Feitiço Grego
A.L. Benner
Parte III
"Kristin é muito séria e vive a cuidar dessa fazenda. Carmem implica com ela; diz que deveria arranjar outros amigos para pelo menos sair e se divertir um pouco, mas ela só pensa nisso. Ela diz umas coisas sobre ter de ficar aqui, pois sua força vem "da Mãe Terra", mas eu não entendo muito bem isso. Carmem também tem seus mistérios e esquisitices com Kristin, mas não questiono. Só não gosto de Eleftheria." � o velho grego observou enquanto olhava a sobrinha galopar em direção ao rebanho.
"Essa é a moça que a acompanhava outro dia quando ela esteve na pensão?" � quando viu, Mariana já tinha feito a pergunta indiscreta.
"É ela mesma. Carmem também não gosta dela."
Mariana ficou pensando no que acabara de ouvir e conduziu sua égua pelo caminho que o Sr. Petrakis indicava. Seu pensamento ficou parado no instante em que apertara a mão de Kristin Yalouris. Sentiu um calafrio no estômago ao relembrar os olhos perscrutadores que lhe encararam. Nunca havia visto uma mulher tão linda, tão magnífica. Sua mente teimava em encontrar a resposta para tanta atenção àquela deusa em forma de mulher.
E ainda havia aquilo da Sra. Petrakis não gostar da amiga de Kristin. Era a segunda vez que ouvia o comentário. "E porque seria? � Mariana perguntou-se. � Porque viviam na fazenda, sozinhas?"
Mariana tentou afastar aquelas questões de seus pensamentos e ficou ouvindo as descrições de seu cicerone sobre as terras gregas e suas peculiaridades enquanto brigava com os pensamentos que não a deixavam. Percebeu que deram a volta completa na propriedade, chegando ao estábulo depois de quase duas horas de cavalgada.
"Obrigada pelo passeio, Sr. Petrakis. Espero poder acompanhá-lo mais vezes." � ela agradeceu ao desmontar e conduzir a égua até um cocho para que o animal tomasse água.
"Está convidada desde já. É só me avisar que encilho um cavalo para você." � ele falou.
"Até mais, então."
"Até mais."
Longe dali, no meio das pastagens e montada sobre a égua castanha enquanto as ovelhas pastavam ao seu redor, Kristin soube em seu íntimo que havia encontrado o que tanto procurava. Pensou nos fascinantes olhos verdes que tinham um traço de timidez e a certeza se firmou em seu coração.
"Agora tenho de agir com calma. Tanto por ela quanto por Eleftheria. E preciso falar com tia Carmem", pensou.
Parando a égua, a morena ficou pensativa por muito tempo; e uma alegria quase incontrolável apoderou-se dela.
Mariana foi direto para o banho, pois as irmãs espanholas tinham marcado de sair as oito da noite e não queria se atrasar. Vestiu uma calça preta de corte moderno e cintura baixa, cheia de bolsos; e uma camisa feminina salmão, bem justa. Por cima o casaco que fazia conjunto com a calça. Ela ficava bem com blusas com golas masculinas; realçava-lhe a boca e o queixo delicados. O cabelo louro terminava onde os ombros começavam e a franja repicada caía-lhe descuidadamente sobre os olhos expressivos, dando um ar de moleca. Ficou avaliando o que via no espelho por um tempo.
"Até que sou uma mulher bonita", pensou consigo e saiu.
O bar para onde foram estava cheio de gente de todo tipo; era um lugar bem alternativo. Havia estudantes, intelectuais de todas as idades, rapazes e moças tentando mudar seu status de solteiros, casais distraídos em seus romances.
"Vem, Mariana. Você vai gostar daqui, é um lugar bem eclético e vamos encontrar todo mundo da universidade." � Bete foi puxando sua mão enquanto seguiam Clara, Jenny, a americana ruivinha e Catherine, uma francesa de cabelos encaracolados e rebeldes.
