arrancar das modelos a expressão certa, as poses de acordo com o que a modelo tinha que transmitir nas roupas e maquiagem. Ela colocava uma música adequada para cada emoção que queria que o rosto retratado mostrasse, criando um clima que se refletia em cada foto.
E o resultado, quando viu o book, a surpreendeu. Aquela mulher linda e misteriosa era la? Aquela femme fatale, aquela loura de sorriso ingênuo, aquela loura de rosto angelical? Aquela garota moderna e descontraída, em roupas esportivas?
Nas fotos ela estava genial, mas pessoalmente, conseguiria impressionar Lorraine Meltson?

 

      Dez minutos depois, a recepcionista atendeu o interfone que tocou e ergueu-se, olhando para Jade e abrindo uma porta de mogno, sem nenhuma placa indicativa.
-Senhorita Jade Norton, pode entrar.
> Jade se ergueu, encaminhando-se para a porta com o book na mão. Jogou os ombros para trás e ergueu o queixo, procurando mostrar-se confiante, não deixando transparecer sua insegurança. Passou pela moça, entrando na sala e parou, olhando.
Lorraine Meltson estava recostada numa cadeira executiva de couro, atrás de uma mesa imensa de mogno, com uma caneta na mão. Ela a olhou atenta, dos pés à cabeça, com um olhar especulativo. Jade também a olhou.
Lorraine era loura platinada, com os cabelos curtíssimos eriçados e lisos, dona de belos olhos azuis em um rosto de traços regulares. Tinha o nariz um pouco comprido, mas isso só a fazia mais charmosa. Vestida em uma blusa de linho creme sem mangas e decote discreto, mostrava simplicidade e elegância.
Ela se ergueu e sorriu, estendendo a mão. Era muito alta, como uma modelo.

-Jade, muito prazer. Sou Lorraine Meltson, mas gosto que me chamem de Lori, apenas.
Jade se aproximou e apertou a mão dela, sentindo um aperto firme.
-O prazer é todo meu, Lori - respondeu, retribuindo o sorriso.
-Sente-se, Jade. Vamos conversar - Dissee Lori, indicando a poltrona diante da mesa e tornando a se sentar.
Jade sentou, cruzando as pernas com elegância. Geria a havia instruído como se sentar e cruzar as pernas elegantemente. Colocou o book sobre a mesa, dizendo:
-Eis o meu book. Geri o fez em tempo reccorde.

Lori a fitou com curiosidade.
-Como conheceu Geri, Jade? Estou curiosaa porque ela atualmente só sai de casa à negócio. E é difícil ela fazer novas amizades.
Jade hesitou. Devia falar a verdade? Lori era amiga de Geri e conhecia a vida íntima dela, mas aceitaria dar uma chance à uma garota de programa?
Lori percebeu sua hesitação e disse com convicção:
-Não quero devassar sua vida, mas tem duuas coisas que não admito em minhas garotas: mentira e desonestidade. Se for honesta comigo, terá um importante ponto a seu favor. Eu fiz uma pergunta simples, e espero que me responda.
Jade a encarou e decidiu dizer a verdade. Se Lori a aceitasse como era, não teria nada a temer depois. A pior opção seria mentir e depois ficar com medo dela descobrir a verdade.
-Lori - começou - Vou contar a verdade ddo meu conhecimento com Geri porque você é amiga dela e deve conhecer a vida dela bem. Mas antes, peço que me prometa que nada do que eu disser vai sair daqui.
Lori a fitou séria e gravemente.
-Prometo, pode falar. Gosto muito de Gerri e jamais iria comentar a vida dela ou de uma amiga dela com allguém.
Jade contou então como havia conhecido Geri, qual era o tipo de vida que agora levava, e sua vontade de mudar o modo de ganhar a vida. Só omitiu os detalhes de como Geri se comportava com uma mulher, seu sentimento por ela e suas discussões.

Lori a ouviu atenta, sem nenhum comentário. Quando Jade calou-se, ela falou com voz suave:
-Agradeço a confiança. Você foi honesta e gosto disso. Se não tivesse contado a verdade, eu logo descobriria o que faz. Mas não sou preconceituosa, para condenar o que faz para sobreviver. Duas perguntas importantes: Já esteve presa? Usa drogas?
-Não para as duas respostas.
Lori suspirou aliviada.
-Vou confiar no que diz. Não trabalho coom pessoas que fazem coisas ilegais porque isso se reflete na imagem delas. E uma boa imagem é essencial no trabalho de uma modelo. Bem, você está há pouco tempo nessa atividade de garota de programa, e quer sair disso. Para ser uma modelo dessa agência, terá de sair imediatamente do meio em que vive. Novo trabalho, nova moradia, novas amizades. Eu estou fazendo essa concessão porque Geri a recomendou, e acho que Geri não exagerou, vejo em você boas chances de ser uma modelo fotográfica, ou para fazer campanhas de produtos na tv e revistas. Você tem realmente um rosto angelical e isso vende produtos.
Jade a fitou animada e agradecida.
-Farei tudo que for preciso para ter esssa oportunidade, Lori.
Lori sorriu maliciosamente.
-Olha que posso cobrar essas palavras, JJade...bem, vou agora ver seu book.
Lori pegou o book e o abriu. A primeira foto de Jade a impressionou. Ela estava deslumbrante! Com um vestido negro sem alças, descendo até os pés, recostada numa porta, olhando para a câmera com um sorriso sensual, oa cabelos esvoaçantes.

Lori sabia bem que muitas mulheres lindas perdiam seu encanto e beleza numa foto. E outras nem tão lindas numa foto ficavam fantásticas. Isso se chamava fotogenia, a
principal qualidade exigida de uma modelo fotográfica. E Jade tinha essa qualidade, além de ser uma bonita mulher pessoalmente.
Olhou as outras fotos sem demonstrar no rosto o que achava. mas agora já tinha certeza que Jade tinha chances de ter uma bela carreira pela frente. Jade era uma camaleoa: numa foto, era uma mulher extremamente sensual. Na outra, era uma garota romântica, com olhar sonhador, em um vestido de festa. E em outra, uma garota moderna, descontraída, em jeans e camiseta. Viu as quinze fotos sem pressa e depois fechou o book, fitando Jade, que a olhava expectante. Sorriu para ela.
-Com essas fotos já está aprovada como mmodelo fotográfico, Jade. Agora vai fazer um teste para ver se pode ser aproveitada em comerciais para tv. Você vai ler um script e depois encená-lo.
Lori pegou o interfone e apertou um botão. Alguém atendeu e ela ordenou:
-Weber, vou enviar uma nova modelo para você fazer um teste . Faça o da Levis. Depois que ela fizer, traga a gravação para eu ver.
Desligou e fitou Jade, que a fitava com os olhos brilhando de excitação.
-Falei com o diretor de comerciais. Ele vai orientá-la como fazer o teste. Depois venha com ele de volta.
-Obrigada, Lori...muito obrigada! <

Lori sorriu para ela, piscando o olho.
-Não agradeça, tudo é mérito seu. Vai teer que trabalhar duro para ser uma boa modelo e vou exigir muito de você.
-Tudo bem, não me importo de trabalhar dduro, porque valerá à pena!
A porta da sala abriu e entrou um homem alto e magro, de cabelos louros longos amarrados em um rabo de cavalo. Ele fitou Jade atento.
-É ela que vai fazer o teste, Lori?
> -Sim. Depois que ela acabar, venha falarr comigo.
Ele sorriu e fez um sinal para Jade segui-lo.
-Vamos, lourinha. Não temos tempo a perdder.
Jade olhou para Lori, que sorriu para ela.
-Vá, Jade. Depois voltaremos a nos falarr.
Jade seguiu Weber até uma sala de gravação. Ele a fez sentar numa cadeira e lhe estendeu duas folhas de papel com um texto.
-Você vai decorar essse texto e depois vvai gravá-lo. Esse será seu teste, se sair-se bem, vai ser aprovada para fazer comerciais também.Tem meia hora para decorar.
Jade se sentou e leu o texto. Era um comercial de champu e ela achou fácil. Meia hora depois ela foi chamada para gravar a cena. Ela respirou fundo para acalmar seu nervosismo. E então, em um assomo de coragem, começou a gravação da cena, orientada pelo diretor.