Era um ambiente aberto em plena Avenida Leophoros Alexandrou, num bairro residencial, mas em ascendente sucesso no que se referia a diversão. Muitos bares e casas noturnas abriam suas portas ali, mas os moradores pareciam gostar daquele agito. Gregos eram genuinamente festivos e não dispensavam uma diversão, mesmo que fosse bem em frente às suas casas. O lugar tinha mesas na calçada e também dentro do estabelecimento. Era bem decorado e convidativo. Ela foi entrando atrás de Clara e Bete, que tinham marcado o encontro com seus amigos e estes estavam nos fundos do bar, reunidos numa grande turma que esperava que vagassem mesas para se acomodar.
Conforme caminhavam, Mariana viu que ali dentro estava quem queria mais sossego para conversar, pois o som estava na entrada do bar. Percebeu num canto duas mesas onde oito mulheres brindavam o que parecia ser o aniversário de uma delas. Com os olhos arregalados, ela viu que a aniversariante ganhou, além de um presente, um beijo da moça que estava a seu lado, sob os aplausos das outras. E não foi um selinho entre amigas, o qual Mariana estava acostumada a ver na faculdade, mas um beijo sensual que apenas quem está apaixonado é capaz de dar. Ela sentiu uma dor fina subir-lhe pelo ventre e percebeu incrédula que... tinha ficado excitada com a cena!!
"Devo estar ficando louca!", pensou, pasma.
Ela nunca tinha visto duas mulheres se beijando daquela maneira e ficou desconcertada. Desviou os olhos com receio de que elas percebessem a sua observação indiscreta e continuou seguindo as amigas.
Diversas pessoas as esperavam e as irmãs espanholas a apresentaram para amigos e amigas da universidade. Alguns eram gregos e outros estrangeiros como elas, mas todos eram estudantes.
Foi apresentada a Manolis, um rapaz simpático que estava na classe de Clara e a Gyni e Nea, duas amigas dele. Manolis era extremamente alto e deixara o cabelo negro e espesso crescer até a nuca; além de ter um sorriso adorável. A pele morena e o nariz reto não deixavam dúvidas sobre sua origem. Ele era, sem dúvida, um homem muito bonito. Já as duas mulheres eram um pouco mais claras que ele, mas tinham a cabeleira típica das gregas, farta e ondulada.
Mariana simpatizou imediatamente com Manolis e Gyni. Com Nea não se sentiu tão à vontade quanto com os outros, mas ficou ali conversando e fazendo amizade com eles.
Logo um dos rapazes da roda, um grego alto e de olhos amendoados aproximou-se de Mariana e iniciou uma conversa em que ela definitivamente não estava interessada. Seu nome era Antonis e cursava História da Arte com Clara e Manolis. Ela não queria deixar o moço falando sozinho e nem ser mal-educada, mas não conseguia tirar os olhos da mesa onde as oito mulheres se divertiam e namoravam.
Mariana observou que se tratava de quatro casais e não apenas a aniversariante e sua namorada. Percebeu que as duplas sentavam-se juntinhas e por vezes ficavam de mãos dadas sobre a mesa enquanto conversavam. Ela não queria admitir que estava curiosa, mas quando percebia, seus olhos já estavam de novo olhando para aquela mesa. Como o bar abrigava todo tipo de gente, ninguém parecia estar curioso a respeito delas.
Os amigos de Clara e Bete eram realmente ótimos, mas Mariana não conseguiu desviar sua atenção da mesa de mulheres até que elas resolveram ir embora. Teve certeza que eram todas namoradas mesmo, pois saíram do bar de mãos dadas sem qualquer cerimônia. Algumas pessoas as olharam apenas quando passaram, mas mostravam estar acostumadas àquilo.
"Que coragem a delas!", Mariana pensou, vendo-as sair.
Antonis continuava ao seu lado, tentando chamar-lhe a atenção, mas sem muito sucesso. Clara chegou a arrastá-la para o banheiro para saber por que ela não estava interessada naquele, segundo ela, semideus.