Quinze gravações depois, Weber finalmente se deu por satisfeito e mandou o assistente editar a gravação e mandou Jade esperar na sala de espera de Lori.
Jade estava nervosíssima pela repetição das gravações. Ela não sabia que isso era comum na gravação de um comercial, então pensou que repetiam por culpa sua, que não estava fazendo a cena corretamente.
Quando foi chamada à sala de Lori novamente, entrou tremendo de nervosismo.
Lori estava sentada na beira de sua mesa, fitando-a de braços cruzados. Weber estava sentado em uma poltrona e se ergueu, olhando-a sorrindo.
-Oi, lourinha... já fiz minha parte e jáá dei minha opinião à Lori, sobre você. Agora, é com ela.
E dizendo isso, ele passou por ela e saiu, fechando a porta. Jade fitou Lori com um olhar suplicante.
-Por favor, Lori, não me deixe mais nessse suspense, por favor! Fui aprovada?
-Jade, sua gravação do comercial foi muiito boa, está aprovada! Vai assinar um contrato de exclusividade com minha agência e breve terá trabalho para fazer. Aconselho-a a sair da casa de madame Lilith o quanto antes. Não pode continuar naquele bordel, sendo uma contratada minha.
Jade a fitou apreensiva.
-Não possuo muito dinheiro para alugar uum apartamento ou ir para um hotel por mais que dois dias, Lori. Não pode esperar eu ganhar algum dinheiro trabalhando?
-Absolutamente, não. Se não tem dinheiroo suficiente, eu lhe empresto dois mil dólares para pagar um quarto de hotel por uns quinze dias, está bem assim?

Jade fitou Lori cheia de gratidão.
-Eu aceito a ajuda, Lori, e fico profunddamente grata. Vou pagar a você logo que começar a ganhar algum dinheiro. Tenho mil dólares guardados, basta emprestar-me a metade do que falou.
-Jade, isso é um adiantamento do que vaii ganhar. Uma garota de comercial ganha muito bem. Não se preocupe, estou fazendo um investimento em você, que vai fazer-me ganhar muito dinheiro também. Sabe que tenho um percentual de tudo que ganhar, Jade.
-Eu sei, madame Lilith também cobra issoo de todas suas...
Lori ergueu a mão, interrompendo-a.
-Hey, não me compare com madame Lilith! Eu a conheço! Ela é uma exploradora de mulheres, e ganha dinheiro sujo! O meu negócio é legal, pago impostos, não exploro as garotas, elas ganham o valor justo pelo seu trabalho, que não tem nada a ver com sexo. Eu sou uma empresária respeitada, não uma cafetina que explora mulheres!
-Oh!...Claro, não a estava comparando coom ela... desculpe-me... - Disse Jade, confundida.
-Bem, Jade, isso esclarecido, vamos em ffrente. Leia o contrato e assine. Preencha a ficha de informações pessoais e deixe o número de seu telefone e e-mail para contato. Esse é o dado mais importante, para você poder ser localizada logo para um trabalho.
-Eu não tenho computador, só posso deixaar meu número do celular.
-Providencie um notebook o quanto antes.. Uma garota moderna e nessa profissão, tem que ter e-mail ou não existe!