"Ele é bonito, Clara, mas não estou querendo arranjar compromisso agora."
"Ah, vai dizer que está pensando apenas no mestrado? Sem essa, Mariana! Você pode perfeitamente fazer seu curso e namorar ao mesmo tempo! Ele é lindo e está a fim de você!" � a amiga retrucava inconformada com o desinteresse dela.
"Tá, tudo bem. Vou dar uma segunda chance." � ela brincou tentando se livrar da insistência da amiga.
"Ótimo!"
Voltaram ao bar e o grego ainda esta plantado na mesa delas. Mariana reconheceu que ele era realmente bonito e acabou forçando-se a dar atenção ao moço. Ficaram no bar por mais um bom tempo e ele ficou ali conversando com ela.
Algum tempo depois Manolis, Gyni e Nea vieram se despedir dizendo que ia para uma festa. Mariana ficou tentada a se convidar para ir com eles e se livrar de Antonis, mas achou que era cedo demais para isso, afinal tinha acabado de conhecer os três. Acabou ficando ali no bar e o grego não a largou um minuto.
Ele quis levá-las de volta até a pensão quando foram embora bem tarde e fez questão que Mariana fosse à frente em seu carro, enquanto as outras meninas se apertavam no banco de trás.
"Eu gostaria de ver você de novo, Mariana. Posso procurar você na universidade durante a semana?" � ele falou quando ela já ia descer do carro em frente à pensão.
"É, bem...claro, claro que pode." � ela respondeu, sem graça.
"Então até semana que vem." � ele despediu-se, dando-lhe um beijo demorado no rosto e perto o máximo que conseguiu da boca dela.
Clara foi perturbando Mariana até a porta dos quartos.
"Mariana vai namorar! Mariana vai namorar!"
"Pára, Clara! Ele só vai me procurar na faculdade, só isso. Não estou namorando! Tu tens cada coisa!" � Mariana tentava se esquivar da amiga.
"Mas vai, logo, logo. Posso apostar!" � Bete também fazia vezes de cupido, enquanto Jenny e Catherine concordavam com as irmãs.
Mariana bufou e deu boa-noite para as quatro, entrando em seu quarto. Foi dormir o quanto antes, tentando evitar que seus pensamentos voltassem aos acontecimentos daquele dia. Mas seus sonhos foram povoados por beijos entre bocas femininas e olhos azuis de deusas gregas.
Na quarta-feira Mariana deu de cara com Antonis no corredor do seu departamento. Ele parecia realmente interessado e cumprira a promessa de procurá-la.
"Oi." � ele cumprimentou, sorridente.
"Oi." � ela respondeu, sem jeito.
"Eu queria convidar você para almoçar comigo." � ele falou.
"É... claro. Vamos lá."
Eles almoçaram juntos e Mariana acabou por achá-lo simpático e interessante. Ele tinha um bom papo e fazia tempo que não ela namorava; a idéia de ter alguém como Antonis não estava mais lhe parecendo tão improvável. Ele começou a aparecer quase todos os dias na hora do almoço e num desses dias, depois de comerem, convidou-a para andarem pelas praças que cercavam a área de alimentação da universidade.
Sentados em um banco, ela percebeu a proximidade dele. O assunto tinha enveredado pelos namoros anteriores de ambos e quando viu, ele estava tão próximo que ela não teve como evitar o beijo. Sentiu os braços dele à sua volta e reconheceu que ele tinha os lábios macios e quentes, mas... onde estava aquela sensação de excitamento que tanto esperava sentir?! Porque não sentia aquele arrebatamento que costumava ouvir suas amigas contarem? Porque o que sentia não passava de uma sensação simples, sem arrepios e sem vontade incontrolável de continuar mais além?
Sem jeito, ela desfez o beijo devagar para que ele não percebesse sua decepção consigo mesma. Sabia que ele não entenderia se ela tentasse explicar que o problema não era com ele e sim com ela.
"Mariana, eu a acho uma mulher muito bonita. Extraordinária! Gostei de você desde que nos conhecemos naquele bar. Eu... eu gostaria que fosse minha namorada..."
Sentindo-se mais frustrada ainda por não corresponder às expectativas dele e nem às próprias, Mariana baixou os olhos e não soube o que dizer. Ficou muda por alguns segundos.
Antonis aguardava a resposta e não entendeu seu silêncio.
Em sua mente, Mariana não conseguia raciocinar e dar qualquer resposta. Queria dizer que não, que não queria namorá-lo, que não sentia excitação alguma com o beijo que acabara de receber, que não se sentia mulher, que se sentia fria e sem vida, que não sabia qual era seu problema e que isso a deixava doente...
"Eu... eu... sim, eu quero ser sua namorada. Podemos tentar." � foi a resposta que ela ouviu sair da própria boca sem nem ao menos saber como isso acontecia.
Ele sorriu-lhe feliz e abraçou-a novamente, beijando-a com mais vontade. Ainda atônita com o que dissera em oposto ao que pensara, tentou corresponder ao beijo de seu agora namorado. Abraçou-o e sorriu para ele.
"Eu não disse?! Ah, eu sabia! Eu conheço o Antonis e vi que ele gostou de você! Parabéns, Mariana. Agora você tem um namorado semi-deus!" � Clara comemorava com uma alegria que Mariana não entendia porque ela mesma não estava sentindo.
"Nós vamos apenas tentar, Clara." � ela tentou amenizar a culpa que sentia.
"Que tentar que nada! Ele é um gato e você vai se apaixonar por ele em dois dias!"
Mariana ficou olhando para a amiga à sua frente na mesa do refeitório e tentou entender o que se passava consigo mesma: estava namorando sem ter vontade, não se excitava com os beijos e carinhos de seu namorado; não tirava a sobrinha de sua anfitriã da cabeça e se descobrira excitada diante de um beijo lésbico.
"Acho que ainda estou sob os efeitos negativos do fuso-horário. Devo estar ficando doida", pensou.
Com o entusiasmo de suas amigas pelo namoro, ela acabou se deixando levar. Na verdade percebia que estava forçando a própria barra para gostar de Antonis, pois não via motivos para não querer um namorado lindo e cobiçado por todas as meninas que conhecia.
Os dias foram passando e Antonis avançava nos carinhos cada vez que se encontravam. Mariana nunca havia transado com um homem, mas sabia definir quando um deles estava excitado por causa dela. Sentia o volume dele quando estavam abraçados e de certa forma a idéia de transar pela primeira vez foi se delineando em sua mente.
Sempre que seus namorados anteriores enveredavam por esse terreno pantanoso, ela se esquivava o quanto podia e ao final acabava terminando o namoro para fugir. Chegara a ter vontade, mas a sensação de que "faltava" algo a fazia desistir.
Antonis não chegou a mencionar abertamente o que queria, mas ela percebia a cada dia que ficavam juntos, que ele não agüentaria muito tempo sem tocar no assunto. Ela própria sentia curiosidade; e sentir vontade de estar com ele parecia ter-se tornado um ponto de honra em sua feminilidade.
As amigas já perguntavam se tinham transado e ela não tivera coragem de contar que ainda era virgem. Por ter vinte e dois anos, duvidava que elas acreditassem nisso sem ao menos gargalharem.
Ao próprio Antonis ela não tivera ainda coragem de contar, pois também achava que ele não acreditaria.
Algumas semanas depois entraram numa fase de conversas mais íntimas e ele já não escondia seu desejo. E ela se torturava por não sentir o mesmo. Às vezes sentia-se ligeiramente úmida com a proximidade do sexo excitado dele, com as carícias ousadas, mas sentia que faltava alguma coisa.
Mesmo assim resolveu que ele seria seu primeiro homem. Inconscientemente queria provar para si mesma que era uma mulher normal. Era como se um fantasma chamado "frigidez" lhe assombrasse todos os dias, fazendo com que ela se sentisse cada vez menos mulher.
Continua na Parte IV...
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