Jade saiu da agência eufórica. Estava livre de madame Lilith, de uma atividade da qual se envergonhava, para ganhar a vida! Geria agora a respeitaria, não a olharia como uma mulher inferior, de vida reprovável!
Ligou para ela, entusiasmada. geri atendeu no terceiro toque.
-Alô.
-Geri, sou eu, Jade! Consegui ser aceitaa na agência de Lori, ela aprovou-me!
A voz de Geri chegou calma e fria:
-Eu sabia que você ia conseguir. Parabénns.
A euforia de Jade evaporou-se. Geri não se mostrava nem um pouco alegre com a notícia! Magoada, falou hesitante:
-Não está feliz por mim?Afinal... foi coom suas fotos e o seu conhecimento que consegui isso. Estou muito grata a você, Geri....
-Eu apenas dei um empurrão na sua sorte.. Mas o resto foi mérito só seu. E agora estamos quites. Eu paguei à você os insultos que lhe fiz, você vai ter uma nova vida e não lhe devo nada mais, ok?
Jade sentiu como se tivesse recebido um balde de água gelada no corpo. As palavras frias de Geri feriam seu coração bobo.
-Por que está sendo tão fria comigo, Gerri
-Não estou sendo fria, mas realista. Já fiz o que podia por você. O que quer mais de mim?
Jade desligou o telefone, tomada por intensa raiva.
-Você vai se arrepender de tratar-me asssim, Geri... - Disse, entredentes - Você ainda vai rastejar nos meus pés, eu juro!

 

Geri desligou o telefone com um ar de culpa. Sabia que havia magoado Jade profundamente, mas havia sido preciso fazer aquilo. Jade estava invadindo sua vida demais, se não cortasse logo aquela relação, iria acabar se envolvendo com ela e não queria isso, não queria envolver-se com mais ninguém!
Depois que havia perdido Chelsea, havia tomado a decisão de não se envolver com mais ninguém. O amor delas havia sido tão lindo, tão perfeito! E acabara tragicamente, quase a fazendo enlouquecer de dor. E um medo irracional, neurótico, se instalara em sua mente. O medo de amar novamente e tornar a perder a pessoa amada. Não aguentaria passar por outro sofrimento igual ao que tivera. E para preservar-se disso, instintivamente bloqueava seus sentimentos com uma fixação à um amor do passado, alimentando-se de lembranças. Sua vida profissional continuava, mas sua vida sentimental estava estacionada em um quarto cheio de lembranças de Chelsea.
E Jade representava uma ameaça à essa devoção à Chelsea, ao seu culto ao amor perdido. Tinha que evitá-la.
Pensou no rosto de Jade, no seu corpo curvilíneo, se despindo no strip-tease. Ela era linda. Quando a vira, a havia desejado intensamente. Havia sido duro não agarrá-la, quando a vira dançandonua, e não beijá-la com todo o desejo que sentira. Havia se dominado à custo.por que se cedesse ao seu desejo, poderia se apaixonar. A regra que seguia era de não tocar na mulher, o que a resguardava de uma paixão. E isso sempre dera certo.

 

Então, por que lembrava de Jade nas suas noites solitárias, levando-a a se masturbar pensando nela dançando? Por que se emocionava com o sorriso e o olhar dela? Por que desejava que Jade fosse feliz, se entre elas tudo naõ passava de visitas profissionais de uma garota de programa?
Jade havia declarado que estava apaixonada por ela, mas não havia acreditado. Ela queria conquistá-la por causa do seu dinheiro, para levar uma boa vida. Só Chelsea merecera seu amor. Ela sim, a amara de verdade.
Foi até o espelho do quarto e se olhou, passando a mão no rosto. Ainda era uma mulher atraente. Ainda podia despertar paixão em alguém.
Interrompeu seus pensamentos com raiva de si própria e foi para o quarto com as lembranças de Chelsea. Trancou-se lá dentro e falou baixinho:
-Chelsea... não quero traí-la... perdoe--me por estar atraída por aquela mulher... ajude-me... ajude-me a ser forte e resistir, fiel à sua memória, ao seu amor...
Fechou os olhos, lembrando de como havia conhecido Chelsea. Lembrava ainda tudo com detalhes, como se tudo havia acontecido ontem. Lembrava cada palavra, cada olhar.

 

 

 

 

Parte 5

 

 

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